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sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte II: A Ignorância do Mundo em quinze dias à beira-mar

Na antiga Grécia, e provavelmente em muitas outras culturas, até mesmo naquelas chamadas “primitivas”, inumeráveis são os rios e riachos, lagoas, montes, colinas, montanhas e pântanos aos quais são relacionados os mais diversos mitos. Ou, no mínimo, são merecedores de um nome que os distingua, o que é algo muito mais importante do que se pensa. Pois nada existe sem um nome. Ainda que, na natureza encontrem-se, de fato, um número incalculável de animais, plantas e minerais ainda desconhecidos, é a partir do momento em que são nomeados que se tornam relevantes. Dar nome às coisas, é sabedoria e poder. Conhecimento e domínio.
Antes de sermos um país, quando ainda éramos uma colônia portuguesa – melhor dizendo, um arquipélago de vilas, cidades e fazendas, isoladas pela mata – boa parte da topografia brasílica já havia sido nomeada pelos ameríndios, ainda que em pequena escala, geralmente regional (relativa aos deslocamentos das tribos num âmbito relativamente estreito). E, o que era pior, conhecidos por pequenos grupamentos: as informações, então, não circulavam muito entre gentes sempre em pé de guerra umas com as outras. Havia, entretanto, formidáveis exceções, como as lagoas do Vapabuçu e do Paraupava, cujos nomes eram familiares a diversas etnias, mas cujo lugar real permanece incerto (especula-se que a lagoa da Paraupava, que apareceu em diversos mapas europeus dos séculos XVI a XVIII, ora ao Norte, ora ao Nordeste ou mesmo no Centro Oeste, trate-se, na verdade, do Pantanal Matogrossense). Sem falar na utópica “Terra sem mal” (Yvi Mara Ey ). Mas devem-se aos navegadores (como no caso do Monte Pascoal cabralino), aos jesuítas (Pedro Lozano, no século dezoito, foi o primeiro a chamar de Caminho do Peabiru a rota indígena que ligava o litoral Sul-Sudeste brasileiro ao Paraguai e ao Peru) e aos bandeirantes (que não só incorporaram muitos hábitos dos silvícolas, como também a sua própria língua), devem-se a estes, portanto, o real batismo de muitos acidentes geográficos de nosso território.
A ocorrência de muitos nomes idênticos, quer de origem indígena ou já portuguesa, designando este ou aquele rio, morro, lagoa, nos mais variados cantos desta terra, explica-se justamente pelo relativo isolamento das comunidades do passado. Daí termos tantos rios chamados de Grande, Feio, Turvo, Pardo, Paraibuna e Piracicaba, por exemplo: ou os dois de nome Paraíba, um emprestando seu nome ao Estado nordestino, outro recebendo o acréscimo de “do Sul”, muito posteriormente à sua descoberta, no vale paulista e fluminense). O mesmo não vale para as incontáveis cachoeiras ou cascatas que receberam o nome de “véu-de-noiva” ou “véu-da-noiva”: neste caso é, pura e simplesmente pobreza de imaginação.
Já no que se refere aos morros e montes, a ânsia de nomeá-los parece ter sido sempre meio preguiçosa por aqui. O grande historiador mineiro Diogo de Vasconcelos (1843-1927) quando trata das expedições dos bandeirantes pela terra mineira, diz que aqueles bravos avançaram por ela “servindo-lhes de norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos matos..”. Assim, aos picos couberam alguns nomes, aos demais morros, quase nada, salvo se em locais relativamente planos. Estes são nomeados por sua condição estranha à paisagem. Mas no meio de uma serra, a maior parte deles permanece anônima e pagã. O que em grande parte parece até justificável, em nosso território de dimensões continentais. Haja nome para tanta coisa! Mas inquieta-me por que tantos habitantes locais, ao longo dos séculos, sequer se interessaram por chamar seus morros e montes disto ou daquilo.
Não conheço os Alpes e sua toponímia em pormenores. Nem preciso. Posso abrir um mapa confiável e ler como são chamados seus inúmeros picos, montes, vales, platôs, passagens, geleiras, etc. Os rios, cascatas, passagens, o que for. Ali estão nomeados com precisão. Se recorro a uma carta topográfica, além dos nomes, tenho acesso às altitudes máximas, médias, mínimas e intermediárias daqueles terrenos. Mas tente-se fazer o mesmo em nosso país! Encontramos altitudes, está certo. Nomes? Nem em sonhos.
A mesma coisa vale para as ilhas, cabos, rochedos, promontórios e o que mais se deita pelo mar da nossa pátria. Os mapas, em geral, silenciam quase completamente quanto a eles. Se buscarmos alguma informação mais profunda neste assunto, temos de recorrer às cartas náuticas, dificílimas de serem encontradas, quando não caríssimas, em muitos casos. Então, diante de tais obstáculos, pensamos: vamos recorrer ao conhecimento local. Mas que desilusão! Ninguém sabe dizer nada de nada.
Passei, recentemente, quase quinze dias percorrendo o extenso litoral de Ubatuba e Paraty. Conversei com gente que ali vivia, das mais diversas origens; mas, no caso em questão, com vistas ao que pesquisava, preferencialmente ouvindo a conversa de caiçaras, ou seus urbanizados descendentes: em suma, tratei com os nativos. Pois bem, não encontrei vivalma que me dissesse o nome – não falo nem dos montes e pontais – das ilhas que povoam aquelas praias e que, dia após dia podem vê-las plantadas diante deles. Senti tal comportamento não só como fruto da simples ignorância, mas, antes, de uma presunçosa ignorância. Só encontrei similar atestado de preguiça mental nalgumas vezes em que, visitando tal ou qual cidade, perguntei a alguns moradores dali, vizinhos de uma igreja, qual era o santo ali reverenciado, qual era o seu orago. E, para minha surpresa, ouvi a resposta: “Não sei. Sou evangélico!”. Ouvi isto de gente moça e velha. É de pasmar que certa incivilidade atinja tais níveis que acabe por voluntariamente ignorar a simples paisagem que se revela, quotidianamente, diante dos olhos locais.
Pois bem, na praia é a mesma coisa. O indivíduo passa, dia após dia, por mais de vinte anos, diante de uma ilha que se apresenta à sua frente. Trabalha, por outros tantos anos, defronte à mesma. E se perguntamos o nome dela, ignora-o completamente. Tenta-se outro informante, mais velho: o mesmo resultado. Com muita sorte, depara-se com algum pescador que ainda se lembre de alguma coisa. No mais, reina a mais profunda ignorância. Mas que não se invoque, como causa disto tudo, o eterno e retornável mito da suposta indolência do caiçara. O problema é de outro natureza, e grave: ninguém quer aprender mais nada, esta é a verdade. Contentam-se com o trivial, com as banalidades, com o que se pode adquirir e consumir, e tão só. Este é o novo mundo em que estamos mergulhando de cabeça e que não poupa sequer os românticos moradores do litoral, imersos em sua inocência e simplicidade, como julgam muitos, muito erroneamente, ainda hoje. Pois o “bom selvagem” morreu de tédio lendo Iracema no Ensino Médio. Índio não quer mais apito, espelho e miçangas: quer celular, tênis de marca e roupa de grife – o quê, no fundo, no fundo, é a mesma coisa...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gira a roda da fortuna: cai o Sultão

Já tratei neste espaço da chamada “Primavera árabe” (19 de março, Pausa para reflexão) e da queda e do linchamento do tirano líbio (22 de outubro passado, Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro).Mas eis que agora, com felicidade, tratarei da derrocada de um amiguinho de todos aqueles déspotas da mourama, o sultão Berlusconi.
Quando este magnata da televisão e imprensa italiana ascendeu ao poder, foi tratado como uma espécie de Sílvio Santos taciturno, porém mais bem sucedido financeira e politicamente do que nosso prestamista televisivo. Tão histriônico quanto seu xará brasileiro, Berlusconi era famoso por suas caras e bocas, muitas das quais lembravam as do execrado ditador Mussolini, seu conterrâneo. Mas boa parte da grande imprensa daqui parecia se recusar a ver isto. A mesma grande imprensa pátria que, diante de sua queda, parecia não se dar por achada, publicando trivialidades nas capas de suas principais revistas. Uma estampava: PEREIRÃO, ESSE [sic] MULHERÃO; outra Coma POUCO Viva MUITO (assim mesmo, sem vírgula); e ainda outra ETERNAMENTE JOVEM. E nem uma menção sobre Berlusconi na capa. Somente Carta Capital, a cada dia melhor, estampou o priápico régulo italiano, logo abaixo de seu título. Daí ser justa, justíssima, a consideração de seu editor-chefe, Mino Carta: “Veja, Época e IstoÉ parecem editadas, nem digo em outro planeta, em outra galáxia” (Carta Capital, 23 de novembro, p. 22).
A alcunha de Sultão cabe muito bem ao defuncto premiê italiano, segundo as várias denúncias quanto à sua pessoa e seu governo. Qual um déspota do Oriente, ele parecia não fazer distinção entre o público e o privado, gerindo o que era de todos como se seu o fosse. Fazia-se rodear por uma corte de acólitos, escolhidos a dedo, que referendavam e cumpriam suas ordens. Minou as instituições públicas, impondo sua vontade pessoal sobre elas. Reivindicou para si leis e privilégios especiais. Criou monopólios exclusivos seus, abocanhando mesmo o patrimônio do Estado. E chegou ao cúmulo de manter uma espécie de harém itinerante, com beldades escolhidas, algumas menores de idade, provindas de toda parte, brasileiras inclusive (dizem que até um brasileiro transexual, ou quase, talvez a versão moderna de um eunuco, fez parte de algum seu efêmero serralho). Ora, e tudo isto não evoca um sultão?
Fica-se imaginando qual será o seu destino. Acredito que, em breve, uma enxurrada de processos o cobrirá até o pescoço, senão mais além. E não serão brandos como os de cá. Estes, quando pegam um político, acusam-no de uma simples formação de quadrilha, o mesmo delito dos trios responsáveis pelo conto do vigário, atualizado no golpe do bilhete premiado. Na Itália, que lida com a máfia e congêneres, as leis contra o crime organizado são severas. E justas perante aos olhos da sociedade. Daí ser bem possível que Berlusconi e seus bilhões passem a levar uma vida nômade, como também em grande parte o fizeram os ex-presidentes Idi Amin Dada, Bokassa, Baby Doc, Carlos Salinas de Gortari e Alberto Fujimori. E que em boa companhia ele estaria! Mas mesmo que se livre das acusações, corre o risco de ter um fim semelhante ao de Pinochet: ser preso em terra estrangeira, por crimes cujo âmbito extrapolam as fronteiras nacionais. Mas, como disse anteriormente, evito os exercícios de futurologia. Só arrisco dizer que, acredito, pelo menos uma parte do que ele merece, ainda há de receber. E não é em dinheiro não, que este ele já acumulou de sobra, das maneiras mais descaradas quanto obscuras possíveis, segundo se afirma.
Porém uma correção tem de ser feita diante do muito que se assaca contra ele. Berlusconi foi acusado de ser altamente maquiavélico. De fato ele o foi, mas somente na caricatura do termo, a partir de uma leitura apressada que interpreta o maquiavelismo se como fundamentado quase que tão somente no princípio de que “os fins justificam os meios” e de que uma outra ética regeria os homens públicos, diferentes dos cidadãos comuns – já ouvimos este refrão, não faz muito tempo, em solo pátrio, como se tal se tratasse de uma absoluta novidade...
Pois o milanês Berlusconi nunca foi um bom seguidor do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), nem de seu O Príncipe (1532, edição póstuma), porque destes só observou um conceito enviesado da virtù (a grosso modo, “virtude’), interpretando-a não como uma capacidade de adaptação aos fatos políticos que permitiria a permanência no poder, mas sim a existência de uma possibilidade de manipulação política dos fatos, para a conservação do poder. E, acostumado a tal conduta, nela perseverou, a ponto de não observar a mudança das coisas, quando elas se deram, e que provocaram sua queda.
Assim, também, ele ignorou outro ponto crucial da doutrina de Maquiavel, análogo à virtù: a fortuna (aqui é fortuna, mesmo, no sentido de “sorte” ou “fados”) e sua roda, sempre a girar, elevando uns e rebaixando outros: toda aquela soma de aspectos cambiantes, e absolutamente inevitáveis, que podem abater qualquer um, do rei ao pobre, da rês ao nobre. Talvez a tenha interpretado como a sua fortuna pessoal (aqui, monetária e financeira), achando que a mesma o livrasse dos caprichos da verdadeira Fortuna, esta implacável. Em suma, para o bem ou para o mal, Berlusconi foi canhestramente maquiavélico: não foi nem um príncipe perfeito, aos moldes do que preconizava aquele, nem sequer um bom leitor d’O Príncipe. E pagou por isto, e torçamos para que pague muito mais, por tudo o que fez e deixou de fazer.
Maquiavel era um florentino, agregado à poderosa família Médici que governou por muito tempo aquele ducado. Viviam eles às turras com a família Sforza, duques de Milão. Lá no Inferno, onde, segundo dizem, o autor d’O Príncipe se encontra desde sua morte, ou seja lá onde estiver, acredito que ele está dando gargalhadas pela queda do milanês Berlusconi.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônicas Baianas – Parte IV: O Oxalá eucarístico, ou o Cristo demonizado

Pouca gente atenta para a etimologia das palavras, ainda menos se latinas, e ainda em menor número aos nomes científicos que, para muitos, parecem existentes desde sempre, quando não ditados por um Deus absoluto, ou pelo tagarela Adão, louco para nomear o tudo e o nada. Assim como o Primeiro teria dito Fiat lux (“faça-se a luz”) et facta est lux (“e a luz se fez”), o segundo, no julgar de muitos, provavelmente também exclamara, num momento desprezado pelos cronistas bíblicos, fiat camelus dromedarius, e o dromedário se fez, pronto e acabado, com nome científico e tudo, e à mesma feição de hoje em dia. Ou, como pensam outros, atendo-se às fontes, Javé fez o o bicho tal como ainda o vemos: coube ao ignaro Adão dar um nome à besta. Quanto ao idioma escolhido para nomeá-lo, séculos de estudos sobre o tema jamais chegaram a um ponto pacífico. Mas os fundamentalistas norte-americanos têm convicção de que a língua era a inglesa...
Assim, portanto, não é uma surpresa para muitos o significado da palavra passiflora, que denomina um gênero botânico de cerca de 500 espécies que tem no maracujá a mais conhecida delas. Um etimólogo tresloucado, falsamente estribando-se na lógica, explicaria a origem da seguinte maneira: “ora, o suco de maracujá acalma, torna a pessoa pacífica, passiva, ou apaziguada, portanto passiflora deve significar a flor (daí flora) e seu fruto, que traz a paz... ou algo assim”. Uma explicação tão bonita quanto errada, ainda que muita gente acredite piamente nisto. Pois passiflora significa, literalmente, “flor da paixão”. É por este motivo, aliás que, em francês, o fruto do maracujá se chama fruit de la passion (“fruto da paixão”). O mesmo etimólogo amalucado juntaria os termos “francês” e “paixão” (quem sabe se lembrando de que a expressão dá nome a uma marca de roupas íntimas femininas), e pensaria em arrebatadoras cenas românticas, quando não fortemente carnais, envolvendo sedas, champanhe, cama, etc., e até convertendo o maracujá em afrodisíaco, quem sabe.
O que pouquíssimas pessoas sabem – e que o nosso amigo meio passado das ideias jamais descobrirá – é que a paixão a que se refere o nome da flor vem a ser a Paixão de Cristo. E tal se deve ao fato das pretensas semelhanças encontradas, por missionários jesuítas da América do Sul, entre a flor do maracujá e elementos do martírio de Jesus: pois, segundo eles, o pistilo, os desenhos da corola e várias peças florais assemelhavam-se à coroa de espinhos, ao martelo e aos pregos da Crucificação – e a cor roxa do interior delas, à do luto litúrgico católico. Nascia, assim, a passifora, cujo primeiro registro encontra-se na Historia medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias Occidentales (1565-1574), do botânico espanhol Nicolás Monardes (1493-1588).
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
O leitor deve estar se perguntando o que quero dizer com tudo isto. Pois bem, minha intenção é revelar um mundo não muito distante em que tudo era encantado, o mesmo que permitiu ao poeta Cláudio Manuel da Costa vislumbrar na banana o fruto da Árvore do Conhecimento: pois, afinal, ao se cortar uma banana em rodelas, vemos, em seu interior, uma cruz. Em suma, mesmo na queda do Homem, já estava prevista a sua Salvação, como pregam as tradições religiosa e literária.
Na Bahia, esse encantamento do mundo ainda é, em boa parte, presente. Daí que o Cristo, ou o Senhor do Bonfim , é representado no candomblé pelo coco. Trata-se de uma adaptação realmente engenhosa e altamente lírica. Pois sem conhecerem a ideia do Livro de Deus (a Bíblia) e do Livro da Vida (o mundo), e suas correspondência (uma noção que justifica o tratamento dado outrora aos já citados maracujá, abacaxi e banana), sem conhecerem a escolástica, nem Alain de Lille (c. 1128-1202) e seu Rhythmus de incarnatione Christi, nem São Boaventura de Bagnoreggio (1221-1274) e seu Breviloquium, nem mesmo nada de Roger Bacon (1214-1294), procuraram a confirmação das Escrituras nas coisas do mundo, de seu mundo próximo e tangível. E, assim, a carne e o sangue da Eucaristia (Lc 22:19-20, Mt 26;26-29, Mc 14:22-25 e I Co 11:23-26), converteram-se na polpa e na água do coco! Desnecessário é dizer que o coco confunde-se com o crânio humano e, pronto, temos a referência ao Calvário e ao crânio de Adão sepultado em seu sopé. E depois chamam isto de sincretismo... Qual o quê! É pura interpretação alegórica, aplicada aos elementos que estavam à mão. Além de sumamente inspirado. Não tenho dúvidas, apesar da falta de registros, de que os jesuítas, excelentes pedagogos no passado – que celebraram missas em que as hóstias eram feitas de farinha de mandioca, no Brasil, e de arroz, na China, pelo profundo significado cultural que possuiam tais alimentos em tais ambientes –, se não referendassem a apropriação do coco como símbolo eucarístico, ao menos o tolerassem com benevolência.
Hoje em dia há seitas, proclamadas igrejas que, numa espécie de teologia reversa, na falta de uma própria, subvertem as de outrem, empregando termos alheios com sentido trocado, por sua incapacidade intelectual de formular os seus, para não dizer que tal se dá graças ao mutismo do Espírito Santo, que não lhes assopra ao ouvido nada de novo (mas este não é o meu campo). Estas congregações religiosas afirmam que os rituais afrobrasileiros são ditados pelo demônio. Segundo elas, todos os orixás seriam diabos. Assim, Oxalá, a interpretação africana do Senhor do Bonfim, seria, na verdade, uma criatura infernal! Ora, já vi, ou li, diversos tratamentos dados a Jesus – diábolos, foi um deles, na medida em que Ele acusava os erros anteriores e lançava uma nova Ordem; e Lúcifer também, por trazer a verdadeira luz aos seus fiéis – mas vê-lo passível de ser tratado, segundo a capenga teologia de algumas seitas, como uma espécie de demonhão africano, esta é de pasmar! E é de se perguntar: como uma visão tão natural e bela da Eucaristia, no coco, poderia ser inspirada por algum ser infernal?! Só na cabeça de gente sem ideias, sem compaixão nem reflexão: algumas das quais, por sinal, reunem-se num suntuoso templo que, em Salvador, é apelidado de “Casa da Moeda”...
Das ruínas de Salvador, uma fênix pode se levantar, já que nem tudo está perdido por lá. Certa tolerância, para não dizer um quase ecumenismo, ainda prevalece ali. Que as reflexões do grande Volney (citado em crônica anterior) finquem raízes. Que os povos as leiam. Que os fanáticos retratem-se. Que as ruínas, todas elas, recuem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de novembro de 2011].

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas: Parte II – Seguindo alguns rastros literários, na falta de outros

Um dos maiores desserviços prestados pelos professores de Literatura manifesta-se quando tratam daquela meia dúzia de páginas, pouco mais ou pouco menos, da Carta de Pero Vaz de Caminha, classificada, segundo vários deles, como “certidão de batismo da terra brasileira”, ou, ainda pior, como a primeira obra literária de nosso povo. A Carta, mero relato burocrático que o foi, em seu tempo, mofou durante séculos em arquivos, por razão de sigilo de Estado, e sem que ninguém o lesse, até 1817, pelo menos. Sua relevância, digamos, literária, é menos que nada. Ninguém pensou o Brasil, durante trezentos e tantos anos, a partir daquela carta. Um único verso ou página sequer de nossa história, neste período, foi baseado em sua leitura. Todavia, pensando nela, e no registro dos primeiros habitantes deste país, é chocante verificar que em Salvador não se observa qualquer indício da presença indígena. É como se eles não existissem, no passado ou no presente. Tudo parece ser vinculado apenas e tão somente à ocupação lusitana ou à mescla afrobrasileira, com predominância da africana sobre a brasileira. Para que se tenha uma ideia, segue aqui um exemplo. Uma amiga, percussionista, encomendou-me um maracá, autêntico instrumento indígena, posteriormente incorporado a certas religiões afrodescendentes que sofreram influências, aqui, daquelas culturas autóctones. Encontrei-o, é claro, sem muita dificuldade. Dificultoso foi, no entanto, ter que ouvir do vendedor o quanto aquele objeto era de origem africana, relacionado a não sei mais qual orixá, etc, etc, etc.
Também de Castro Alves, que nomeia uma praça e um teatro e, quiçá, uma rua ou avenida, não permanecem quaisquer indícios, seja de sua pessoa ou de sua obra. E isto é, de certa maneira, até justo em relação à sua memória, ainda que tal prodígio se dê por ínvios caminhos. Pois choraria de dor o mulato poeta d’O Navio Negreiro e Vozes d’África ao ver que os negros ainda se encontram na base da pirâmide social e, quanto mais escuros, mais próximos daquela base, mais escorchados, mais infelizes e mais miseráveis.
Não se veem mais em Salvador, também, os personagens de Jorge Amado. Nem com muito esforço de imaginação enxerga-se nos raquíticos meninos viciados em crack, que nos abordam, uma pálida sombra dos “capitães da areia”. O Elevador Lacerda parece uma Galeria Prestes Maia melhorada. Não há mais coronéis, doutores e rábulas de terno branco. As baianas de turbante restringem-se às agentes de restaurantes, caçando fregueses na rua, e a uma ou outra vendedora de Acarajé, no circuito turístico. Os padres não trazem mais batinas, nem os monges, hábitos. E não avistei um único bêbado boquirroto vagando pelas ruas. Tudo é passado na obra daquele escritor, cuja casa, segundo me informaram, está à beira do desmoronamento: seus ricos herdeiros esperam verbas públicas para a restauração da mesma...
Por outro lado, Vieira e Gregório de Matos parecem nos acompanhar em cada passo, do Pelourinho à Barra, da Cidade Baixa ao Bonfim, e pelo Comércio, e para qualquer lado que se vá. De Vieira, há até resquícios, podemos dizer, físicos. Lá está ainda, ou assim é apontada, a cela onde viveu, num anexo da Catedral Metropolitana. Ou melhor, em parte do que era o antigo Colégio dos Jesuítas, por que o grosso dele se transformou na Faculdade de Medicina – que, hoje em dia, frise-se, não funciona mais ali. E a própria Catedral, que era a igreja dos Jesuítas, a esta posição só foi elevada depois que a primeira foi demolida, em 1933 (como disse anteriormente, pensa-se todo o tempo em algo ao mesmo tempo mais e menos do que uma árvore...). Mas, como dizia, indica-se, lá, a cela onde teria vivido o Padre Vieira em seus últimos anos em Salvador. Lá está um púlpito do qual, supostamente, ele teria pregado (não nos é informado de que local ele foi retirado) e a sua cadeira (de cujo uso, se particular ou público, também não há registro). Mas a força de seus sermões parece repercutir em nossa memória, seus libelos quanto à ganância, contra a opulência criminosa, contra a frieza do coração dos poderosos frente aos negros explorados, parecem nos acompanhar a cada passo.
Ao se contemplar os suntuosos prédios do Corredor da Vitória, ou do Campo Grande, frente às tétricas e miseráveis moradas da não tão distante Ladeira da Preguiça (cujo nome deveria ser Ladeira do Desconsolo), não há como não lembrar dos versos do Boca do Inferno: “Estupendas usuras nos mercados,/todos, os que não furtam, muito pobres,/ e eis aqui a cidade da Bahia”. Da mesma maneira, se alguém se quiser alijar da forçada alegria que se cobra em toda praça, e se pretender uma visão séria e crítica do todo, lá vem os versos: “Quem cá se quer meter a ser sisudo/ Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,/E é mais aperreado que um cornudo”. E por aí vai. Mas a presença física, por assim dizer, do poeta, não há. Existe uma rua Gregório de Matos, mas que ele tenha morado ali, ou que o prédio ainda se conserve, é quase impossível saber.
E por falar num Gil, lembrei de um outro mais recente, e de sua trupe, e de seus contemporâneos ou precursores. Pois é, anda-se pelas ruas de Salvador e não se escutam ecos, nem entramos no clima, das músicas de Gil, Gal, Bethânia, da família Caymmi, de João Gilberto ou dos Novos Baianos. Aquela Bahia brejeira, da meiguice e da malemolência, é coisa definitivamente do passado. Por toda a parte, é só axé e suas musas – de uma delas, aliás, aquela tão onipresente na mídia quanto um ditador comunista de outrora (vejam a crônica de 11 de junho de 2011), não há motorista de táxi que se não lhe aponte o prédio onde ela mora, como, presumo, só se faça o mesmo com a casa dos chefes de Estado. No mais, escuta-se a batucada do Olodum, ou de suas franquias, ou legiões ou coortes, que embora muito bem executada, nada tem de alegre. Pois, convenhamos, é muito mais marcial do que dobrado de banda de música e ressoa a marcha militar. A única exceção audível em tal cenário é Caetano, pelo menos aquela canção que fala que “o Haiti é aqui”. Como tema de fundo, ela é quase onipresente, sobretudo no Pelourinho e nas partes menos afortunadas...
Voltando aos assuntos sérios, no que diz respeito às belas artes, que o visitante percorra suas igrejas e museus em busca do nome do artista por trás de uma pintura, de uma escultura, do arquiteto responsável por uma grande obra do passado. Quando encontrar uma sucinta ficha catalográfica, comemore, exulte, solte rojões. Mas que não ouse sair em busca de livros a respeito, pois os que existem há muito estão fora de catálogo, remontando aos anos 1960. Não há novos estudos. Não há nada.
Os historiadores dos anos 1940 e 1950 diziam que, no tocante aos acervos documentais do período colonial lusitano, a África era um verdadeiro “cemitério de papéis”. Pois bem, neste ponto, certamente, Salvador revela-se, sem sombra de dúvida, uma fidelíssima seguidora das tradições africanas que tanto apregoa, um lugar de rica memória oral e quase nenhuma escrita, a ponto de seus antigos monumentos chegarem, pouco a pouco, a desaparecerem ante nossos olhos sem que deles se conserve, sequer, o nome.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2011].

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final

Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caçando lobisomens – Parte I

Agosto tem o dia do Folclore, data que prezo, e que me escapou neste ano. Mas como nunca é tarde demais para certas coisas, seguem aqui uns causos, não de ouvir falar, mas de ler em boa letra impressa. Causos de lobisomem, esta figura do folclore, como aprendemos, ainda que exista quem jure de pés juntos que já viu um. Lembro-me de um velho conhecido meu, hoje Doutor pela USP, que me garantia por a + b que seu pai não só caçara lobisomens, lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, como teria várias fotografias dos mesmos. Não duvido, apesar da ausência de provas documentais. Pois o irmão daquele meu antigo confrade, doutorando pela Unicamp, não é de hoje que tem publicado artigos sobre os monstros na Literatura em influentes revistas universitárias: em suma, aquela família tem lá os seus segredos. Mas antes de tratarmos dos referidos causos, que os leitores me permitam um intróito.
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falatório das listas de livros do vestibular

Aproxima-se uma nova lista de livros cuja leitura será exigida dos vestibulandos de USP e Unicamp. Tal mudança implica uma série de consequências, mais ou menos curiosas. Em primeiro lugar, os títulos descartados irão inundar as prateleiras dos sebos e alfarrábios, vendidos por uma ninharia. Em segundo lugar, os novos sairão a peso de ouro, e pequenas editoras publicarão exemplares de obras cujos direitos já caíram em domínio público, com as costumeiras deficiências de sempre: edições mal cuidadas, notas pueris, análises claudicantes, etc. Em terceiro lugar, as comissões avaliadoras dos vestibulares, responsáveis pela mudança, receberão uma chuva de impropérios e anátemas dos professores preguiçosos de cursinho e ensino médio, visto que estes terão de reler (quando não ler pela primeira vez) o tal “clássico” que ora adentra na relação. Mas, em terceiro lugar, as supraditas comissões serão envolvidas por uma nuvem de bons votos, emanados de todos aqueles profissionais que não aguentam mais repetir as mesmas análises, os mesmos discursos, sobre as mesmas obras, já lá se vão três anos.
Minha cunhada, que é professora de Literatura, e eu, que gosto da área e mais ainda quanto à me manifestar sobre este assunto, trocamos algumas ideias sobre o que viria na futura lista. Apostamos, por alto, que virá algum livro do Drummond e da Clarice Lispector (está na moda); São Bernardo, do Graciliano Ramos; nos retornos d’A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado, e d’O Primo Basílio, ou d’O Crime do Padre Amaro, do Eça, sem falar em Marília de Dirceu, do Tomás Antônio Gonzaga. Arriscamos ainda algo do Castro Alves e do Guimarães Rosa. Mas são meras suposições, evidentemente.
O que nos inquieta é a eterna recorrência dos mesmos títulos e autores, como se a literatura brasileira não tivesse outros nomes e obras. E assim retorno a um tema caro, que já tratei numa crônica de 15 de novembro de 2008. Trata-se do resgate de certos clássicos, relegados pelas autoridades a um papel menor e da necessidade de salvá-los do esquecimento. E uma das melhores maneiras para tal seria sua leitura e debate.
Por que, só para ficarmos na antiga literatura portuguesa, não entram na lista Francisco Sá de Miranda, ou O Lima (1594), de Diogo Bernardes? Ou ainda a poesia, ou o teatro, ou os apólogos dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, cujo Hospital das Letras, de 1657, é tido como a primeira obra de crítica literária consistente escrita em português? Sem falar na Fênix Renascida e no Postilhão de Apolo, compilações dos melhores poemas barrocos portugueses. Ou, mais para frente no tempo, em excertos da Nova Floresta (1710-1728), do Pe. Manuel Bernardes?
Por que não, quanto ao período colonial, uma peça do Padre Anchieta ou uma do Antônio José da Silva, o judeu? Ou as Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), do paulista Matias Aires, considerado por muitos o maior nome da filosofia de língua portuguesa no século XVIII? Ou o romance Aventuras de Diófanes (1777), da também paulista (irmã de Matias Aires) Teresa Margarida da Silva e Orta, reputada como a primeira mulher a escrever ficção em nosso idioma? O orgulho pátrio não seria exaltado com a escolha de tais obras? A preeminência e pioneirismo das mesmas não valeria a sua divulgação?
Bocage é ótimo. Mas por que todo o resto do arcadismo português é repelido?
Lembremos d’O Retrato de Vênus (1821), de Almeida Garrett. Um curto poema que se confunde com uma análise estética da pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), e que causa uma verdadeira e extensa polêmica artística no Portugal de seu tempo. Diz-se que é com Camões (1825), que Garrett instaura o romantismo em terras lusas. Sou mais favorável ao Retrato para este papel. E como ambos são ignorados?
Ainda dentre os portugueses, não compreendo por que rejeitam A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro. Para além das suas qualidades literárias foi, certamente, a fonte de onde beberam – e ainda bebem, mas tais águas, nos últimos tempos, foram engarrafadas por outrem – nove entre dez ateus ou projetos de ateus falantes do português. É, portanto, literatura cara e de fácil compreensão para a juventude universitária, naturalmente questionadora.
No que se refere à literatura brasileira (posterior à Independência), as lacunas permanecem de dimensões oceânicas. Aceita-se o chatíssimo Macedo d’A Moreninha (1844), e rejeita-se o ótimo Memórias da Rua do Ouvidor (1878), em essência tão romântico como aquele, só que retardatário no tempo, qual o Aleijadinho esculpindo anjos barrocos já no Classicismo. Foge-se, qual o diabo da cruz, d’O Guesa (1884), de Sousândrade. Abrenunciam-se a todos os romances simbolistas, dentre eles o ótimo Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque. Afonso Arinos, o velho, e João do Rio, são escolhidos quase com a mesma periodicidade da passagem do Cometa Halley. E já que falamos em alegorias estelares, é de se perguntar o caso de Monteiro Lobato: seria sua obra uma anã branca, uma supernova ou um buraco negro? Porque ele está sempre presente e, no entanto, quase invisível. E, por fim, se somos eternamente obrigados a louvar a glória de José de Alencar, por que não passarmos às ótimas crônicas de Ao Correr da pena (1874), ao invés dos purgantes indigenistas de sempre? E por que não se estudar certas traduções ou transcriações? O que Odorico Mendes fez, nas suas versões da Eneida (1864), da Ilíada e da Odisséia (publicadas após sua morte, em 1874 e 1928, respectivamente), diz muito mais sobre as potencialidades do lavor poético de então do que a obra das vacas sagradas pela crítica, de ontem e de hoje.
Mas só se escolhem os mesmos e velhos nomes, que são ótimos, mas não são os únicos. Às vezes dá vontade de bradar, como o protagonista do Falatório do Ruzante de volta da Guerra (c.1529), de Angelo Beolco: Cancaro ai campi e à la guera e ai soldè, e ai soldè e à la guera! (“Raios partam os campos [de batalha], a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!”). Ou, ante a presente questão, “que se danem as comissões avaliadoras, as listas, os livros escolhidos e os livros escolhidos e as listas”. E se me permitem uma paráfrase do Ruzante, em complemento, “a mim é que não me apanham mais: vou mais é ler o que não li, e me fartar destes livros até rebentar”!
Pois não é o que todos temos vontade de fazer? Portanto, vestibulando, leia o que lhe impingirem para a prova. Mas leia, também, muito e muito mais. A bagagem que se leva para os exames é leve, e limitada no tempo. Já a que se adquire por conta própria, às vezes é pesada, mas é de valia, e prazer, para a vida inteira.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de agosto de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

Viagem sentimental à roda de meus livros – VI – O Ódio emburrece

As pessoas, em geral, têm o hábito de considerarem as palavras equívoco, engano e erro como mais do que sinônimos, as consideram, praticamente, como termos de idêntico significado, o que, é claro, não são. Há toda uma gradação entre elas, para dizer o mínimo. Por exemplo, podemos dizer que uma mulher se equivoca ao escolher um mau sujeito como marido. Que ela se engana ao pensar que ele pode melhorar, e que ela erra ao continuar vivendo com ele. Ou melhor, pensemos em Cristóvão Colombo. Quando chegou ao Novo Mundo, ele equivocou-se ao julgá-lo ser a Índia. Mais tarde ele enganou-se ao considerá-lo pouco distante da Ásia, e errou, renitentemente, ao não considerá-lo um novo continente. Último corolário: metade do mundo se equivocou com a ascensão do nazifascismo nos anos 1920-1930, julgando-o uma alternativa aceitável à inepta democracia liberal (francesa, alemã e norte-americana), ao odioso imperialismo (britânico) e ao temível comunismo (russo). Metade daquela metade se enganou ao não perceber os horrendos ataques movidos por aqueles regimes contra a liberdade e contra os direitos humanos em geral. E uns tantos ainda erram ao julgarem tais formas de poder como viáveis e justas – sim, é de pasmar, mas há ainda quem pense assim.
Fazendo-nos valer do último exemplo, ele traz à memória o Integralismo, a nossa versão tapuia do Fascismo, encarnado na figura de Plínio Salgado (1895-1975), um bom escritor que se tornou um mau político. Todo mundo associa, prontamente, os galinhas verdes (como eram chacoteados, pelo uso das camisas daquela cor, e por seu comportamento de bando, cacarejando as verdades ditas pelo galo,) ao seu líder máximo, mas muita gente tida como boa foi integralista ou flertou com aquele movimento. Tais foram os casos, dentre outros, dos escritores Augusto Frederico Schmidt, Gerardo Mello Mourão, Ribeiro Couto, José Lins do Rego, Adonias Filho e Madeira de Freitas (o Mendes Fradique, autor da História do Brasil pelo método confuso), dos historiadores Hélio Viana e Américo Jacobina Lacombe, do jurista Miguel Reale (ideólogo máximo do Integralismo, além de conterrâneo de Plínio Salgado) e de quatro insuspeitáveis senhores: o político San Tiago Dantas, o mais tarde cardeal Dom Hélder Câmara e o poeta Vinícius de Morais. Desta claque fazem ainda parte o folclorista Câmara Cascudo e o escritor e historiador Gustavo Barroso.
Câmara Cascudo, como escritor e pesquisador, assemelhava-se a um caçador que encontra um coelho minúsculo, onde ninguém avistou nada, desentoca-o e o abate com um tiro de fuzil! Foi um caso raro de alguém que se equivocou, se enganou e errou politicamente até o fim da vida, apoiando, até seu último sopro como vivente, a Ditadura Militar de 1964. Mas Gustavo Barroso foi ainda mais além. Se não viveu para assistir ao golpe, morreu como um empedernido defensor das ditaduras (a última foi a de Salazar) e um declarado antissemita. Seu caso é muito mais de um erro, permanente e reiterado, do que de equívoco ou engano. Duvidam? Pois vejam. Dizem que o Diabo é o pai do erro. Prefiro a máxima que afirma que “errar é humano, perdoar [ou corrigir-se] é [dom] divino, e persistir no erro é diabólico”. Porque o ódio por uma etnia, cultura, religião é tão certamente um erro quanto igualmente diabólico. E, o que é quase tão grave quanto, o ódio emburrece. E o antissemitismo, ou antijudaísmo de Gustavo Barroso, certamente o emburreceu.
Li, recentemente, o primeiro volume de sua obra História Secreta do Brasil, no qual ele atribui todas as mazelas sofridas por nosso país, do descobrimento às vésperas da Independência, a uma conspiração judaica para a dominação do mundo e exploração dos povos. Os mesmos argumentos defendidos pela imbecil e criminosa falsificação literária (já largamente demonstrada enquanto tal) que são Os Protocolos dos Sábios do Sião (nem um pouco coincidentemente editados e publicados por Gustavo Barroso, em 1936, um pouco antes de livros de sua autoria com escancarados títulos tais como A Sinagoga Paulista (1937), A Maçonaria: Seita Judaica (1937) e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo (1937).
Pois bem, a burrice odiosa, ou o ódio burro de Gustavo Barroso, subverte o que de mais importante ele pretendia na sua História Secreta: o convencimento do leitor. Porque, de fato, ele, em grande parte, nos convence da presença judaica nas terras do Brasil muito antes mesmo que este recebesse o seu nome. Tal seria o caso, por exemplo, de João Ramalho, genro do cacique Tibiriçá (demonstrado, anteriormente, por Teodoro Sampaio, Orville Derby e Horácio de Carvalho, dentre outros, na Revista do IHGSP, v. VII, 1902, pp. 255-368 – meu exemplar da mesma edição pertenceu ao ex-governador/presidente estadual de São Paulo Bernardino de Campos, mineiro de Pouso Alegre). Barroso também afirma (baseado quase que exclusivamente em Solidônio Leite, que ele considera um defensor entusiástico dos judeus – e, no entanto, o cita...) que o capital empregado na exploração do pau-brasil e, posteriormente, na produção da cana-de-açúcar, bem como seu comércio e distribuição pela Europa, além do utilizado no tráfico de escravos era proveniente dos cristãos-novos (judeus batizados à força e que, não necessária ou suficientemente, abraçaram a fé cristã). Aos judeus também atribui, de um lado, os planos da invasão holandesa no Nordeste, e, por outro, a facilitação para tal fim promovida pelos cristãos-novos da mesma região, que atuavam como espiões. E mais ou menos conclui o primeiro volume, alegando que os judeus, controladores do comércio de diamantes no mundo – que, se não é um fato completo, é 99% dele) – desvalorizavam os brilhantes brasileiros, pagando por eles uma mixaria aos portugueses e faturando alto nos mercados europeus.
Não há como discordar de muitos dos argumentos apresentados por Barroso. Salvo que, em primeiro lugar, onde ele vê cobiça, podemos entender como pioneirismo. Onde enxerga exploração, talento empreendedor. Conspiração? Por que não uma eficiente organização comercial? Depois, tanto o tráfico negreiro, quanto a baixa avaliação das gemas e brilhantes, que não provindas das possessões orientais inglesas – como até hoje tal se verifica, no caso das pedras – se deram por responsabilidade absoluta dos ingleses (e, note-se, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, retornando somente por volta de 1656 – o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, portanto, foi construído estritamente na base de um estereótipo, não da observação factual do autor).
Por fim, o que mata a intenção – maléfica – de Gustavo Barroso são os seus recorrentes comentários à perfídia dos judeus, à sua covardia, usura, despotismos, crueldades, canalhices várias, seus complôs demoníacos, suas degenerações morais supostamente plasmadas em seus corpos e feições. Em suma, não dá para engolir. Quando estamos quase convencidos de sua tese, ele nos afronta com as generalizações mais grosseiras e vulgares, avessas figadalmente à ética científica e moral, à lógica, à História enquanto disciplina, enquanto registro dos fatos e gênero literário, em suma, a toda e qualquer retórica plausível. Seu ódio o emburreceu.
É lamentável o esquecimento a que foram relegadas as obras de Barroso relativas à colonização portuguesa na Ásia, ricas de informações e análises. Por outro lado, se um homem pode ser medido por sua obra, ele recebeu aquilo que merecia. Um tácito esquecimento. E que assim seja!


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 26 de março de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – IV – Editores à força

Na semana passada, tratei de sebos, físicos e virtuais, que têm ótimos acervos, enriquecidos por muitos títulos. São, todos eles, alternativas eficientes para quem procura verdadeiras raridades, ou até livros mais comuns, e não têm como pagar por eles, nem acesso à bibliotecas que os emprestem, até mesmo por não terem exemplares da referida obra.
Mas aqueles que procuram raridades fora de catálogo, devem recorrer a sítios interessantes como o www.books.google.com e o – na minha opinião, muito melhor – www.archive.org. O primeiro tem dois defeitos: um de natureza moral, outro de natureza técnica. Do ponto de vista moral porque sua ação sobre os acervos, e seu critério de cópia, são altamente excludentes e monopolistas. Robert Darnton, historiador americano que é, atualmente diretor da biblioteca da prestigiadíssima Universidade Harvard, tem falado exaustivamente quanto a isto. E, do ponto de vista técnico, ressente-se, o books.google, do fato de que muitos dos livros que anuncia só podem ser visualizados (por que não lidos?) parcialmente. Já o segundo, além das riquíssimas obras que possui, tem uma apresentação impecável e total dos volumes, que podem ser baixados de várias maneiras. A ponto de, para quem tenha certa preguiça ou desconforto em ler na tela do computador, poder imprimi-las e, quem sabe, encaderná-las, rumo à coleção incompleta que grita nostálgica da estante. Ou, também, a uma nova a ser criada, naquele nicho onde se abrigavam Ian Fleming, a Enciclopédia do Comércio, etc.
Caso alguém queira optar pelas reimpressões, elas não saem muito caras, graças às novas técnicas e à concorrência entre quem oferece tais serviços. Há, inclusive, uma editora norte-americana – Kessinger Publising Rare Prints (www.kessinger.net) – que publica um sem fim de raridades, a grande maioria em língua inglesa, as quais podem ser adquiridas pelo próprio sítio ou por outras de importação. Mas o preço sobe às alturas, graças ao envio e à tributação. O irônico da coisa toda é que muito do que eles publicam é retirado diretamente do Google books, imagem por imagem, e com as falhas que este sistema de cópias de livros reproduz ad nauseam.
Neste ponto poderia ser concedida uma trégua aos pesquisadores. Eu mesmo já me meti em arquivos, fotografando livros, cujas condições eram das mais infelizes. Tente-se manusear um livro de trezentos anos, calçado de luvas cirúrgicas. No rosto, uma máscara de mesma função. A temperatura ambiente elevada, fazendo a testa porejar o suor adquirido durante dias de má alimentação e pior hospedagem. O tempo correndo até o quase sempre iminente fechamento do acervo – decorrente da espera, interminável, até que se encontrem a obra, e do horário do almoço dos funcionários, sempre dilatável. A mesa, ou atril, onde o volume que nos é exposto, não correspondendo às mínimas noções de ergonometria ou conforto. E a iluminação, parca. Misture tudo isso e acrescentem a dificuldade no manejo de uma sensível câmera fotográfica digital, pelas mãos cujo tato foi prejudicado pelas luvas . Sem falar que não se manuseiam livros tão antigos como se fossem uma lista telefônica. Moral da história: passado um certo tempo, qualquer um pensa em se dedicar a outro ramo de atividades. São raros, aliás, os pesquisadores de acervos religiosos que não se tornem ateus ou agnósticos – e violentamente anticlericais – depois de um certo tempo, tal o montante de imposições, restrições e suspeições que são levantadas em torno de quem pesquisa. Os poucos que se livram de tais achaques são os membros da famiglia. Mas pouca gente lê o que eles escrevem, tal o aspecto ínfimo de seus trabalhos, em geral sonsas e soníferas cronologias das ordens religiosas, encômios a um Frei Fulano ou Bispo Beltrano de quem ninguém mais lembra e só.
Porém, retornando aos sítios provedores de obras raras, as quais são essenciais para o conhecimento geral de nossa cultura ocidental, recomendo a todos que busquem tais fontes. Um sem fim de documentos encontram-se ali, à nossa disposição. A bibliografia mais rara, os estudos mais distintos e vários, encontram-se ao alcance de poucos “cliques”.
Não há, portanto, qualquer motivo para que se diga, em nosso país, que os livros são inacessíveis pelo seu custo. Que compreendam isto os leitores, mais ou menos relapsos, os professores preguiçosos, os bibliotecários ineptos e os administradores da coisa pública iletrados, diante das verbas que têm de gastar nas pastas de “Educação e Cultura”. Livros são caros apenas para aqueles que não gostam de ler. Quem gosta, de fato, troca a picanha e a cervejada por eles. Um bom livro é melhor do que a melhor iguaria servida à mesa, e sustenta uma pessoa, moralmente, muitíssimo mais do que mil porcos no rolete, destes que são assados em cerimônias políticas, para o contento do eleitorado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de março de 2011].