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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônicas Baianas – Parte IV: O Oxalá eucarístico, ou o Cristo demonizado

Pouca gente atenta para a etimologia das palavras, ainda menos se latinas, e ainda em menor número aos nomes científicos que, para muitos, parecem existentes desde sempre, quando não ditados por um Deus absoluto, ou pelo tagarela Adão, louco para nomear o tudo e o nada. Assim como o Primeiro teria dito Fiat lux (“faça-se a luz”) et facta est lux (“e a luz se fez”), o segundo, no julgar de muitos, provavelmente também exclamara, num momento desprezado pelos cronistas bíblicos, fiat camelus dromedarius, e o dromedário se fez, pronto e acabado, com nome científico e tudo, e à mesma feição de hoje em dia. Ou, como pensam outros, atendo-se às fontes, Javé fez o o bicho tal como ainda o vemos: coube ao ignaro Adão dar um nome à besta. Quanto ao idioma escolhido para nomeá-lo, séculos de estudos sobre o tema jamais chegaram a um ponto pacífico. Mas os fundamentalistas norte-americanos têm convicção de que a língua era a inglesa...
Assim, portanto, não é uma surpresa para muitos o significado da palavra passiflora, que denomina um gênero botânico de cerca de 500 espécies que tem no maracujá a mais conhecida delas. Um etimólogo tresloucado, falsamente estribando-se na lógica, explicaria a origem da seguinte maneira: “ora, o suco de maracujá acalma, torna a pessoa pacífica, passiva, ou apaziguada, portanto passiflora deve significar a flor (daí flora) e seu fruto, que traz a paz... ou algo assim”. Uma explicação tão bonita quanto errada, ainda que muita gente acredite piamente nisto. Pois passiflora significa, literalmente, “flor da paixão”. É por este motivo, aliás que, em francês, o fruto do maracujá se chama fruit de la passion (“fruto da paixão”). O mesmo etimólogo amalucado juntaria os termos “francês” e “paixão” (quem sabe se lembrando de que a expressão dá nome a uma marca de roupas íntimas femininas), e pensaria em arrebatadoras cenas românticas, quando não fortemente carnais, envolvendo sedas, champanhe, cama, etc., e até convertendo o maracujá em afrodisíaco, quem sabe.
O que pouquíssimas pessoas sabem – e que o nosso amigo meio passado das ideias jamais descobrirá – é que a paixão a que se refere o nome da flor vem a ser a Paixão de Cristo. E tal se deve ao fato das pretensas semelhanças encontradas, por missionários jesuítas da América do Sul, entre a flor do maracujá e elementos do martírio de Jesus: pois, segundo eles, o pistilo, os desenhos da corola e várias peças florais assemelhavam-se à coroa de espinhos, ao martelo e aos pregos da Crucificação – e a cor roxa do interior delas, à do luto litúrgico católico. Nascia, assim, a passifora, cujo primeiro registro encontra-se na Historia medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias Occidentales (1565-1574), do botânico espanhol Nicolás Monardes (1493-1588).
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
O leitor deve estar se perguntando o que quero dizer com tudo isto. Pois bem, minha intenção é revelar um mundo não muito distante em que tudo era encantado, o mesmo que permitiu ao poeta Cláudio Manuel da Costa vislumbrar na banana o fruto da Árvore do Conhecimento: pois, afinal, ao se cortar uma banana em rodelas, vemos, em seu interior, uma cruz. Em suma, mesmo na queda do Homem, já estava prevista a sua Salvação, como pregam as tradições religiosa e literária.
Na Bahia, esse encantamento do mundo ainda é, em boa parte, presente. Daí que o Cristo, ou o Senhor do Bonfim , é representado no candomblé pelo coco. Trata-se de uma adaptação realmente engenhosa e altamente lírica. Pois sem conhecerem a ideia do Livro de Deus (a Bíblia) e do Livro da Vida (o mundo), e suas correspondência (uma noção que justifica o tratamento dado outrora aos já citados maracujá, abacaxi e banana), sem conhecerem a escolástica, nem Alain de Lille (c. 1128-1202) e seu Rhythmus de incarnatione Christi, nem São Boaventura de Bagnoreggio (1221-1274) e seu Breviloquium, nem mesmo nada de Roger Bacon (1214-1294), procuraram a confirmação das Escrituras nas coisas do mundo, de seu mundo próximo e tangível. E, assim, a carne e o sangue da Eucaristia (Lc 22:19-20, Mt 26;26-29, Mc 14:22-25 e I Co 11:23-26), converteram-se na polpa e na água do coco! Desnecessário é dizer que o coco confunde-se com o crânio humano e, pronto, temos a referência ao Calvário e ao crânio de Adão sepultado em seu sopé. E depois chamam isto de sincretismo... Qual o quê! É pura interpretação alegórica, aplicada aos elementos que estavam à mão. Além de sumamente inspirado. Não tenho dúvidas, apesar da falta de registros, de que os jesuítas, excelentes pedagogos no passado – que celebraram missas em que as hóstias eram feitas de farinha de mandioca, no Brasil, e de arroz, na China, pelo profundo significado cultural que possuiam tais alimentos em tais ambientes –, se não referendassem a apropriação do coco como símbolo eucarístico, ao menos o tolerassem com benevolência.
Hoje em dia há seitas, proclamadas igrejas que, numa espécie de teologia reversa, na falta de uma própria, subvertem as de outrem, empregando termos alheios com sentido trocado, por sua incapacidade intelectual de formular os seus, para não dizer que tal se dá graças ao mutismo do Espírito Santo, que não lhes assopra ao ouvido nada de novo (mas este não é o meu campo). Estas congregações religiosas afirmam que os rituais afrobrasileiros são ditados pelo demônio. Segundo elas, todos os orixás seriam diabos. Assim, Oxalá, a interpretação africana do Senhor do Bonfim, seria, na verdade, uma criatura infernal! Ora, já vi, ou li, diversos tratamentos dados a Jesus – diábolos, foi um deles, na medida em que Ele acusava os erros anteriores e lançava uma nova Ordem; e Lúcifer também, por trazer a verdadeira luz aos seus fiéis – mas vê-lo passível de ser tratado, segundo a capenga teologia de algumas seitas, como uma espécie de demonhão africano, esta é de pasmar! E é de se perguntar: como uma visão tão natural e bela da Eucaristia, no coco, poderia ser inspirada por algum ser infernal?! Só na cabeça de gente sem ideias, sem compaixão nem reflexão: algumas das quais, por sinal, reunem-se num suntuoso templo que, em Salvador, é apelidado de “Casa da Moeda”...
Das ruínas de Salvador, uma fênix pode se levantar, já que nem tudo está perdido por lá. Certa tolerância, para não dizer um quase ecumenismo, ainda prevalece ali. Que as reflexões do grande Volney (citado em crônica anterior) finquem raízes. Que os povos as leiam. Que os fanáticos retratem-se. Que as ruínas, todas elas, recuem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de novembro de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Machos medrosos não são bons para a continuação da espécie

O Dia do Orgulho Heterossexual é a maior aberração política, social e cultural que já vi em toda a minha vida. Declaro isto solidamente plantado na minha condição de homem, heterossexual, historiador, leitor e pesquisador, culturalmente católico e, como tal, aberto à tolerância e à inclusão – em suma: jamais um defensor dos preconceitos.
São Paulo se jacta de sua modernidade, de sua riqueza, de seus avanços e, no entanto, muitas vezes se comporta como uma vila dos grotões, elegendo umas figuras arcaicas, metidas a coronelões, ou párocos de antigamente, destes que só devem existir ainda em reprises de telenovelas. E não é só na cidade, não. Nosso Estado vem sendo governado e representado (na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados) por umas criaturas que parecem ter saído de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva. A única diferença é o sotaque. Trata-se do triunfo da caipirice naquilo que esta tem de pior: uma atração por invencionices novidadeiras que ofuscam a visão do verdadeiro atraso em que se vive. Pensa-se Nova Iorque, mas não passa da Itaoca criada por Monteiro Lobato. Ou uma Síria metida à França. Pois esse tal de “Dia do Machão” parece coisa de fundamentalista islâmico, gente de um livro só, pronto para ser invocado – ou sacado, como um revólver – diante de cada episódio da vida, e aplicado na sua inteira literalidade.
Talvez mesmo se tratem de fundamentalistas, mas de outras igrejas, os que estavam por trás – ops! – da referida lei. Quais serão as novas conquistas sociais, por força de normas, que tentarão nos empurrar? O apedrejamento de blasfemos (Levítico 24:22-23) ou de mulheres que não cheguem virgens ao casamento (Deuteronômio 22:20-21)? Ou ainda um “Dia do Orgulho Careca”, em que será celebrada a intervenção de Deus, na forma de dois ursos, que despedaçaram quarenta e dois meninos, os quais teriam zombado da calva do profeta Eliseu (2 Reis 2: 23-25)? Terá direito à marcha pela Avenida Paulista e carro alegórico, puxado por um cordão de carecas, onde vermos os ursos, o profeta e as crianças em pedaços?
Brincadeiras à parte (brincadeiras bem sérias, diga-se de passagem), este monstro parido por vinte e oito homens e três mulheres, concebido sabe-se lá como, é algo de horrorizar por um motivo muito claro. Ele se apoia falsamente na ideia de que numa democracia todos têm o direito de manifestação pública de seus pensamentos e defesa e acolhimento das mesmas pelas instituições. Valendo-se deste preceito, o nazismo, o racismo e a xenofobia poderiam também se fazer ouvidos, acatados, defendidos, etc. Algo do que até uma pessoa de poucas luzes, mas bondosa e honesta, discordaria.
Claro que nem todo heterossexual é preconceituoso, pelo contrário, dentre eles este que vos escreve. Mas a criação de uma data para celebrar o seu orgulho soa à provocação e desconsideração por parte dos que não se incluem nesta categoria. O que é muito diferente dos casos de um Dia da Mulher, do Orgulho Negro ou do Orgulho Gay, estes sim, vítimas de preconceitos e violências de homens heterossexuais (ou que assim dizem ser) e brancos. Ora, parafraseando uma música de Caetano Velloso, mas conservando o seu sentido original, “o macho adulto branco” não esteve sempre no comando? Então por que agora ele parece se sentir acuado? Ui, que meda...
Esta questão de orgulho cheira mal também por uma outra coisa. Sempre acreditei que um indivíduo só pode se orgulhar de algo que tenha conquistado por si próprio. Ninguém se orgulha de ser honesto ou virtuoso. A pessoa é simplesmente honesta ou virtuosa, ou não. Possuir tal conceito de si mesmo é hipocrisia, santarronice, farisaísmo. Pois seguir tais comportamentos, ou preceitos, não é mais do que a obrigação de cada um. É certo alguém se orgulhar, por exemplo, de ter atingido um bom padrão de vida. Mas um herdeiro milionário que se jactasse desta sua condição, no mínimo provocaria, ou deveria provocar, risos e censuras. E, portanto, orgulhar-se de uma condição ditada pela natureza – como a Ciência vem demonstrando nos últimos tempos, no que se refere a homossexuais e heterossexuais – têm sentido apenas para os segundos. Porque estes são criados e educados para seguirem práticas e hábitos que contrariam seus instintos e, portanto, quando assumem sua condição homossexual, de fato conquistaram algo em suas vidas. Já uma pessoa é heterossexual sem qualquer esforço, e tudo o favorece neste sentido. Se ela tem dificuldades, neste ponto, é porque realmente não é aquilo que gostaria de ser.
Os machões que aprovaram a lei e que a endossam será que estão tendo dificuldades quanto a serem machos? Sentem-se fragilizados, temerosos, ou o quê? Pelo que me consta não têm sido eles espancados nas ruas por grupos de gays adeptos da heterofobia (veja-se, aliás, que existe o termo homofobia, mas não aquele que lhe seria análogo, porque este realmente não existe sequer como prática). Trata-se de um discurso destes senhores que, me parece, acaba soando mais ou menos assim: “Olhem, apesar de todas as tentações e fraquezas, de nossa vontade em contrário, continuamos heterossexuais, por isso nos orgulhamos tanto disto. Deixem-nos em paz, sim? Parem de nos seduzir. Estamos com medo”. Isto, realmente, é de lascar...
Portanto, senhoras e senhoritas, tomem cuidado. Se estes medrosos machos serão os perpetuadores de nossa espécie, se precavenham deles. Boa coisa não há de sair desta semente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de agosto de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aviso aos navegantes da Barca de São Pedro

Uma noite insone diante dos canais de TV abertos revela, ou explicita, aspectos aparentemente inacreditáveis de nosso país no que tange ao devocionário popular e aos pastores a guiarem um imenso rebanho, saltitante e sempre em expansão, rumo a cada vez mais diferentes apriscos.
Sintoniza-se um canal e assiste-se ao bispo Xis da Igreja Universal Disto. Ou o apóstolo Ypsilon da Igreja Mundial Disso. Ou o pastor Zê da Igreja Internacional Daquilo. Sem falar em todos os demais, tão variados quanto as outras letras do alfabeto, porta vozes de um número equivalente, se não superior de (auto)denominações religiosas.
Compreendo tal necessidade de espaço privilegiado para a divulgação de suas mensagens. Devem ser tantas as diferenças entre estas agremiações devocionais, que, acredito, torna-se imprescindível um canal de televisão para cada uma delas. Fico imaginando as sutilíssimas questões teológicas que as separam uma das outras. As complicadíssimas querelas quanto à exegese bíblica e a concordância entre Antigo e Novo Testamento. As polêmicas quanto à Patrística e a História do Cristianismo. As nuanças gradativas quanto ao afastamento ou aproximação entre o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo, o Anglicanismo, etc. Suas visões, decerto conflitantes, quanto à Angeologia ou à Demonologia. Ou ainda o equilíbrio entre a Tradição e a Revelação. Ou entre a Predestinação e seus óbvios critérios de exclusão, e o Batismo no Espírito Santo, como forma de ampla inclusão de todos. Ou ainda se a Glossolalia é epifânica, acidental ou inexistente, se comum, rara ou impossível – para não dizer imaginária e inócua. Estas, e muitas outras particularidades de profunda matéria teologal e doxológica, que, presumo, separam tantas igrejas cristãs umas das outras, faz-me acreditar que, de fato, cada uma delas necessite de seus próprios canais para a difusão de suas mensagens, únicas e verdadeiras.
A situação muda um bocado de figura, entretanto, quando vemos dois canais televisivos transmitindo conteúdo essencialmente católico; e, mais ainda, quando se sabe que ambos são diretamente relacionados à Igreja. Fosse um ligado a ela, e outro, por exemplo, a uma irmandade, confraria ou associação de leigos, creio que contribuiria bastante para o diálogo intrarreligioso. Mas os dois, estreita, umbilicalmente relacionados à ortodoxia e à hierarquia clerical, parece, no mínimo, uma redundância. Ou um desperdício de dinheiro. Ou um claro sinal de que as divisões internas da “monolítica” Santa Madre Igreja são muito maiores do que avalia o vulgo.
Ora, se aquela magnífica instituição cuja sede localiza-se em Roma é una e indivisível, por que vários canais de comunicação, ao invés de um único? Se a Barca de São Pedro é uma só, como um só é seu Capitão, por que dois Pilotos? Acaso pensa-se em acrescentar mais um leme à nave? Não se pensa no risco de rachar a embarcação ao meio? Ou ela já está rachada, a tripulação dividida entre si e os passageiros em conflito uns com os outros?
O que, entretanto, causou-me um enorme espanto foi a oferta de um certo “Carnê da Esperança”, por meio do qual a caridade – um dever, mas que só tem sentido se realizado de forma espontânea – se converteria numa obrigação, com data de vencimento e tudo. O que nos leva a duas perguntas: o não pagamento da parcela implicaria o quê? Protesto em cartório? Ou busca e apreensão (judicial?) da mercadoria entregue ao inadimplente? A outra pergunta se dá quanto à quitação do mesmo carnê: pois se a Esperança é a última que morre, a contribuição passaria a ser compulsória, se não hereditária, e presumivelmente deveria ser honrada até o Dia do Juízo Final! Algo em que nem Júlio II, com suas escandalosas indulgências, teria pensado em instituir...
E, para cúmulo dos cúmulos, valeu-se a propaganda televisiva do referido carnê de um expediente inacreditável para vendê-lo, lançando-nos a seguinte, e tronitroante, mensagem: “Jesus Cristo precisa de sua ajuda!”. Insisto em repetir o bordão do “Carnê da Esperança”, agora em letras garrafais: “JESUS CRISTO PRECISA DE SUA AJUDA”! Era só o que faltava...
Reconheço que não tenho frequentado a missa há certo tempo. Não sou um leitor assíduo do L’Osservatorio Romano, nem prestei muita atenção às últimas declarações do Sumo Pontífice. Mas até onde sei – ou acredito que sei – Jesus Cristo ainda é, para os católicos, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, e junto com o Deus Pai e o Espírito Santo, Ele também Deus único: três em Um e Um só. Que Jesus – enquanto Homem, antes de morto, ressuscitado e ascendido aos Céus – necessitasse da ajuda dos homens em sua dolorosa via ao Calvário, é compreensível e os Evangelhos, os apócrifos e um bocado de lendas dão conta disto. Mas depois de morto por nossos pecados, ressuscitado, triunfante, unido indissoluvelmente ao Pai, Criador de tudo e de todos, onipotente, portanto, que ele ainda precise de nossa ajuda, soa-me como uma tremenda ofensa aos fiéis. Quando não uma blasfêmia das grossas, se não uma completa heresia. E,o que é pior, proclamadas por um canal católico.
Ora, pois, se o Pantocrator necessita de ajuda, e nós? Se Deus anda tão debilitado, o que estes reles, ínfimos pecadores poderíamos fazer por Ele? Que nos digam que Ele “nos exorta” a contribuir para a Sua obra; ou que “nos convida”; ou ainda que “nos ordena”. Mas que o ajudemos? Francamente, quem imagina uma campanha desta merece ser sabatinado pelo bispo. E o bispo que a autorizou, pelo arcebispo. E este pelo Papa. São inacreditáveis as bobagens que a Igreja, ou certos setores dela, tem cometido nos últimos tempos.
Portanto, aviso aos navegantes da Barca de São Pedro: cuidado com a viagem, pois os pilotos parecem não entrar num acordo e vão guiando a nau para águas ignotas...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de julho de 2011].

Quinta-Feira Santa ou Quarta-Feira Santa?

Nesta semana, tão venerável aos católicos, uma notícia publicada pela agência internacional de notícias Reuters – e pavorosamente mal-traduzida por sites confiáveis em nosso país – causou um certo alarde em diversos meios. Trata-se daquela referente à hipótese de que a derradeira Ceia de Cristo, na qual Ele instituiu a Eucaristia, teria ocorrido numa quarta-feira, ao invés da tradicional Quinta-Feira Santa.
Tal é o que sustenta o professor Colin Humphreys, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um declarado cristão e físico aclamado (além de Cavaleiro do Império Britânico – um Sir, portanto – ) que estuda o assunto desde 1983. Segundo ele, que se dedica a resolver algumas das várias contradições da Bíblia, a discrepância em relação à data do acontecimento seria resultante do emprego de diferentes referências por parte dos Evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas dataram a última Ceia com base no calendário mosaico, lunar, e João, situou o acontecimento a partir do calendário oficial então em curso na Palestina (o texto não fala, mas, indagamos: por acaso não seria o Calendário Juliano?), o que permitiria tal variação para o estabelecimento do dia correto. E, de acordo com o mesmo Sir Colin, para reconstruir o calendário referente ao ano de 33 d.C, e para chegar às conclusões que chegou, teria o mesmo se valido da ajuda de um astrônomo e de seus cálculos precisos. Finalmente, comenta o referido professor:

“[...] Eu estava intrigado com as histórias bíblicas sobre a última semana de Jesus, nas quais ninguém consegue encontrar nenhuma menção de quarta-feira. É chamado de um dia perdido [...] Mas isso parecia ser tão improvável: afinal de contas Jesus era um homem muito ocupado.”

De fato, sempre me pareceu que a conta não fechava muito bem naqueles movimentadíssimos dias que vão do Domingo de Ramos até a Ressurreição. E, sobretudo, no que dizia respeito ao desenlace final. Situar a Ceia, o sono dos apóstolos, a traição de Judas, a prisão de Cristo, o processo movido contra Ele, os suplícios que Lhe foram impostos, Seu julgamento, a Via Crucis, a Crucificação, a Agonia no Calvário e a Sua Morte, além de todos aqueles outros eventos intermediários dos quais tanto se falou ao longo dos séculos, e tudo isto em menos de vinte e quatro horas, é um tanto inconcebível. A justiça romana tinha lá a sua práxis. E por mais que fosse aquele um caso de exceção, urgente, a burocracia, com seus eternos entraves, retardaria todo o episódio. Sem falar que tal vertiginosa, variada e terrível sucessão de acontecimentos não poderia ter se iniciado na madrugada de uma sexta-feira e ser concluída às seis horas da tarde do mesmo dia. E é de se espantar como os jesuítas, por exemplo, que meditaram tão profundamente, emotiva e vivamente, sobre o assunto, nunca pareceram ter pensado nisto... Pois, convenhamos, nunca tanto poderia ter acontecido em tão pouco tempo. Nem mesmo para um Deus, sobretudo, como no caso, um Deus sujeito às vagarosas e imperfeitas ações humanas.
A teoria de Sir Collins, portanto, em minha opinião, é bastante válida em muitos pontos. Só me intriga porque acolheu, para sua base de cálculo, o ano de 33 – tradicional, evidentemente, mas do ponto de vista histórico, cada vez mais questionado, da mesma maneira que o ano 1, como os limites da vida de Jesus. Não, não pretendo supor que Ele sobreviveu à cruz e foi pregar no Tibete, como querem alguns. Pelo contrário. Mas não é de hoje que se levantam convincentes dúvidas quanto ao ano de Seu Nascimento e de Sua Morte, um intervalo que poderia ser situado entre os anos de 7 e 2 a.C, e 30 e 36 d.C., pela cronologia romana, pela do cronista judeu Flávio Josefo (37-100 d.C), e em relação à vida de Herodes, o Grande (sic). De modo que, neste campo, parece que o sábio inglês parece ter seguido mais a tradição, oriunda da escolástica, e a convenção, relacionada à sua crença manifesta, do que o método científico, ou a investigação, o que é uma pena, e uma surpresa, de algum da Física...
Pois bem, como historiador, e pesando bem a situação, gostaria de dizer que a precisão quanto às datas são extremamente importantes, nalguns casos, e absolutamente irrelevantes, noutros. Desde que não se confunda uma década com outra, que não se situe uma conseqüência como anterior ao fato que a produziu, não se erra muito em história. Datas são, na maioria dos casos, balizas, para que não se perca a visão de conjunto. Ninguém pode dizer, por exemplo, que Cabral avistou o Monte Pascoal em 1499 ou 1501. Sabemos que tal se deu em 1500. Mas qual foi o dia exato? Segundo o Calendário Juliano, vigente à época do avistamento, era o dia 22 de abril. Mas quando passou a vigorar o Calendário Juliano, em 1582, pelo qual foram descontados 10 dias, a celebração de tal episódio deveria passar a ser comemorada em 2 de maio.
Em suma, o que eu queria dizer é que pouco deve importar, a todos que creem Nele, se Jesus, o Cristo, nasceu antes ou depois da data convencional do ano 1, ou se morreu antes ou depois do ano 33. Por mais que Sua presença histórica tenha de ser continuamente declarada – vide o Credo, com aquele Pilatos muito fragilmente citado na historiografia romana, mas largamente mencionado em diversos Apócrifos que, certamente, ajudaram a constituir o cânone, ainda que fossem mais tarde rejeitados – qualquer pessoa de bom senso há de concordar que a importância de Jesus, o Cristo, se dá por Sua Pessoa, ensinamentos, palavras, e não por uma suposta exatidão cronológica a ser encontrada nos Evangelhos, esta obra coletiva, coligida sabe-se lá por quantas mãos, traduzida sabemos muito bem como, e que tantas edições conheceu, ampliadas e reduzidas, não só quanto ao tamanho, mas quanto à essência, também.
Concluindo, reitero minha simpatia à nova cronologia da Semana-Santa proposta por Sir Colin Humphreys. Tal justifica e santifica a quarta-feira e permite compreender o desenrolar dos fatos posteriores numa sequência possível: permite mais tempo a todos aqueles terríveis acontecimentos que envolveram Jesus e seu martírio. Penso até em retornar a este assunto noutra ocasião. Mas, para que não digam que sou um desmancha-prazeres, um impenitente ou demasiado ácido, o que não sou, quero desejar, do fundo de meu coração, isento de maus humores eventuais, uma Feliz Páscoa a todos os colaboradores, funcionários e leitores d’A Notícia e seus familiares, e mesmo para aqueles que não têm a oportunidade de ler este bravo jornal (o quê é uma pena). Uma Feliz Páscoa, com menos ovos de chocolate e mais espírito ecumênico, fraterno, humano.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2011].

O Louco menino do Rio

Dizem que a origem do nome do bairro carioca do Realengo deve-se ao fato dele ter se formado ao longo da linha de bondes, ainda puxados por burros, que levava ao Real Engenho, abreviado na tabuleta do alto dos carros como Real Engº. E, até quinze dias atrás, parecia ser esse o único aspecto de interesse no que se referia àquela localidade. Mas, desde então, como é público e notório, o bairro entrará para a história – não sei por quanto tempo – por nele ter se desenrolado aquele tristíssimo episódio no qual doze crianças perderam a vida pelas mãos de um desatinado.
O fato, verdadeiro motivo de desespero para os familiares e amigos das vítimas, e de profunda consternação para todo o país, foi, por outro lado, uma típica festa para a grande imprensa e para meia dúzia de especialistas ávidos pelos holofotes da mídia. Poucas vezes tornou-se mais evidente um certo desserviço prestado pelos meios de comunicação quanto neste caso. O crime tornou-se um espetáculo, a investigação jornalística foi substituída por um impressionismo sensacionalista, quando não abertamente fantasioso, e sempre hidrófobo, espumando pelo canto da boca e clamando por sangue.
Fosse Lula ainda presidente, alguns jornalões e revistas de grande tiragem diriam até, na falta de se poder culpar alguém, que a responsabilidade seria do Governo Federal. Mas não foi, é claro. E nem se pode falar, num caso destes, de completa responsabilidade de quem quer que seja. Pois tudo indica que o moço que matou aquelas crianças era um completo demente e, como sabemos, loucos são inimputáveis, ou, melhor dizendo: como doidos não sabem o que fazem, a lei não pode considerá-los iguais aos sãos – vale o mesmo com os menores de idade, cuja capacidade de conhecimento da realidade, muitas vezes, corresponde à daqueles, aos olhos da legislação. Além disso, ainda há uma outra questão que em grande parte exime as autoridades de segurança quanto ao que ocorreu. Lembro-me de uma entrevista lida lá pelos anos 1980, pouco depois do atentado sofrido pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan, em que um ex-membro da CIA – a principal agência de informação daquele país – dizia, para quem quisesse ouvir, algo mais ou menos assim: “quando um louco, ou até uma pessoa qualquer, pretende matar alguém e está disposto a morrer por isto, ninguém consegue detê-lo”. Os inúmeros homens-bomba, a todo o momento confirmam tal teoria. O jovem carioca, também.
Os sabujos da grande imprensa – convertidos em animadores dos ódios mais extremados e das paixões mais vis em prol dos níveis de audiência – não deram trégua, portanto, ao assunto, explorando-o de uma maneira que, antigamente, cabia apenas à chamada imprensa marrom, ou aos antigos jornais “espreme-sai-sangue”. E, secundando-lhes as opiniões disparatadas, toda uma récua de peritos nisto e naquilo, quais vivandeiras abastecendo a malta dos espectadores do horror. Os quais alegaram que o motivo da atitude do jovem seria uma vingança por ter sofrido bullying, o assédio escolar; que, se louco, deveria ser medicado; e até de radical islâmico foi chamado, aquele infeliz!
Bem, é verdade que o bullying vem crescendo em gênero, número e grau. Em grande parte tolerado pelos ouvidos moucos dos pais dos agressores, e em maior parte ainda estimulado por filmes norte-americanos que retratam a vida escolar de uma maneira em que tal agressão é tão previsível e quotidiana quanto o horário das aulas e do lanche entre elas. Todavia, ele não é um fenômeno recente, pelo contrário. Quem leu o romance de Raul Pompéia, O Ateneu, de 1888, lembra-se de tais práticas ocorridas dentre os muros do colégio do Professor Aristarco, e os sonhos de vingança do protagonista.
Quanto à necessidade de medicação de pessoas com problemas mentais, é claro que ela é imprescindível. Mas é muito fácil falar. Pois como se convence, pela lógica, uma pessoa em parte alienada da lógica, a fazer isto ou aquilo? Se em casos mais leves, ou menos antissociais – depressão, bipolaridade, etc. – já é um custo fazer com que o paciente tome seus remédios, que dizer nos casos de esquizofrenia ou piores? Voltaremos às práticas dos grandes hospícios, verdadeiras máquinas de moer gente? O de Barbacena, por exemplo, célebre em prosa e verso, por trás de suas intenções humanitárias e sanitaristas, tinha uma média de mortalidade anual que não devia nada a certos campos de concentração nazistas – uma grande amiga, cujo pai tinha um sítio ao pé do morro daquela instituição contou-me como, depois de uma chuva e do deslizamento de terra da encosta, foram vistos incontáveis esqueletos sem identificação qualquer, descendo pela enxurrada, rolando pelos roçados. É isto que queremos?
Por fim, a questão religiosa. Argumentou-se, a princípio, que o moço do Rio era um fanático muçulmano. Todavia, nos vários depoimentos que deixou gravados, mencionava a todo momento o nome de Jesus, a necessidade de pureza, ou purificação, e coisas que tais. Então, a grande mídia silenciou. Curioso, muito curioso... Não falo que a crença em Jesus Cristo leve às pessoas, necessariamente, a atos insanos contra o próximo, apesar dos exemplos históricos dos donatistas, valdenses, bogomilos, dentre tantos outros hereges que se consideravam autênticos cristãos e não pensavam duas vezes antes de derramar o sangue dos impuros. O mesmo valeria para os cruzados, para os dominicanos, para a conquista da América pelos espanhóis, etc. Tais horrores de então se justificavam, em parte, pela própria época violenta em que se deram. Não possuíam a mesma sensibilidade de hoje. Não tinham formulado uma Declaração Universal dos Direitos Humanos como a temos desde fins dos anos 1940.
Pois bem, salto para o começo desta semana, depois que o infelicíssimo episódio do Realengo tornou-se conhecido no mundo inteiro. Conforme me contou uma amiga professora, dois alunos seus – do ensino médio, um casal de irmãos de classe média alta, ele de aspecto normal, nem feio nem bonito, ela com vastos e belos cabelos – voltam de um retiro espiritual num acampamento – que tenho quase a absoluta certeza de que não seja católico – com os cabelos completamente tosados, raspados à máquina zero. Indagados do porquê de terem feito aquilo, ela obteve a seguinte resposta: “Porque Jesus nos ordenou!”. Assustador...
Defendo o Estado Laico na exata e igual medida em que defendo o Ecumenismo e a liberdade de qualquer pessoa a abraçar a religião que for de seu desejo ou, se assim o achar, fruto de uma Revelação, quiçá. Preocupa-me, entretanto, esta nova e violenta militância religiosa, que ignora as várias experiências religiosas e, qual numa nova Cruzada, só enxerga infiéis naqueles que não rezem em seus – verbi gratia – “catecismos”. Precisamos de paz e inclusão, e não sectarismo e intransigência. Pois se o Homem foi feito à imagem de Deus, ele há de ter um pouco da misericórdia d’Aquele. E por ser criatura, e não Criador, não deve se considerar o derradeiro Juiz. Tampouco Seu mensageiro privilegiado. Nem, muito menos, os carrascos do Altíssimo. Como, assim parece, julgou-se ser o louco menino do Rio.

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2011].

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

De alguns milagres e coisas que tais

O agudíssimo filósofo Voltaire (1694-1778), numa série de textos tornados imprescindíveis ao conhecimento dos homens inteligentes, tratou largamente da questão dos milagres e de uma maneira tal que quase os inviabilizava. Pois, segundo ele, em termos gerais, se um milagre é uma violação das leis eternas e imutáveis estabelecidas por Deus, ninguém mais do que Ele seria zeloso pelo cumprimento das mesmas. Seria, portanto, impossível que um Ser infinitamente sábio criasse normas passíveis de serem quebradas, ainda que pelo onipotente criador daquelas normas. Pois Ele nada teria feito sem razão e, pois, com que razão poderia Ele desfigurar, por algum tempo que fosse Sua própria obra? Da mesma maneira, dada a relativa raridade dos milagres, seria possível supor que o Criador agisse em prol de algumas pessoas em específico e que ignorasse os anseios ou necessidades de milhares, se não milhões, de outras. Mas se houvesse tal distinção entre uns e outros, seria necessário que Ele mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares como doutrina a ser seguida, como prática a ser cumprida por Seus fiéis, e veríamos Sua figura, enquanto ideal de extrema Justiça, de forma bastante enviesada. Ou relativizada. O que seria impossível a um Absoluto de tão excelente natureza. De forma que, para encerrar a questão de uma maneira que fosse conveniente à questão da Onipotência divina e que não ferisse a lógica, o sábio francês acabou por renegar os milagres enquanto eventos maravilhosos, inesperados e contrários à natureza, preferindo-os definir como ação deliberada da Providência, nada aleatória e nem um pouco inexplicável. E assim Voltaire silenciou por um tempo seus censores enquanto apaziguava sua consciência.
Mas por que isto de milagres numa hora destas, visto que o Natal já passou e temos meses até a Semana Santa? Porque não há como pensar no episódio do recém nascido encontrado num terreno na periferia de Belém, PA, no dia 25 de dezembro. O simples encadeamento, e coincidência, de dados, datas e nomes, nos leva a imaginar que a sobrevivência da criança – lançada nua, num saco plástico, por cima de um muro – deu-se pela intervenção de alguma força que não a mera sorte. Pois se haveria um menino que deveria ser salvo da morte em pleno dia de Natal, certamente seria um nascido nos arrabaldes de Belém, mesmo que não na Palestina, e sim no Pará. Trata-se do tipo de episódio que faz com que pensemos em milagres ou na Providência, ou em qualquer outra operação divinha possível de ocorrer num caso desses e que o justifique. Ou, como disse um amigo, “em tais circunstâncias, e com tantas coincidências, Deus tinha que se manifestar: era Seu dever e obrigação”. Vá lá que, do ponto de vista teológico, sua explicação soe meio rasteira. Mas, não encontrei pessoa que não pensasse a mesma coisa. Que não visse a aura de um milagre, ou algo do gênero. E eu mesmo considero que a sobrevivência do bebê em tais condições, data e local, comoveu-me sinceramente, arrancando-me até algumas lágrimas e reascendendo um pouco do meu misticismo. Poucas vezes vi algo que se parecesse tanto com uma manifestação de clemência divina tal como dela ouvimos falar. Pode-se dizer, inclusive, que tal sucesso encerrou brilhantemente o ano.
Um ano, aliás, que mesmo com alguns dissabores particulares – quem não os tem, afinal? – considero que foi ótimo para todos nós brasileiros. Enquanto o mundo amargava uma crise histórica, a nossa economia cresceu, a humilhante e infame desigualdade sócio-econômica regrediu, milhões de empregos foram criados, tornamo-nos grandes produtores de petróleo, o desmatamento está quase sob controle e tivemos a oportunidade de rechaçar nas urnas, em âmbito federal, velhas e atrasadas políticas (o neoliberalismo predatório usufruído por alguns compadres), elegendo, em seu lugar, a continuidade do novo: mais novo, aliás, porque finalmente emplacamos uma mulher como Presidente da República, mesmo que com certo atraso (até os machistas Chile e Argentina já tinham conseguido isto).
Em suma, 2011 promete, e não é do alto dos palanques. Torcemos para que vejamos, se não outros milagres, coisas tão boas quanto. Estes são meus votos a todos os leitores. Um ainda mais feliz e cada vez mais próspero futuro tendo 2011 como princípio! Ou continuação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de dezembro de 2010].

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Capitão de Köpenick, o Capitão de Tatuí e o micropoder

Friedrich Wilhelm Voigt (1849-1922) foi um sapateiro alemão que se tornou uma celebridade mundial não graças à sua profissão, mas por uma grande trapaça que perpetrou na cidade de Köpenick, Prússia, Alemanha, no dia 16 de outubro de 1906.
Voigt era um ladrão e um falsário que passou cerca de 42 anos de sua vida na prisão – entre 1864 e 1891, e, após alguns meses livres, voltou ao cárcere e lá ficou até 1906. Ou seja, esteve preso dos quinze aos cinquenta e sete anos de idade, tempo demais para um simples punguista. É de se imaginar os horrores que passou por lá: um adolescente na entrada, um velho na saída. Finalmente, posto em liberdade, teve uma brilhante ideia, inspirada pela sociedade de seu tempo. Voigt percebeu que a Prússia onde vivia era extremamente disciplinada e obediente, sobretudo às autoridades fardadas. E o que fez ele então? Comprou, em diversas lojas, peças usadas de um uniforme de capitão, vestiu-se com elas, e fingiu ser um oficial do exército. Tornado capitão por sua própria vontade, dirigiu-se a um quartel de Hamburgo, onde vivia, e convocou quatro soldados e um sargento para segui-lo, o que fizeram, acostumados que eram a obedecer a seus superiores sem questionamentos. Depois, arrumou mais outros seis praças, embarcou com o grupo num trem para a cidade de Köpenick, e lá ocuparam a prefeitura local. Voigt deu ordem para que sua tropa vigiasse todas as saídas do prédio, e, à polícia da cidade – que também o obedeceu – de que cuidasse da lei e da ordem e que não permitisse que fosse enviado, da agência de correios dali, nenhum telegrama para a capital, Berlim. Então, deu voz de prisão ao prefeito e ao tesoureiro municipal, supostamente por fraude na arrecadação, e confiscou a soma de 4.002 marcos e 37 pfennigs (centavos de marco). Por fim, ordenou a alguns soldados que levassem as autoridades presas para serem interrogadas em Berlim, e aos outros que mantivessem a guarda do prédio por meia hora, ao fim da qual deveriam regressar a Hamburgo. Por sua vez, Voigt, ou melhor, o Capitão de Köpenick, livrou-se da farda e fugiu.
Descoberto o episódio pelas autoridades e pela imprensa, tudo se converteu num escândalo. Caçaram o homem e o prenderam, mas a opinião pública já estava do seu lado. E até mesmo o monarca alemão, o Kaiser Guilherme II, que o perdoou e o libertou dois anos depois. Para o próprio imperador, tudo não passara de uma divertida aventura. E assim Voigt se transformou numa celebridade mundial, a ponto de vender fotografias suas autografadas, apresentar-se em espetáculos e dar palestras, até mesmo na Canadá, nas quais contava sua pilhéria pregada contra o excesso de obediência às autoridades que permeava o seu país. E chegou a publicar um livro a este respeito. Morreu pobre, por conta da inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e distante de seu lar, se é que teve algum: seus olhos se fecharam, definitivamente, no Grão-Ducado de Luxemburgo. Mas sua fama perduraria. Tornou-se o tema de uma peça teatral em 1931, e de vários filmes. Não é preciso dizer que a imprensa britânica da época – Grã-Bretanha e Alemanha viviam uma espécie de Guerra Fria à época da peripécia de Voigt – exultou com todo o episódio. Ele nada mais era do que um exemplo cabal do que o excesso de obediência, combinado ao militarismo, poderia causar. Uma situação que, em termos mais recentes, poderíamos chamar de o efeito de um micropoder (termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault) numa sociedade reverente e muda frente ao poder real: o mesmo fenômeno que faz com que um guarda de trânsito se comporte como um general de brigada frente a um cidadão que, digamos, estacionou seu carro na faixa amarela da calçada.
Mas deixemos a Prússia e voltemos às nossas terras. Mais especificamente a Tatuí, SP, onde o comandante do Corpo de Bombeiros local, Capitão José Natalino de Camargo, mandou retirar todos os crucifixos e imagens de santos católicos das unidades sob seu comando, visto que para ele imagens e crucifixos fazem “apologia” da religião católica e contribuem para a “manutenção da falsa crença de que aquela religião seria a única detentora da benesse estatal [sic]”. E, para tal, invocou ainda a Constituição Federal que, de fato, dispõe que Estado brasileiro é laico, mas, segundo seu entendimento, a exibição dos símbolos religiosos seria, portanto, ilegal e inconstitucional. E a comunicação foi repassada às unidades e postos dos bombeiros sob o comando do Grupamento de Tatuí, com ordem para cumprimento imediato.
Frise-se que a Câmara Municipal tatuiense, em moção aprovada por unanimidade, considerou que o militar usou termos desrespeitosos ao se referir aos símbolos católicos. “O ato é arbitrário, com expressões equivocadas, desrespeitosas e imprudentes sobre a religião católica, refletindo total falta de sensibilidade” e que a ordem de serviço fere o livre direito de professar a fé, também defendido pela Constituição”, diz a nota oficial daquela casa legislativa, que repudia a ação do Capitão de Köpenick, perdão, do Capitão de Tatuí. Este, ao que parece, é menos um defensor de um Estado laico, na forma da lei, e mais, é de se supor, um aguerrido militante de alguma igreja ou seita daquelas que combatem os crucifixos e imagens que os quinhentos anos de costume católico no país permitiram que fossem aceitos e reverenciados pela população e pela cultura pátria.
Em suma, trata-se de um puro exercício de seu micropoder que, para o Capitão de Köpenick, perdão, de Tatuí (que, acreditamos, está a léguas de distância, do ponto de vista moral, de Friedrich Voigt: pois este, é um tratante divertido; aquele, um militante empedernido, mas, acreditamos, honestíssimo servidor público) – é maior do que o do Executivo, Legislativo e Judiciário juntos, e comparável somente aos dos chefes de Estado que baniram símbolos religiosos de prédios públicos ao longo do mundo. Maior que Sarkozy é o Capitão de Tatuí!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de novembro de 2010].

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Repúdio aos homens de um livro só

O Antigo Testamento refere-se a alguns causos curiosíssimos. Não falo dos sete dias da Criação, de Adão ser feito de barro e Eva de sua costela, porque, afinal, um Deus supremo é capaz de tudo. A curiosidade começa a partir de Gn 4:14, quando lemos o que Caim diz ao Criador temer que o primeiro que o encontre acabe por matá-lo. Como assim? Havia mais gente no mundo, que não os filhos do casal primordial? E foram criadas pelo mesmo Deus? Ou por outro? Interessantíssimo...E a confusão só aumenta quando vemos que, logo em seguida, nos versículos 17-19, “Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Enoque. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Enoque. /Enoque gerou Irade, Irade gerou Maviael; Maviael gerou Matusael, Matusael gerou Lameque./ Lameque tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela”. E tudo se agrava ainda mais quando sabemos, no mesmo capítulo, versículo 26, da descendência do caçula da família adâmica: “Sete teve também um filho, que chamou Enos”. Filho, não filha, logo a mulher de Caim não poderia sequer ser sua sobrinha. E o que dizer da mulher de Sete? E com quem casaram-se Enoque, Irade, Maviael e Matusael? E filhas de quem eram Ada e Sela? Mistério... Quem baseia-se no princípio da Sola Scriptura deve se sentir num mato sem cachorro. Daí a importância da tradição, andando lado a lado com a Bíblia, ao menos no que diz respeito a dirimir certas dúvidas, se não de natureza místicas, ao menos, vá lá, históricas. Pois, segundo Genebrardo (Chronographiae libri quatuor...,1580, l.1), Caim teria uma irmã gêmea, Calmaná, e Abel, outra, de nome Delbora, de acordo com a tradição rabínica, conforme Frei Bernardo de Brito em sua Monarchia Lusitana, 1597, l.1. Mas boa parte das perguntas feitas acima ainda não foram esclarecidas.
A coleção de causos é incomparável. Como aquela infinidade de personagens gerando filhos aos noventa nos de idade e morrendo com mais de trezentos. Ou a arca prodigiosa que abrigou sabe-se lá quantos milhões de indivíduos em 64.745 m3, ou aproximadamente 26 piscinas olímpicas. E lá estavam, protegidos do dilúvio, e alimentados por oito pessoas, incontáveis indivíduos, macho e fêmea de cada espécie, do tamanduá ao ornitorrinco. Como estes últimos desceram do monte Ararat, na atual Turquia, e vieram parar, um na América do Sul, outro na Austrália, infelizmente a Bíblia não revela. Nem o que ocorreu com os peixes de água salgada ou de água doce, já que todas, em princípio, se misturaram.
A série não tem fim. Basta pensarmos em Sansão dizimando um exército inteiro, Elias levado aos céus num carro de fogo, Josué parando o sol nas alturas, e na burra falante de Balaão.
Todavia o que parecia ser um tremendo causo dos bons, parece que de fato foi verdade. Este seria o caso da travessia dos hebreus através do Mar Vermelho, liderados por Moisés. A passagem é a seguinte: “Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se/ e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda” (Ex 14: 21-22).Pois segundo dois pesquisadores norte-americanos, de acordo com simulações por computador, um vento cuja velocidade fosse próxima a 100 km/h, soprando sobre a desembocadura do rio Nilo durante 12 horas, seria capaz de fazer regredir as águas e abrir uma passagem com alguns quilômetros de largura. Quer dizer, não teria sido o Mar Vermelho a ser aberto, mas sim o chamado “mar de Caniços”, uma área pantanosa onde o Nilo encontra o mar Mediterrâneo. Um evento que, documentadamente, teria ocorrido também em 1882, na região, segundo o depoimento de oficiais britânicos ali sediados. Mas não consta que, nesta época mais recente, nenhum “povo escolhido” estivesse fugindo do cativeiro egípcio.
Pois bem, ainda que causas climáticas, que podem ter se repetido várias vezes, mesmo que sem registro, no exato local, possam ter sido as que permitiram a travessia de Moisés, tais, ao contrário do que muitos possam pensar, em nada depõem quanto à veracidade do relato tradicional. Santo Agostinho muito bem esclareceu, em várias ocasiões, que Deus pode ter se utilizado de meios naturais diversos para o cumprimento de Sua vontade. Soa meio como um Deus ex machina mas é melhor que uma ação divina ex nihilo: um milagre hollywoodiano em cinemascope, como a maioria das pessoas parecem enxergar a maneira como o Criador costumaria agir.
Mas resta um problema sério quanto ao episódio – diga-se, antes de tudo o que se segue, que os pesquisadores não alegaram, em momento algum, terem provado a veracidade do relato tal como consta do Êxodo. E tal se daria, segundo diversos historiadores e arqueólogos, por diversos fatores. O primeiro decorre do fato de que não há uma menção sequer à fuga dos hebreus nos registros egípcios. Tudo bem, pode-se dizer que os dominadores não quiseram deixar rastros de tal acachapante derrota. Mas, em segundo lugar, jamais se encontrou qualquer artefato relacionado à errância de quarenta anos do povo de Moisés pelo Deserto – um tempo, aliás, que deve ter se baseado na mesma cronologia insólita que fazia as pessoas morrerem com trezentos anos de idade, pois quatro décadas, perdidos, é demais, só se andassem em círculo, o que logo perceberiam: e se assim não o fosse, ou teriam chegado à Europa ou à Índia, senão à China. E, em terceiro lugar, tanto a língua, quanto os objetos pertencentes aos povos que formariam mais tarde o reino de Israel, são quase idênticos àqueles dos povos que já habitavam a antiga terra de Canaã. Ou seja, não haveria êxodo algum: se tanto, uma migração.
No fundo, quer a travessia das águas tenha se dado em razão de uma causa natural, ou pela vontade de Deus, ou por esta agindo sobre aquela, ou ainda que todas elas jamais tenham ocorrido, isto é o que menos importa, ou menos deveria importar, para quem toma as Escrituras como um guia espiritual. E nem digo moral, porque a conduta de alguns patriarcas e profetas do Antigo Testamento é de eriçar os cabelos, de tão cabeludas que foram. Sem falar do comportamento do velho Javé veterotestamentário, cuja cólera faz mais lembrar um impaciente Júpiter, do que a justíssima primeira pessoa da Trindade. Disse que tais questões acima expostas não importam, porque o Antigo Testamento não pode, nem deve, ser tomado como o único e absoluto vade mecum da Cristandade, nem, muito menos, enciclopédia da vida na Terra, da qual retiramos placidamente nossos conceitos quanto às ciências biológicas, quanto à física, à história, economia, tributação, política, etc.
É um livro de um “reino que não é deste mundo”. E tão só. O que, de maneira nenhuma, diminui sua importância e valor, pelo contrário. Pois seu objetivo é completamente outro, e que, no entanto, só é conhecido individualmente, quando o é, e caso, de fato, o possa vir a ser. Mas, reiteramos, ele nunca será o único livro. E é bom desconfiar de quem afirma isto e diz-se pautar apenas por ele. Pois como bem dizia São Tomás de Aquino, odie hommo liber unicum: “repudio o homem de um livro só”. O que certas pessoas fazem a partir do Corão, aliás, é um ótimo exemplo disto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de setembro de 2010].

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Incômodo João Batista

Certa vez um colega de estudos, membro de uma confissão evangélica, perguntou-me porque os católicos rendiam louvor ao Menino Jesus. Disse compreender que fossem dadas graças a Ele por ocasião do Natal, mas não entendia porque louvar uma parte da vida de Jesus, o Menino, como se fosse uma nova figura da Trindade, já que, afinal, o que deveria ser louvado era o Homem adulto e Seu ministério e sacrifício.
A resposta me veio fácil. Em primeiro lugar, como ele bem sabia, os católicos louvamos os santos e reconhecemos os milagres. Ora, são conhecidos muitos episódios das vidas dos mesmos santos em que os mesmos receberam a graça de contemplarem aparições de Jesus na forma do Menino – São Cristóvão e Santo Antônio de Lisboa são os exemplos mais conhecidos, dentre vários. Portanto, os católicos somos informados, por tais exemplos, que o Filho de Deus pode Se manifestar aos pios e devotos à Sua feição enquanto Menino. O meu colega de então não ficou muito satisfeito do ponto de vista teológico, mas como conhecia um pouco de como as coisas se davam no Catolicismo, dentre elas o apego à tradição e à história, entendeu a situação: se a autoridade (autorictas) autorizava, então ele compreendia (o que não queria dizer, evidentemente, que concordasse). E a conversa parou por aí.
Faço este preâmbulo porque dele me lembrei nesta última quinta-feira, dia de São João Batista. Estava passeando pela cidade, entrando em lojas, observando fachadas de casas, escolas, etc., quando vi, em diversos lugares, bandeiras de São João, no alto de mastros ou presas a barbantes, que retratavam o santo ainda como um menino. Ora – pensei no momento, à lembrança daquela conversa, que me ocorreu de pronto – a louvação ao Menino Jesus é compreensível, em vista do exposto. Mas qual seria a razão do Menino João Batista, já que ele também morreu adulto e, até onde conhecemos, não há registros de sua aparição na forma de criança na vida dos santos?
Do filho de Isabel, ainda criança, sabemos muito, e pouco, ao mesmo tempo. É conhecida a dificuldade de sua mãe em concebê-lo, o anúncio feito pelo anjo quanto ao seu nascimento, o que sucedeu a Zacarias, seu pai, e um episódio ainda ocorrido no ventre de sua progenitora, quando da visita de Maria à sua prima (Lc 1:5-25; 39-44), ocasião em que a criança “saltou de alegria” no ventre da mãe, diante da presença daquele daria à luz o Salvador. Depois, segue-se outro milagre envolvendo Zacarias e o nascimento de seu filho (Lc 1: 57-66), que rendem uma profecia quanto ao seu futuro: “E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo, porque irá adiante do Senhor, para preparar os caminhos dele” (Lc 1: 76). Mas, efetivamente, quanto à sua infância, pelos Evangelhos, sabemos apenas que “O menino crescia e se fortalecia em espírito; e ele ficava nos lugares desabitados até o dia em que ele apareceu publicamente a Israel” (Lc 1:80): ou seja, quando já era adulto, pouco antes de batizar Jesus e ser decaptado por vontade de Salomé.
O fato é que, em nenhum ponto dos Evangelhos, há qualquer menção à juventude de São João Batista para além daquela já citada. Nem indício, salvo em texto apócrifo, que o mesmo tenha se encontrando com Jesus antes do batismo d’Este (Jo I: 15-34).
Por outro lado, temos inúmeras pinturas, ao longo da história da arte, representando cenas em que o Menino Jesus encontra-se junto a um também menino São João Batista. Representações que, após o Concílio de Trento (1545-1563), tendem a desaparecer, em prol de um São João Batista adulto, rústico, coberto de peles qual um troglodita, e de pelos qual um lobisomem, como ouvi de um estudante do ensino básico à vista de uma imagem barroca do referido santo.
Paira no ar a pergunta: qual o motivo desta represntação infantil de São João Batista que ainda hoje vemos? Seria um resquício de uma versão, tornada herege ao longo dos tempos, que poria o filho de Isabel num patamar quase tão elevado quanto o de Jesus? Uma visão que calou tão fundo na emotividade popular, a ponto de ser reproduzida pelos melhores artistas da época, e de forma acrítica, por gerações?
Tais hipóteses, acomodatícias, não nos parecem possíveis. Acreditamos que São João Batista, no imaginário popular, e cultural, é muito mais polifacetado e sujeito a análises heterodoxas do que julga a velha tradição. Pois, não é por acaso, que ele mesmo se envolve, diretamente, na gênese de dez entre dez confissões pentecostais: ainda que várias delas parecem querer esquecê-lo....
O fato é que tal assunto merece um estudo aprofundado. As linhas gerais, acima elencadas, não dão conta do assunto, evidentemente. Mas, acreditamos, melhor do que tudo, podem aguçar os paladares ante o prato que procuraremos servir proximamente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de junho de 2010].

Novas notícias da prole de Adão

A imprensa mundial anunciou que a primeira análise em profundidade do genoma do Homo neanderthalensi, levada a cabo por cientistas alemães, revelou que indivíduos daquela remota espécie, muito semelhante ao Homo sapiens, chegaram a se acasalar com nosso ancestrais, e que a marca de tal intercâmbio genético estaria ainda presente no genoma do Homem moderno.
Da minha própria parte acrescentaria que, muito provavelmente, o tal Homem moderno formou-se, especificamente, do cruzamento do Homo sapiens, dos neandertais e de uns tantos daqueles outros grupos que habitaram a Terra no Passado. Um inequívoco exemplo disto, acredito, foi o daquele jovem que viveu há cerca de 24 mil anos, descoberto já como um fóssil, em 1998, na região do Vale do Lapedo, em Portugal, que, pela localização do achado, recebeu o nome de Menino do Lapedo. Então se verificou a existência inequívoca de traços mistos entre o Homem moderno e nossos primos distantes neandertais, sobretudo no aspecto do crânio e das mandíbulas.
Para nossos irmãos separados criacionistas, talvez se trate da própria caveira de Abel, deformada pela pedrada que lhe desferiu Caim, provavelmente por volta de 3900 e poucos anos a.C., segundo a Cronologia de Ussher, da qual já nos referimos aqui – e, curiosamente ao mesmo tempo em que já datavam de mil anos inúmeras culturas que viviam em aldeias, do Egito à China. É verdade que o tal fóssil do Menino do Lapedo indicava que o mesmo teria por volta dos 4 anos de idade quando morreu. Mas, se como diz a Bíblia, Adão faleceu aos 930 anos de vida, porque seu filho não poderia ser um pastor de ovelhas e sacrificante ao Senhor antes dos 5?
Controvérsias à parte, confesso, de antemão que entendo tanto de Genética quanto de Química, ou seja, o mínimo, somente aquilo que é necessário para não fazer feio em público e para não misturar, por exemplo, manga com leite: que pode não matar, sei muito bem, mas que dá uma dor de estômago dos diabos. Em todo caso, aceito, não digo de maneira dócil, mas cordata, um conhecimento científico de uma área que não domino, enunciado por alguém que desconheço e obtido e praticado através de formas que ignoro. Da mesma maneira que um criacionista ou um crédulo – não são sinônimos, friso – recorrem a um ortodontista para colocar um aparelho dental na boca dos filhos, a um professor para que os eduque, ou a um médico para que os cure, ao invés de deixar tudo ao encargo do Espírito Santo, ou da Santa Chaga do Ombro de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou ainda da Hamsá, ou Mão de Fátima (a Fátima filha de Maomé, não a Virgem do santuário português de mesmo nome – o qual, aliás, é bem próxima de onde acharam o Menino do Lapedo). Afinal, deve se dar o crédito a quem é de direito.
Pois o meu campo de estudos, os leitores já sabem, é a História, da Arte e da Cultura, e da Sociedade, e, a seu tanto da Literatura, o que engloba também a Religião e a Mitologia, porque não há cultura sem sociedade, sem literatura, arte, religião ou mitologia (esta, aliás, em grande parte, o fundamento daquela última: pois revelação não que dizer, necessariamente, ditado, podendo muito bem ser compreensão, que se difunde pelo meio literário, como bem o souberam São Jerônimo e Martinho Lutero). E tais descobertas acerca deste “hibridismo entre espécies” – obviamente não estéril, daí as aspas e, afinal, nós mesmos, enquanto seres viventes – ao lado de comprovações, também atuais, de que o Homo sapiens foi responsável pela expulsão dos neandertais, numa primeira etapa, ou pelo seu posterior extermínio, todos esses fatores, em suma, nos permitem pensar numa série de hipóteses várias acerca do destino de uns e de outros, de nós mesmos e de nossa Cultura.
Tendo a acreditar num longo período, sujeito a contendas mútuas, guerras e violências várias, durante o qual houve, efetivamente, uma assimilação entre uns e outros. Não só a Antropologia e a Etnologia dão vários exemplos de situações análogas, como a própria História da América recente (depois da chegada dos europeus), confirma tal suposição. O encontro com o Outro (ainda que horrível, para ambos os lados), nunca impediu a miscigenação ou a troca de culturas. O primeiro Silva Leme que se tem notícia, tronco cujos ramos posteriores fundariam a cidade de Leme, além de várias antes dela, outro não era que não o Cacique, tupi, Tibiriçá. E os descendentes de índios e portugueses abundaram, isolados ou integrados, ao longo de nossa história, assim como os de espanhóis e incas, ou desse e astecas.
Aqueles conúbios em tempos tão recuados (falamos de muitos milhares de anos) ajudariam a explicar vários mitos recorrentes de toda Europa, como aquela casta de homens e mulheres selvagens chamada de sátiros, “homens verdes” (por viverem nas florestas – dos quais já tratamos noutra ocasião, quando das possíveis origens do Papai Noel) ou o Homo selvaticus (cujos sobreviventes, alega-se, viveriam ainda em meados do século XV d.C.: ou seja, pouco antes da descoberta da América). E, cabe destacar, no século XVII, os orangotangos de Sumatra e Bornéu, foram identificados pelos cientistas europeus que a eles tiveram acesso como Simia satyrus, “macacos sátiros”, por supostamente atacarem mulheres, como seus predecessores da mitologia grega. Diante de tal caso, caberia investigar o quanto entrariam os sátiros na designação do animal: em razão dos naturalistas encontrarem semelhanças de comportamento entre uns e outros ou por os julgarem os últimos descendentes, ou remanescentes, dos primeiros? Para a ciência daqueles tempos, esforçando-se ainda para não romper com a tradição, tal hipótese era ainda muito plausível.
E daí para o mito – não para a existência real, faço questão de dizer – de outros seres prodigiosos, mais ou menos modernos, é só um pulo. Pulo do Pé-grande? Pode ser. Ou de Hércules. Ou, em certa medida, de Sansão. Ou ainda de Enkidu, da epopéia de Gilgamesh. Pois os mitos, na maioria das vezes, se equivalem. Somente por um ato de força é que um pode anular o outro.
E como fica o nosso pobre Adão, ou melhor, como ficamos todos nós, seus descendentes, diante dessa história toda? Somos feitos do barro, e insuflados pelo sopro divino, ou da cruza de uma humanidade ainda em formação, que evoluiu sabe-se lá como, e porque motivo? Ou, por fim, somos um híbrido da evolução de um outro, rumo a algo que desconhecemos, por vontade de uma Força Superior, chame-se Ela como melhor Lhe aprouver, já que, em princípio, Ela, ou ELE, é Absoluto?
Em minha opinião, isto pouco importa. Filhos ou não de um Deus, seja porque maneira for, intermediados por um macaco, um sapo ou uma bactéria, até nossa forma final, creio que esta, de fato, nasce com a nossa consciência, formada não sabemos como, nem quando, e que nos permite tanto aceitar como renegar a suposta, ou real, existência de uma divindade, que talvez – ou certamente, como se queira – seja aquela mesma que nos permitiu a própria formulação de tal dúvida. Creio, portanto, que qualquer ligação de um fiel à sua religião, deve se dar mais em razão do cumprimento de seus deveres ao próximo, mesmo que o próximo seja o outro (todas as grandes religiões são unânimes neste ponto, mas o mesmo não posso dizer das várias seitas que hoje se alastram): deixando as questões de outra natureza, que não teológica, para quem está capacitado e livre de entraves dogmáticos. Afinal, onde mesmo foi dito que o “cumprimento da Lei” superaria a “pureza de origem”?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de maio de 2010].

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quanto vale o Cristo Redentor?

A Arquidiocese do Rio de Janeiro vire e mexe ocupa as páginas dos jornais, ao contrário de todas as demais que conheço. Enquanto as outras dão notícias de seus trabalhos, campanhas, ou simplesmente pregam a palavra de Deus, a Mitra fluminense faz-se notória pela proibição do uso de imagens que lhe pertencem. A mais comum é a interdição quanto a filmagem de cenas de novelas ou seriados nas igrejas sob sua responsabilidade. E lembremos que no Carnaval carioca de 1989, foi também proibida a apresentação de uma réplica da estátua do Cristo Redentor, que desfilaria num carro alegórico da Beija-Flor de Nilópolis. A imitação, aliás, era um tanto irrealista, na medida em que seus trajes estariam em farrapos, de acordo com o enredo da escola, que mostrava pobres e miseráveis vestidos de trapos. Por fim, entretanto, a imagem saiu, coberta por um plástico preto e por uma faixa que dizia: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Quanto a este episódio, achei na época, e acho ainda agora, que a Igreja do Rio exagerou na proibição e cometeu um grave equívoco. Uma coisa seria desfilarem com uma reprodução da imagem de Cristo em farrapos. Aí, compreendo, pode ser desrespeitoso. Bem diferente é fazer a mesma coisa com a estátua do Cristo. Ou Um e outra são a mesma coisa? Depois, poderia até ser alegado que não era uma paródia daquela do morro do Corcovado, mas de uma outra qualquer das milhares que existem no Brasil...
Mas voltando aos dias de hoje, eis que surge uma nova polêmica envolvendo a Arquidiocese do Rio de Janeiro e o Cristo Redentor. Desta vez tendo do outro lado da contenda a Columbia Pictures, produtora do filme 2012. Alega a Mitra fluminense que o estúdio norte-americano usou indevidamente a imagem da estátua que, na trama, é destruída por um terremoto. E, por isto, quer que lhe paguem uma indenização e que haja uma retratação pública por parte da companhia cinematográfica. Pois a questão não seria simplesmente monetária (o uso da imagem do Cristo Redentor não é cobrado, dizem, mas a Igreja também pode vetar que ela apareça em filmes ou programas). Quanto às negociações entre as partes, parece que estão bem avançadas e que, por ora, uma ação judicial está descartada.
Diante de um fato destes, confesso que me acho dividido. Uma parte de mim gostaria que o caldo engrossasse, que partissem aos tribunais e que a Cúria perdesse. Outra, o exato contrário: que ela ganhasse. Vejamos os motivos.
Com o processo e a derrota da Arquidiocese, a liberdade de expressão e de manifestação artística estaria mais uma vez garantida. Vá lá que 2012 não seja arte, mas acredito que monumentos, obras de arte, construções e paisagens, por sua natural visibilidade pública, possam e devam ser livremente tratados em registros artísticos e ficcionais. E assim entendem incontáveis pessoas e instituições do mundo, a começar pelo próprio Vaticano, que já viu dezenas de vezes, pelo menos, a Basílica de São Pedro ser destruída em filmes e, se não gostou, por outro lado não pediu dinheiro por isto. Nem esta tal de “retratação pública”, com cheiro (de queimado) de mea-culpa em Auto-de-Fé. E o mesmo comportamento se verificou por parte das cidades de Londres, Paris, Nova Iorque, Washington, Roma, etc., tantas vezes arrasadas no cinema.
Já com a vitória da Cúria fluminense, é possível que surgissem alguns ganhos também. Pois acabaria a exploração incondicional de imagens, coisas que vemos a toda hora, por exemplo, na publicidade.
Imaginemos uma hipótese. Uma campanha milionária de automóveis utiliza-se de cenas e locações do centro de São Paulo em virtude de sua riqueza arquitetônica – que as agências maquiam até parecer se tratar de uma outra cidade. Ora, o centrão, mal cuidado, nada ganha com isto, ao contrário da agência publicitária, da montadora, etc. Pois bem, aberto o precedente do caso do Cristo Redentor, haveria espaço para uma discussão séria quanto ao direito das imagens, que poderia levar os responsáveis pelo comercial a pagarem pelo uso delas e, assim, a municipalidade e os proprietários dos prédios filmados teriam recursos para investir na conservação daqueles cenários e para muito mais.
Outra hipótese: as campanhas políticas. Os partidos, do maior ao menor, valem-se de imagens aleatórias para dizerem que cuidarão da Saúde, Educação, Segurança, Cultura, Preservação Ambiental e do Patrimônio Histórico ou Paisagistico, além de muitos Etceteras. Pois bem, se após a utilização das mesmas nada fosse investido nos locais apresentados, poderia haver o entendimento de que uma sanção deveria ser imposta a quem delas se utilizou e, no poder, nada fez.
Em suma, se o uso da imagem alheia gera dinheiro a alguém, que parte dele seja transferido aos donos da mesma. É lógico e deveria ser natural, como é entendido em tudo o mais que diz respeito aos direitos autorais (que, no fundo, são verdadeiros “direitos de propriedade”).
Confesso que não cheguei a uma opinião definitiva quanto ao assunto. Pois, ao cabo das coisas, acaba-se, de todo jeito, por se ficar num meio caminho de um uso social da imagem. Pertenceria ele a um ou a todos? É um assunto a se indagar, e estou, como sempre, aberto a comentários.
Por ora, há que se concluir que é impossível saber quanto vale o Cristo Redentor. Se render uma boa polêmica, que não seja meramente para as partes envolvidas, deve valer alguma coisa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de fevereiro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um novo olhar sobre a Inquisição

Em 1998, o papa João Paulo II admitiu que era "oportuno" um mea culpa da Igreja Católica sobre o "capítulo doloroso" da Inquisição, mas para isto era necessário um julgamento "sereno e objetivo" da história, "sem emoções pessoais", nem condicionamentos da opinião pública. Chega o ano 2000 e, durante a celebração do milênio da Igreja Católica, o sumo pontífice pede perdão pelos pecados que os católicos cometeram em nome de sua fé através dos séculos, incluindo os abusos da Inquisição. E eis que no útlimo dia 16 de junho, o Vaticano publicou um novo estudo sobre os atos cometidos durante a Inquisição, um relatório de 800 páginas, que inclui todas as atas oficiais do simpósio internacional realizado em 1998 por iniciativa da comissão teológico-histórica do Comitê do Jubileu e que contém os relatórios de 50 historiadores e outros especialistas, inclusive não católicos, da Europa e América do Norte.
Segundo o documento, a Inquisição, que espalhou temor na Europa a partir da Idade Média, não praticou tantas execuções ou torturas como dizem os livros de história. Ele reconhece que, no começo, os procedimentos planejados foram aplicados com rigor excessivo, que em alguns casos foram degenerados e se tornaram verdadeiros abusos, e propõe que a Inquisição não foi tão má como se costumava crer.
Em vista de tais conclusões, o papa João Paulo 2º novamente pediu desculpas pelos excessos dos interrogadores, expressando pesar por "erros cometidos a serviço da verdade por meio do recurso a métodos não-cristãos". Além de reafirmar o que já havia dito no documento anterior, de 2000, na carta atual, foi ainda mais longe, dizendo que o pedido de perdão valia "tanto para os dramas relacionados com a Inquisição quanto para as feridas deixadas na memória [coletiva] depois daquilo E ressaltou que os teólogos devem entender “a mentalidade dominante em determinada época.” “Na opinião do público, a imagem da Inquisição representa quase um símbolo do escândalo”, escreveu o sumo pontífice numa carta sobre a pesquisa. Em que grau essa imagem é fiel à realidade?”, argumentou.“Antes de pedir perdão, é necessário ter um conhecimento preciso dos fatos”, acrescentou, no mesmo documento,expressando uma “grande apreciação” pela pesquisa. O papa, porém, não criticou seus predecessores. Gregório IX, que criou a Inquisição em 1233, não foi mencionado no comunicado, pois segundo o cardeal Georges Cottier, um dos responsáveis pela apresentação do relatório: “quando pedimos perdão, não condenamos. Estamos todos condicionados pela mentalidade de nosso tempo. Daqui a 50 anos, podemos ser acusados de não ver certas coisas", disse.
O documento revela que a Inquisição espanhola, que se tornou independente do Vaticano no século 15, praticou os abusos mais extremos. Todavia, o professor Agostino Borromeo, professor de história das religião católica e outras confissões cristãs na Universidade Sapienza, de Roma, e que supervisionou o volume, sustenta que, na Espanha, dos 125.000 julgamentos por suspeição de heresia, apenas 1,8% dos investigados pela Inquisição espanhola foram executados. Em Portugal, 5,7% de mais de 13.000 julgamentos diante da tribunais eclesiásticos, no século 17 e início do 17, foram condenados à morte. Já a Alemanha teria matado mais bruxas e bruxos que em qualquer outro lugar, cerca de 25 mil, dentre uma população de 16 milhões de pessoas. Mas, em termos proporcionais, o recorde pertence a Liechtenstein, onde 300 pessoas, ou 10% dos 3.000 habitantes da região, foram mortas por bruxaria. Borromeo nega que o Vaticano estivesse planejando reduzir os erros da Inquisição com a apresentação de tais dados. “Não quero dizer que a Inquisição fosse uma instituição ética”, disse na entrevista. “Isto não muda a natureza do problema – pessoas foram traídas por suas convicções religiosas. Mas, para os historiadores, números têm um significado”.
Não é preciso apontar a saraivada de críticas que a Igreja tem sofrido por conta desse documento. Talvez a melhor seja do historiador italiano Carlo Ginzburg, presente à conferência de 1998 — e bem conhecido no Brasil por seu livro O queijo e os vermes, que versa sobre a Inquisição e a heresia. Segundo ele, existem certas dúvidas sobre usar estatísticas para chegar-se a um julgamento sobre o período. “Em muitos casos, não temos a evidência, a evidência perdeu-se”, disse. E meio que em resposta a esta afirmação, o cardeal Georges Cottier, teólogo do Vaticano próximo ao papa, reforçou a necessidade de analisar os fatos antes de fazer julgamentos sobre um período da história. “Não se pode pedir perdão por ações que não estão aqui”, alegou este prelado.
Como vemos, a Inquisição ainda é fonte de muitas polêmicas e boa parte da censura que se faz a ela mais parece ter como fim criticar a Igreja do que entender aquele processo histórico. Porque o que muito dos críticos parecem esquecer é que a Inquisição não foi um fenômeno uniforme e local. França, Inglaterra, Alemanha, Itália, etc., tiveram, na maior parte do tempo, fenômenos inquisitórios distintos. Da mesma maneira, nem sequer foi um fenômeno exclusivamente católico: as igrejas e seitas protestantes também tiveram, embora com outros nomes, violentos tribunais de fé que, em várias épocas, executaram muito mais pessoas que a Inquisição Católica, excetuando a espanhola.
Há que se levar em conta, também, que por ser o cristianismo uma religião missionária, julgava-se na obrigação de propagar seu modelo de fé o mais amplamente possível, mesmo que para tal fosse necessário se utilizar de táticas aparentemente questionáveis, pois em seu raciocínio, o fim justificaria os meios.
Quanto à “caça às bruxas”, ela sempre existiu, antes mesmo da própria Igreja, visando aos praticantes de técnicas de cura natural, rituais pagãos ou pessoas com algum comportamento diferenciado. Aliás, pode-se mesmo dizer que a Inquisição, para boa parte destas pessoas, foi até bem vinda. Seria mais fácil escapar de um processo organizado movido pela Igreja do que da descontrolada fúria popular, pronta a condenar à morte, sem investigação ou julgamento, qualquer indivíduo “estranho”: bastava um doença contagiosa para que a população desconfiasse de bruxaria e procurasse um culpado, invariavelmente executado e da pior maneira. Assim, a Inquisição constituía um tribunal no qual o réu poderia, pelo menos teoricamente, defender-se.
Em suma, católicos e protestantes perseguiram e mataram milhares de pessoas em nome de sua fé por um longo período conhecido por sua violência. Uma violência endêmica, presente em todas as instituições. A Justiça incluía a tortura em todos os interrogatórios, as escolas castigavam severamente, os exércitos saqueavam e matavam aldeias inteiras, o povo divertia-se com as execuções e martírios públicos, com lutas de ursos contra cães, com esfolamentos de gatos e, por um bom tempo, acreditava-se que para a carne ser saborosa, o animal deveria sofrer uma morte dolorosíssima: há inúmeros registros de animais metidos ainda vivos em fornos e panelas. Diante de um tal quadro, todos os excessos passam a ser compreensíveis.
A Igreja Católica fez sua parte, reconhecendo seus erros e pedindo o perdão. Que seja louvada por isto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Dois exemplos de uma mesma fé

Nesta semana em que a maior parte da imprensa nacional conferiu uma ênfase muito mais do que exagerada a um assunto que, convenhamos, é somente de interesse dos envolvidos diretamente com ele (a saber: o casamento, que alguns dizem ser de “conto-de-fadas” e, outros, de “faz-de-conta”, do astro de futebol e da modelo), houve espaço também para duas notícias que nunca ocupam as primeiras páginas dos jornais: a morte de duas freiras. Todavia, a coincidência cessa no fato de serem duas religiosas católicas que morreram, assunto, como dissemos, geralmente negligenciado pelos grandes meios de comunicação. Pois, quanto às duas irmãs, quanta diferença entre elas...
Uma era a freira carmelita Lúcia de Jesus dos Santos, de noventa e sete anos e que, entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917, foi uma das três crianças que declararam ter visto a Virgem Maria em Fátima, Portugal — uma vez por mês naquele espaço de tempo — e que por meio destas visões foram-lhes revelados três segredos. O primeiro segredo era que a guerra iria terminar. O segundo era duplo, por assim dizer, e revelava que, se os homens não se corrigissem, haveria uma Segunda Guerra Mundial no tempo de Pio XI e que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Já o terceiro, mantido no mais absoluto sigilo até poucos anos, seria o atentado contra o papa João Paulo 2º, ocorrido em 1981.
O curioso nisso tudo, em primeiro lugar, é que Pio XI só ia começar a reinar em 1922 e, obviamente, em 1917, não havia ninguém chamado Pio XI... Em segundo lugar, dizer, em julho de 1917, que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, era algo mesmo inconcebível, na medida em que a revolução Russa de Outubro de 1917, comunista, liderada por Lênin, ocorreria somente em 7 de novembro (outubro, no calendário russo de então) daquele ano. Quanto ao atentado contra João Paulo II, ao darmos crédito a esta explicação, seria igualmente prodigioso, pois como poderia uma simples menina portuguesa imaginar uma tentativa de assassinato a um Papa que sequer havia nascido? Então, se não foi um milagre, ninguém poderia arriscar dizer o que foi.
Mas o fato é que irmã Lúcia morreu por falência do coração, depois de anos reclusa num convento. E sua morte parou Portugal, tendo o governo decretado luto oficial e os principais partidos políticos cancelado campanha para as eleições do próximo domingo.
No mesmo dia também, os jornais estamparam, com maiores detalhes, mais precisão, a notícia da morte da freira Dorothy Stang, de setenta e três anos, missionária da congregação católica Irmãs de Nossa Senhora de Namur, comunidade fundada há 201 anos e que reúne mais de 2.000 freiras em missões humanitárias em 15 países. Vinha esta irmã atuando há pelo menos trinta anos junto aos movimentos sociais no Pará, sendo seus esforços reconhecidos em todo o país, ao ponto de receber o prêmio “José Carlos Castro”, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) daquele Estado, elogios por parlamentares no Senado, ser considerada uma referência na história da colonização amazônica e receber o título de Cidadã do Pará. Foi recebida até pelo atual Ministro da Justiça, que prometeu olhar pela grave situação de periculosidade encontrada na região em que a religiosa vivia, onde fora já ameaçada de morte. Ameaças que se cumpriram, e que tiraram sua vida por meio de seis tiros disparados por um pistoleiro.
Irmã Dorothy, até onde se sabe, não foi contemplada com uma tal prodigiosa visão da Virgem Maria qual a de que foi testemunha Irmã Lúcia. Se seu coração estava devotado aos céus, seus olhos contemplavam o triste quadro social do Pará, onde, unida às mulheres e aos agricultores da comunidade Sucupira vinha desenvolvendo projetos sustentáveis para geração de emprego e renda através do reflorestamento de áreas degradadas, pois sabia que era a vontade de Deus que nem a terra, nem o mar, nem as árvores deveriam ser danificadas (Ap. 7:3). E longe de viver reclusa, trabalhava intensamente na tentativa de diminuir os conflitos fundiários, pois sabia que “do Senhor é a terra e tudo quanto ela contém” (1Co 10:26), não de alguns poucos e poderosos que dela se apropriam até mesmo contra a lei.
Sua morte, por outro lado, não foi motivo de luto nacional — mesmo sendo ela brasileira naturalizada. Nem os partidos nacionais alteraram um movimento sequer de seu contumaz jogo político. Quanto ao governo, sentiu-se constrangido — afinal, a religiosa era de origem norte-americana — e tão somente isso, como de praxe.
Ambas as irmãs morreram nesta semana, cada qual com suas próprias trajetórias de vida, trajetórias aparentemente opostas, mas só na aparência. Amaram a Cristo, Suas obras, Seus ensinamentos e Seus filhos e praticaram Seu amor intensamente, como cada uma sabia ou podia praticar. Uma se foi em meio ao olor da santidade. A outra, carregando a palma do martírio. Mas ambas foram respeitadas e dignificadas pela Igreja e pelos fiéis por suas obras e por suas vidas de doação. E há ainda quem afirme que a comunidade dos católicos é um todo inerte, monolítico, no qual uma única forma de prática religiosa é tolerada... Que os exemplos de Irmã Lúcia de Jesus dos Santos e de Irmã Dorothy Stang brade nas consciências destes críticos afobados e ignorantes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de fevereiro de 2005].

João Paulo II no Céu. E a nós, a Terra...

Depois de quase quatro meses em que a grande imprensa brasileira pareceu de férias, tal a exiguidade até mesmo física das edições dos jornais e a pouca relevância das reportagens, eis que os últimos quinze dias irromperam com um exagero de fatos, a ponto — é de se pensar — de desesperar muitos editores, redatores, chefes, dos mais variados meios de informação. Não é muito difícil mesmo imaginar o seguinte raciocínio, formulado por um deles, ou pela maioria deles: “Morte e agonia do Papa; massacre no Rio de Janeiro; eutanásia nos EUA; escândalo envolvendo um novo ministro; casamento do Príncipe de Gales e morte do Príncipe de Mônaco... Por que tudo numa só quinzena? Quanto não venderíamos se tudo isso fosse distribuído ao longo dos últimos meses?”.
Para nós mesmos, convenhamos, foi uma sucessão vertiginosa de fatos, sendo alguns, evidentemente, cruciais, e outros nem tanto, mas ainda assim capazes de um certo interesse. Então, comecemos por contar os centavos para depois contarmos os milhões.
Se um escândalo envolvendo um ministro, no Brasil, é quase que de ocorrência semestral nas últimas décadas, este afigura-se mais grave, depois deste verdadeiro “parto da montanha” que foi a mais recente reforma ministerial, dando à luz tão esquálidos frutos, mas que de tão anunciados esperava-se que fossem sublimes — e, pois, fiel como nunca à antiga locução que ora empregamos. Mas se ainda que modestas as mudanças, diz o governo que foram feitas a dedo. É de se perguntar quem apontou este dedo, então, e com que objetivo e significado.
Outros assuntos, agora envolvendo a nobreza européia, também figuraram com destaque: o casamento de Carlos, Príncipe de Gales, e herdeiro do trono britânico e a morte de Raniero de Mônaco, titular da coroa deste principado.
Quanto ao primeiro, estimo que seja feliz e aconchegado nos próximos invernos que a vida lhe reserva. Eclipsado pelo sol real de sua mãe, a Rainha, e por aquele fulgurante cometa — porque disto não mais passou — que foi sua primeira mulher, que este herdeiro, que à sombra há tanto tempo tem vivido, contente-se com seu quarto-minguante, já infelizmente refletindo sobre o seu caçula, já alcunhado de o “Bobo da Aldeia”.
Já no que diz respeito ao recém-falecido titular do Principado de Mônaco, ainda que seu Estado seja muitíssimo menos influente do que o do precedente, algumas considerações são bem cabíveis. Houvesse sua morte ocorrido em dias menos abarrotados de notícias, e o mundo inteiro veria seu coruscante reinado, a graciosa rainha que também era estrela cinematográfica, sua trágica morte, a esquisitice de seus filhos e a manifestação do grande desejo do monarca, que era tornar a imagem de seu país algo diferente do que era quando herdou a coroa: uma monarquia de opereta, um paraíso fiscal e um bom cenário para o carnaval. De fato, parece que ele conseguiu: hoje o mundo todo conhece Mônaco não só pelas já mencionadas circunstâncias, mas como Meca dos mais famosos cassinos e o palco das corridas de automóveis. Grandes mudanças, sem dúvida.
Crescendo em densidade e importância, vem a eutanásia na Flórida. É de se pensar as circunstâncias em que tal grave acontecimento ocorreu. O mundo inteiro já teve notícias de centenas de casos semelhantes ocorridos nos EUA e, mais recentemente, no próprio Brasil, que seria induzida, dizem, por muitos seguros de saúde, na medida em que não cobririam um tempo maior de internação em UTI ou CTI do que aquele coberto pelo plano do paciente, e que foi cogitada pelo próprio governo de Lula, como vimos nesta mesma semana. Mas a pergunta que paira no ar é se tal assunto não teria recebido um ainda maior relevo depois do filme ganhador do Oscar que tratava desta questão? Ou pela agonia do Papa, extrapolada, afirmamos, através de fotografias que só expuseram seus momentos de dor, desconforto e quase inconsciência, em detrimento, reconhecemos, das imagens televisionadas, que quase até o final de sua longa vida revelaram ao mundo sua lucidez, sua razão, seu comprometimento junto aos fiéis? Pois poucas vezes, na história recente, a fotografia, para alguns considerada ainda como a verdade dos fatos, mostrou-se tão cabalmente um instrumento de vontades e interesses determinados, quanto na agonia do Papa.
Não bastasse tudo isso, houve a horrenda chacina no Rio de Janeiro, cidade que a cada dia que passa vai merecendo mais e mais o título de “terra sem lei”. Pois não importa se muitos dos envolvidos tinham longa folha corrida de delitos ou crimes. Não existe lei que autorize ninguém neste país a tirar a vida de quem quer que seja. Legítima defesa? Sim, nos casos específicos. O que lá se viu foi barbárie. Crimes mais hediondos do que aqueles que, em tese, seriam capazes as possíveis vítimas mais “culpadas”.
João Paulo II, talvez o Papa que tenha mais lutado pelo direito e o respeito à vida de toda a história da Igreja, entregou sua alma ao Senhor, e gloriosamente deve ter sido acolhido nos céus. A nós, por enquanto, restou-nos esta Terra, esta miserabilíssima Terra, tão leviana e fugaz, mas que ele, no entanto, ajudou a modificar, para melhor. E que está ainda muito distante de qualquer ideal desejado por qualquer pessoa de bom senso, caridade, honradez e que respeite a vida.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2005].

Preconceito em nova roupagem

Acredito que todo católico veja cada novo pontificado como uma esperança de renovação e, ao mesmo tempo, como a continuação de uma obra que se pretende perene. Aparentemente, tais afirmações podem até assemelhar-se como contraditórias, mas não são. Pois não há duvida de que a substituição de um Papa por outro, seja ele quem for, trará naturalmente mudanças, correções de rumo e, para sermos mais precisos, uma atualização do proceder da Igreja frente às mudanças e clamores da sociedade. Neste ponto, sem dúvida, é uma renovação. Mas uma renovação é, também, a reafirmação das verdades ancestrais, dos votos tradicionais, a revalidação das responsabilidades assumidas, a reiteração daquela tão antiga e tão fresca boa nova: o Evangelho, a mensagem da salvação pelo amor, paz, tolerância, fé, fidelidade e compromisso.
Portanto, é de se lamentar como as revistas semanais de maior tiragem, neste que é o maior país católico do mundo, reagiram a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao trono de São Pedro. A revista Época, do conglomerado Globo, brada em sua capa, sob a imagem de Bento XVI, que a “Igreja se fecha”. Já a revista Veja, que semana a semana mais esguia se torna, ataca com a chamada “A Igreja congelada”. Nem mesmo a revista Carta Capital, voz dissonante das acima citadas, eximiu-se de uma infeliz, e tendenciosa, abordagem, sotopondo à imagem do Sumo Pontífice a legenda: “Miserere Nobis (Tende Piedade de Nós)”. E tudo isto sem falar no que, aqui e ali, foi disseminado por jornais e telejornais, sítios e blogs na Internet.
Pois o que se viu divulgado por estes meios de informação nada mais foi do que uma copiosa sucessão de vis preconceitos travestidos de objetividade supostamente jornalística. Vejamos alguns dos argumentos lançados por tais publicações, seu exageros e verdadeiros absurdos, e o que de fato se sabe sobre a pessoa e a trajetória de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI.
Acusam-no pelo fato de que, quando jovem, tenha se filiado à juventude hitlerista, já na década de ‘40 do século vinte, ou seja, em plena Segunda Guerra Mundial. Ora, só aqueles absolutamente ignorantes quanto ao contexto vivido por um adolescente alemão daquele período poderiam repudiar tal fato. Pois, naquele momento agônico do regime nazista, não aderir a juventude hitlerista seria, para um jovem, uma condenação à morte — se não à sua própria, a de seus pais e familiares.
Depois, é lembrada sua participação como artilheiro do exército alemão nos últimos dias daquele conflito. Fato também que não seria de surpreender. Nos últimos meses da guerra, de anciãos a meninos de doze anos — mas há quem fale em dez também — eram alistados às pressas e designados para toda parte. Negar-se a servir acarretava em imediato fuzilamento, por traição à pátria.
Curiosamente, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a década de ‘70, os detratores do novo Papa — que talvez nem sejam mesmo opositores reais, mas sim um bando de gente que se deixa levar por fofocas e idéias alheias — não encontram um só fato que desabone sua figura. Mas com o início da década de ‘80, tudo muda, porque então era ele nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Não, isto, para seus detratores, é imperdoável. Houve até um que o chamou de Torquemada de João Paulo II, em alusão ao terrível inquisidor espanhol de fins do século XIV, início do XV. Vamos, portanto, novamente ao fatos.
O primeiro é que, de fato, a Congregação para a Doutrina da Fé nada mais é do que a herdeira das atribuições e funções do antigo Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Santa Inquisição. Mas é herdeira em termos: seu poder e seu alcance não é nem de longe o mesmo do passado, também, como é sabido, não anda por aí prendendo e condenando quem quer que seja à fogueira. Atacar, nesses termos, a Congregação para a Doutrina da Fé, pelo o que sua antecessora tenha feito remotamente, é o mesmo que condenar uma moça pelos erros de sua avó. Depois, não tem sentido comparar o papel de Torquemada com o do então Cardeal Ratzinger à testa da referida Congregação. A inquisição espanhola associava-se àquela promovida pelo Vaticano apenas no nome: era independente, sujeita apenas à coroa de Espanha. Para não falar na diferença de métodos, valores e princípios que nortearam uma, no passado, e outra, no presente.
Em suma, o que vemos, mais uma vez, é uma dessas polarizações sem sentido que boa parte da imprensa tenta nos impingir como algo crucial, um momento de debate, de considerações definitivas, como se houvesse mesmo como opinar. Não é nada disso. Eleição de Papa não é como eleição de presidente ou prefeito, síndico de prédio, música mais pedida ou Garota do Fantástico. Não cabe “eu acho isso”, “eu acho aquilo”, “eu quero esse”, “eu preferia aquele”. Não é momento para caóticas declarações de pessoas cujas idéias são ainda mais caóticas e pouco católicas.
Porque os eleitores, de fato, são poucos e os mais capacitados e quem define mesmo tudo, no fundo, é o Espírito Santo. E é possível se opor a tal qualidade de elementos?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2005].

A Campanha da Fraternidade de 2007

A Campanha da Fraternidade deste ano surpreendeu a muitos fiéis, como também a muitos que não professam o catolicismo ou deles se afastaram. De fato, à primeira vista, a defesa da Amazônia parece ser um assunto muito mais ecológico do que teológico, e a Igreja, salvo os casos de São Francisco de Assis, Santo Huberto, São Brás e Santo Antão, nunca mostrou uma vocação para a defesa da Natureza, digamos assim. Pois o que se queria salvar era o homem — o resto, estava isento da graça de Deus, visto que não poderia conhecer Sua Palavra: afinal, as árvores não escutam, o jabuti e o urso nada tiveram a ver com o Pecado Original e os povos da floresta, fossem os bárbaros da Europa e Ásia, os negros da África e os índios da América, foram, por muito tempo, suspeitos de não terem a mesma origem sagrada dos civilizados, que se julgavam descendentes de Adão. Os outros, chegou-se a cogitar, ou eram filhos do demônio, ou gerados pelos piores pecadores que a história bíblica pudesse registrar e, dessa maneira, condenados de antemão e com agravantes. Erros graves, é verdade, mas que época não cometeu os seus?
São bem conhecidos vários episódios dos primórdios da Igreja, enquanto religião oficial do Império Romano, relacionados à destruição de bosques consagrados aos deuses pagãos (aqueles sob a invocação de Apolo eram os mais visados), mas também a outras formações florestais, por suspeita de serem ambientes de culto das divindades que deveriam ser proscritas. Com a expansão de sua área de influência, chegando às regiões germânicas e setentrionais, grande número de florestas foi derrubado por conterem, supostamente, em seu interior praticantes de “velhas religiões”. A história de carvalhos e bétulas tidos como sagrados por seus adoradores — por remeterem, de alguma maneira, a uma divindade local ou regional — e que foram derrubados por algum santo ou missionário, são freqüentes nas crônicas monásticas da Alta Idade Média (sécs. V-X).
Da mesma maneira, o interesse pelos povos que viviam nas florestas — muito mais comuns do que supomos, mesmo na Europa de até meados do século XVIII — era tão somente despertado na medida em que eram julgados como praticantes de hábitos condenáveis. “Focos de heresia”, “baluartes da feitiçaria”, “pontos de resistência da superstição”, assim eram chamadas aquelas comunidades que viviam alheias às cidades, no seu eterno cumprir e repetir de velhas práticas. Daí serem alvos de tantas perseguições, serem o principal objeto de suspeitas quando se perseguia a bruxaria e as heresias. O historiador italiano Carlo Ginzburg escreveu farta e esplendidamente sobre o assunto, mas não precisamos ir tão longe: basta pensarmos que, na maioria dos contos de fadas, as bruxas vivem nas florestas...
A partir do século XVI, por meio do Padre Bartolomé de Las Casas (1472-1566), do nosso Beato Padre José de Anchieta (1534- 1597), e de muitos outros pregadores na América, a imagem do índio vai sendo assimilada, compreendida, respeitada, a ponto de, na bula Veritas ipsa (1537), o papa Paulo III reconhecer o estado de liberdade natural dos índios e a sua condição humana, proibindo a sua escravização.O que, todavia, não impediu que muitos religiosos reduzissem os indígenas àquele estado. Não falo dos aldeamentos jesuíticos, que ainda que submetessem seus índios a uma situação quase semelhante à da escravidão — penso que, na verdade, tratava-se de uma adaptação da antiga servidão tal como experimentada pelas abadias e mosteiros medievais — ao menos buscavam trazê-los para a fé católica. Mas, sim, das conhecidas fazendas franciscanas da Bahia, que escravizavam o indígena sem dó nem piedade, ainda que afirmassem não o fazer. Mas quanto à proteção à natureza, como a entendemos hoje, nem uma palavra.
Somente na centúria seguinte, com o nosso Padre Antônio Vieira (1608-1697), o respeito ao indígena cresce em volume e em eficácia. Então veríamos a promulgação da bula Comissum Nobis, de Urbano VIII, de 1639, que estipulou a excomunhão e outras censuras canônicas para os que maltratavam os índios. Mas quanto ao dito meio-ambiente, como se diz, silêncio pétreo.
No século XVIII, alguns missionários jesuítas na Amazônia — todos eles, em grande medida, vozes isoladas em seu tempo — defenderam um certo cuidado com a Natureza, e muitos outros religiosos dedicaram sua vida ao seu estudo. Mas tais iniciativas foram vistas, em parte, como um pouco suspeitas de deísmo, uma voga filosófica de então que enxergava a graça divina para além dos homens, e presente também nas coisas, nas árvores, nos rochedos, nos rios, etc. Por isto a Igreja, mais uma vez, silenciou sobre o assunto. Somente sob o pontificado de João Paulo II o tema voltaria a ser tratado com destaque e compreensão.
Voltando à Campanha da Fraternidade deste ano, e seu tema, é preciso levar em conta que a Igreja Católica do Brasil optou, desde algumas décadas, por tratar de interesses econômicos, sociais e políticos, durante a Quaresma, como uma oposição à postura meramente reflexiva, contemplativa, que muitos fiéis desenvolvem durante o período. Jejum é bom, abstinência, seja do que for, também, e principalmente para a elevação da alma e compreensão das dificuldades sofridas pelo próximo. Mas não basta isto. A militância por um mundo melhor também é possível e, mais do que isto, indispensável. Se as privações da Quaresma nos educam e nos previnem quanto à avareza, fonte de todos os males, segundo muitos teólogos, que abramos nossos olhos aos comportamentos avaros do mundo, que ora campeiam com excepcional rigor na Amazônia. Quer finjam suas pretensões sob a capa de uma “nova fronteira do agro-negócio” — que na maioria das vezes é mero, e escamoteado, sinônimo de grilagem, formação de latifúndio, devastação ambiental, violência contras as populações autóctones e não cumprimento dos mais elementares direitos trabalhistas previstos em lei —, quer, ainda, como “um novo foco de estudos científicos” — abrindo a região à bio-pirataria de ervas, frutos, poções e do próprio sangue de indígenas (estes, utilizados quais cobaias).
É, pois, preciso, dar um basta nisso tudo. Portanto, foi muito feliz a iniciativa da Campanha da Fraternidade deste ano. Porque nos conclama a salvar uma boa parte de nosso território, os recursos naturais ali existentes, o povo que o habita, e a nossa integridade, a nossa honradez. Em suma, a nossa alma.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de abril de 2007].