quinta-feira, 8 de julho de 2010

Novas notícias da prole de Adão

A imprensa mundial anunciou que a primeira análise em profundidade do genoma do Homo neanderthalensi, levada a cabo por cientistas alemães, revelou que indivíduos daquela remota espécie, muito semelhante ao Homo sapiens, chegaram a se acasalar com nosso ancestrais, e que a marca de tal intercâmbio genético estaria ainda presente no genoma do Homem moderno.
Da minha própria parte acrescentaria que, muito provavelmente, o tal Homem moderno formou-se, especificamente, do cruzamento do Homo sapiens, dos neandertais e de uns tantos daqueles outros grupos que habitaram a Terra no Passado. Um inequívoco exemplo disto, acredito, foi o daquele jovem que viveu há cerca de 24 mil anos, descoberto já como um fóssil, em 1998, na região do Vale do Lapedo, em Portugal, que, pela localização do achado, recebeu o nome de Menino do Lapedo. Então se verificou a existência inequívoca de traços mistos entre o Homem moderno e nossos primos distantes neandertais, sobretudo no aspecto do crânio e das mandíbulas.
Para nossos irmãos separados criacionistas, talvez se trate da própria caveira de Abel, deformada pela pedrada que lhe desferiu Caim, provavelmente por volta de 3900 e poucos anos a.C., segundo a Cronologia de Ussher, da qual já nos referimos aqui – e, curiosamente ao mesmo tempo em que já datavam de mil anos inúmeras culturas que viviam em aldeias, do Egito à China. É verdade que o tal fóssil do Menino do Lapedo indicava que o mesmo teria por volta dos 4 anos de idade quando morreu. Mas, se como diz a Bíblia, Adão faleceu aos 930 anos de vida, porque seu filho não poderia ser um pastor de ovelhas e sacrificante ao Senhor antes dos 5?
Controvérsias à parte, confesso, de antemão que entendo tanto de Genética quanto de Química, ou seja, o mínimo, somente aquilo que é necessário para não fazer feio em público e para não misturar, por exemplo, manga com leite: que pode não matar, sei muito bem, mas que dá uma dor de estômago dos diabos. Em todo caso, aceito, não digo de maneira dócil, mas cordata, um conhecimento científico de uma área que não domino, enunciado por alguém que desconheço e obtido e praticado através de formas que ignoro. Da mesma maneira que um criacionista ou um crédulo – não são sinônimos, friso – recorrem a um ortodontista para colocar um aparelho dental na boca dos filhos, a um professor para que os eduque, ou a um médico para que os cure, ao invés de deixar tudo ao encargo do Espírito Santo, ou da Santa Chaga do Ombro de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou ainda da Hamsá, ou Mão de Fátima (a Fátima filha de Maomé, não a Virgem do santuário português de mesmo nome – o qual, aliás, é bem próxima de onde acharam o Menino do Lapedo). Afinal, deve se dar o crédito a quem é de direito.
Pois o meu campo de estudos, os leitores já sabem, é a História, da Arte e da Cultura, e da Sociedade, e, a seu tanto da Literatura, o que engloba também a Religião e a Mitologia, porque não há cultura sem sociedade, sem literatura, arte, religião ou mitologia (esta, aliás, em grande parte, o fundamento daquela última: pois revelação não que dizer, necessariamente, ditado, podendo muito bem ser compreensão, que se difunde pelo meio literário, como bem o souberam São Jerônimo e Martinho Lutero). E tais descobertas acerca deste “hibridismo entre espécies” – obviamente não estéril, daí as aspas e, afinal, nós mesmos, enquanto seres viventes – ao lado de comprovações, também atuais, de que o Homo sapiens foi responsável pela expulsão dos neandertais, numa primeira etapa, ou pelo seu posterior extermínio, todos esses fatores, em suma, nos permitem pensar numa série de hipóteses várias acerca do destino de uns e de outros, de nós mesmos e de nossa Cultura.
Tendo a acreditar num longo período, sujeito a contendas mútuas, guerras e violências várias, durante o qual houve, efetivamente, uma assimilação entre uns e outros. Não só a Antropologia e a Etnologia dão vários exemplos de situações análogas, como a própria História da América recente (depois da chegada dos europeus), confirma tal suposição. O encontro com o Outro (ainda que horrível, para ambos os lados), nunca impediu a miscigenação ou a troca de culturas. O primeiro Silva Leme que se tem notícia, tronco cujos ramos posteriores fundariam a cidade de Leme, além de várias antes dela, outro não era que não o Cacique, tupi, Tibiriçá. E os descendentes de índios e portugueses abundaram, isolados ou integrados, ao longo de nossa história, assim como os de espanhóis e incas, ou desse e astecas.
Aqueles conúbios em tempos tão recuados (falamos de muitos milhares de anos) ajudariam a explicar vários mitos recorrentes de toda Europa, como aquela casta de homens e mulheres selvagens chamada de sátiros, “homens verdes” (por viverem nas florestas – dos quais já tratamos noutra ocasião, quando das possíveis origens do Papai Noel) ou o Homo selvaticus (cujos sobreviventes, alega-se, viveriam ainda em meados do século XV d.C.: ou seja, pouco antes da descoberta da América). E, cabe destacar, no século XVII, os orangotangos de Sumatra e Bornéu, foram identificados pelos cientistas europeus que a eles tiveram acesso como Simia satyrus, “macacos sátiros”, por supostamente atacarem mulheres, como seus predecessores da mitologia grega. Diante de tal caso, caberia investigar o quanto entrariam os sátiros na designação do animal: em razão dos naturalistas encontrarem semelhanças de comportamento entre uns e outros ou por os julgarem os últimos descendentes, ou remanescentes, dos primeiros? Para a ciência daqueles tempos, esforçando-se ainda para não romper com a tradição, tal hipótese era ainda muito plausível.
E daí para o mito – não para a existência real, faço questão de dizer – de outros seres prodigiosos, mais ou menos modernos, é só um pulo. Pulo do Pé-grande? Pode ser. Ou de Hércules. Ou, em certa medida, de Sansão. Ou ainda de Enkidu, da epopéia de Gilgamesh. Pois os mitos, na maioria das vezes, se equivalem. Somente por um ato de força é que um pode anular o outro.
E como fica o nosso pobre Adão, ou melhor, como ficamos todos nós, seus descendentes, diante dessa história toda? Somos feitos do barro, e insuflados pelo sopro divino, ou da cruza de uma humanidade ainda em formação, que evoluiu sabe-se lá como, e porque motivo? Ou, por fim, somos um híbrido da evolução de um outro, rumo a algo que desconhecemos, por vontade de uma Força Superior, chame-se Ela como melhor Lhe aprouver, já que, em princípio, Ela, ou ELE, é Absoluto?
Em minha opinião, isto pouco importa. Filhos ou não de um Deus, seja porque maneira for, intermediados por um macaco, um sapo ou uma bactéria, até nossa forma final, creio que esta, de fato, nasce com a nossa consciência, formada não sabemos como, nem quando, e que nos permite tanto aceitar como renegar a suposta, ou real, existência de uma divindade, que talvez – ou certamente, como se queira – seja aquela mesma que nos permitiu a própria formulação de tal dúvida. Creio, portanto, que qualquer ligação de um fiel à sua religião, deve se dar mais em razão do cumprimento de seus deveres ao próximo, mesmo que o próximo seja o outro (todas as grandes religiões são unânimes neste ponto, mas o mesmo não posso dizer das várias seitas que hoje se alastram): deixando as questões de outra natureza, que não teológica, para quem está capacitado e livre de entraves dogmáticos. Afinal, onde mesmo foi dito que o “cumprimento da Lei” superaria a “pureza de origem”?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de maio de 2010].

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