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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gira a roda da fortuna: cai o Sultão

Já tratei neste espaço da chamada “Primavera árabe” (19 de março, Pausa para reflexão) e da queda e do linchamento do tirano líbio (22 de outubro passado, Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro).Mas eis que agora, com felicidade, tratarei da derrocada de um amiguinho de todos aqueles déspotas da mourama, o sultão Berlusconi.
Quando este magnata da televisão e imprensa italiana ascendeu ao poder, foi tratado como uma espécie de Sílvio Santos taciturno, porém mais bem sucedido financeira e politicamente do que nosso prestamista televisivo. Tão histriônico quanto seu xará brasileiro, Berlusconi era famoso por suas caras e bocas, muitas das quais lembravam as do execrado ditador Mussolini, seu conterrâneo. Mas boa parte da grande imprensa daqui parecia se recusar a ver isto. A mesma grande imprensa pátria que, diante de sua queda, parecia não se dar por achada, publicando trivialidades nas capas de suas principais revistas. Uma estampava: PEREIRÃO, ESSE [sic] MULHERÃO; outra Coma POUCO Viva MUITO (assim mesmo, sem vírgula); e ainda outra ETERNAMENTE JOVEM. E nem uma menção sobre Berlusconi na capa. Somente Carta Capital, a cada dia melhor, estampou o priápico régulo italiano, logo abaixo de seu título. Daí ser justa, justíssima, a consideração de seu editor-chefe, Mino Carta: “Veja, Época e IstoÉ parecem editadas, nem digo em outro planeta, em outra galáxia” (Carta Capital, 23 de novembro, p. 22).
A alcunha de Sultão cabe muito bem ao defuncto premiê italiano, segundo as várias denúncias quanto à sua pessoa e seu governo. Qual um déspota do Oriente, ele parecia não fazer distinção entre o público e o privado, gerindo o que era de todos como se seu o fosse. Fazia-se rodear por uma corte de acólitos, escolhidos a dedo, que referendavam e cumpriam suas ordens. Minou as instituições públicas, impondo sua vontade pessoal sobre elas. Reivindicou para si leis e privilégios especiais. Criou monopólios exclusivos seus, abocanhando mesmo o patrimônio do Estado. E chegou ao cúmulo de manter uma espécie de harém itinerante, com beldades escolhidas, algumas menores de idade, provindas de toda parte, brasileiras inclusive (dizem que até um brasileiro transexual, ou quase, talvez a versão moderna de um eunuco, fez parte de algum seu efêmero serralho). Ora, e tudo isto não evoca um sultão?
Fica-se imaginando qual será o seu destino. Acredito que, em breve, uma enxurrada de processos o cobrirá até o pescoço, senão mais além. E não serão brandos como os de cá. Estes, quando pegam um político, acusam-no de uma simples formação de quadrilha, o mesmo delito dos trios responsáveis pelo conto do vigário, atualizado no golpe do bilhete premiado. Na Itália, que lida com a máfia e congêneres, as leis contra o crime organizado são severas. E justas perante aos olhos da sociedade. Daí ser bem possível que Berlusconi e seus bilhões passem a levar uma vida nômade, como também em grande parte o fizeram os ex-presidentes Idi Amin Dada, Bokassa, Baby Doc, Carlos Salinas de Gortari e Alberto Fujimori. E que em boa companhia ele estaria! Mas mesmo que se livre das acusações, corre o risco de ter um fim semelhante ao de Pinochet: ser preso em terra estrangeira, por crimes cujo âmbito extrapolam as fronteiras nacionais. Mas, como disse anteriormente, evito os exercícios de futurologia. Só arrisco dizer que, acredito, pelo menos uma parte do que ele merece, ainda há de receber. E não é em dinheiro não, que este ele já acumulou de sobra, das maneiras mais descaradas quanto obscuras possíveis, segundo se afirma.
Porém uma correção tem de ser feita diante do muito que se assaca contra ele. Berlusconi foi acusado de ser altamente maquiavélico. De fato ele o foi, mas somente na caricatura do termo, a partir de uma leitura apressada que interpreta o maquiavelismo se como fundamentado quase que tão somente no princípio de que “os fins justificam os meios” e de que uma outra ética regeria os homens públicos, diferentes dos cidadãos comuns – já ouvimos este refrão, não faz muito tempo, em solo pátrio, como se tal se tratasse de uma absoluta novidade...
Pois o milanês Berlusconi nunca foi um bom seguidor do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), nem de seu O Príncipe (1532, edição póstuma), porque destes só observou um conceito enviesado da virtù (a grosso modo, “virtude’), interpretando-a não como uma capacidade de adaptação aos fatos políticos que permitiria a permanência no poder, mas sim a existência de uma possibilidade de manipulação política dos fatos, para a conservação do poder. E, acostumado a tal conduta, nela perseverou, a ponto de não observar a mudança das coisas, quando elas se deram, e que provocaram sua queda.
Assim, também, ele ignorou outro ponto crucial da doutrina de Maquiavel, análogo à virtù: a fortuna (aqui é fortuna, mesmo, no sentido de “sorte” ou “fados”) e sua roda, sempre a girar, elevando uns e rebaixando outros: toda aquela soma de aspectos cambiantes, e absolutamente inevitáveis, que podem abater qualquer um, do rei ao pobre, da rês ao nobre. Talvez a tenha interpretado como a sua fortuna pessoal (aqui, monetária e financeira), achando que a mesma o livrasse dos caprichos da verdadeira Fortuna, esta implacável. Em suma, para o bem ou para o mal, Berlusconi foi canhestramente maquiavélico: não foi nem um príncipe perfeito, aos moldes do que preconizava aquele, nem sequer um bom leitor d’O Príncipe. E pagou por isto, e torçamos para que pague muito mais, por tudo o que fez e deixou de fazer.
Maquiavel era um florentino, agregado à poderosa família Médici que governou por muito tempo aquele ducado. Viviam eles às turras com a família Sforza, duques de Milão. Lá no Inferno, onde, segundo dizem, o autor d’O Príncipe se encontra desde sua morte, ou seja lá onde estiver, acredito que ele está dando gargalhadas pela queda do milanês Berlusconi.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dez anos do “11 de setembro”: e nós com isto?

Por conta da celebração de uma década dos atentados que abalaram os EUA, estamos vendo, a todo momento, na televisão, nas revistas, nos jornais, e na internet, pequenos flashes sob o título “onde você estava no 11 de setembro?” ou que tais.
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].

São João del Rei à vol d’oiseau

São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Machos medrosos não são bons para a continuação da espécie

O Dia do Orgulho Heterossexual é a maior aberração política, social e cultural que já vi em toda a minha vida. Declaro isto solidamente plantado na minha condição de homem, heterossexual, historiador, leitor e pesquisador, culturalmente católico e, como tal, aberto à tolerância e à inclusão – em suma: jamais um defensor dos preconceitos.
São Paulo se jacta de sua modernidade, de sua riqueza, de seus avanços e, no entanto, muitas vezes se comporta como uma vila dos grotões, elegendo umas figuras arcaicas, metidas a coronelões, ou párocos de antigamente, destes que só devem existir ainda em reprises de telenovelas. E não é só na cidade, não. Nosso Estado vem sendo governado e representado (na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados) por umas criaturas que parecem ter saído de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva. A única diferença é o sotaque. Trata-se do triunfo da caipirice naquilo que esta tem de pior: uma atração por invencionices novidadeiras que ofuscam a visão do verdadeiro atraso em que se vive. Pensa-se Nova Iorque, mas não passa da Itaoca criada por Monteiro Lobato. Ou uma Síria metida à França. Pois esse tal de “Dia do Machão” parece coisa de fundamentalista islâmico, gente de um livro só, pronto para ser invocado – ou sacado, como um revólver – diante de cada episódio da vida, e aplicado na sua inteira literalidade.
Talvez mesmo se tratem de fundamentalistas, mas de outras igrejas, os que estavam por trás – ops! – da referida lei. Quais serão as novas conquistas sociais, por força de normas, que tentarão nos empurrar? O apedrejamento de blasfemos (Levítico 24:22-23) ou de mulheres que não cheguem virgens ao casamento (Deuteronômio 22:20-21)? Ou ainda um “Dia do Orgulho Careca”, em que será celebrada a intervenção de Deus, na forma de dois ursos, que despedaçaram quarenta e dois meninos, os quais teriam zombado da calva do profeta Eliseu (2 Reis 2: 23-25)? Terá direito à marcha pela Avenida Paulista e carro alegórico, puxado por um cordão de carecas, onde vermos os ursos, o profeta e as crianças em pedaços?
Brincadeiras à parte (brincadeiras bem sérias, diga-se de passagem), este monstro parido por vinte e oito homens e três mulheres, concebido sabe-se lá como, é algo de horrorizar por um motivo muito claro. Ele se apoia falsamente na ideia de que numa democracia todos têm o direito de manifestação pública de seus pensamentos e defesa e acolhimento das mesmas pelas instituições. Valendo-se deste preceito, o nazismo, o racismo e a xenofobia poderiam também se fazer ouvidos, acatados, defendidos, etc. Algo do que até uma pessoa de poucas luzes, mas bondosa e honesta, discordaria.
Claro que nem todo heterossexual é preconceituoso, pelo contrário, dentre eles este que vos escreve. Mas a criação de uma data para celebrar o seu orgulho soa à provocação e desconsideração por parte dos que não se incluem nesta categoria. O que é muito diferente dos casos de um Dia da Mulher, do Orgulho Negro ou do Orgulho Gay, estes sim, vítimas de preconceitos e violências de homens heterossexuais (ou que assim dizem ser) e brancos. Ora, parafraseando uma música de Caetano Velloso, mas conservando o seu sentido original, “o macho adulto branco” não esteve sempre no comando? Então por que agora ele parece se sentir acuado? Ui, que meda...
Esta questão de orgulho cheira mal também por uma outra coisa. Sempre acreditei que um indivíduo só pode se orgulhar de algo que tenha conquistado por si próprio. Ninguém se orgulha de ser honesto ou virtuoso. A pessoa é simplesmente honesta ou virtuosa, ou não. Possuir tal conceito de si mesmo é hipocrisia, santarronice, farisaísmo. Pois seguir tais comportamentos, ou preceitos, não é mais do que a obrigação de cada um. É certo alguém se orgulhar, por exemplo, de ter atingido um bom padrão de vida. Mas um herdeiro milionário que se jactasse desta sua condição, no mínimo provocaria, ou deveria provocar, risos e censuras. E, portanto, orgulhar-se de uma condição ditada pela natureza – como a Ciência vem demonstrando nos últimos tempos, no que se refere a homossexuais e heterossexuais – têm sentido apenas para os segundos. Porque estes são criados e educados para seguirem práticas e hábitos que contrariam seus instintos e, portanto, quando assumem sua condição homossexual, de fato conquistaram algo em suas vidas. Já uma pessoa é heterossexual sem qualquer esforço, e tudo o favorece neste sentido. Se ela tem dificuldades, neste ponto, é porque realmente não é aquilo que gostaria de ser.
Os machões que aprovaram a lei e que a endossam será que estão tendo dificuldades quanto a serem machos? Sentem-se fragilizados, temerosos, ou o quê? Pelo que me consta não têm sido eles espancados nas ruas por grupos de gays adeptos da heterofobia (veja-se, aliás, que existe o termo homofobia, mas não aquele que lhe seria análogo, porque este realmente não existe sequer como prática). Trata-se de um discurso destes senhores que, me parece, acaba soando mais ou menos assim: “Olhem, apesar de todas as tentações e fraquezas, de nossa vontade em contrário, continuamos heterossexuais, por isso nos orgulhamos tanto disto. Deixem-nos em paz, sim? Parem de nos seduzir. Estamos com medo”. Isto, realmente, é de lascar...
Portanto, senhoras e senhoritas, tomem cuidado. Se estes medrosos machos serão os perpetuadores de nossa espécie, se precavenham deles. Boa coisa não há de sair desta semente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de agosto de 2011].

Uma nova face do terror ou mais um maluco rancoroso?

Os atentados terroristas, tal como os conhecemos, foram criados no Ocidente no século XIX. Perpetrados por anarquistas, nacionalistas e nihilistas – radicais russos que, frente a um estado tirânico, preconizavam uma redução ao “nada” (nihil, em latim) de tudo aquilo que eram contra, para, enfim, partindo do zero, poderem construir o que achavam justo – os ataques se caracterizavam por alguns tipos clássicos de ações: o assassínio puro e simples de uma autoridade, de forma pessoal (tiro ou facada) ou de maneira pública (bomba); havia também alguns casos, raros, de ataques a certos símbolos do poder. Assim foi a tentativa de explosão do Observatório de Greenwich, cuja destruição, alegoricamente, seria também a do horário internacional (e do trabalho) relacionado ao local. Um episódio maravilhosamente aproveitado, e adaptado, num romance (O Agente secreto) do sempre excelente escritor Joseph Conrad (1857-1924).
É claro que o assassinato de tal ou qual líder, como tentativa de se impedir esta ou aquela política, é tão velho quanto o mundo. Marco Bruto (85-42 a.C.) – o assassino de Júlio César (100-44 a.C.) e de sua intenção de se tornar Imperador – gostava de ser relacionado a Tarquínio (535-509 a.C.), um seu antepassado, responsável ele próprio pela morte de um rei, Sérvio Túlio (séc. VI a.C.). O profeta Maomé (c.570-632) também escapou de umas tantas ameaças contra a sua vida. Houve também a Ordem de Assassinos, uma seita fundada por Hassan ibn Sabbah (1034-1124), mais conhecido como O Velho da montanha, que eliminava as autoridades contrárias aos seus objetivos, através de uma rede de fanáticos suicidas. No Renascimento, é impossível compreender a política (civil e papal) da Itália, sem ignorar o homicídio de pessoas ilustres como prática de poder. No século XVII, houve um católico, Guy (ou Guido) Fawkes (1570-1606), membro da chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot) que pretendia assassinar o rei protestante Jaime I (1566-1625) da Inglaterra, juntamente com todos os membros do parlamento, durante uma sessão em 1606, através da explosão do prédio onde aqueles senhores se encontravam, visando, com tal ato, a iniciar um levante católico. Um episódio tão terrível para os ingleses que geraria toda uma série de cantigas populares, e até curiosos poemas escritos em latim por John Milton (1608-1674) – o autor do magistral Paraíso Perdido – iniciados por In Proditionem Bombardicam. Guy, ou Guido, Fawkes, ainda é tão execrado na Inglaterra que, no dia 5 de dezembro de todos os anos, desde a sua execução em 1606, um boneco parecido com ele é malhado e queimado, qual um Judas em sábado de Aleluia. E, por fim, poderíamos, tratar ainda da eliminação física de líderes políticos mencionando os casos de Marat (1743-1793), Robespierre (1758-1794), os atentados, infrutíferos, contra Napoleão Bonaparte (1769-1821), etc.
Mas voltando ao modelo de terrorismo moderno, tal como o conhecemos no século XX, sempre pudemos dizer, até recentemente, que ele era perpetrado ou por fanatismo, ou por pragmatismo/oportunismo, ou ainda por uma espécie de idealismo torto. Isto, sem falar nos atos de um ou outro tresloucado, que por sua natureza errática escapam de qualquer classificação possível. Um exemplo de fanatismo temos no caso, fortemente simbólico, do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. De pragmatismo/oportunismo, no incêndio do Reichstag, de Berlim, em 1933: os nazistas pondo fogo no Parlamanto burguês e transferindo a culpa do atentado aos comunistas, para consolidarem seu poder e terem mais um espantalho (vermelho) para assombrar o povo e as classes dirigentes. E no que se refere ao idealismo torto, servem de lição as mortes do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), estopim da Primeira Guerra Mundial, e do Mahatma Gandhi (1869-1948), início de uma corrupção sem par na Índia até pouco tempo atrás. Triunfaram as causas por trás de tais atos? Não. Daí falarmos, justamente, em idealismo torto. E, acrescente-se, mal sucedido, dos pontos de vista teóricos e práticos.
Já no que se refere ao massacre e ao atentado à bomba na Noruega, estes surpreendem por sua absoluta falta de paixão (fanatismo, idealismo torto) e de razão (pragmatismo/oportunismo). Pois não há uma religião ou ideologia consistente por trás de tais atos. Nem, por outro lado, um grupo político, minimamente coeso, ao qual se vincule o agressor. Na aparência, tudo o que parecemos ter à nossa frente é um sujeito tresloucado que se fundamenta em supostos valores rasos e reacionários – esoterismo e xenofobia de internet – mas que, ainda assim, foi capaz de um êxito surpreendente em sua ação infame. Fica a pergunta: um doidivanas seria capaz de tudo aquilo? Um maluco seria suficientemente hábil para lograr tais resultados? É sábido que todo lunático é metódico e que, frequentemente, há método na loucura. Seria este o caso do norueguês? Não acredito.
Uma das coisas que mais me espantaram frente ao episódio foi a face serena do agressor depois de capturado. Não havia ódio em seu semblante, nem laivos de heroísmo, ou ares de mártir de uma causa. Sua expressão era a mesma de quem acaba de realizar a faxina da casa, ou arrumação de um armário. Fria, seca e, ao mesmo tempo, plácida. Quase indiferente.
Será este o novo perfil dos terroristas? Ou uma nova modalidade de terrorismo, banal, aleatório, pueril, e, portanto, indecifrável, até que se manifeste em sua violência? Devemos começar a identificar, rastrear, traçar perfis de cada maluquinho da rede que se proclama seguidor, ou continuador, dos Templários, ou de qualquer outro grupo conspiratório, real ou imaginário, como o fez o terrorista da Noruega? Confesso que não sei. O que sei, ou antes, creio, é que gente de bem evita grupelhos: é pluralista, ampla, não sectária e, portanto, longe de um discurso político ou religioso que exclua e hostilize todos aqueles que não comunguem, ou supostamente não possam comungar da mesma fé ou princípios.
Se há alguma coisa útil que possa ser dita, em todos os tempos, é que o respeito (platônico) ou o amor (cristão, e decorrente daquele conceito platônico) ao próximo, apesar das diferenças entre uns e outros, deva ser, acredito, a suprema ordem a governar o mundo. E não falsas teorias de superioridade raciais, patrióticas, religiosas, etc. Tudo isto se dissolve no nada, ou no todo. Mas se dissolve, mesmo assim, ao fim das coisas. O problema é o meio disto, no qual pode vicejar toda sorte de criminosos da humanidade pretensamente fundamentados em supostos valores que valem menos do que nada.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2011].

Mais uma semana difícil

Noutras ocasiões tratei, neste espaço, do desequilíbrio que rege os acontecimentos do mundo e o prazo de envio desta minha contribuição semanal aos editores responsáveis pelo texto que os leitores ora têm em mão. Ninguém tem culpa disto, só os fastos, os tempos, etc. A única vantagem desta discrepância entre o calor dos acontecimentos e o prazo necessário para a publicação de um comentário relativo aos mesmos é que, neste intervalo, temos condição de refletir quanto a tais ou quais fatos. Como agora.
No final da semana passada a economia norte-americana entrava numa crise sem precedentes na história mundial. A maior potência econômica e militar do mundo manifestava – como ainda manifesta – suficientes indícios de que poderia pedir uma moratória: uma extensão no prazo do pagamento de sua dívida, aquilo que Sarney fez no Brasil nos anos 1980 e que provocou, então, histéricas reações cá e lá. O atual presidente do Senado nós conhecemos bem. Nunca pensei que diria algo do gênero, mas parece-me, hoje, que aquele pedido de moratória foi a melhor coisa que ele fez em toda sua vida pública. Entretanto, à época, era o Brasil terceiro-mundista, quebrado, preguiçoso, viciado. Muito diferente dos Estados Unidos de hoje que, apesar de estar quebrado, preguiçoso e viciado, ainda é uma potência. O desenrolar desta história é algo que deve nos preocupar, diuturnamente, até seu desfecho.
Do outro lado do Atlântico, no mesmíssimo final de semana, um horrendo episódio desenrolou-se na Noruega, um país verdadeiramente civilizado. Ali os direitos civis e políticos de seus cidadãos, naturais ou imigrantes, são respeitados de uma maneira quase sem similar na face da Terra. Saúde, Educação, Lazer, Cultura, preservação do Ambiente, direitos trabalhistas, Previdência pública, apoio à velhice e à juventude, respeito às diversidades várias são uma tônica na política nacional dali. A Noruega (assim como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia) só não é (como as outras nações há pouco mencionadas) uma espécie de “Paraíso terreno”, porque faz frio demais ali. No resto, quanto às imensas garantias sociais (não são privilégios de poucos) de que gozam seus habitantes, aquelas fariam de tal terra, sim, uma lugar ideal para as pessoas de bem e mérito. Mas neste quase idílico local, um de seus cidadãos abateu, friamente, quase cem de seus conterrâneos, estribado na mais vulgar das ideologias, na suposta teoria das raças superiores que devem preceder as ditas inferiores. E fez isto matando seus irmãos de uma maneira quase “darwiniana”: interpretando mal as teorias do sábio inglês, o assassino pretendeu abater “os mais fracos” de seu próprio grupo, para que sobrevivessem “os mais fortes”. Uma limpeza genética e moral, parece ter pretendido. E hoje, mais uma vez, por conta de sua escolaridade e direitos gozados desde a infância, críticos do mundo todo encontram razões para atacar a social democracia escandinava, um modelo até ontem, por um desvio de quem usufruía dela.
Mas, é claro, o mundo não parou por conta destes fatos. Porque, para a mídia graúda, a reflexão não interessa. Só a paixão. É esta que vende jornal, que arrebanha a atenção do vulgo. E, por isso, só ouvimos falar, durante quase uma semana, da morte da cantorinha inglesa cujo “modelo de vida” já anunciava o seu “prazo de validade”. Em suma, os Estados Unidos estavam à beira da bancarrota, um assassino violento ceifou quase uma centena de vidas num dos melhores países do mundo, e só se ouvia falar em Amy, Amy, Amy...
Confesso que gostava de sua voz, a qual, de fato, era muito boa. Seu repertório, por outro lado, ainda que muito agradável, levava-me a crer que ela não passasse de uma boa crooner, reinterpretando quase arqueologicamente ritmos como o soul e a black music, hits do passado pouco conhecidos. Depois vim a saber que eram de sua própria lavra, o que fez com que meu respeito por ela aumentasse. Mas, convenhamos, quando uma bomba-relógio anunciada e identificada explode, ela nos choca, mas não deveria nos comover em demasia nem roubar nossa atenção de tudo o mais. O que ora ocorre nos Estados Unidos e o que se deu na Noruega são fatos muitíssimos mais terríveis do que o drama pessoal de uma jovem confusa, conquanto talentosa. Lembram bombardeios covardes, implosões misteriosas. O terror inaudito.
Em suma, pranteio a morte da cantora. Porém problemas muito maiores do que este rondaram o horizonte mundial na última semana. E não tiveram o mesmo enfoque. O que só nos leva a pensar uma coisa: diante de outras crises gravíssimas, seremos mais uma vez sutilmente alienados delas por motivos de menor importância?

P.S. Na próxima semana, salvo assunto de força maior, tratarei desta bobagem que alguns chamam de “a maldição dos 27 anos”.

P.P.S. Fiquei feliz em notar que o crítico de cinema do Estado de S. Paulo reconheceu a mesma filiação que eu próprio havia identificado entre o novo Capitão América e Bastardos Inglórios. Ainda mais por que ele assistiu ao filme, e eu não, quando escrevi minha crônica com uma semana de antecedência. Nada contra ele, o crítico. Pelo contrário. É que este gênero de filmes e os motivos pelos quais são produzidos, e suas linguagens, são muito previsíveis. Fazer o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de julho de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Barbas de molho!

Por volta de meados do século XVII, um partidário do rei da Inglaterra, e dos católicos, era identificado, naquele país, pelos seus longos cabelos, barba e bigodes. Já os anglicanos mais extremados, opositores daqueles, por seus cabelos raspados e faces peladas (o que lhes valeu o apelido de “cabeças redondas” roundeads).
O Czar Pedro, o Grande, Imperador de todas as Rússias, decidiu, em 1698, que, para modernizar o seu país, era necessário mudar a imagem de sua corte, da aristocracia e dos funcionários públicos. Sua intenção era aproximar-se o mais possível dos reinos ocidentais europeus, tidos como mais avançados. E, assim, ordenou que todos os membros daquelas classes ou funções raspassem suas barbas, sob pena de multa. E os bigodes somente seriam permitidos aos oficiais de cavalaria ou dos corpos de dragões.
No século XVIII, aliás, as caras raspadas eram comuns, mas se envergava copiosas perucas e, não raro, longos cabelos, penteados à maneira daquelas: o General George Washington, pai fundador dos Estados Unidos da América, inscrevia-se neste último caso. E se na França do final daquela centúria, e início do XIX, os revolucionários e patriotas cortaram seus cabelos à Brutus (uma evocação ao assassino de Júlio César) – pensemos na imagem clássica de Napoleão Bonaparte –, permitia-se aos hussardos (um corpo de cavalaria leve), não só o uso de barbas e bigodes como até mesmo de finas tranças de cabelo pendendo sobre a farda.
No Brasil, até os primeiros anos da República, não havia objeção ao uso da barba entre os membros do Exército ou da Marinha (Deodoro, Tamandaré, Benjamim Constant, etc., etc., eram barbados). E até hoje os ornamentos capilares faciais são permitidos, ainda que com algumas ressalvas, de acordo com o Decreto nº 95.480, de 13 de dezembro de 1987: “É vedado aos militares o uso de barba, cavanhaque, costeletas e do corte e cabelo que não sejam os definidos pelas normas em vigor.// § 1º - O uso de bigode é permitido aos Oficiais, Suboficiais e Sargentos.//§ 2º - O militar que necessitar encobrir lesão fisionômica poderá usar barba, bigode, cavanhaque ou cabelo fora das normas em vigor, desde que esteja autorizado pelo seu respectivo Comandante”. E graças a esta brecha, e outras anteriores, pôde o falecido (em 2008) General Manoel Theophilo Gaspar de Oliveira Neto, ex-chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Nordeste, envergar, honradamente, sua barba: uma tradição de sua família, toda ela composta de militares, que geração a geração (foram cinco), transmitia ao filho o mesmíssimo nome do pai e a obrigação de manter o mesmo adereço piloso.
Pois bem, se até os exércitos, que se pautam pela uniformização, seja pelo uso das fardas, seja pela estética do rosto, permitem algumas liberdades neste campo – o Exército Brasileiro, inclusive, que nos últimos anos tem se pautado por uma mera observação passiva e um pouco alheia (para o bem e para o mal) do que se entende por liberdade – é de pasmar, portanto, que a Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região (Bahia) tenha acatado recurso do Bradesco que inocenta o banco da acusação de discriminação de funcionários por uso de barba. E nem era uma barba à Marechal Deodoro ou General Theophilo: o empregado demitido tinha a pele sensível à lâmina de barbear, o que impossibilitava o uso diário do aparelho. Segundo a sua defesa, aquela sua barba por fazer era motivo de constrangimento, causado por seus superiores. E, de acordo com o banco, seu repúdio ao pelos do queixo do funcionário fundamentava-se numa pesquisa que teria revelado que o uso da barba “piora a aparência dos trabalhadores”, e como a aparência é associada à competência, com base no truísmo de que a primeira é uma lei para o sucesso profissional, acharam por bem (mal) demitir o empregado.
O juiz de primeira instância, favorável ao bancário, alegou que a conduta do banco “viola inequivocamente o direito fundamental à liberdade de dispor e de construir a sua própria imagem em sua vida privada”. Mas a desembargadora que cassou sua sentença proclamou que “não se pode negar ao empregador, em razão do seu poder diretivo, o direito de impor determinados padrões, de exigir dos seus empregados certa forma de se apresentar para o público externo do banco, inclusive no que diz respeito ao asseio e à aparência geral”. Para ela, este mesmo princípio poderia ser aplicado às roupas dos funcionários e ao uso ou não de “barba, bigode, cavanhaque e costeletas”.
O melhor desta história toda veio por conta dos comentários do ex-ministro do STF, Eros Grau, barbudo desde 1968 – por conta de uma cicatriz no queixo causada por um acidente de automóvel – e que vê claros indícios de preconceito na medida. “Se for só por essa razão, fico muito preocupado. Se fosse assim, eu poderia ter sido impedido de ser ministro do Supremo. [...] Fico pensando... Então, por causa do acidente e da barba, eu ficaria impedido de trabalhar? Parece estranho”, alegou, com propriedade.
De modo que nos preparemos, leitores, para um mundo novo exarado a partir de decisões semelhantes àquela do TRT da Bahia. Talvez retornemos aos uniformes de corte militar nas escolas públicas, ao uso da sobrecasaca e gravata nos bancos e de aventais entre os comerciários. Ou, ainda, radicalizar as expectativas ainda mais, como o fez a Polícia Militar paulista, que agora reprova candidatos “queixudos” baseada na visão de que “problemas bucais podem causar dor e agravar outras doenças, como cardíacas e gastrointestinais, aumentando a possibilidade de afastamento do policial”.
Para que belo mundo nós caminhamos! Em breve, no andar desta carruagem destrambelhada, serão exigidos exames de DNA dos funcionários públicos e empregados privados para se saber se não têm doenças congênitas a serem manifestadas posteriormente. E, daí, para onde seguirão as exigências? Pela eugenia? Pela eutanásia? E depois dizem que o nazifascismo higienista é algo morto.
Último comentário. Amador Aguiar, fundador e dono do Bradesco, um dos homens mais ricos do país, enquanto vivo foi, criou em Osasco a sua Cidade de Deus, um misto de empresa e moradia de funcionários que, pelas liberdades ali admitidas, foi considerada por vários observadores como sujeita a regras muito mais duras do que as que se goza num quartel. E, detalhe: talvez, baseado no critério de “asseio e aparência geral”, Amador Aguiar nunca passaria pelo critério da desembargadora que defendeu seu banco: pois o banqueiro nunca usou meias, aqueles higiênicos dispositivos do vestuário entre o pé e o sapato que impedem a propagação do chulé...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2011].

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

Que bons tempos eram aqueles em que o trem era sinônimo de progresso!

Curiosa a história da estação de metrô em Higienópolis...
Morei, dos meus três aos vinte e dois anos, exatamente na mesma rua onde se planejava abrir a referida estação, hoje, ao que parece, baldada. Mais ainda, na mesmíssima quadra, da rua Sergipe, entre a Itacolomi e a avenida Angélica, o local escolhido para a obra embargada, e por onde passei quase todos os dias de minha vida durante dezenove anos. E, naquele tempo, se houvesse planos de uma estação de metrô justamente naquela esquina, a ideia seria entusiasticamente saudada pela maioria dos habitantes do bairro, e por quem nele trabalha. Bons tempos aqueles...
Higienópolis, durante décadas, foi um bairro bastante cosmopolita, um pedacinho de Europa, quase. Nele viveram, outrora, muitos barões do café, riquíssimos; seus filhos, cuja afetação e seu pressuposto aplomb aumentavam na razão inversa de seus capitais minguantes; e seus netos, muito educados, cultos e viajados, mas já quase sem recursos. Já por volta dos anos 1930-1940, aumenta a proporção de habitantes ligados às profissões liberais, ao serviço público, e também executivos das grandes empresas que então se constituíam. Porém o aspecto mais relevante daqueles anos foi a chegada de muitos judeus e outros perseguidos pelo nazismo que ali se estabeleceram. E não eram fazendeiros do sul da Rússia e Ucrânia, ou pequenos comerciantes dos inúmeros guetos europeus. Eram médicos, políticos – naquela época, tal palavra denotava ainda certo respeito –, advogados, artistas dos mais variados meios, professores universitários: em suma, todo um rol de gente muito intelectualizada e urbana, acostumada aos transportes públicos, a valorizar o espaço coletivo, ao viver em sociedade. Entre os anos 1950-1960, e mesmo 1970, um expressivo número de intelectuais de centro, centro-esquerda e esquerda, com bons empregos nas universidades públicas, somou-se aos locais. Ali vivia, então, por exemplo, um sujeito à época muito afável, que andava nas ruas como qualquer mortal e que, longe de pedir que esquecessem o que ele havia escrito, queria, pelo contrário, que se lembrassem de suas ideias. Seu nome então era Fernando Henrique (hoje, mais que um homem, é uma sigla: que tempos vivemos...). E este perfil social do bairro se estabeleceu por muitos anos, como pude ainda verificar naqueles dezenove de vivência por lá.
É claro que havia gente de direita em Higienópolis. Aliás, de ultra-direita. No bairro localizava-se a sede da hoje moribunda TFP (Sociedade Brasileira de defesa da Tradição, da Família e Propriedade), cujo líder e fundador, Plínio Correia de Oliveira, figura simpaticíssima no trato, aliás (mas esquisito na aparência), caminhava pelas ruas como qualquer cidadão, até que a idade o impediu e, só então, valeu-se de automóvel: um Opala que, àquela altura, já era velho. E utilizava todos os serviços do bairro como os demais moradores: cortávamos o cabelo, inclusive, no mesmo barbeiro, sempre em cadeiras contíguas. Havia também alguns banqueiros – que tinham amigos na esquerda da época, mas de que lado do espectro político estavam poucos sabiam, ou queriam saber, ainda, que certamente, soubéssemos, mas parecia-nos melhor não pensar nisto. Um deles, inclusive, foi Olavo Setúbal, que morava num sobrado extremamente discreto (para não dizer feio) em frente ao meu prédio. É verdade que ele não era ainda, então, o “teramilionário” dos seus últimos dias de vida. Na época, talvez só fosse “megamilionário”, ainda que não aparentasse nem um pouco (a gente bem-nascida daqueles tempos tinha horror à ostentação). E, nomeado prefeito, lembro-me dele apanhando o ônibus Circular Avenida, da CMTC, para verificar, in loco, “ao vivo”, as condições do trânsito, a qualidade e pontualidade do transporte público. Quando lembramos que o Chirico (que nunca foi morador do bairro em questão, frise-se), eleito prefeito só circulava pela cidade de helicóptero, notamos o quanto decaiu a qualidade dos homens públicos nacionais. Mas isto é outra história.
Pois bem, como mostrei, Higienópolis foi um lugar onde muita gente culta e bem-educada, urbanizada e cosmopolita viveu, respeitando os interesses e bens públicos dos quais todos eram contribuintes, usufruidores e defensores. Parece, no entanto, que isto acabou. Não creio que tal repúdio a uma estação de metrô no bairro (e lembremos que, em Londres e Paris, os imóveis mais valorizados são os que têm por perto uma estação de trem subterrâneo, e que as mesmas não estão ausentes dos pontos mais elegantes de Manhattam) deva-se somente à gente nova que para ali tem mudado nos últimos anos. Tremo ante a ideia de que amigos que há tempos não vejo e antigos vizinhos ou colegas de escola, pessoas muito decentes, agora pensem assim.
É triste pensar que um bairro que outrora se pautou pelos valores do que noutras épocas se chamou de uma sociedade humanística, agora se paute pelo que há alguns tempos é conhecido como sociedade automobilística, formada por essa gente que trafega em mini-blindados altamente consumidores de combustível fóssil, que trata o pedestre como um lixo, o ônibus como um estorvo, e o metrô, como uma mera abstração, preconceituosa, visto que não o conhece. É triste, muito triste, ver o cidadão de bem ser substituído pelo parvenu prepotente. Mas explica muita coisa a respeito da cidade. E do Estado onde ela se encontra.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de maio de 2011].

Loas ao STF!

Por obra, graça e misericórdia do Supremo Tribunal Federal (STF), milhões de brasileiros terão acesso a direitos fundamentais que sempre lhes foram negados. Sim, trato de milhões de cidadãos, mais de dez por cento da população brasileira, que se declaram homossexuais – sem contar todos aqueles que assim não se afirmaram no último Censo – e que finalmente poderão ter, agora, alguns poucos e merecidos direitos que lhes foram negados, paradoxalmente, por um Estado laico, infestado, no entanto, dos mais rancorosos travos dogmáticos, reacionários e impiedosos.
A primeira garantia, que agora lhes (lhas) será permitida, é o direito à herança, ou sucessão, além de outros correlatos, por meio do qual um companheiro(a) pode receber de seu(sua) finado(a) companheiro (a), além dos bens amealhados em conjunto, pensões e aposentadorias, e também sua vinculação aos convênios de saúde – para o horror dos tradicionais “herdeiros legais”, que renegavam, amaldiçoavam seus parentes, por suas condições intrínsecas, mas que nunca deixaram de calcular o quanto, ou o quê, herdariam daquele tio ou tia sem filhos, daquele irmão marginalizado, daquele filho expulso do convívio da família, em detrimento daquele(a) que esteve sempre ao lado do excluído, que, fielmente, foi presente na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza do marginalizado – como se presume que deva ser o comportamento de um verdadeiro casal. Daí ser o máximo do mau-caratismo e da hipocrisia aqueles parentes que se lançam, quais feras sedentas de sangue, sobre o espólio do renegado, gritando palavras de ordem e implorando pela defesa das famílias...
A segunda, e que particularmente me comoveu, porque ignorava tal privação arbitrariamente imposta, foi a conquista do direito às visitas hospitalares, no caso do adoecimento de um dos membros de tal relação. Acredito que poucas coisas podem ser mais cruéis do que impedir o contato, o acesso, a simples visita, de uma pessoa que ama outra, aos momentos de infortúnio, ou aos derradeiros instantes, daquela pessoa amada. Se são justos tais desvelos entre homens e mulheres heterossexuais, também o é, obviamente, para todos os seres humanos. E fico imaginando, com dor no coração, quantas pessoas – multidões, acredito – foram privadas deste último, precioso e imprescindível direito fundamental de se despedirem, pessoalmente, daqueles a quem eram ligados por um amor não compreendido pela lei ou pelas normas chãs das administrações hospitalares!
Cumprimento o STF por sua obra, porque este tribunal teve a coragem de enfrentar tão polêmica questão – anseio de milhões de brasileiros – frente à absoluta inércia do Legislativo (cada vez mais aparelhado por fanáticos e ignorantes que fazem tabula rasa da laicidade do Estado Brasileiro, quando não por lobbistas de seitas exóticas, verdadeiros animadores de torcidas do preconceito vão).
Saúdo-o por sua graça, na medida em que aquele Supremo Tribunal, sem ter sido provocado por questões imediatistas, ou grupos de pressão, decidiu-se pela defesa de milhões de cidadãos, contribuintes, brasileiros, confirmando, de motu proprio, a laicidade do Estado Nacional, e, ao mesmo tempo instituindo incontornáveis direitos a serem, finalmente, acolhidos.
E louvo-o por sua misericórdia, visto que uma legião de pessoas até então desguarnecida, graças à omissão dos nossos eternamente letárgicos poderes constituídos, será tratada com o respeito que merece a partir da decisão daquele Tribunal: não serão mais párias, um rabisco numa sociedade que não enxerga seus reais contornos: senhores e senhoras de plena atuação na vida pública, em suas mais variadas esferas, finalmente assumirão, sem falso pudor, e com o legítimo direito que a eles assiste, seu integral papel na sociedade.
Concluo afirmando algo que já disse anteriormente: o quê duas pessoas adultas fazem, entre quatro paredes, desde que de mútuo consentimento, diz respeito somente a elas próprias – pois há muitos ditos heterossexuais que praticam coisas, sem concordância da outra parte, capazes de escandalizar até o mais debochado dos demônios, segundo a vasta literatura a respeito.
E viva o Estado Brasileiro laico! Que é um fato e uma conquista. Que não está sujeito a um Deus, supostamente absoluto, que, segundo muitos, espreita as pessoas através de buracos de fechaduras, frestas nas paredes, vãos junto aos forros, interessado em saber o que as pessoas fazem e como o fazem. Isto não é onisciência, é voyeurismo... E compatível com um Deus?! Duvido.
Voltaremos a este assunto, se houver interesse por parte dos leitores. Para até questionar um termo, que julgo impróprio: o tal homossexualismo; para debater o quão tênue elas são, historicamente, as ideias de família, e mais ainda, de família tradicional; e até para demonstrar como o referido comportamento que escandaliza tanta gente, é muito mais antigo, e comum, do que se pensa: palavra de um historiador, que não ganha coisa alguma por tal defesa (absolutamente nada no campo pessoal), que não a discreta esperança de ter contribuído para a queda dos preconceitos, da ideias tacanhas e da ignorância manifesta, geralmente postas em palavras mal escritas ou ainda pior ditas, graças ao ódio, à burrice, à insensatez que as instilam.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de maio de 2011].

O Louco menino do Rio

Dizem que a origem do nome do bairro carioca do Realengo deve-se ao fato dele ter se formado ao longo da linha de bondes, ainda puxados por burros, que levava ao Real Engenho, abreviado na tabuleta do alto dos carros como Real Engº. E, até quinze dias atrás, parecia ser esse o único aspecto de interesse no que se referia àquela localidade. Mas, desde então, como é público e notório, o bairro entrará para a história – não sei por quanto tempo – por nele ter se desenrolado aquele tristíssimo episódio no qual doze crianças perderam a vida pelas mãos de um desatinado.
O fato, verdadeiro motivo de desespero para os familiares e amigos das vítimas, e de profunda consternação para todo o país, foi, por outro lado, uma típica festa para a grande imprensa e para meia dúzia de especialistas ávidos pelos holofotes da mídia. Poucas vezes tornou-se mais evidente um certo desserviço prestado pelos meios de comunicação quanto neste caso. O crime tornou-se um espetáculo, a investigação jornalística foi substituída por um impressionismo sensacionalista, quando não abertamente fantasioso, e sempre hidrófobo, espumando pelo canto da boca e clamando por sangue.
Fosse Lula ainda presidente, alguns jornalões e revistas de grande tiragem diriam até, na falta de se poder culpar alguém, que a responsabilidade seria do Governo Federal. Mas não foi, é claro. E nem se pode falar, num caso destes, de completa responsabilidade de quem quer que seja. Pois tudo indica que o moço que matou aquelas crianças era um completo demente e, como sabemos, loucos são inimputáveis, ou, melhor dizendo: como doidos não sabem o que fazem, a lei não pode considerá-los iguais aos sãos – vale o mesmo com os menores de idade, cuja capacidade de conhecimento da realidade, muitas vezes, corresponde à daqueles, aos olhos da legislação. Além disso, ainda há uma outra questão que em grande parte exime as autoridades de segurança quanto ao que ocorreu. Lembro-me de uma entrevista lida lá pelos anos 1980, pouco depois do atentado sofrido pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan, em que um ex-membro da CIA – a principal agência de informação daquele país – dizia, para quem quisesse ouvir, algo mais ou menos assim: “quando um louco, ou até uma pessoa qualquer, pretende matar alguém e está disposto a morrer por isto, ninguém consegue detê-lo”. Os inúmeros homens-bomba, a todo o momento confirmam tal teoria. O jovem carioca, também.
Os sabujos da grande imprensa – convertidos em animadores dos ódios mais extremados e das paixões mais vis em prol dos níveis de audiência – não deram trégua, portanto, ao assunto, explorando-o de uma maneira que, antigamente, cabia apenas à chamada imprensa marrom, ou aos antigos jornais “espreme-sai-sangue”. E, secundando-lhes as opiniões disparatadas, toda uma récua de peritos nisto e naquilo, quais vivandeiras abastecendo a malta dos espectadores do horror. Os quais alegaram que o motivo da atitude do jovem seria uma vingança por ter sofrido bullying, o assédio escolar; que, se louco, deveria ser medicado; e até de radical islâmico foi chamado, aquele infeliz!
Bem, é verdade que o bullying vem crescendo em gênero, número e grau. Em grande parte tolerado pelos ouvidos moucos dos pais dos agressores, e em maior parte ainda estimulado por filmes norte-americanos que retratam a vida escolar de uma maneira em que tal agressão é tão previsível e quotidiana quanto o horário das aulas e do lanche entre elas. Todavia, ele não é um fenômeno recente, pelo contrário. Quem leu o romance de Raul Pompéia, O Ateneu, de 1888, lembra-se de tais práticas ocorridas dentre os muros do colégio do Professor Aristarco, e os sonhos de vingança do protagonista.
Quanto à necessidade de medicação de pessoas com problemas mentais, é claro que ela é imprescindível. Mas é muito fácil falar. Pois como se convence, pela lógica, uma pessoa em parte alienada da lógica, a fazer isto ou aquilo? Se em casos mais leves, ou menos antissociais – depressão, bipolaridade, etc. – já é um custo fazer com que o paciente tome seus remédios, que dizer nos casos de esquizofrenia ou piores? Voltaremos às práticas dos grandes hospícios, verdadeiras máquinas de moer gente? O de Barbacena, por exemplo, célebre em prosa e verso, por trás de suas intenções humanitárias e sanitaristas, tinha uma média de mortalidade anual que não devia nada a certos campos de concentração nazistas – uma grande amiga, cujo pai tinha um sítio ao pé do morro daquela instituição contou-me como, depois de uma chuva e do deslizamento de terra da encosta, foram vistos incontáveis esqueletos sem identificação qualquer, descendo pela enxurrada, rolando pelos roçados. É isto que queremos?
Por fim, a questão religiosa. Argumentou-se, a princípio, que o moço do Rio era um fanático muçulmano. Todavia, nos vários depoimentos que deixou gravados, mencionava a todo momento o nome de Jesus, a necessidade de pureza, ou purificação, e coisas que tais. Então, a grande mídia silenciou. Curioso, muito curioso... Não falo que a crença em Jesus Cristo leve às pessoas, necessariamente, a atos insanos contra o próximo, apesar dos exemplos históricos dos donatistas, valdenses, bogomilos, dentre tantos outros hereges que se consideravam autênticos cristãos e não pensavam duas vezes antes de derramar o sangue dos impuros. O mesmo valeria para os cruzados, para os dominicanos, para a conquista da América pelos espanhóis, etc. Tais horrores de então se justificavam, em parte, pela própria época violenta em que se deram. Não possuíam a mesma sensibilidade de hoje. Não tinham formulado uma Declaração Universal dos Direitos Humanos como a temos desde fins dos anos 1940.
Pois bem, salto para o começo desta semana, depois que o infelicíssimo episódio do Realengo tornou-se conhecido no mundo inteiro. Conforme me contou uma amiga professora, dois alunos seus – do ensino médio, um casal de irmãos de classe média alta, ele de aspecto normal, nem feio nem bonito, ela com vastos e belos cabelos – voltam de um retiro espiritual num acampamento – que tenho quase a absoluta certeza de que não seja católico – com os cabelos completamente tosados, raspados à máquina zero. Indagados do porquê de terem feito aquilo, ela obteve a seguinte resposta: “Porque Jesus nos ordenou!”. Assustador...
Defendo o Estado Laico na exata e igual medida em que defendo o Ecumenismo e a liberdade de qualquer pessoa a abraçar a religião que for de seu desejo ou, se assim o achar, fruto de uma Revelação, quiçá. Preocupa-me, entretanto, esta nova e violenta militância religiosa, que ignora as várias experiências religiosas e, qual numa nova Cruzada, só enxerga infiéis naqueles que não rezem em seus – verbi gratia – “catecismos”. Precisamos de paz e inclusão, e não sectarismo e intransigência. Pois se o Homem foi feito à imagem de Deus, ele há de ter um pouco da misericórdia d’Aquele. E por ser criatura, e não Criador, não deve se considerar o derradeiro Juiz. Tampouco Seu mensageiro privilegiado. Nem, muito menos, os carrascos do Altíssimo. Como, assim parece, julgou-se ser o louco menino do Rio.

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2011].

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

Tudo pelo Cine Alvorada!

Quando o leitor tiver em mãos, sob seus olhos, esta página com minha crônica, e de minha cara vizinha Berenice, espero ainda que, com os mesmos olhos, possa avistar, firme e inabalável, o Cine Alvorada, em seu mesmíssimo lugar, físico e cultural, na cidade de Leme. Anseio, sinceramente, que as autoridades locais – públicas, mas não só, pois a sociedade civil é também uma autoridade, senão a primeira, de direito – tomem as medidas necessárias para que um foco irradiador de cultura, e uma interessante construção de fins dos anos 1950, seja preservado com todo o respeito de que faz jus.
Já de antemão afianço que a responsabilidade final caberá ao poder executivo ou à Câmara, em suma, às esferas municipais. Só a eles cabe o tombamento do prédio. Que não se, recorra, portanto, às avaliações do Condephaat – míope na análise de casos (os abatedouros parecem ter primazia frente aos avoengos solares) e manco na celeridade com que os encaminha à preservação – ou àquelas do IPHAN – este é cego de um olho (só enxerga valor artístico, histórico ou arquitetônico em construções com mais de cento e cinquenta anos) e perneta (seus processos de tombamento seguem o ritmo da marcha do Saci). Quanto à boa-vontade do novo proprietário – do, agora friamente chamado, imóvel – duvido de que a mesma possa ser abalada. Quem cogita em pôr abaixo um marco cultural e arquitetônico do município para, em seu lugar, erguer – que digo, e desde quando tal coisa se ergue? – um pátio de vendas de automóveis demonstra não ter sensibilidade alguma frente à cidade em que vive. Nem, tampouco, boa visão para os negócios, pois, afinal, o mesmo se localizaria no término de uma Avenida, na qual a concorrência já se encontra estabelecida e atuante. Ninguém desce ao fim de nada para tomada de preços, sobretudo neste ramo comercial. Quem compra carros – e isto é sabido do Oiapoque ao Chuí – procura os estacionamentos à entrada das cidades e próximos às rodovias: ninguém desbrava ruas das quais não sabe como retornar.
Considero também lamentável que a família proprietária do Cine Alvorada tenha querido livrar-se dele, sem pensar no destino que o mesmo poderia ter. Pois não se fecha um cinema como se fecha uma venda ou um armarinho. Graças à sua influência política, poderia ter planejado um fim mais nobre para o empreendimento, como transformá-lo, por exemplo, num Cine-Teatro Municipal, ou algo do gênero, encampado pela Prefeitura ou, ainda, pela Câmara – a casa dos edis de Itatiba, SP, por exemplo, mantém, em suas dependências, um excelente teatro. Tal proposta, se aberta à manifestação pública, frisando-se a sua necessidade para a manutenção do prédio e de suas funções, certamente granjearia a adesão de muitos munícipes. Mas, a política, sabemos todos como ela é: mãe num dia, madrasta no outro, e que se percam os anéis para se salvarem os dedos.
Saindo da esfera monetária e política, retornando à espiritual, sinto-me no dever de afirmar que tenho gratas lembranças do Cine Alvorada. Namorei muito pouco dentro dele, mas, por outro lado, diverti-me à farta, junto a amigos, com o objetivo primeiro e principal da casa, afinal de contas: assistir aos filmes. E, em especial, as reprises. Até hoje tenho amigos que não acreditam que, um dia, eu possa ter visto Ben-Hur em exibição panorâmica. Pois não só o vi, como revi, quase toda semana-santa, exibido na tela – panorâmica – do Alvorada. Quem se lembra do filme, sobretudo da corrida de bigas, sabe do que estou falando. Pois se trata de uma experiência única. Às vezes, na mesma temporada, éramos sujeitos a alguns abacaxis, como O Manto Sagrado – ao qual apelidávamos de O Manto Sangrado, porque a chatice do filme sangrava nossa paciência. Por outro lado, havia ainda um excelente filme espanhol, do qual nunca consegui lograr maiores informações além do título: O Beijo de Judas (“El Beso de Judas”), cujo artista que interpretava Jesus parecia ter mais de dois metros de altura e seu rosto nunca era mostrado. O que valia por dezenas de tratados teológicos (não só cristãos, mas até judaicos e islâmicos), quanto à representação humana de um Messias e nossa capacidade de compreendê-los. Acho que até alguns ateus endossariam a abordagem humana de toda a questão.
Enfim, reitero meus votos – mais que votos, pois subescrevi o abaixo-assinado virtual (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2011N8232 ) – de que o Cine Alvorada permaneça onde está. E apoiarei, publicamente, todos os que se manifestarem por tal. Entretanto, não sei ainda o destino do mesmo ante aos olhos do leitor (esta crônica é enviada entre às quintas e sextas-feiras). Caso o nosso velho cinema venha abaixo, digo só uma coisa: para mim, e espero que outros pensem o mesmo, a 29 de agosto passará a acabar na Newton Prado – o resto já não mais me interessa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de abril de 2011].

Pausa para reflexão


Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda de Kanagawa, c.1829-32.
Xilogravura colorida, 25.7 cm x 37.8 cm.. Museu Britânico, Londres.

Em crônica publicada em 5 de fevereiro passado, abrindo a série Viagem sentimental à roda de meus livros, prometi “contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições [...] Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis”.
Pois é, bem que tentei contornar a crise política do Norte da África e de parte da Península Arábica. Visto que ouvi da própria boca do insigne historiador francês Roger Chartier, já lá se vão quase cinco anos, que o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro, ando declinando dos exercícios de futurologia, pelo menos em público. E preferi esperar. Caiu Mubarak, do Egito, e um outro desconhecido na Tunísia? Bom, agora é só aguardar a queda de Kadafi, pensei comigo. Mas ele permanece no posto, não sei se de joelhos, mas está lá.
A primeira reflexão neste campo é bem prosaica. O ex-presidente do Egito, que governou por trinta anos aquele país graças a eleições fraudulentas, nunca havia sido chamado de Ditador (o que, de fato era), não digo pela imprensa mundial, mas, certamente, pela nacional. Era sempre o “Presidente Mubarak aqui”, “o Presidente Mubarak ali”, e pronto. Somente quando os protestos eram irreversíveis, assim como suas conseqüências, é que passaram a chamar o homem de ditador. Vícios da nossa Grande Imprensa, que é mais realista que o rei (ou melhor, mais americanizada que a norte-americana). A sua falta de independência, em muitos casos, ou mera bajulação, na maioria deles, talvez enxergasse no defuncto presidente o último dos Abencerrajes, o derradeiro paladino muçulmano, ilustrado, contra as hordas fundamentalistas. E fazia-lhe vistas grossas.
A segunda tem a ver com o plenipotenciário da Líbia, que até anteontem era Muammar Kadafi (ou Khadafi), e agora passa a ser anunciado pela Grande Imprensa como Gaddafi. Imagino que enquanto vivia ele na periferia do Mediterrâneo, sem motivar praticamente qualquer notícia que não uns descalabrozinhos de ordem interna, por lá, ou umas truices berradas no campo da política externa, acolá, ninguém se preocupou como deveria der grafado seu nome. Reproduzia-se, automaticamente, a manchete de alguma agência de notícias, principalmente norte-americana, e pronto. Mas, agora, não mais. Acho que os editores, ou chefes de redação andam cobrando mais serviço dos seus meninos. Fico até imaginando a cena: um redator sênior grita para a patuléia de plantão: “Ô Fulano, liga para o consulado da Líbia e vê como é que se escreve o nome do presidente deles!”, e corre o rapaz a cumprir a ordem. Dada a situação geral, volta o jovem e diz ao chefe: “Ninguém atende!”, e o intrépido jornalista veterano estertora: “Veja então como está escrito no New York Times!”; mas, responde o aprendiz: “Eles escrevem Qaddafi”. Então, num arroubo de justiça salomônica, proclama o sumo-chefe: “Nem Kadafi nem Qaddafi: ponha aí Gaddafi e não se fala mais nisso!” – e, assim, vai sendo feito o jornalismo pátrio...
A terceira reflexão é quase fútil, beirando o banal. Mas tem uma certa razão de ser. Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano,passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo.
A quarta reflexão é ainda mais inútil: o resultado do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em que Roberto Carlos, mais uma vez, saiu triunfante, do que ninguém tinha dúvidas. Desfilasse a escola toda só coberta por uma folha de parreira, com a bateria desfalcada, passistas mancos e só um carro alegórico – o que traria “o Rei” – e ganharia do mesmo jeito. O tema era superior a qualquer quesito mensurável pelos juízes, que o digam os patrocinadores e transmissores da celebração...
Voltando aos temas sérios, quero concluir com o desastre ocorrido no Japão. Desastre, vígula, verdadeira catástrofe. Lamento, condoído, as vítimas do terremoto, da onda gigante que veio em seguida, e dos incêncios, de proporções lisboetas. Mas, com todo respeito, eles estão acostumados com isto. Terremoto no Japão é como eleição fraudada na África, sêca no Nordeste e chuva no Sul: todo ano tem. Tsunami, menos, mas há que se recordar que a obra de arte mais conhecida daquele país, e que ilustra esta crônica, retrata justamente, uma onda gigante, dentre as várias que o acometeram.
E, neste caso, os pontos de reflexão seriam pelo menos três. Vamos ao primeiro: se os pagodes, castelos, e sítios arqueológicos seculares não vieram abaixo, mas os prédios modernos, sim, não seria de se especular que estes últimos foram construídos seguindo o código de ética haitiano, ou bem parecido? Segundo: se o solo de lá é notória e milenarmente conhecido como sujeito a terremotos, como é que o Japão teve a coragem de instalar usinas nucleares em seu território? Economia? Ou, seguiu o padrão haitiano de qualidade e responsabilidade? Terceiro e último ponto: a Terra do Sol Nascente é uma das nações mais ricas do nosso planeta. Rica e perdulária. Como é que ela não tem alimentos de reserva para o seu povo, ou serviços de apoio que funcionem a contento, ou cidadãos dispostos a ajudarem seus irmãos? Querem, agora, que o mundo inteiro se condoa de suas imprevisões e políticas equivocadas?!
Respeito e admiro a cultura (artística) japonesa, mas o comportamento de seus praticantes frente à catástrofe tem deixado em muito a desejar. Que os ricos de lá (Aiwa, Honda, Kumon, Toyota, Sony, Fuji, Mitsubishi, Pentax, Pentel, dentre tantos outros), cuidem de seus desvalidos. Nós temos é de tratar dos nossos, como os de Alagoas, sem casas há mais de dois anos. Ou, mais recentemente, dos paranaenses do litoral.
Reconheço e louvo, entusiasticamente, o esforço de muitos brasileiros, de lá, que têm confortado e socorrido as vítimas de tal efeméride, dada a aparente inépcia ou falta de comoção dos naturais daquele país. Mas, convenhamos: organizarmos levas de doações para uma das nações mais ricos da Terra? Soa à piada de mau-gosto. Pois que eles se reorganizem, e aos seus modelos de gestão, e aprendam com tal calamidade. Temos ainda muita gente de quem cuidar, em nossas esquinas, grotões, etc.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 20 de março de 2011].