Já tratei neste espaço da chamada “Primavera árabe” (19 de março, Pausa para reflexão) e da queda e do linchamento do tirano líbio (22 de outubro passado, Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro).Mas eis que agora, com felicidade, tratarei da derrocada de um amiguinho de todos aqueles déspotas da mourama, o sultão Berlusconi.
Quando este magnata da televisão e imprensa italiana ascendeu ao poder, foi tratado como uma espécie de Sílvio Santos taciturno, porém mais bem sucedido financeira e politicamente do que nosso prestamista televisivo. Tão histriônico quanto seu xará brasileiro, Berlusconi era famoso por suas caras e bocas, muitas das quais lembravam as do execrado ditador Mussolini, seu conterrâneo. Mas boa parte da grande imprensa daqui parecia se recusar a ver isto. A mesma grande imprensa pátria que, diante de sua queda, parecia não se dar por achada, publicando trivialidades nas capas de suas principais revistas. Uma estampava: PEREIRÃO, ESSE [sic] MULHERÃO; outra Coma POUCO Viva MUITO (assim mesmo, sem vírgula); e ainda outra ETERNAMENTE JOVEM. E nem uma menção sobre Berlusconi na capa. Somente Carta Capital, a cada dia melhor, estampou o priápico régulo italiano, logo abaixo de seu título. Daí ser justa, justíssima, a consideração de seu editor-chefe, Mino Carta: “Veja, Época e IstoÉ parecem editadas, nem digo em outro planeta, em outra galáxia” (Carta Capital, 23 de novembro, p. 22).
A alcunha de Sultão cabe muito bem ao defuncto premiê italiano, segundo as várias denúncias quanto à sua pessoa e seu governo. Qual um déspota do Oriente, ele parecia não fazer distinção entre o público e o privado, gerindo o que era de todos como se seu o fosse. Fazia-se rodear por uma corte de acólitos, escolhidos a dedo, que referendavam e cumpriam suas ordens. Minou as instituições públicas, impondo sua vontade pessoal sobre elas. Reivindicou para si leis e privilégios especiais. Criou monopólios exclusivos seus, abocanhando mesmo o patrimônio do Estado. E chegou ao cúmulo de manter uma espécie de harém itinerante, com beldades escolhidas, algumas menores de idade, provindas de toda parte, brasileiras inclusive (dizem que até um brasileiro transexual, ou quase, talvez a versão moderna de um eunuco, fez parte de algum seu efêmero serralho). Ora, e tudo isto não evoca um sultão?
Fica-se imaginando qual será o seu destino. Acredito que, em breve, uma enxurrada de processos o cobrirá até o pescoço, senão mais além. E não serão brandos como os de cá. Estes, quando pegam um político, acusam-no de uma simples formação de quadrilha, o mesmo delito dos trios responsáveis pelo conto do vigário, atualizado no golpe do bilhete premiado. Na Itália, que lida com a máfia e congêneres, as leis contra o crime organizado são severas. E justas perante aos olhos da sociedade. Daí ser bem possível que Berlusconi e seus bilhões passem a levar uma vida nômade, como também em grande parte o fizeram os ex-presidentes Idi Amin Dada, Bokassa, Baby Doc, Carlos Salinas de Gortari e Alberto Fujimori. E que em boa companhia ele estaria! Mas mesmo que se livre das acusações, corre o risco de ter um fim semelhante ao de Pinochet: ser preso em terra estrangeira, por crimes cujo âmbito extrapolam as fronteiras nacionais. Mas, como disse anteriormente, evito os exercícios de futurologia. Só arrisco dizer que, acredito, pelo menos uma parte do que ele merece, ainda há de receber. E não é em dinheiro não, que este ele já acumulou de sobra, das maneiras mais descaradas quanto obscuras possíveis, segundo se afirma.
Porém uma correção tem de ser feita diante do muito que se assaca contra ele. Berlusconi foi acusado de ser altamente maquiavélico. De fato ele o foi, mas somente na caricatura do termo, a partir de uma leitura apressada que interpreta o maquiavelismo se como fundamentado quase que tão somente no princípio de que “os fins justificam os meios” e de que uma outra ética regeria os homens públicos, diferentes dos cidadãos comuns – já ouvimos este refrão, não faz muito tempo, em solo pátrio, como se tal se tratasse de uma absoluta novidade...
Pois o milanês Berlusconi nunca foi um bom seguidor do florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), nem de seu O Príncipe (1532, edição póstuma), porque destes só observou um conceito enviesado da virtù (a grosso modo, “virtude’), interpretando-a não como uma capacidade de adaptação aos fatos políticos que permitiria a permanência no poder, mas sim a existência de uma possibilidade de manipulação política dos fatos, para a conservação do poder. E, acostumado a tal conduta, nela perseverou, a ponto de não observar a mudança das coisas, quando elas se deram, e que provocaram sua queda.
Assim, também, ele ignorou outro ponto crucial da doutrina de Maquiavel, análogo à virtù: a fortuna (aqui é fortuna, mesmo, no sentido de “sorte” ou “fados”) e sua roda, sempre a girar, elevando uns e rebaixando outros: toda aquela soma de aspectos cambiantes, e absolutamente inevitáveis, que podem abater qualquer um, do rei ao pobre, da rês ao nobre. Talvez a tenha interpretado como a sua fortuna pessoal (aqui, monetária e financeira), achando que a mesma o livrasse dos caprichos da verdadeira Fortuna, esta implacável. Em suma, para o bem ou para o mal, Berlusconi foi canhestramente maquiavélico: não foi nem um príncipe perfeito, aos moldes do que preconizava aquele, nem sequer um bom leitor d’O Príncipe. E pagou por isto, e torçamos para que pague muito mais, por tudo o que fez e deixou de fazer.
Maquiavel era um florentino, agregado à poderosa família Médici que governou por muito tempo aquele ducado. Viviam eles às turras com a família Sforza, duques de Milão. Lá no Inferno, onde, segundo dizem, o autor d’O Príncipe se encontra desde sua morte, ou seja lá onde estiver, acredito que ele está dando gargalhadas pela queda do milanês Berlusconi.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de dezembro de 2011].
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