Anacronismo é o nome que se dá ao erro, bastante comum, de atribuir a uma época, ou personagem, idéias, hábitos e sentimentos que são de outra época. O mesmo termo também se aplica à representação, nas obras de arte, de costumes e objetos de um período a que não pertencem. Na verdade, na maioria das vezes que olhamos para o passado, somos de certa forma anacrônicos: procuramos nele algo que existe hoje e que, acreditamos, sempre existiu. Da mesma maneira, o anacronismo, nas artes, é muito mais comum do que pensamos. Tanto a Ilíada, quanto a Odisséia, as fontes primeiras da literatura ocidental, eram cheias de erros do tipo: por meio delas sabemos muito mais do tempo de Homero (entre os séculos VIII e VII a.C), do que da vida ao tempo da Guerra de Tróia (entre 1300 e 1200 a.C.). E todo “romance histórico” — de jóias como Nossa Senhora de Paris, de Vítor Hugo (1802-1885) até as bobagens mais recentes — é cheio de anacronismos. Entretanto, isto, na arte, é permitido, porque ela não procura passar um retrato fiel, integral, de uma época, mas, sim, um retrato verossímil, crível, confiável: pena que estas características estejam em boa parte ausentes no filme, que acaba de estrear, Maria Antonieta (2006, EUA), de Sofia Coppola, com a medianamente bela e bastante insossa Kirsten Dunst como protagonista.
A idéia da diretora foi retratar a rainha dos franceses (1755-1793) como uma adolescente rica e mimada, qual uma dos dias atuais. Só que tal idéia é uma besteira sem tamanho. Primeiro, porque o conceito de adolescência é coisa do início do século XX. Antes disto, saltava-se direta e cruamente da infância para a idade adulta, como querem hoje os defensores da redução da menoridade penal, que, definitivamente, devem acreditar que a adolescência seja um privilégio apenas de seus filhos: os dos outros que se lixem. Em segundo lugar, é impossível comparar a filha do Imperador da Áustria, casada com o herdeiro do trono francês, a qualquer mocinha mimada atual, por mais dinheiro e menos educaçãoque tenha — que foi o caso da própria diretora e de suas amiguinhas. Seria mais ou menos como comparar a eleição de um papa ao “dois-ou-um” que se tira num churrasco para ver quem é que sai para comprar outra caixa de cerveja. Pompa, circunstância, tradição e poder político não são pesados na mesma balança que moedas...
Um dos momentos mais comentadas do filme deve-se a uma cena em que aparece, dentre centenas de sapatos da rainha, um tênis da moda, atualíssimo. Nada tenho contra isso. É uma liberdade, uma licença poética, talvez não muito sutil, é verdade, e se a idéia era passar que a jovem rainha, de fato, possuía tudo o que desejava e até mais além, é um ponto positivo do filme. Já se a intenção foi “contextualizar” a variedade de seu guarda-roupa através de um modismo do presente, é mesmo lastimável e um anacronismo tolo.
Outra cena, de doer, ou melhor, cenas, porque a todo momento repetem a pantomima, são aquelas em que a rainha passeia pelos corredores do Palácio de Versalhes com seu séquito igualmente jovem, igualmente doidivanas. Pois não há nada mais estapafúrdio que a própria maneira de caminhar das moçoilas, que mais parecem deslizar pelo piso sintético de um shopping center. Ora, naquele tempo, e principalmente naquele ambiente, até a maneira de andar era prevista pela etiqueta da corte. Mas o que vemos lembra mais uma abertura de seriado de televisão, desses bem mequetrefes, com jovens californianas douradas de sol, andando em bandos, alinhadas qual num desfile, julgando estarem “acontecendo”, como dizem por aí... Nestes momentos, inclusive, a diretora trai até mesmo seu principal propósito, que é atenuar a “culpa política” da rainha Maria Antonieta em razão de sua juventude. Pois bastam algumas seqüências destas para que até o pacifista mais declarado sinta vontade de mandar todas aquelas “patricinhas” para a guilhotina...
E para enterrar de vez o filme, há a trilha sonora. Que desastre! Não sou purista a ponto de achar que uma história ambientada numa época tenha que, necessariamente, conter músicas produzidas naquele período. Não há duvida que Ben-Hur (1959, EUA), por exemplo, ganha muito mais com os temas compostos por Miklós Rózsa, do que com alguma tentativa de se reproduzir as músicas romanas e hebréias da época da trama. Da mesma maneira, não teria qualquer sentido assistir, digamos, O Patriota (2000), exclusivamente ao som de minuetos e das melodias produzidas nas colônias inglesas da América do século XVIII. Haja paciência! É por isso que se permite que sejam compostas músicas exclusivas para os filmes, baseadas nalguma coisa dos ritmos de então, e que ajudam o espectador a ambientar-se na trama. Ou ainda algo bem marcado, num idioma mais moderno, para cenas de perseguição, suspense, romance ou até para as cômicas. Agora, escolher canções da atualidade, que tocam no rádio, na MTV e nas “baladas”, para um enredo passado na França de Luís XVI, isto já beira à esquizofrenia. Não sei de onde veio essa mania besta de por trilhas musicais moderninhas em produções de época. O rei Artur e seus cavaleiros ao som de rock.... Maria Antonieta embalada por “bate-estaca”... estou vendo o dia em que teremos um filme em que Júlio César será morto no senado romano ao som de um rap... Dramático, não? Quem não se lembra, por exemplo, do filme Moulin Rouge! (2001, EUA), com seu bem cuidado figurino, curiosos cenários, boa coreografia, bons atores, com Nicole Kidman belíssima, mas com uma trilha sonora de amargar? E, o que é pior, como é um musical, não dá para tirar o som da tv, porque cena de dança sem música, por pior que seja, acaba parecendo episódio de histeria coletiva. E paira no ar a pergunta: seria uma produção que teríamos, se não gosto, pelo menos paciência para rever? Acho que não. Aliás, não vejo a hora que Maria Antonieta passe na tv por assinatura: assim posso tirar o som e, em seu lugar, escutar a música que eu quiser. Mozart, que era um autor completo, é uma ótima pedida.
Que o filme é bonito, visualmente, isto não resta dúvida. Mas a ênfase que se dá ao figurino, como uma de suas principais qualidades, parece-me excessiva, meio fora de propósito. Um filme que ganha prêmios por figurino, som, etc., dá-me a impressão de um casamento no qual ninguém presta atenção na noiva, e sim no automóvel que a trouxe para a igreja. Ou seja, ambos podem ser muito importantes, é verdade, mas o principal parece que foi deixado para trás. E esta, de fato, foi a impressão que tive tão logo as luzes do cinema se acenderam...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de março de 2007].
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