Os paulistas e paulistanos vêm passando por uma experiência verdadeiramente inédita, e traumática, desde a última semana. Pois, de fato, os acontecimentos verificados nos últimos dias não encontram paralelo em nossa história. É quase natural, portanto, que seja associada a onda de ataque que o PCC (Primeiro Comando da Capital) lançou contra o Estado a ações mais próprias a regiões em situação de beligerância ao redor do mundo. O jornal Folha de S. Paulo chegou mesmo a chamar, em editorial, as noites de medo que envolveram a capital paulista de “Noites de Bagdá”. Fossem noutras décadas, talvez o título do texto seria “Noites de Cabul”, ou “Noites de Sarajevo”, ou “Noites de Beirute”, ou quem sabe ainda “Noites de Hanói”. O problema é que todos estas outras denominações seriam incorretas, como equivocada também foi a primeira, comparando São Paulo à capital iraquiana. Nos exemplos citados, havia uma clara circunstância de guerra — civil, sob certos aspectos, mas com evidente participação estrangeira. Eram, e são, em todo caso, guerras declaradas, com grupos adversários bem definidos e, em sua maioria, reconhecidos pela legislação internacional, ou compreensíveis enquanto estratégia de resistência num conflito militar.
Dizemos que não encontram símile na história paulista, porque nada deste gênero aconteceu em nossas plagas. São Vicente, Santo André e São Caetano já foram cercadas e atacadas por índios nos primórdios da colonização. A então Vila de Santos foi invadida e pilhada por corsários ingleses bem no começo do século XVIII. E várias cidades do Vale do Paraíba, que aderiram à Revolução Liberal de 1842, foram praticamente arrasadas pelas tropas comandadas pelo então Barão de Caxias, mais tarde Duque. Os excessos da soldadesca foram tais que, só em Silveiras, cinqüenta e seis chefes de famílias foram friamente assassinados pelos homens do “Pacificador” na manhã de 12 de julho daquele ano. São Paulo mesma foi sitiada durante a Revolução de 1924, quando o Gal. Isidoro Dias Lopes — uma figura que merece ser objeto de maiores estudos — tentou derrubar o então presidente Artur Bernardes. E, mais do que isto, sofreu bombardeio aéreo e canhonaços. Está ainda aí, de pé, aquela chaminé tão próxima da Av. Tiradentes, abaloada em sua forma por um balaço de canhão. E muitas cidades, vilas e lugarejos de nosso Estado têm a sua história para contar da Revolução de ’32, dos sítios, ataques, invasões, depredações e mortes daquele tempo.
Mas o Estado de São Paulo ser atacado por uma facção criminosa é algo de uma indignidade assombrosa. Porque traz à nossa lembrança aqueles ataques semelhantes ocorridos a poucos anos no Rio de Janeiro, durante os quais a própria sede da Prefeitura do Rio de Janeiro foi metralhada pela bandidagem local. Ou aquele encontro de chefes de Estado, na mesma cidade, em que o Exército foi convocado para fazer o policiamento das ruas, visto que a polícia carioca parecia incapaz de cumprir seu dever num episódio de tal importância. Foram tristes circunstâncias em que vimos uma unidade da Federação, e tão importante e bela, sucumbir frente a ação do crime organizado. Muito tristes. Porque somente os bairristas mais rasteiros, os chauvinistas mais reles, podem se regozijar quando observam tais acontecimento num estado vizinho e concluem que os mesmos jamais se dariam em seu quintal. Se é um fato que as ações e a presença do Estado vêm se mostrando ralas no Rio de Janeiro na últimas décadas, ninguém acreditou que o mesmo não viesse a ocorrer aqui.
Vimos que estávamos errados. Vimos, nesta última semana, que o improviso e que a tentativa de se tapar o sol com a peneira revelou-se uma prática nos assuntos da segurança pública do Estado de São Paulo sob a administração tucana. Pois durante os doze anos da dupla Covas-Alckmin muito pouco se fez neste campo. Lembre-se, leitor, que a própri a existência das facções criminosas, que puseram o Estado de joelhos, era negada insistentemente por aqueles governadores e seus secretários. Tamanha cegueira, ao que parece, fez escola. Só isto justifica o fato de as polícias Civil e Militar não terem sido avisadas do risco que corriam, pois se uma trama daquela envergadura não foi sequer aventada pelos serviços de informação, é de se perguntar quanto a sua serventia. Se foi, é uma vergonha que os contingentes policiais não fossem avisados pelas autoridades.
Um tristíssimo episódio este, e que ainda não teve fim, como mostram as manchetes de jornal. Foi mesmo uma pena vermos os estragos, sabermos da morte de tantos policiais, sentirmos na rua o medo da população. Medo exagerado, é verdade. Na Europa da Segunda Grande Guerra, nas cidades sob bombardeio, Londres ainda é o máximo exemplo, as pessoas ainda procuravam levar suas vidas dentro de uma certa normalidade. Prova disso é que a própria família real não arredou pé da cidade. Aqui, vi muita gente se trancar em casa ao ouvir um mero estouro de escapamento de motocicleta. Já político se escafeder, então...
Resta-nos um exemplo, a da brava cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ameaçada pelo bando de Lampião, a população se uniu, se armou, foi para as ruas e lutando ao lado dos policiais, enxotaram à bala o bandoleiro no dia 10 de junho de 1927. Deve ser porque lá as autoridades políticas não deixaram seus postos. Aqui, todavia, as nossas estavam em viagem de campanha eleitoral, longe, muito longe do barulho...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de maio de 2006].
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