Por conta do tal Ano da França no Brasil, o governo daquele país e o nosso bancaram um anúncio, veiculado nas tevês abertas e por assinatura, que pretende mostrar que a terra dos franceses não é só feita de tradições, mas de modernidade também. Desta maneira, alternam-se, naquela peça publicitária, imagens dos eternos cartões postais (Torre Eiffel, Arco do Triunfo, etc.) com novas criações arquitetônicas (a pirâmide de vidro em frente ao Louvre, do arquiteto chinês I. M. Pei, e o Grande Arco de la Défense, de seu confrade dinamarquês Otto von Spreckelsen).
Seguindo a seara de tentar mostrar que aquele país se abre aos ventos da mundialização, eis que se vê um tradicional café parisiense com pessoas sentadas às mesas na calçada e, ao invés dos tipos tradicionais que se espera ver em tais cenas (os estereótipos variavam dos tipos intelectuais aos galãs e às modelos), vemos, brevemente, um grupo multirracial ou multicultural: há até uma moça muçulmana, de véu, entre os convivas.
O aspecto musical também é brevemente apresentado, num instantâneo em que se percebe um grupinho de rap e, creio, alguns roqueiros. Pronto! Esta seria a mescla atual da cultura francesa, o seu novo legado para o mundo.
Não tenho nada contra, previamente, a imagem que um país quer passar a seu respeito para que o mundo o compreenda melhor. Não falo, evidentemente, dos casos das ditaduras asiáticas da China, Coréia do Norte, Mianmar (antiga Birmânia) e outras menores, mas não menos cruéis (menos, tão somente, por uma questão de escala, frente às maiores). Nem de tantas pequenas nações islâmicas, falsos oásis de prosperidades, onde a riqueza de fato se concentra nas mãos dos emires, reis e seus parentes: à raia miúda, o silêncio e as leis medievais. Nestes casos, a falsidade é gritante, os discursos não passam de propaganda e os horrores nunca vêm a público. Quando da Olimpíada de Pequim, em que mostravam a todo momento os ginásios, estádios e quejandos, os novos prodígios da arquitetura local, o que me vinha à lembrança eram aquelas cafonices megalômanas dos arquitetos nazistas, fascistas e stalinistas (somente os materiais e os sinais eram novos: a ideia de fundo era a mesma).
Mas, como dizia, que triste imagem a França quer passar de si mesma para o Brasil.
Alguém, por acaso, já ouviu o roque francês? Eu já. É tão discernível e relevante quanto o roque, digamos, finlandês, colombiano, paquistanês ou canadense. Em suma, mais do mesmo. Quanto ao rap, então...Que tipo de nação, aliás, gostaria de ser associada, oficialmente, por suas relevantes criações artísticas no campo do rap? É de chorar de rir...
Curiosamente, não há uma única menção ao cinema. Deve ser porque já entregaram os pontos. Independente de toda a belíssima tradição cinematográfica francesa, é como se dissessem que cinema, de fato, é para norte-americanos.
Da pintura e escultura, nem uma imagem. Pudera. Desde Matisse (1869-1954), a França não dá mais as cartas nesse assunto. Salvo por Picasso (1881-1973) que, aliás, era espanhol. E Niki de Saint Phalle (1930-2002) tem algumas coisas graciosas, mas tão relevante na história da arte quanto, digamos, Fernando Botero e seus gordinhos serão daqui a algumas décadas: um curiosidade engraçadinha, se tanto.
A França, que verdadeiramente importa, é a das catedrais e castelos do medievo; do Renascimento e dos Luíses; de Napoleão I e Napoleão III; da República até os tempos de Gaulle. Ali, então, se construiu, se compôs, se escreveu, se dançou, se pintou e se esculpiu o Belo. Estes, sim, foram seus grandes legados. Suas proporções clássicas, claras, elegantes e humanas – daí toda a crítica em torno da Torre Eiffel, à época de sua construção e que, com os tempos, foi assimilada.
Portanto é incompreensível que a terra que tem a Cidade Luz como sua capital queira ser vista pelo mundo por uma música ruim que qualquer um é capaz de fazer, e por novos e gigantescos prédios que qualquer milionário grosseiro e inculto de Miami, Xangai ou Dubai pode fazer ainda melhor.
Não, definitivamente, não! Não é este o verdadeiro legado francês.
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana