sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Notícias da Babilônia

Já tratamos anteriormente neste espaço dos graves riscos contra o patrimônio histórico causados com a invasão do Iraque pelas tropas da coalizão anglo-americana. A situação era por demais preocupante porque, como devem estar lembrados, o território do Iraque corresponde ao que foi a antiga Mesopotâmia, a terra entre os rios Tigre e Eufrates em que se desenvolveram as culturas suméria, assíria e babilônica, dentre outras, e que são consideradas o “berço” de nossa civilização, na medida em que muitos dos processos que estabelecem a passagem das sociedades pré-históricas para sociedades mais complexas ocorreram pela primeira vez justamente ali. Tal foi o cenário onde se deram as primeiras tentativas de domesticação de animais, da agricultura, da construção das primeiras cidades da história e, até onde sabemos, do primeiro registro escrito pelo homem. Em suma, o território iraquiano, em quase a sua totalidade, é ocupado por milhares de sítios arqueológicos, cuja importância é capital não só para um povo, país, ou grupos de países mas, sim, para toda a humanidade. E foi para um destes sítios arqueológicos que a atenção do mundo voltou-se há poucos dias. Pois graves notícias vinham da Babilônia, a 88 km ao sul de Bagdá, que por mais de mil anos foi uma das cidades mais importantes do mundo. Se foi ali que o rei Nabucodonosor mandou construir os Jardins Suspensos, uma das Sete Maravilhas do Mundo antigo, reza a tradição que foi ali também que o monarca passou seus últimos dias, completamente louco, comendo o mato que crescia por entre os tijolos que calçavam as ruas, tijolos gravados com seu nome e com a afirmação de ser ele o maior dos reis.
A notícia, recente, dava conta de que forças militares lideradas pelos Estados Unidos estariam cometendo verdadeiros “crimes arqueológicos” no Iraque. Já se sabia que mais de cem mil peças do acervo do Museu Arqueológico de Bagdá foram retiradas ou destruídas — apesar dos desmentidos norte-americanos numa verdadeira ofensiva de contra-informação — mas o fato novo é que a depredação estava se dando diretamente num sítio arqueológico. Um relatório do Museu Britânico sobre a situação na Babilônia, ocupada desde os primeiros dias da invasão pelos fuzileiros norte-americanos e atualmente sob controle polonês, conta que tanques esmagaram parte da pavimentação da cidade, feita com tijolos de 2.600 anos, e soldados usaram o solo rico em fragmentos arqueológicos para encher sacos de areia para uso militar, fatos que os militares poloneses negam, ainda que um levantamento fotográfico revele a falta de certas peças arqueológicas: segundo o relatório, imagens de dragões nos tijolos que compõem as fundações da conhecida Porta de Ishtar foram danificadas de uma maneira que indicam a clara intenção de que alguém tentou arrancá-las à força. Não bastasse isso, foram cavadas trincheiras no local em que existiam depósitos de fragmentos arqueológicos, que ficaram espalhados pelo local, entre eles tabletes de barro com o selo de Nabucodonosor — para que se tenha uma idéia do descaso um pequeno tablete em escrita cuneiforme pode valer algumas dezenas de milhares de dólares.
O relatório afirma ainda que, inicialmente, a presença de tropas serviu para inibir saqueadores, mas a decisão de cobrir vastas áreas do sítio com pedras trazidas de outras áreas —para a construção de estacionamentos e bases de pouso — e o vazamento de combustível perto de um anfiteatro grego nas proximidades, provocaram danos generalizados.
Na verdade, a região foi vítima de uma longa linhagem de destruição e saque de seu patrimônio histórico. Não bastassem todas as guerras imemoriais travadas ali entre culturas locais que tentavam se sobrepor umas às outras, havia também as dominações estrangeiras, como a dos persas, iniciada por volta de 538 a.C., a dos gregos, dois séculos depois, seguida pela dos romanos, no alvorecer de nossa Era, da expansão islâmica, do jugo otomano, etc. Da mesma maneira, quando as explorações arqueológicas começaram, no século 19, pareciam mais com grandes operações de pilhagem organizada. Mais recentemente, com o embargo econômico após 1991, uma parte da população viu-se forçada a pilhar os sítios arqueológicos e a vender os objetos no mercado ilegal de antigüidades. As zonas de exclusão aéreas impostas pela ONU diminuíram a capacidade de ação do governo de Bagdá na zona xiita e curda, onde ocorreu grande parte dos saques. Perto da cidade de Mossul, no local da antiga cidade real de Nínive, transformada em um museu a céu aberto, este sítio arqueológico foi completamente pilhado após a guerra de 1991. Paredes de pedra com relevos foram removidas inteiramente ou retalhadas pelos saqueadores. Muitos fragmentos reapareceram nos últimos anos no mercado de antigüidades da Europa e Estados Unidos. Mas ainda que muito tenha sido dali retirado, muita coisa também ficou, bem conhecida já ou para ser descoberta ainda.
Os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra foram insistentemente alertados pelos cientistas e pela Unesco sobre os riscos que a guerra, os bombardeios e os saques representariam para a cultura da Mesopotâmia, mas nada fizeram para impedir a destruição. Restrições legais ao fato existem, pois uma convenção da ONU, de 1954, regulamentou a proteção dos bens culturais de uma região em caso de conflito armado. Mas os Estados Unidos não a assinaram, o que os exime de responsabilidade nessa questão. Curioso, não? Não bastassem o controle do petróleo, a alteração do quadro geopolítico, os lucrativos contratos de reconstrução do que eles mesmos destruíram, aproveitam-se também das antigüidades. E nada mais fácil para pilhá-las abertamente do que uma situação de caos e destruição generalizada, como esta, na Babilônia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de janeiro de 2005].

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