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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Juntos pelo Coronel Augusto César

Sei que o assunto da vez é a misteriosa morte de Osama Bin-Laden, que deve ter sido trucidado por balas, a ponto de ser necessário um exame de DNA (provavelmente de seus restos, tornados irreconhecíveis), e dos norte-americanos vedarem a publicação de fotos do falecido, ou do que restou dele. Mas como a nuvem de poeira sobre o assunto está muito densa, é melhor esperar que ela abaixe, para uma melhor reflexão. Deixemos, por enquanto, os estadunidenses com seus mortos, vinganças, libelos de sangue e coisas do gênero. Estão á milhares de quilômetros uns e outros assuntos, dos quais não possuímos qualquer controle ou influência. Voltemos os olhos a temas mais próximos, por ora.
Assim, afirmo que foi com absoluta surpresa e consternação que li, n’A Notícia da semana passada, a manchete e a matéria que tratavam das precaríssimas condições em que se encontram a Escola Coronel Augusto César – um fato ainda mais estarrecedor quando pensamos que seu estado calamitoso coincide, justamente, com seu centésimo décimo aniversário. Que terrível circunstância assinala esta data! Digna de entrar para a história do descaso público (“público” no sentido de “político-administrativo”, pois no sentido de “cidadão”, será certamente um marco a ser reverenciado a participação de professores, alunos e ex-alunos no abraço simbólico ao prédio, declarando seu amor por aquela instituição e seu repúdio a quem deixou que suas instalações imergissem em semelhante caos: parabéns, povo decente de Leme!).
São realmente incompreensíveis certas formas de gestão do patrimônio coletivo. Em muitos lugares parecem ainda campear a velha mentalidade do “deixa cair, que reforma não rende voto; depois a gente constrói outra coisa no lugar, que chama mais atenção e tem repasse de verbas”. E assim vão sendo dilapidados, sem dó, os prédios, as receitas, a memória, o passado, convertendo estações ferroviárias em teatros, deixando que teatros se tornem casas de jogos, casas de jogos em museus, e museus em mercados, que vendem “conceitos” e “idéias” de seus “patrocinadores”...
Casos como o do Coronel, por exemplo, são altamente preocupantes, se considerarmos os mesmos frente a uma administração mais avara, ou matreira (em público, este tipo de gente se considera “moderna”, “antenada”, além de outras falácias do gênero). Estivéssemos nestas circunstâncias – e creio que não estamos – o descaso com o prédio da velha escola seria facilmente justificável pela seguinte equação: “de um lado temos um prédio caindo aos pedaços e com poucos alunos, porque a demanda local diminuiu, e situado na região mais central da cidade; do outro a possibilidade de desocupar o terreno, cedendo a um particular, com a promessa de geração de empregos, ou construirmos algo que glorifique o nosso governo. Então, o que faremos: deixar que ele se arrebente de podre, ocuparmos o terreno com algo previsto nas variantes anteriores, e construirmos uma outra escola – que também assinalará o dinamismo de nosso governo – numa região de maior demanda! Ou manter a velharia em pleno centro?”. E, como acreditamos que um dia possa vir a ocorrer, clamou-se: “Deixa cair! Deixa cair! Bravos, parabéns! O Sr., meu secretário de obras, há de pavimentar meu caminho rumo à Assembleia Legilativa”... parece que possamos até ouvir tal diálogo...
Tive a honra de estudar no Coronel em duas ocasiões, no tempo em que era ainda a E.E.P.G “Coronel Augusto César”. Ali conheci excelentes professores, ótimos colegas e brilhantes diretores – em especial um, professor de Matemática (a disciplina mais horripilante da minha infância e que, graças às suas aulas, se tornou mais clara) o qual possuía o invulgar dom de apaziguar nossas badernas não com o terror e a rigidez, mas com um conversa serena, paciente, lógica e compreensiva. De todas as escolas ou colégios onde estudei foi o Coronel o único que não me deu vontade de fugir, pulando o muro: o que, aliás, era bem fácil, bastava que nos içássemos, combinando os pés, num quartinho de ferramentas, e as costas, no muro do vizinho Liceu, que dali cairíamos em território livre, pois naqueles dias, ninguém do Gloriam Dei podia nos recambiar de volta para a escola: vivíamos uma espécie de cordial rivalidade, inflamada, mas respeitosa. Algo impossível até de se imaginar atualmente.
E tínhamos, também, nossos problemas, então. Vazamentos vários nos banheiros da ala nova, poeira de cupim e caca de morcego que caía em nossas cabeças, uma biblioteca minúscula e mal aparelhada e uma sala-laboratório bem aparelhada, mas que raramente víamos em operação. E uma APM (Associação de Pais e Mestres – existem, ainda?) que tinha ótimas intenções, reunia-se bastante, e que nunca, aparentemente, conseguia resolver a falta de papel para a rodagem das cópias mimeografadas nem diminuir o custo dos jalecos dos alunos de baixa renda. Como já possuía uma certa atenção estética, incomodava-me ver, a todo momento, a substituição das antigas janelas – que não presenciei – pelos maçantes vitrôs que até hoje lá estão. Mas esta é uma questão menor. Porque tínhamos, para coroar os desmazelos de então (pálida sombra dos atuais), um velho piano de meia-cauda, decompondo-se aos nossos olhos num tablado do pátio, onde às vezes encenavam-se algumas pequenas adaptações teatrais (meu début, ali, tenebroso, foi numa adaptação e tradução de minha autoria do Henrique V, de Shakespeare, baseado num livrinho da Longman para crianças, de vinte e poucas páginas, para a qual, na falta do vestuário característico para representar o monarca inglês, vali-me de um robe chinês que pertencera ao meu pai, e que era a coisa mais parecida às roupas de princípios dos século XIV–XV que consegui encontrar. Não me arrependo nem me envergonho do que fiz, lá pelos meus treze, quatorze anos. Mas garanto que não o repetiria). E voltando ao piano, ruína de uma outra época, era ele, então, altamente respeitado por nós, pois se tratava do grande mistério da escola, afinal, diziam ser ele assombrado. Corria a lenda que, em certas noites, apesar de seu estado ruinoso, ouviam alguém tocar melodias inteiras em seus carcomidos teclados; e até alegavam ter visto duas mãos fantasmagóricas, separadas do corpo, dedilhando as teclas: uns diziam ser o velho Coronel Augusto César; outros, uma sua filha, que teria sido professora ali. O fato é que a lenda é, muitas vezes, melhor do que o fato.
Possui também o Coronel um aspecto histórico muito curioso em defesa dos valores paulistas. Meu avô, Zezito Queiroz (estudante da mesma escola) contava que, quando da invasão de Leme pelas tropas federais, na Revolução de 1932, os professores dali defenderam com unhas e dentes os livros didáticos que elogiavam a tradição piratininga, a ponto de, somente por meio da violência dos invasores, separarem-se dos mesmos, cujo destino era a fogueira.
Quero concluir dizendo que passei algumas das épocas mais felizes de minha vida no Coronel. Mas isto é o de menos, porque só diz respeito a mim. De maior relevo é meu desejo por defendê-lo, em que instâncias sejam necessárias. Pois a importância desta escola no cenário intelectual, memorialístico e afetivo de Leme é insubstituível, e, portanto, sua estrutura física, e moral, não pode desaparecer do cenário da cidade, o que seria muito mais do que lastimável, seria verdadeiramente um crime, para não dizer um motivo de se rogar uma tremenda, profunda, e sinistra praga contra às autoridades que se omitirem a esta questão. E, de preferência, numa única voz.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de maio de 2011].

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

Tudo pelo Cine Alvorada!

Quando o leitor tiver em mãos, sob seus olhos, esta página com minha crônica, e de minha cara vizinha Berenice, espero ainda que, com os mesmos olhos, possa avistar, firme e inabalável, o Cine Alvorada, em seu mesmíssimo lugar, físico e cultural, na cidade de Leme. Anseio, sinceramente, que as autoridades locais – públicas, mas não só, pois a sociedade civil é também uma autoridade, senão a primeira, de direito – tomem as medidas necessárias para que um foco irradiador de cultura, e uma interessante construção de fins dos anos 1950, seja preservado com todo o respeito de que faz jus.
Já de antemão afianço que a responsabilidade final caberá ao poder executivo ou à Câmara, em suma, às esferas municipais. Só a eles cabe o tombamento do prédio. Que não se, recorra, portanto, às avaliações do Condephaat – míope na análise de casos (os abatedouros parecem ter primazia frente aos avoengos solares) e manco na celeridade com que os encaminha à preservação – ou àquelas do IPHAN – este é cego de um olho (só enxerga valor artístico, histórico ou arquitetônico em construções com mais de cento e cinquenta anos) e perneta (seus processos de tombamento seguem o ritmo da marcha do Saci). Quanto à boa-vontade do novo proprietário – do, agora friamente chamado, imóvel – duvido de que a mesma possa ser abalada. Quem cogita em pôr abaixo um marco cultural e arquitetônico do município para, em seu lugar, erguer – que digo, e desde quando tal coisa se ergue? – um pátio de vendas de automóveis demonstra não ter sensibilidade alguma frente à cidade em que vive. Nem, tampouco, boa visão para os negócios, pois, afinal, o mesmo se localizaria no término de uma Avenida, na qual a concorrência já se encontra estabelecida e atuante. Ninguém desce ao fim de nada para tomada de preços, sobretudo neste ramo comercial. Quem compra carros – e isto é sabido do Oiapoque ao Chuí – procura os estacionamentos à entrada das cidades e próximos às rodovias: ninguém desbrava ruas das quais não sabe como retornar.
Considero também lamentável que a família proprietária do Cine Alvorada tenha querido livrar-se dele, sem pensar no destino que o mesmo poderia ter. Pois não se fecha um cinema como se fecha uma venda ou um armarinho. Graças à sua influência política, poderia ter planejado um fim mais nobre para o empreendimento, como transformá-lo, por exemplo, num Cine-Teatro Municipal, ou algo do gênero, encampado pela Prefeitura ou, ainda, pela Câmara – a casa dos edis de Itatiba, SP, por exemplo, mantém, em suas dependências, um excelente teatro. Tal proposta, se aberta à manifestação pública, frisando-se a sua necessidade para a manutenção do prédio e de suas funções, certamente granjearia a adesão de muitos munícipes. Mas, a política, sabemos todos como ela é: mãe num dia, madrasta no outro, e que se percam os anéis para se salvarem os dedos.
Saindo da esfera monetária e política, retornando à espiritual, sinto-me no dever de afirmar que tenho gratas lembranças do Cine Alvorada. Namorei muito pouco dentro dele, mas, por outro lado, diverti-me à farta, junto a amigos, com o objetivo primeiro e principal da casa, afinal de contas: assistir aos filmes. E, em especial, as reprises. Até hoje tenho amigos que não acreditam que, um dia, eu possa ter visto Ben-Hur em exibição panorâmica. Pois não só o vi, como revi, quase toda semana-santa, exibido na tela – panorâmica – do Alvorada. Quem se lembra do filme, sobretudo da corrida de bigas, sabe do que estou falando. Pois se trata de uma experiência única. Às vezes, na mesma temporada, éramos sujeitos a alguns abacaxis, como O Manto Sagrado – ao qual apelidávamos de O Manto Sangrado, porque a chatice do filme sangrava nossa paciência. Por outro lado, havia ainda um excelente filme espanhol, do qual nunca consegui lograr maiores informações além do título: O Beijo de Judas (“El Beso de Judas”), cujo artista que interpretava Jesus parecia ter mais de dois metros de altura e seu rosto nunca era mostrado. O que valia por dezenas de tratados teológicos (não só cristãos, mas até judaicos e islâmicos), quanto à representação humana de um Messias e nossa capacidade de compreendê-los. Acho que até alguns ateus endossariam a abordagem humana de toda a questão.
Enfim, reitero meus votos – mais que votos, pois subescrevi o abaixo-assinado virtual (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2011N8232 ) – de que o Cine Alvorada permaneça onde está. E apoiarei, publicamente, todos os que se manifestarem por tal. Entretanto, não sei ainda o destino do mesmo ante aos olhos do leitor (esta crônica é enviada entre às quintas e sextas-feiras). Caso o nosso velho cinema venha abaixo, digo só uma coisa: para mim, e espero que outros pensem o mesmo, a 29 de agosto passará a acabar na Newton Prado – o resto já não mais me interessa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de abril de 2011].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mais um das "boas" intenções que continuam a encher o inferno

A Biblioteca Mário de Andrade, no próximo dia 26 de fevereiro, celebrará seus 85 anos de existência.
Ela não nasceu, evidentemente com este nome, nem no local onde atualmente se encontra. Na sua certidão de nascimento, de 25 de fevereiro de 1925, constava o nome Bibliotheca Municipal de São Paulo. Mas o seu batismo só se daria no ano seguinte, num casarão da Rua Sete de Abril, que abrigou os 15 mil volumes de seu acervo inicial. Na sua crisma, com meros dezessete aninhos, ela muda de endereço, o que até hoje ocupa, na Rua da Consolação, 94, no coração da Praça Dom José Gaspar. E no ano seguinte, atingida sua maioridade, alterou o seu nome: passou-se a chamar, deste então, Biblioteca Mário de Andrade, numa justa homenagem àquele grande escritor e intelectual paulista.
Quanto à sua importância cultural, basta que nos remetamos a dois únicos aspectos, dentre os muitos que poderíamos mencionar. Em primeiro lugar, ela, durante a gestão de Sérgio Milliet – cujas credenciais artísticas, literárias e intelectuais, muito resumidas aos seus dados essenciais, não caberiam nesta lauda e meia – abrigou a primeira coleção de arte moderna do país, muito antes da fundação do MASP, do MAM e do MAC. E era tão estupenda que quase tudo o que compõe a seção moderna da Pinacoteca Municipal saiu de lá. Dali veio o embrião daquela que é conhecida como uma das melhores recolhas do gênero em nosso país.
Em segundo lugar, há que se destacar a monumentalidade de seu acervo. Ele conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos, e uma significativa parte dele formado por livros raríssimos, além de manuscritos, gravuras, mapas, obras que remontam ao século XV. No Brasil, só é menor do que a Biblioteca Nacional, mas, convenhamos, não devemos nos envergonhar nem um pouco da nossa, como veremos. Pois se a Nacional é de 1810 (ou seja, 115 anos mais velha que a de São Paulo, tempo de sobra para ser maior), e tem 8 milhões de peças em seu acervo (nem três vezes o que possuímos), se foi, e ainda é, bancada com recursos da União (antes Império e antes ainda Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves), e, beneficia-se de uma lei que manda que de todo livro impresso nestas plagas sejam enviados alguns exemplares para ela, louve-se o fato de que a de São Paulo foi construída e abastecida com dinheiro paulista e não contou com uma igual norma jurídica tão camarada. E, verdade seja dita, dentre as oito milhões de peças da Nacional, muitas são obras jamais publicadas: manuscritos inéditos e contemporâneos, ali registrados para salvaguarda de direitos autorais. Dizem que até as cadeiras e mesas entram nesta milionária relação de objetos...
Acima mencionamos o fato de que a coleção da Biblioteca Mário de Andrade “conta, desde alguns anos, com cerca de 3 milhões e 300 mil títulos”. Não se interprete disto que minha intenção era dizer “conta atualmente com 3 milhões e tantos títulos”. Poderia dar a impressão que este acervo tem recebido constantes acréscimos, o que não ocorre. Pois a instituição, mal administrada há seguramente duas décadas, sequer conta, atualmente, com uma política de aquisição. Sem falar na deterioração de suas instalações, nas máquinas de xerox quebradas, e até na precariedade da vigilância: em 2006, durante a gestão municipal do bem-afortunado Chirico, então responsável por ela, ocorreu um furto quase imensurável de obras raras, tal o descaso com sua segurança. E seu herdeiro polítco, nada mais fez por aquele monumento ao saber: a Biblioteca Mário de Andrade, há meses, está com suas portas fechadas, pelos riscos que podem vitimar a própria saúde dos visitantes e funcionários.
Por tudo o que foi exposto, é de espantar, de pasmar, que ao invés de se garantir um espaço de excelência e tradição como aquele, gaste-se dinheiro público na construção desta nova excentricidade, deste novo shopping cultural (esses tucanos são chegados num shopping, o que revela muita, muita coisa...), que é a tal Biblioteca de São Paulo, no tal Parque da Juventude, sobre as ruínas (mal-assombradas, diziam) do Presídio do Carandiru.
O nome, à primeira vista, é bonito, ainda que eu não dê dois anos até que mude para Biblioteca de São Paulo “Ruth Cardoso”, ou outro nome da intelligentsia tucana. E o local até que é interessante. Aquelas plagas são bem merecedoras de cultura. Mas de metrô, em meia-hora, chega-se à Biblioteca Mário de Andrade, de qualquer estação da cidade (o entroncamento da Sé está ali, bem pertinho, unindo Leste a Oeste, Norte a Sul). Logo, do ponto de vista logístico, geográfico, parece mais um engano: ou talvez um afago ao moradores da Zona Norte, ao invés de um comodidade à população como um todo. E quanto ao acervo, que mesquinhez! Trinta mil livros? Só o dobro do que a Bibliotheca Municipal contava em 1925! Que vergonha! E o modelo de aquisição, então? Orgulham-se de que tudo que for publicado nos gêneros mais diversos (leia-se: bestsellers) estará em poucos semanas na prateleira. Pois a orientação da biblioteca não se deve aos intelectuais, jactanciam-se, mas ao interesse do público. Porém, é claro, por traz de tudo isto está o Poder Executivo Estadual, indisfarçavelmente, a definir o interesse do público.Somando-se a estas vergonhas, há mais uma que é deixar que os fundos para a construção de algo novo, que ainda não sabemos se é necessário, tenham deixado de ir para algo velho, que no entanto é indispensável. De modo que o bem-aventurado Chirico, eterno candidato a alguma coisa, na sua ênfase em destacar seu zêlo e vontade, fez-me recordar uma antiga história por conta deste episódio todo.
Quando Alexandria, sede da famosa Biblioteca, foi conquistada pelo general Amr ibn-al As (c.583-664), este determinou que os livros daquela riquíssima coleção fossem utilizados como combustível nas caldeiras que aqueciam os banhos públicos (o correspondente moderno, em épocas de eleição, a não gastar dinheiro com obras de outros governos e, no lugar disso, satisfazer pontualmente algum anseio). Os defensores de tão inestimável acervo tentaram convencer o conquistador a não fazer aquilo, a não destruir o legado de séculos de tantas civilizações. O general, mero vassalo do Califa Omar (634-644), submeteu a este, então, aqueles argumentos. E a resposta daquele potentado oriental foi mais ou menos a seguinte: “os livros contrários ao Corão, devem ser destruídos, porque são heréticos. Já os que concordam com o Corão, não servem para nada, porque são repetitivos. Queime todos, então”.
Numa tradução paulista contemporânea, leia-se: “que pereça tudo o que veio antes de mim, e a casa que o conserva. Que se leia aquilo que eu acho bom, no palácio que edifiquei”. Ah, diga-se de passagem, uma coisa de que me esqueci: Omar também criou uma madrassa, uma casa de estudos voltada exclusivamente à leitura do Corão.
Que voltas que o mundo dá... Por esta, a boa gente de Piratininga não contava!

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de fevereiro de 2010].

Mais nuvens negras sobre São Paulo

As nuvens negras que pairam sobre os céus de São Paulo, há vários anos, abandonaram o seu aspecto, por assim dizer, metafórico, para se converterem em algo muito mais palpável e cruel, por via do clima: uma série de chuvas impiedosas que têm destruído cidades, sendo o caso mais grave o de São Luís do Paraitinga, completamente varrida pela enchente do rio que passa por ela.
A destruição, ali, foi quase absoluta. Nada menos de trezentos imóveis foram afetados pelas águas, e cento e oito deles interditados. A Igreja Matriz – sob a invocação de São Luís de Tolosa, padroeiro do município, e a mais alta construção da cidade – desabou sob o impacto da enchente. E o mesmo triste destino sofreu a encantadora capela de Nossa Senhora das Mercês, seguramente um dos mais antigos prédios locais. Não bastasse isto, o cartório foi devastado, destruindo bicentenários registros, apagando a memória dos mortos e dos vivos. E a biblioteca, uma das raras existentes em localidades daquele tamanho (pouco mais de 10 mil habitantes) no Estado de São Paulo. Sem falar na interrupção do abastecimento de água e telefone, das pessoas que tiveram de abandonar suas casas. Por sinal, ali, nem os animais foram poupados: as águas invadiram até o canil da Associação Protetora dos Animais, resultando na morte de oitenta gatos e mais de setenta cães.
Louve-se o heróico papel dos grupos e empresas de canoagem locais, responsáveis pela salvação de muitas vidas. Não fossem eles, as consequências seriam muitíssimo piores: pois apesar de São Luís ser um dos pontos turísticos mais visitados do Estado, célebre pelo seu casario histórico, o corpo de bombeiros local conta com apenas três – isto mesmo, TRÊS – integrantes. Veja-se o cuidado que a administração estadual tem por aquela preciosidade arquitetônica, o respeito que nutre por seus habitantes...
Por sinal, como costumam ser as coisas neste país e, sobretudo, em nosso Estado, o desastre já vinha sendo anunciado. Há dois, anos uma cheia do rio já pusera em alerta os cidadãos. Mas o Palácio dos Bandeirantes, acomodado em sua inércia de mais de uma década de sucessão de compadres, nada fez por São Luís – em nenhuma esfera, frise-se, pois é uma queixa de cada cidadão luisense com quem se encontra.
Estive ali por duas vezes. Passei ótimas temporadas por lá. Tratava-se de uma localidade que tinha tudo para ser – senão uma Ouro Preto paulista – algo não muito distante de uma Tiradentes do Vale do Paraíba, ou uma Paraty de serra acima. Mas as autoridades estaduais pouco se lixavam por São Luís do Paraitinga. Uma prova disto é mais do que evidente. Para que seu conjunto arquitetônico fosse oficialmente tombado pelo IPHAN, seria necessário que a rede elétrica fosse embutida no calçamento, para melhor visão dos prédios e logradouros históricos. Mas a verba veio? Claro que não. O Estado de São Paulo, administrado por pessoas pouco afeitas ao passado que antecede suas próprias origens, tem frequentemente rejeitado iniciativas do gênero.
E uma das provas do que dizemos é facilmente reconhecível pelas palavras do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o nosso conhecido Chirico. Disse ele, em visita, tardia, ao município, e sem poder culpar São Pedro pela catástrofe, nem pronto para uma autocrítica, mas, sim, rápido para encontrar um bode expiatório: “O pessoal do patrimônio histórico gosta muito de discutir e debater. Desta vez, vamos ter que fazer uma ação mais rápida” e, mais adiante, acrescentou que “Se discutirmos academicamente [quanto à reconstrução] vamos levar anos”.
Quando ouvimos a pressa do Chirico em pôr tudo de pé, para além das justas preocupações patrimoniais expressamente negadas por ele, trememos nas bases. Seriam as obras de reconstrução de São Luís do Paraitinga regidas pela mesma avidez de tempo da Linha Amarela do Metrô? Ou dos viadutos do Rodoanel?
Não se reconstitui a história e a vida das pessoas por uma assinatura palaciana, ainda que do primeiro mandatário do Estado, sobretudo quando o mesmo ignora as noções mais básicas do procedimento de restauração. Pois antes de assinar um simples cheque, que daria conta da obra, há que se saber da eficiência dos trabalhos, das aspirações locais, dos procedimentos técnicos.
Será o Chirico capaz de tais feitos? Restituir São Luís do Paraitinga, dotar a cidade de um sistema contra as enchentes, e devolvê-la ao circuito turístico estadual? Conseguirá ele resgatar o passado, o orgulho, a própria noção de existência, roubada pelas águas, dos luisenses? O povo do Estado de São Paulo aguarda por esta resposta. Mas será que ela virá, num ano de campanha? E, olhem, que nem falei da urucubaca....

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de janeiro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Notícias da Babilônia

Já tratamos anteriormente neste espaço dos graves riscos contra o patrimônio histórico causados com a invasão do Iraque pelas tropas da coalizão anglo-americana. A situação era por demais preocupante porque, como devem estar lembrados, o território do Iraque corresponde ao que foi a antiga Mesopotâmia, a terra entre os rios Tigre e Eufrates em que se desenvolveram as culturas suméria, assíria e babilônica, dentre outras, e que são consideradas o “berço” de nossa civilização, na medida em que muitos dos processos que estabelecem a passagem das sociedades pré-históricas para sociedades mais complexas ocorreram pela primeira vez justamente ali. Tal foi o cenário onde se deram as primeiras tentativas de domesticação de animais, da agricultura, da construção das primeiras cidades da história e, até onde sabemos, do primeiro registro escrito pelo homem. Em suma, o território iraquiano, em quase a sua totalidade, é ocupado por milhares de sítios arqueológicos, cuja importância é capital não só para um povo, país, ou grupos de países mas, sim, para toda a humanidade. E foi para um destes sítios arqueológicos que a atenção do mundo voltou-se há poucos dias. Pois graves notícias vinham da Babilônia, a 88 km ao sul de Bagdá, que por mais de mil anos foi uma das cidades mais importantes do mundo. Se foi ali que o rei Nabucodonosor mandou construir os Jardins Suspensos, uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo, reza a tradição que foi ali também que o monarca passou seus últimos dias, completamente louco, comendo o mato que crescia por entre os tijolos que calçavam as ruas, tijolos gravados com seu nome e com a afirmação de ser ele o maior dos reis.
A notícia, recente, dava conta de que forças militares lideradas pelos Estados Unidos estariam cometendo verdadeiros “crimes arqueológicos” no Iraque. Já se sabia que mais de cem mil peças do acervo do Museu Arqueológico de Bagdá foram retiradas ou destruídas — apesar dos desmentidos norte-americanos numa verdadeira ofensiva de contra-informação — mas o fato novo é que a depredação estava se dando diretamente num sítio arqueológico. Um relatório do Museu Britânico sobre a situação na Babilônia, ocupada desde os primeiros dias da invasão pelos fuzileiros norte-americanos e atualmente sob controle polonês, conta que tanques esmagaram parte da pavimentação da cidade, feita com tijolos de 2.600 anos, e soldados usaram o solo rico em fragmentos arqueológicos para encher sacos de areia para uso militar, fatos que os militares poloneses negam, ainda que um levantamento fotográfico revele a falta de certas peças arqueológicas: segundo o relatório, imagens de dragões nos tijolos que compõem as fundações da conhecida Porta de Ishtar foram danificadas de uma maneira que indicam a clara intenção de que alguém tentou arrancá-las à força. Não bastasse isso, foram cavadas trincheiras no local em que existiam depósitos de fragmentos arqueológicos, que ficaram espalhados pelo local, entre eles tabletes de barro com o selo de Nabucodonosor — para que se tenha uma idéia do descaso um pequeno tablete em escrita cuneiforme pode valer algumas dezenas de milhares de dólares.
O relatório afirma ainda que, inicialmente, a presença de tropas serviu para inibir saqueadores, mas a decisão de cobrir vastas áreas do sítio com pedras trazidas de outras áreas —para a construção de estacionamentos e bases de pouso — e o vazamento de combustível perto de um anfiteatro grego nas proximidades, provocaram danos generalizados.
Na verdade, a região foi vítima de uma longa linhagem de destruição e saque de seu patrimônio histórico. Não bastassem todas as guerras imemoriais travadas ali entre culturas locais que tentavam se sobrepor umas às outras, havia também as dominações estrangeiras, como a dos persas, iniciada por volta de 538 a.C., a dos gregos, dois séculos depois, seguida pela dos romanos, no alvorecer de nossa Era, da expansão islâmica, do jugo otomano, etc. Da mesma maneira, quando as explorações arqueológicas começaram, no século 19, pareciam mais com grandes operações de pilhagem organizada. Mais recentemente, com o embargo econômico após 1991, uma parte da população viu-se forçada a pilhar os sítios arqueológicos e a vender os objetos no mercado ilegal de antigüidades. As zonas de exclusão aéreas impostas pela ONU diminuíram a capacidade de ação do governo de Bagdá na zona xiita e curda, onde ocorreu grande parte dos saques. Perto da cidade de Mossul, no local da antiga cidade real de Nínive, transformada em um museu a céu aberto, este sítio arqueológico foi completamente pilhado após a guerra de 1991. Paredes de pedra com relevos foram removidas inteiramente ou retalhadas pelos saqueadores. Muitos fragmentos reapareceram nos últimos anos no mercado de antigüidades da Europa e Estados Unidos. Mas ainda que muito tenha sido dali retirado, muita coisa também ficou, bem conhecida já ou para ser descoberta ainda.
Os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra foram insistentemente alertados pelos cientistas e pela Unesco sobre os riscos que a guerra, os bombardeios e os saques representariam para a cultura da Mesopotâmia, mas nada fizeram para impedir a destruição. Restrições legais ao fato existem, pois uma convenção da ONU, de 1954, regulamentou a proteção dos bens culturais de uma região em caso de conflito armado. Mas os Estados Unidos não a assinaram, o que os exime de responsabilidade nessa questão. Curioso, não? Não bastassem o controle do petróleo, a alteração do quadro geopolítico, os lucrativos contratos de reconstrução do que eles mesmos destruíram, aproveitam-se também das antigüidades. E nada mais fácil para pilhá-las abertamente do que uma situação de caos e destruição generalizada, como esta, na Babilônia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de janeiro de 2005].

Um museu sem sentido

Peço a permissão dos leitores para interromper a série a que dei início já há quinze dias, mas um assunto mais premente veio à baila neste intervalo de tempo. Como já sabem, este é um dos problemas de uma contribuição a cada quinzena: a realidade dos fatos, muitas vezes, nos leva de roldão. Já o assunto que merece um comentário tão pontual vem a ser a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, esta “jóia da coroa” da candidatura do governador paulista à Presidência da República, incrustada na recém-reformada Estação da Luz .
Não sou nenhuma pessoa tacanha que acredita que um museu seja uma mera coleção de velharias mais ou menos imprestáveis. Nem tampouco um antiquado a ponto de pretender que os museus sejam locais revestidos de uma aura sagrada onde se expõem as grandes obras de arte do passado ou peças que sejam testemunhos de outros tempos. Acho, em boa parte, que são isto também, mas não só. Acredito mesmo que, de acordo com a proposta e o interesse, mas sobretudo dada a materialidade da coleção, um museu do automóvel, ou de história natural, de antigos rádios Phillips, ou de medalhas e armas do Império, são em grande parte equivalentes. O mesmo quando se trata de um museu de arte moderna frente a um dedicado à arte até o século XIX. Sendo bem organizados, catalogados e com um acervo representativo, têm praticamente o mesmo valor. E se aos seus recursos somam-se ainda alguns bons efeitos da tecnologia — uma iluminação especial, fones de ouvido informando o visitante, gráficos ou animações computadorizados multiplicando-se por monitores — então melhor ainda.
O que é difícil imaginar é um museu voltado a algo totalmente incorpóreo e imaterial, a um conceito que depende de tantos outros meios para poder existir quanto uma língua. É possível, como sabemos, um Museu da Imagem e do Som, temos aliás, pelo menos dois no Brasil: um em São Paulo, outro no Rio. E é possível porque tanto o som quanto a imagem podem ser gravados por processos mecânicos, como todo mundo sabe, e reproduzidos à hora que se bem entende. Trata-se, portanto, de um museu de sons e imagens com sentidos próprios, e não, por um lado, uma coleção de velhas películas e fitas cassetes, nem, por outro lado, um museu do barulho, ou das palavras soltas, de gritos desconexos, fotos aleatórias, filmes sem princípio, meio ou fim.
Lembremos que a definição mais seca da palavra museu — além de se referir a sua etimologia e seu antigo uso, “templo das musas”, nos quais se recolhiam objetos de arte, mas também exercitava-se a poesia, tornando-se uma espécie de coleção, biblioteca e academia — seria de que se trata de uma instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico, etc., como se constata em qualquer bom dicionário. Assim, segundo o que foi dito, paira a pergunta: e desde quando a língua é um objeto que possa entrar para um museu?
Por tudo que foi mostrado na imprensa a respeito do museu da língua portuguesa em São Paulo, o que mais chama atenção é justamente a dificuldade em expor um acervo que só existe de forma abstrata. Ou alguém acredita que projetar imagens de palavras numa parede, qual num planetário, tem alguma coisa a ver com a língua? Ou manusear objetos, montando palavras, relaciona-se diretamente com o idioma? Ou ler cartazes imensos, suspensos no teto, com trechos de obras literárias, tem algum sentido? Pelo menos para esta última “novidade”, como se sabe, há um meio melhor, mais cômodo e “mais aprovado pelo público”: o bom e velho livro.
Ora, um museu da língua é impossível. O que se pode ter é um museu das palavras encadeadas em frases ou versos, sejam impressas, sejam faladas e gravadas de alguma maneira qualquer. Mas, para isso, como devem se lembrar, já temos as bibliotecas, os museus de imagens e sons.
Em suma, o novo museu é completamente dispensável e sem sentido. Se o objetivo era celebrar nosso idioma, muito melhor faria o governador se comprasse mais livros às bibliotecas já existentes, ou informatizasse as mesmas, ou tornasse disponível o conteúdo das obras pertencentes às bibliotecas das universidades estaduais, ou mesmo daquelas que se encontram na Biblioteca Municipal, guardiã de tesouros que muita gente nem sonha existirem. Aí de fato teríamos um tributo ao idioma pátrio! E certamente por um custo bem menor.
Se a questão era porque devia-se gastar dinheiro em algo aparatoso relacionado à língua, e ao mesmo tempo dar um sentido a mais à Estação da Luz — cenário da nova pirotecnia — por que, ao invés de meter ali todos aqueles brinquedos moderninhos, não criaram no local numa biblioteca estadual de primeira, coisa que ainda não existe, e uma referência para todo o país? Isto sim seria um museu da língua! Só que no Brasil, nada é tão simples. A lógica é fazer o oposto do que a lógica manda. Preferiu-se esbanjar numa obra personalista e empolada, uma espécie de parque de diversões com atrações limitadas e maçantes. Pois que ninguém tenha dúvida quanto à vida curta deste museu. Depois das excursões de escolas e colégios, e de meia dúzia de exposições, todas com “ar de vanguarda” e quase idênticas umas as outras, não sei o que será do museu, senão, quem sabe, se converter numa espécie de biblioteca improvisada ou, o que é mais provável, cair no esquecimento. Tão logo deixar de ser mais uma novidade “novidadeira” há de perder a graça. E nem falamos em perder o sentido, já que este o tal museu não tem nem nunca terá.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de abril de 2006].

O Masp, exemplo da grandeza e da miséria

A Pinacoteca do Estado foi o primeiro museu de São Paulo cujo acervo foi integralmente voltado às artes plásticas. Consolidada nos primeiros anos do século XX, num tempo em que a instituição conjugava as atividades de escola de artes e coleção de obras artísticas, ela amealhou importantes pinturas e esculturas produzidas a partir do século XIX. O ingresso das obras à sua coleção deu-se, muitas vezes, por meio de doações. Mas era comum, desde então, a compra de quadros e obras de estatuária pelo poder público. Muito menos raras do que se supõem, quando se pensa no passado, eram as ocorrências de certas transações bastante suspeitas neste comércio. Assim, há registros de pintores que tiveram uma ou mais obras suas pagas pelo erário estadual, e acolhidas naquele instituição como exemplares do que melhor se produzia no país, e só mais tarde descobriu-se que seus patronos — aqueles que indicaram a compra pelo Estado, ou mesmo os que a autorizaram o pagamento — eram colecionadores de arte e proprietários de várias obras daqueles mesmos artistas: ou seja, o patrocínio tornava-se meio para a especulação.
A partir de meados da década de 1930, Getúlio Vargas intenta um projeto de construção de um ideário brasileiro de cultura e de país, que deveria de sobrepor às influências européias. A idéia, aliás, não era dele: requentou um pouco os discursos modernistas, adicionou algumas pitadas de Gilberto Freyre, algumas raspas de fascismo e realismo-socialista e mandou alguns intelectuais cozinharem tal excêntrico refogado para ser servido àqueles desejosos crônicos de um patriotismo sem medida: e a conta fosse mandada a alguns capitalistas e ao Estado, este saco de ouro sem fundo. Não por acaso, nesse período surgem grandes coleções públicas, e privadas, também. Portinari pontifica como nosso Picasso — um comunista como o artista oficial do Estado Novo! — e suas obras engrossam as coleções de notáveis do regime, empresários, etc., gente que também dispunha sobre o que os museus deveriam comprar. E nesse ambiente surge o embrião do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, etc.
Já a história do Masp, Museu de Arte de São Paulo, é bem conhecida. Sua existência se deve à iniciativa do magnata da imprensa Assis Chateaubriand, então dono dos Diários Associados, da revista de maior circulação no país e de emissoras de televisão, dentre vários outros negócios: um homem cujo procedimento validava a expressão, então recente, de que a imprensa era um quarto poder, para além dos três já tradicionalmente consagrado. Decidido que estava a montar um grande museu no Brasil, e não querendo arcar com o total das despesas, não teve escrúpulos em chantagear alguns grandes empresários nacionais, com a finalidade de levar a cabo seus planos. Argumentava ele que a nata do capitalismo local, que procurava imitar o jet set internacional, deveria também se igualar àquele no mecenato artístico, ao invés de gastar apenas e tão somente em suntuosas festas para deleite próprio. E para que abrissem a carteira para seu museu, ameaçou os plutocratas da época de expor todos os podres dos negócios deles ao público, através de seus jornais. A manobra deu muito certo, e eis que o Masp não só existe até hoje, como seu acervo é o maior, e melhor, da América Latina, no que se refere à arte ocidental compreendida entre o Renascimento e as vanguardas do princípio do século XX — há obras posteriores, também, quer pertencentes a novos movimentos artísticos, quer porque ingressaram mais recentemente na coleção, e muitas delas excepcionais, ainda que em boa parte sem o brilho das primeiras aquisições, como veremos, e por causas que adiante apresentaremos.Mas que ninguém tenha dúvida: as obras que vemos neste museu são de primeiríssima qualidade e invejadas por inúmeros colecionadores e instituições no mundo todo, inclusive norte-americanas, às quais o dinheiro não falta.
Não muito depois do Masp tomam corpo o Museu de Arte Moderna de São Paulo e o de Arte Contemporânea. O primeiro, tem seu acervo formado por esporádicas doações de colecionadores, ditadas pela mesma e velha política de valorização das coleções particulares por um contrapeso nas instituições públicas: numas e noutras são os mesmos nomes a fulgurarem como grandes artistas. Já o segundo, é um verdadeiro exemplo, ainda que poucas vezes seguido, à montagem de um museu pelo capital privado: o acervo do MAC, em quase sua totalidade, se deve à coleção pessoal de Ciccilo Matarazzo, doada por ele em vida, feito único, por seu vulto, no mecenato nacional. Mas, desde então, quase nada foi visto no gênero: os verdadeiramente ricos do Brasil, que gastam quase tanto quanto os ricos norte-americanos, contentam-se em satisfazerem tão somente aos seus prazeres pessoais.
O Masp teve sua luz cortada por falta de pagamento e vem apresentando deficiências crônicas em muitos setores. Se fosse nos Estados Unidos, Europa, ou mesmo na Argentina, garanto que algum magnata local pagaria a conta. Aqui, nada. Financiam peças teatrais — sofríveis — que eles mesmos escrevem, editam alguns caros livros de arte para brindar seus pares, pagam a alguns maganos para que lhes escrevam suas biografias e coisas que tais. Emanoel Araújo, escultor de renome, e que sozinho, e às suas próprias custas, montou aquela bela instituição que é o Museu Afro Brasil — e que luta para sobreviver ante o descaso dos tucanos paulistas e de seus herdeiros do PFL (a mesma carne, o mesmo sangue) — contava que quando dirigiu a Pinacoteca do Estado freqüentemente era sondado por gente da sociedade endinheirada, que se mostrava interessada em utilizar os salões daquele museu como cenário para alguma festa. Até aí, nada demais: é prárica comum em Nova Iorque, Paris e Buenos Aires. Só que ao invés do que acontece naquelas plagas — uma considerável soma é desembolsada neste “aluguel” — os de cá queriam pagar muito menos do que cobrava um simples bufê!
Por meio de todos estes exemplos, é surpreendente pensar que existe gente ainda que escuta as “idéias” dos milionários brasileiros, e votam em seus candidatos ao governo — meros gerentes de seus interesses — e dão as costas à crua realidade. E depois acham estranho quando o Estado implode!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de junho de 2006].

Diário Carioca: Parte II — Museus com música ambiente

Em minha última visita ao Rio de Janeiro, visitei alguns monumentos e instituições que são referências no Brasil e em boa parte da América Latina, sendo uma delas, aliás, um exemplo para todo o globo, tanto por seu acervo, quanto pelo profissionalismo empregado em seu atendimento ao público.
Falo, em primeiro lugar, da Biblioteca Nacional, a quarta maior do mundo, que contém obras que fazem morrer de inveja muitas outras grandes bibliotecas espalhadas pelo planeta. Pois não bastasse seu imenso acervo, não bastassem suas instalações magníficas que fazem do prédio um verdadeiro palácio dedicado ao livro, ela possui todo um serviço de pesquisa que fornece ao interessado, esteja ele a milhares de quilômetros de distância ou mesmo a meia dúzia deles, as principais informações para sua pesquisa, desde a mais simples até aquelas sobremodo complexas, e sem que o mesmo tenha de sair de casa: o resultado é disponibilizado quer de forma impressa, quer por xerox, ou por cópia eletrostática. Mas se ainda assim a pessoa se decida por pesquisar no local, orgulha-se a biblioteca em afirmar que a espera entre o pedido do livro e a entrega ao leitor não excede trinta minutos. Já quando pensamos na Biblioteca “Mário de Andrade”, a segunda maior do país e orgulho de São Paulo...Não falo das instalações do prédio, com suas infiltrações e rachaduras, da morosidade no único serviço de reprodução de texto, um departamento de xerox que atravessou várias gestões com a maioria das máquinas quebradas, sem previsão de reparos, e com funcionários sempre à beira de uma greve ou recém saídos dela, quando não exercendo-a em sua plenitude. E quanto ao legado das últimas — e atuais — administrações, só o futuro dirá: o balanço, até o presente, só da notícia de um roubo espetacular ocorrido ninguém sabe quando. E neste ponto, os cariocas, mais uma vez, estão na nossa frente, porque também sofreram um roubo de iguais proporções, e identificaram-no no prazo de uma semana.
Todavia, foi o Museu Histórico Nacional, das instituições visitadas, a que mais chamou minha atenção. Porque lá podemos verificar o tratamento que o Estado dá à nossa memória, que é tão particular, ao mesmo tempo tão coletiva, e que reside não só em nossas lembranças, mas também em livros, papéis,e em todo o tipo de objetos por meio dos quais procuramos reconstituir e compreender a nossa história. Ele pertence a uma “família” de museus, por assim dizer, que acumula as funções de repositório — ou depósito, como queiram — de antigüidades nacionais ali reunidas não como “testemunhas do passado”, que de fato são, mas, intencionalmente, como “testemunhas da História”, ou seja, aquela que se quer sacralizada. De modo que, por exemplo, uma cadeira do século XIX, deixa de ser uma peça antiga de mobiliário e se converte “na cadeira onde se sentou D. Pedro II quando assinou a declaração de Guerra contra o Paraguai”, digamos. Muda todo o contexto, não é verdade? Entretanto, isto acarreta certos perigos. Porque, muitas vezes, peças do mesmo gênero não se vinculam diretamente à nenhum “fato significativo da História”, só que por estarem no mesmo local, ganham ares de igual importância. Assim, o público procura ver em toda cadeira que encontra no Museu o assento de algum grande nome da história nacional: mesmo que não identificadas como tal, ele supõe que um dia o serão, e naquela simpática poltrona que ele viu num canto de um salão, acredita, haverá de certo, no futuro, uma placa indicando ter sido onde se sentava Rui Barbosa, digamos, “quando comunicado da Proclamação da República”. Que um cidadão pense em algo dessa natureza, é até bom. Curiosidade e imaginação histórica são coisas ótimas. O problema surge quando os museus dão mais ênfase às eventualidades históricas do que às realidades. E o empilhamento de toda a sorte de objetos num ambiente conduz, inexoravelmente, a isto. É preferível, mil vezes, uma série de museus intitulados “museu da casa paulista”, “museu da casa fluminense”, “museu da casa alagoana”, por exemplo, do que meter toda sorte de salas de jantar, armários e escarradeiras num museu dito “histórico”. Porque, ao fim e ao cabo, o Trono Imperial e a pena com a qual a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea acabam nivelados à espreguiçadeira da Baronesa Fulana, exposta na sala anterior, e à faca de abrir cartas da Viscondessa Cicrana, exibida duas salas mais adiante.
A concepção museológica nacional, é preciso que se diga, nunca seguiu a História, que é crítica, propositiva, aberta a interpretações e possibilidades várias, mas, sim, a memória, que, apesar de bem-intencionada, nada mais é do que uma tentativa de se criar uma narrativa do passado brasileiro, um todo uniforme, conduzindo a um determinado fim que outro não é senão o culto à Pátria, ou da idéia que se pretendia construir de “Pátria” à época da construção dos museus, conceitos de tal maneira impositivos, dogmáticos e alheios a possíveis críticas, que acabaram por se parecerem com grandes templos ou santuários consagrados a uma idéia. Quando não imensos, colossais túmulos, onde toda uma série de objetos, conceitos, pessoas, deveriam jazer mumificados e adorados pelas gerações vindouras.
Exemplos de tal procedimento não faltam. Falamos já daquela “família” de museus que seguia tal procedimento. Mas não cabe ao Museu Histórico Nacional o papel de patriarca. A primazia cabe, de fato, ao Museu Paulista, o Museu do Ipiranga, fundado em 1895 para a exposição de exemplares da fauna e flora brasileiras (leia-se: “animais empalhados e folhas secas”), e convertido em museu histórico em 1917. Vem então o já citado, inaugurado no Rio de Janeiro em 1922, em razão do centenário de nossa Independência, seguido pelo Museu Republicano da “Convenção de Itu”, de 1923. Este, aliás, celebra de tal maneira o acontecimento, extrapolando em tantos simbolismos, que, dentro dele, às vezes temos a impressão de estarmos numa igreja — brinco entre amigos que não se trata de um museu, mas sim, da igreja de Nossa Senhora da Convenção de Itu: até a mesa à volta da qual se sentaram os republicanos é disposta de uma maneira, com os retratos deles na parede, que evoca claramente a Ceia dos apóstolos. Quanto ao último membro dessa família — falo aqui daquele dentre a prole que se tornou mais vistoso, não da parentalha tímida, que se deixa esquecer nalguma lonjura —, trata-se do Museu da Inconfidência, de Ouro Preto, inaugurado em 1940.
Todos eles, por mais impressionantes que sejam seus acervos, recaem num erro comum: buscam uma imagem coletiva do passado que não existe, e assim são eles próprios testemunhas de como um dado presente procura enxergar certas coisas no passado à custa da verdade e da veracidade, chegando a ponto de, quando não as encontram, serem capazes de fabricá-las.Pensemos novamente no exemplo das cadeiras, dentre muitos outros possíveis.
Nós, paulistas, ainda temos um consolo quando visitamos os museus de nosso Estado. Pelo menos não somos submetidos às músicas de fundo que os museus cariocas tocam nas salas, para que o público “entre no clima” do momento histórico ali apresentado: nosso “cardápio”, um pouco indigesto, ainda que regional, é praticamente o mesmo, mas, pelo menos, estamos a salvo de uma questionável, e óbvia, música ambiente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de setembro de 2006].

As Novas Sete Maravilhas...

Tratamos, na semana passada, daquelas listas e votações inúteis — salvo para uma minoria — feitas sob medida para um público pouco exigente que imagina que, com seu voto, participará de alguma coisa grande, de algo importante, que sua opinião é a coisa maior que existe — quando, na verdade, não é: se o fosse, os nomes para as listas surgiriam de forma espontânea, e não provocada pelo marketing, revistas, sites, etc. E a mais nova bobagem do gênero é esta eleição das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Substituindo as sete maravilhas da Antigüidade (as Pirâmides de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o templo de Ártemis, em Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes, a estátua de Zeus, em Olímpia, e o Farol de Alexandria), querem exaltar outras sete, de uma lista de vinte e uma. São elas: a Acrópole de Atenas, na Grécia; o misto de cidade e palácio do Alhambra, em Granada, Espanha; a cidade-templo de Angkor Vat, no Camboja; a basílica de Santa Sofia, em Istambul, Turquia; o castelo de Neuschwanstein, em Füssen, Alemanha; as ruínas de Chichén Itzá, no México; o Coliseu de Roma, Itália; o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro; a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, Estados Unidos; as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile; a Grande Muralha da China; o Kremlin de Moscou, Rússia; as ruínas de Machu Picchu, no Peru; o teatro de ópera de Sydney, na Austrália; as ruínas de Petra, na Jordânia; as Pirâmides de Gizé, no Egito; o círculo de pedras de Stonehenge, na Inglaterra, o palácio-túmulo do Taj Mahal, em Agra, Índia; o templo Kiyomizu-dera, em Quioto, Japão; a cidade de Tombuctu, no Mali; e a Torre Eiffel em Paris, França.
Os motivos alegados para tal empreita são os mais variados e, todavia, pouco convincentes. Vá lá que os organizadores afirmem que o dinheiro arrecadado pela campanha seja revertido para sítios arquitetônicos ameaçados pela degradação do tempo, pelo descaso das autoridades ou pelo vandalismo. Mas quais seriam eles? Até agora, não ouvi uma só palavra. A coisa toda parece, mesmo, um grande golpe de propaganda, cuja finalidade é valorizar certos destinos turísticos, e render alguns cobres aos organizadores. É uma coisa a se pensar, aliás, como a Unesco — aquele braço da ONU que trata do patrimônio histórico e cultural — foi seduzida pelo projeto...
A própria concepção que o norteia, diga-se, é muito boba. Tal tipo de lista tinha sentido na Antigüidade, quando o conhecimento era, muitas vezes, submetido a rígidos esquemas de memorização, que incentivavam a reunião de informações em grupos fechados e excludentes, enfeixados por números “mágicos” — as três graças, os quatro elementos e os quatro temperamentos, as sete artes, as nove musas, os doze signos do zodíaco e por aí afora, tudo forçado a se relacionar entre si e explicar um ao outro. Que se fizesse tal coisa nos tempos de Antípatro de Sídon e Fílon de Bizâncio, autores das primeiras listas, compreende-se. Que se repita o mesmo procedimento, hoje, quando nada parece se relacionar com nada — porque, desde o Iluminismo do século XVIII, ninguém mais necessita de uma síntese suprema, completa, sobre tudo e todos —, creio que não passa de pura tolice. Ou má-fé dessa gente de propaganda, que cria necessidades que não existem, e tenta passar por reportagem o que é simples anúncio.
Quanto à sucessão de equívocos nesta história toda, ela é impressionante. Os leitores duvidam? Pois vejamos. A locução Sete Maravilhas do Mundo Moderno pressupõe, na opinião de qualquer pessoa mais atenta, que se refere a novas maravilhas a serem louvadas. Ou seja, monumentos erigidos posteriormente àqueles da Antigüidade clássica, posteriores aos que faziam parte das primeiras “listas”. Então, pergunta-se, por que incluir entre os “novos” as pirâmides de Gizé, que, aliás, já faziam parte das “velhas” maravilhas? Por que o círculo de Stonehenge, na Inglaterra, tão antigo, se não mais, que as próprias pirâmides? E a acrópole de Atenas? Que é belíssima, não resta dúvida. Mas ela já existia quando da primeira seleção e, curiosamente, não foi inclusa nela. É mais velha que o Mausoléu de Halicarnasso, que o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria, tão antiga quanto a estátua de Zeus, em Olímpia, e só um pouco mais nova que o templo de Ártemis, em Éfeso; em suma, contemporânea de cinco das sete maravilhas “antigas”.
Poderíamos gastar muita tinta sobre outras impropriedades quanto à escolha, discutindo as razões que levaram à inclusão deste ou daquele monumento e à exclusão de outros. Pensei mesmo em fazer minha lista pessoal das novas maravilhas, que incluiria construções que admiro e que não foram contempladas (como o santuário de Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal), ao lado de algumas retificações (o Fórum romano como um todo, e não só o Coliseu) e até outras de que particularmente não gosto, mas que são muito mais grandiosas do que algumas das relacionadas (o Plano-piloto de Brasília, o estádio do Maracanã, a hidrelétrica de Itaipu — com a vantagem, ainda, de serem brasileiras).
A questão, no fundo, é que tudo isto não passa de uma grande bobagem. E, o que é pior, nem um certo cuidado com as referências históricas está sendo tomado. Veja-se o caso do Cristo Redentor, o “representante brasileiro”. Inúmeros sites, inclusive um da Câmara dos Deputados, dão como autores do monumento o brasileiro Heitor da Silva Costa (1873-1945) e o escultor francês Paul Landowski (1875-1961), omitindo quem verdadeiramente desenhou o projeto da estátua, o artista brasileiro Carlos Oswald (1882-1971), um dos maiores nomes da gravura nacional. Este é nosso candidato, esses são seus cabos-eleitorais, e a quanto à qualidade da disputa... não digo mais nada...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de junho de 2007].

Modernizar a marretadas

O grande escritor paulista Monteiro Lobato cunhou, em fins do século XIX, a expressão “cidades mortas” para uma série de localidades vizinhas à sua Taubaté, que viviam da cultura do café havia quase uma centena de anos, e pelo fato do solo se esgotar, enfrentaram uma profunda, uma absoluta decadência. Em Minas Gerais, cidades como Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, mereceriam, durante muito tempo, a mesma designação: sem ouro nem diamantes, foi a pobreza que conservou seus aspectos tão característicos, que inibiu transformações radicais em sua paisagem urbana. O mesmo pode ser dito de Paraty e de Vassouras, no Rio de Janeiro; de Goiás, ou “Goiás velho”, como chamam os turistas, para horror de seus moradores; de boa parte de Olinda, em Pernambuco; de São Cristóvão, em Sergipe; de Alcântara, no Maranhão; de Penedo e Marechal Deodoro, em Alagoas; e de muitos outros lugares. Cidades vítimas da estagnação econômica e que se conservaram quase tal como eram, porque não puderam crescer.
Algumas delas, todavia, descobriram novas vocações, sequer sonhadas em anos remotos, naqueles dias em que foram dadas como “mortas”. O Vale do Paraíba é um pólo tecnológico e industrial de destaque; Olinda, ainda que incorporada ao “Grande Recife”, é um importante núcleo prestador de serviços; Ouro Preto e Diamantina abrigam grandes mineradoras; Alcântara abriga uma base de lançamento de foguetes espaciais. Todavia, uma, às vezes duas, semelhanças, todas estas cidades compartilham: muitas comportam célebres centros universitários: mas todas, absolutamente todas, inscrevem-se entre os principais destinos turísticos do país. E por quê? Porque conservaram muito, mas muito mesmo, de sua arquitetura.
O turismo, sob muitos aspectos, é uma indústria, como as tradicionais. Emprega muita gente, direta e indiretamente, cria uma malha de relações econômicas que envolve outras tantas, instiga a produção de bens de consumo que a ele se vinculam, ao mesmo tempo em que oferece um produto, que se não é único, tem o seu diferencial, a sua especificidade. Mas para que uma cidade seja um destino turístico, e, portanto, faça receita, promova empregos, faça o dinheiro circular, ela, necessariamente, deve ter alguma coisa para mostrar. E, portanto, é preciso preservar. Ou criar um novo que seja radicalmente diferente, não um pastiche. Como isto é difícil, preservar é sempre a melhor opção. No mínimo, porque “já está lá”. Pois é sobejamente conhecido que onde a indústria, o comércio, a lavoura, ou todos eles, entram em decadência, muito do que era considerado “velho”, “ultrapassado”, por um lado, ou “mato à toa”, “morro imprestável”, “rio fedido”, por outro, revelaram-se, em muitos casos, a salvação econômica de várias cidades.
É por isso que assistimos, com tristeza, o que está sendo feito em duas cidades nossas vizinhas: Araras e Pirassununga, ambas de longa história e história de proeminência na região, e que contam com alguns belos prédios que poderíamos mesmo chamar de monumentos. Mas não falo deles, que lá permanecem e permanecerão. Falo de todo um conjunto arquitetônico construído entre meados do século XIX e a primeira metade do XX, composto de casas mais ou menos suntuosos — isto não importa — e que revelam muito do modo de vida de todo aquele período. Além de serem belas, evidentemente. Vê-se com freqüência, nos últimos anos, muitas delas serem impiedosamente postas abaixo, ou, o quê dá quase no mesmo, reformadas de uma tal maneira que perdem todas as suas características. Algumas conservam uma coluna aqui, uma porta acolá, mas os janelões são substituídas por janelas de ferro, as varandas são fechadas, os jardins são arrasados para a construção de estacionamentos. Tudo muito triste. È verdade que não possuem a “solenidade” de um casarão do século XVII ou XVIII, como os de Salvador, por exemplo. Mas tão somente porque são ainda “jovens”. Vamos deixar com que elas envelheçam, com seus leões nos portões e suas mangueiras nos quintais.
Modernizar a golpes de marreta teve lá seu sentido nos tempos do Barão Haussmann, que remodelou Paris lá pelos anos 1860. E até para o Rio de Janeiro do começo do século, com o prefeito Pereira Passos e o seu “bota abaixo”. Mas, de lá para cá, a consciência mudou. Pena que as práticas não. Precisamos abrir os olhos. Salvar o que ainda se tem, já que ninguém sabe o que o amanhã nos revela. E lembrar que, afinal, quem não tem passado, dificilmente terá futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de setembro de 2007].

Por um museu para todos

No ano passado tratamos, neste espaço, da grave crise envolvendo o MASP, que culminou no desligamento da energia do Museu. Mas tal fato era, sob alguns aspectos, até pequeno, pois o ano se encerraria com um roubo notável, tanto pela qualidade das pinturas escolhidas, como pela maneira praticamente “primária” como foi levado a cabo. No episódio veio à tona, inclusive, a precariedade da segurança do museu, decerto muitíssimo inferior a que devem contar, em suas casas, muitos dos conselheiros e administradores do MASP.
Novas possibilidades de saneamento desta situação calamitosa, todavia, podem ser vislumbradas num horizonte próximo. Cabe à sociedade civil fazer seu papel e fazer com que o Estado também cumpra o seu. E o ponto de partida desta virada, parece ter seu início através do abaixo-assinado proposto pelo Prof. Luiz Marques, da Unicamp, que o justifica nos termos doravante transcritos:

“SOS MASP: Apelo aos Poderes Públicos"

"O Museu de Arte de São Paulo é de há muito uma instituição enferma, sem recursos e sem direção profissional. Seu estado hoje é terminal, como bem exemplificado pelo furto do Picasso e do Portinari. Faz-se imperativa, portanto, a intervenção dos poderes públicos. Para além do que compete fazer no plano judicial, é preciso encontrar uma fórmula jurídica que garanta ao Museu as condições necessárias para melhor cumprir sua missão formadora de cultura.
O problema a ser atacado de frente é de ordem institucional, pois, deste ponto de vista, o Masp é uma aberração: não sendo uma fundação, não dispõe de dotação original; não sendo, por outro lado, um museu do Estado, não é amparado por lei orçamentária. O mais importante Museu de Arte do hemisfério sul é uma sociedade civil de direito privado, constituída por algumas dezenas de associados que não contribuem para a manutenção de sua associação. Essa sociedade outorga-se a gestão de um patrimônio formado, em parte, por doações de beneméritos já falecidos e, em grande parte, por um aporte oriundo da Caixa Econômica Federal, vale dizer, do Estado brasileiro. Ora, tal patrimônio, público em sua essência, exige uma injeção constante de crescentes recursos, materiais e humanos, que esses associados se demonstraram incapazes de arregimentar. Portanto, a realidade incontornável é de uma singela simplicidade: os investimentos necessários para evitar outros furtos e reverter o processo de profunda degradação do Museu estão fora do alcance da sociedade que o controla.
A passagem do Masp à esfera dos poderes públicos afigura-se como uma solução altamente positiva. O bom desempenho de instituições como a Pinacoteca do Estado, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e o Museu da Língua Portuguesa demonstra uma notável racionalização na gestão pública da cultura. É preciso adotar para o Masp um estatuto jurídico e um modelo de gestão à imagem e semelhança dessas instituições que têm dado certo. Ao garantir o fluxo de recursos e uma direção confiada a um profissional da área (assessorado por um conselho científico), tal fórmula jurídica permitirá sanar duas das causas maiores da crise aguda do Museu.
O prédio do Masp é um próprio da Prefeitura, cedido em comodato à sociedade Masp por 40 anos. Ele deverá ser devolvido em 12 de novembro de 2008. A ocasião é perfeita para se retirar das instâncias privadas vigentes o controle do Museu e para se inaugurar uma outra fase de sua história, mais eficiente e sobretudo mais compatível com suas necessidades atuais e futuras. A municipalidade de São Paulo não possui um grande Museu de Arte. É mais que chegado o momento de preencher esta lacuna: que os poderes públicos – do Município, do Estado e/ou da Federação – intervenham para permitir que o Masp torne-se, enfim, o Museu de que a megalópole que somos necessita!”

O texto fala por si mesmo. As razões estão aí e as possibilidades, também. Algumas das maiores autoridades quanto ao tema, já deixaram sua assinatura. Aos interessados, basta enviar uma mensagem para o endereço eletrônico luiz.marques4@gmail.com confirmando o apoio. É algo a ser refletido e divulgado. E que pede a nossa participação.
Um bom Ano Novo!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de janeiro de 2008].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Nem sempre o tempo é um bom conselheiro


A imagem acima é do Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer no final dos anos 1930, e erguido no princípio dos 1940. Conta-se que na planta original todas as janelas seriam como a que se vê no canto esquerdo, octogonais, e a cobertura seria uma laje com um espécie de jardim-suspenso – só quem conhece muito pouco a cidade pensaria em algo assim, com pouca ventilação e com risco certo de infiltração (chove uma barbaridade, o ano todo). Coube ao arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998), um modernista que entendia muito de patrimônio histórico, demover seu confrade daqueles planos, sugerindo o emprego das varandas de madeira e da cobertura de telhas, como se vê em toda a cidade. E, felizmente, logrou seu intento. Se, para muitos, ainda hoje, é um susto vê-lo em meio ao casario colonial, com o tempo acostuma-se com ele. Percebe-se que não é tão discrepante assim: o original seria muito pior. Mas Niemeyer nunca ficou satisfeito com isto. Tanto que bastou seu companheiro de ofício morrer, e ele voltou à carga, conseguindo que pelo menos uma das varandas fosse alterada, convertendo-a na janela mencionada. E teria prosseguido, não fosse o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ter embargado a continuação da obra.
Em São Paulo, recentemente, quiseram reformar o prédio do Detran, em frente ao Parque do Ibirapuera, para transformá-lo num museu. Como a construção também é um projeto de Niemeyer, chamaram-no para que propusesse as alterações. E, de imediato, o que ele planejou: que se fechassem todas as vidraças, substituindo-as por uma imensa superfície branca, sem janelas. Até o governador José Serra de Chirico viu que não tinha cabimento ter-se uma construção em frente a um parque fechada para este. E tiraram o velho “guia genial da arquitetura dos povos” da frente dos trabalhos.
A última do grande arquiteto – não confundam com “o Grande Arquiteto” – deu-se em Brasília, na qual a lei determina que Oscar Niemeyer, e só ele, pode mexer na arquitetura pública da capital, “do toldo do Itamaraty à churrasqueira do Alvorada”, como se brinca. Ali intentou construir uma Praça da Soberania em plena Esplanada dos Ministérios. E na tal praça, ergueria um prédio, chamado de Memorial dos Presidentes, com um obelisco de cento e cinquenta metros de altura, e um estacionamento para três mil automóveis. Com exceção das empreiteiras e dos fabricantes de cimento, ninguém gostou da idéia. A geringonça, disseram, acabaria servindo como uma espécie de tapume, obstruindo a visão do prédio do Congresso Nacional. Houve até quem arriscasse que muitos congressistas apreciaram a idéia: nada como um tapume na frente para que ninguém veja o que se faz atrás...Outro aspecto levantado seria uma certa impropriedade na homenagem aos presidentes, como um todo. Houve gente de bem, primeiro no Palácio do Catete e até no Alvorada, como, também, um povinho que passou por lá que melhor seria se não tivéssemos de recordá-lo, e que não merece, certamente, um monumento. Mas a pá de cal na coisa toda foi dar o nome de Praça da Soberania a um estacionamento para milhares de automóveis. Começa-se assim. Depois, abole-se a palavra “cidadãos” e institui-se, em seu lugar “motoristas”. Termina-se por se chamar o Presidente da República em “Excelentíssimo Senhor Guardador de Carros”...
Niemeyer tem um legado arquitetônico tão vasto quanto os seus anos de vida. Não deveria maculá-lo com arroubos juvenis estando já mais do que centenário. Que desenhe. Que projete. Mas que não queira que aceitemos tudo que vem de seu lápis como a verdade transposta em linhas. Há mais gente na área que produz muita coisa boa e com mais sentido. É necessário que as velhas e imensas árvores tombem para que as mais jovens, à sua sombra, possam crescer.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de fevereiro de 2009].

Entre a salvação e a ruína

Atendendo ao pedido de alguns amigos e leitores que não puderam ler um artigo que publiquei no jornal Folha de S. Paulo, na coluna Tendências/Debates de 27 de março passado [2009], transcrevo-o abaixo:

“NOS MEUS dias de estudante em Mariana, MG, um amigo me dizia, em tom de brincadeira e crítica, que aquela era a única cidade que ele conhecera onde o patrimônio histórico não só era "tombado, como também escorado". O objeto de seu comentário era um antigo sobrado que agonizava em plena praça Cláudio Manoel, defronte à Sé de Mariana, durante anos mal sustentado por escoras de madeira, numa eterna iminência de queda.
Hoje, o prédio encontra-se restaurado, mas vários outros não tiveram a mesma sorte: foram ao chão, por descuido de seus proprietários e dos poderes públicos. E tal se deu na rua Direita, um dos "cartões-postais" da cidade.
Se isso foi possível na turística primeira capital de Minas Gerais, com suas imponentes igrejas, da Sé, de São Francisco, de São Pedro dos Clérigos e de Nossa Senhora do Carmo – cujo interior, riquíssimo, foi praticamente todo devorado pelo fogo, em 1999-, imagine o que poderia ocorrer em distritos afastados da sede do município.
Pois não é preciso mais imaginar: já está acontecendo, em Santa Rita Durão, distante pouco mais de 20 km de Mariana. Berço do poeta árcade – autor do épico "Caramuru" – cujo nome, em 1895, substituiria o de Inficionado, denominação primeira do lugar, esse distrito marianense possui dois preciosos templos do século dezoito que estão se desfazendo ante os olhos da população. A matriz de Nossa Senhora de Nazaré, cuja construção teve início em 1729 e que foi tombada em 1945, passa por uma restauração que já completou o décimo aniversário sem que melhora alguma possa ser vista.
As infiltrações de água danificam suas paredes, o entablamento, o piso e, principalmente, a pintura do forro, de João Batista de Figueiredo, datada de 1778 e que se encontra quase completamente destruída. Além disso, a falta de vigilância permitiu que parte de sua decoração de talha fosse arrancada dali. E dizem que nem sequer o foi na calada da noite... Já a capela de Nossa Senhora do Rosário, uma joia do rococó, igualmente tombada em 1945 e que tem excelentes pinturas nos forros da capela-mor e da nave – estas, pelo menos, restauradas em 2000 –, apresenta um avançado estágio de deterioração estrutural. Suas paredes de taipa pendem para o lado e nelas se observam grandes e profundas rachaduras. Tal inclinação permitiu que o reboco, em muitas partes externas, ruísse de seus suportes e provocou o deslocamento dos retábulos colaterais.
A situação ainda é mais grave quando se recorda que num deles, o colateral esquerdo, existe uma obra atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está seriamente ameaçada. Ou seja, nem o Aleijadinho está a salvo em Santa Rita Durão, Mariana. Ao descaso dos órgãos públicos, que não investigam tais fatos ou não tomam as medidas cabíveis para saná-los, soma-se o pouco caso dos interesses privados. Em visita recente (janeiro de 2009), fomos informados pelos moradores que, em razão da queda de uma ponte em março de 2008, os caminhões das mineradoras que exploram a região têm desviado seus trajetos costumeiros e acabam por passar perto da capela, comprometendo ainda mais suas fundações.
Como se vê, trata-se menos de um caso de esquecimento e mais de verdadeira omissão. Que se compreende, mas não se justifica, pelo fato de o distrito não se situar nas rotas turísticas principais, por ser distante da sede e pelo número pouco elevado de habitantes – ou por serem eles pouco influentes do ponto de vista político. Por outro lado, são várias e bem conhecidas as autoridades que poderiam dar um basta a essa vexaminosa situação: a Arquidiocese de Mariana, proprietária dos prédios, o governo municipal, o estadual e o federal, quer diretamente, quer por meio de seus institutos de preservação do patrimônio ou de incentivo ao turismo.
A iniciativa privada também deveria fazer algo por eles, seja pelo seu potencial de atração de visitantes, seja como marketing social – moeda tão apreciada hoje em dia por entidades que, muitas vezes, parecem sofrer de uma consciência um pouco pesada. Em tempos de tão cantada e decantada crise econômica, pedir recursos para a proteção do patrimônio deve soar a alguns ouvidos como um verdadeiro absurdo. Mas relíquias do nosso passado, diferentemente de lucros e investimentos, não podem ser refeitas a cada novo ano fiscal. São obras únicas e insubstituíveis.
Registramos aqui a denúncia e cobramos céleres providências por parte dos responsáveis. É salvarmos os templos ou incluí-los numa outra modalidade turística ou arqueológica: a visitação e o estudo das ruínas do século XVIII mineiro.”

Foi este o texto que naquele jornal publiquei. Espero que achem interessante.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de abril de 2009].

Uma campanha positiva

O texto da semana passada [4 de abril de 2009] foi uma reprodução de um artigo meu publicado no jornal Folha de S. Paulo em 27 de março último, na seção Tendências/Debates. Reproduzi-o a pedido de alguns amigos e leitores que, sabendo da publicação, não conseguiram lê-la a tempo.
Ele foi resultado de uma visita de campo a um distrito de Mariana, MG, realizada por mim e por colegas do curso de especialização em Cultura e Arte Barroca da Universidade Federal de Ouro Preto. Lá constatamos o iminente risco de queda de algumas igrejas históricas, patrimônios artísticos nacionais ameaçados de ruína. Indignados, tomamos as providências possíveis: escrevemos uma carta denunciando os fatos e a enviamos às autoridades competentes.
O barulho que criamos rendeu bons frutos. A Folha de S. Paulo se interessou pelo caso, concedeu espaço para o meu artigo, e ainda fez uma longa matéria, publicada em 6 de abril, tratando do descaso dedicado a alguns velhos templos mineiros, matéria a qual, remotamente, assessorei. E tanto o artigo quanto a reportagem tornaram mais evidente ao público aquela situação, repercutindo favoravelmente pela causa. Soube, aliás, por uma amiga que mora em S. Paulo, que a tevê interna do metrô exibia, nos vagões, a todo momento, uma chamada sobre a situação e remetendo à matéria do jornal.
É claro que este é só um trecho do caminho a ser percorrido. Muito mais há que ser feito. Mas, pelo menos, demos o primeiro passo.
O escandaloso em toda esta situação a respeito do patrimônio é que o seu abandono só se agrava. Em meu artigo, alertei para o fato de que os templos em questão encontravam-se em ruínas iminentes porque, também, distantes do centro da cidade, da turística Mariana. Pois é, para minha surpresa, eis que na semana seguinte surge a notícia de que a Igreja de São Francisco de Assis, no coração daquela cidade e um dos seus principais cartões-postais, foi interditada, sob risco de desabar! É inacreditável. E, o mais absurdo é que, segundo a reportagem, tal medida foi levada a cabo depois de vários meses, pelo fato das autoridades e funcionários do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), “não encontrarem os responsáveis pela administração do prédio”. Ora vejam! Dizia um amigo meu que, na sua opinião, todos os ficais do IPHAN ou eram cegos ou doentes dos olhos: tudo se passava na frente deles que, aparentemente, nada viam. Deveríamos, então, acrescentar que, além de cegos, são também surdos: bastaria perguntar a qualquer transeunte da cidade que aquele, prontamente, daria a resposta, quando não acompanharia o fiscal até a própria casa de um dos responsáveis. Agora fica fácil entender porque o patrimônio histórico nacional sofre tanto. Quem deveria vigiar, não vigia corretamente.
Nossa parte, ao menos, estamos fazendo. E o leitor deveria, também, se manifestar sempre que diante de um fato desses. Ou fazemos o que nos cabe, ou num futuro bem próximo não teremos nem sombra do nosso passado. Corremos o risco de que as próximas gerações pensem que nosso país foi construído anteontem...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de abril de 2009].