Há vinte anos atrás, pouco mais ou pouco menos, o romance A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, era muito comentado e, ao mesmo tempo, pouco lido. Não me recordo se a obra conheceu mais do que uma edição, ou segundas e terceiras tiragens. O fato é que era um livro raro: quem tinha, não emprestava; quem não tinha, vasculhava sebos e alfarrábios atrás dele. Tive a sorte de encontrar um exemplar do livro há dezessete anos, época em que o li pela primeira vez. E, naquele tempo, a curiosidade em relação a ele era tão grande, que o guardei num armário fechado, para evitar que algum amigo o tomasse “emprestado” sem o meu conhecimento. Aliás, tive até uma namorada que me disse, certa vez, que quando, e se porventura, terminássemos nossa relação, o livro ficaria com ela, incondicionalmente. Terminamos, é fato. Hoje ela é uma grande amiga. Mas ainda conservo o livro.
Em vista do que falei até agora, o leitor seria levado a pensar que o romance em questão é uma obra imprescindível, dessas que todo mundo deve ler, comentar, analisar, ter como motivo de devaneios, etc. Todavia, ele não é tudo isto. É um ótimo livro que foi uma curiosidade bibliográfica durante muito tempo, agora sanada por uma nova edição e pela sua adaptação no formato de uma minissérie televisiva. O livro, em si, ainda que volumoso, não é da estatura de um Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, nem de um São Bernardo, de Graciliano Ramos, conquanto a eles se filie pelo fato de ser uma narrativa em primeira pessoa – o narrador é o personagem principal – e por serem, todas elas, “memórias”, a interpretação de certos fatos segundo os olhos de quem a escreve, e com um certo distanciamento. Mas, em suma, é bom. Ou melhor, muito bom, de fato. Todavia não pode ser incluído na mesma e seleta fila daqueles outros que citamos. E, principalmente, por um motivo. Todas as outras são obras fechadas, por assim dizer, com começo, meio e fim. Já A Pedra do Reino conduz seu desfecho a um outro livro, em seqüência, o qual, todavia, não dá conta da elucidação do mistério e do cumprimento da proposta original. Resumindo, é bom, mas como se diz, “manca de uma perna”.
Ainda assim, quando li o romance pela primeira vez, pensei que o mesmo daria um ótimo filme, apesar das dificuldades que a trama impunha para uma adaptação visual.. Não cogitei, então, a possibilidade de que a mesma fosse encampada para uma minissérie. A Rede Globo, única emissora capaz – por seu dinheiro – de adaptar visualmente uma história tão complexa, não dava mostras de que optaria por algo do gênero. O exotismo malicioso de um Jorge Amado, em narrativa linear, tudo bem. Mas a provocação de Suassuna, que atira contra o Império, a República, o Milenarismo, o Integralismo, o Comunismo e o Estado, nem pensar. Entretanto, eis que o fizeram. Só que o fizeram mal. Como o público percebeu.
Acredito que a maior força que se nota n’A Pedra do Reino – no romance, não na minissérie – é o confronto entre o real – o Brasil dos anos 1930 – e o ideal – os sonhos do protagonista, Quaderna, de nobreza, de restauração de um Império, etc., que se manifestam justamente naquele período bem demarcado do século XX. E que forma melhor de fazer isto, senão explicitando tal contraste? Querem coisa mais impactante do que ver uma cavalhada, cujos membros desfilam com trajes que lembram reis medievais e cavaleiros andantes, desfilando numa cidade da Paraíba, assistida por homens de terno e chapéu, soldados de uniforme cáqui, tudo como era então? Não seria o devaneio, invadindo e confundindo-se com a realidade, muito mais instigante? Todavia, a opção do diretor da adaptação do texto à tela, trilhou um caminho oposto. Tudo se converteu em fábula, em lenda, em sonho. E, por tal motivo, tudo perdeu sua razão. A parábola, a alegoria, o símbolo, funcionam quando se interpõem ao real. Mas num mundo que não é mundo, num cenário e num ambiente que é puro fruto da imaginação, como propôs o adaptador, nada pode surpreender, porque tudo é possível. E a intenção original se perde entre mil pirotecnias, cenários rebuscados, figurinos absurdos, conquanto belos, todos eles.
Assim, o que era para ser belo, tornou-se confuso, nesta adaptação d’A Pedra do Reino. E o que era para ser contundente, acabou por se dissolver nos pormenores, nos efeitos especiais, na edição. A pedra, do título, que deveria se converter num marco fundador de uma nova dramaturgia proposta pela emissora, tornou-se, isto sim, num testemunho de que liberdade de criação e produção televisiva nem sempre combinam. Se a Pedra não pode ser considerada um obstáculo, qual a “pedra no meio do caminho” do poema de Drummond, a tais produções imaginosas, ela, certamente, revelou-se como uma clara, dura, incômoda pedra no sapato de todos aqueles que com ela tiveram contato. Uma pedra no sapato...ainda que preciosa...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de junho de 2007].
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