quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Farsa das bibliotecas falsas

No Brasil, por mais que se corra quanto a certos assuntos, que se busque rapidez nisto ou naquilo, somos ainda escravos de um atraso secular. E mesmo que algum progresso seja feito em certos campos, marchamos rumo a ele em passo de tartaruga. Para não dizer de caranguejo.
Veja-se o caso da Lei nº. 1244/2010, a qual determina que, dentro de um prazo de dez anos, todas as escolas brasileiras tenham uma biblioteca cujo acervo conte com pelo menos um título por aluno matriculado. Notem bem os números envolvidos: um título por aluno, em até dez anos. E, claro, a lei não diz uma só palavra quanto a possíveis punições a quem descumprir o que ela estabelece. Se forem os mesmos fiscais responsáveis pela verificação das bibliotecas de tantas faculdades particulares que existem por aí, tudo certamente ficará como está: o nada em pleno vazio. Ou, no máximo, poderá ser verificado aquele curioso fenômeno dos livros viajantes que se verifica em tantos centros de ensino superior privados: compram-se cinco mil volumes para a Unidade A, para fazer bonito na vistoria. Segue a fiscalização para a Unidade B e para ela, na véspera, muda-se o acervo. Quando chegada a hora da visita à Unidade C, lá estarão os mesmos livros viajantes. E no final se registra que o acervo total da instituição é de 15 mil volumes!
Que existam escolas públicas sem biblioteca, em minha opinião, já chega as raias do absurdo. Seria o mesmo que hospitais sem laboratório, ou quartel de bombeiros sem água encanada. Impossibilidades, em princípio, mas... paro por aqui: é bem provável que existam. Voltemos às bibliotecas e aos números.
O primeiro censo de bibliotecas públicas, encomendado pelo Ministério da Cultura e realizado pela Fundação Getúlio Vargas, traz resultados estarrecedores. Em primeiro lugar, ele revela que 445 cidades brasileiras ainda não tem bibliotecas municipais, o que equivale a quase 10% dos municípios em todo o país. E, ao mesmo tempo, apresenta gravíssimas distorções (os números, muitas vezes, suportam tudo). Sabemos através do levantamento, que Tocantins é o estado com maior índice de bibliotecas por grupo de 100 mil habitantes. Surpresa? Sim, mas esperem. É que ele possui 100 bibliotecas para 1 milhão e trezentos mil habitantes. E São Paulo – pobre São Paulo atrasado – quantas bibliotecas possui? Meras 673: arredondando, 7 vezes mais do que as de Tocantins, mas para uma população que é 32 vezes maior do que a daquele estado! Não é à toa que estamos em 22º lugar, perdendo até para o Maranhão! Situação pior (Acre, Pará e Amazonas não contam) só o que ocorre no Rio de Janeiro (38 bibliotecas a mais que Tocantins, para uma população 12 vezes maior), e no Distrito Federal (80 bibliotecas a menos – isto mesmo, a menos – do que Tocantins, para o dobro de habitantes daquele estado). Mas, em se tratando do Rio de Janeiro e DF (eternos motivos de críticas e piadas), e das administrações que tiveram por lá, já era de se esperar...
Surpreendente tal drama com ar de farsa. E as escolas ainda não têm bibliotecas. E terão ainda dez anos de prazo para implantá-las. Isto numa época em que tanto se tem discutido o futuro dos livros – não irão acabar, é certo, e deste assunto trataremos numa próxima ocasião – mas que sensíveis mudanças nos hábitos de leitura e publicações de títulos estão previstas, ou são vislumbradas.
Vejamos no que isto vai dar, mas as expectativas não são das melhores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de junho de 2010].

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