sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Enquanto isto, no país do futebol...

Que guerra, que crimes, que filmes, que nada! Que crises, epidemias, queda do dólar, alta ou baixa da Bolsa! Nada afeta nosso gigante pela própria natureza, nosso impávido colosso deitado eternamente em berço esplêndido! A prova é, que certos temas, relacionados à Pátria Amada, por menos que gostemos deles, impõem-se, muitas vezes, além de nossas vontades, tal a relevância, tal o interesso do público. E, assim, retornamos ao assunto da crônica da semana passada, a futura Copa de 2014, a ser realizada no Brasil.
Louvado como um evento de impacto colossal, que mexeria com os mais profundos brios da nação, comovendo milhões e milhões de corações patrícios, eis que foi o evento soterrado, logo em seguida, por uma avalanche de críticas e suspeitas quanto aos resultados deste processo, que só virá à luz daqui a sete anos. Desde então, não há um articulista sério, na grande imprensa, que não exprima o seu temor quanto ao evento, quanto às suas conseqüências, em nosso combalido país. Até mesmo aqueles que se deixam levar um pouco mais pelo espírito do “somos capazes de sediar uma Copa” ou “que belos espetáculos nós teremos”, não conseguem calar seus receios de que se gaste dinheiro demais, e no lugar errado. Pois é.
Quando da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Pan-americanos de 2007, as verbas oficiais extrapolaram em tal monta o pré-estabelecido para o convescote esportivo carioca, que até mesmo um observador meio relapso sentiria o cheiro de que algo não estava correto e que um evento de maior proporção haveria de reproduzir, exponencialmente, os erros ali constatados. Pois se as somas aplicadas numa única cidade ultrapassaram as raias do concebível, imaginemos os gastos para a festa da FIFA, que se dará não numa única sede, mas em inúmeras capitais brasileiras. E, o que é pior, com liberação quase que instantânea, de fartos recursos. Conseguem imaginar? Nestas horas lamento não ter estudado um pouco mais Matemática, sobretudo as progressões geométricas e o método para o cálculo dos juros bancários...
Em suma, durante sete anos o Brasil gastará um precioso e escasso dinheiro que falta à Saúde, Educação, Segurança, Transporte e Infra-estrutura (e por ora refiro-me tão somente ao “básico”, porque faltam incentivos públicos para centenas de outras áreas), para, em seu lugar, reformar e construir estádios, estacionamentos para automóveis junto aos mesmos, subvencionar a ampliação da rede hoteleira em algumas cidades, decerto abrir novas avenidas, rasgar novíssimas estradas em detrimento das já existentes — que perecem a olhos vistos. Sem falar no montante que será empregado em outros efeitos “cosméticos”, tão inúteis quanto dispensáveis, num país onde o saneamento básico, a eletrificação e a erradicação do analfabetismo, pela forma como vem sendo tratados, são ainda sonhos para o futuro — um futuro sempre, e a cada vez, mais distante...
Não duvido que boa parte dos planos se cumpram quanto à reforma e construção de estádios, estacionamentos gigantescos para o público, etc. Fico imaginando partidas tidas como “clássicas” realizadas por Inglaterra e França, por exemplo, no reformulado Vivaldão de Manaus, metrópole que criará linhas de bondes para o evento. Itália e Alemanha no reformado Morenão, de Campo Grande, cidade que conta com um ótimo serviço de moto-táxis...Espanha e Rússia na Arena Bahia, a ser construída, em Salvador, capital bem provida no setor de transportes graças à suas eficientes barcas. Zaire e Arábia Saudita no maquilado Morumbi, desprovido de estações de metrô num raio quilométrico — parece que já existe um projeto de linha, e, ao que tudo indica, aquela mesma que já causou uma tragédia. Cito assim, por alto, pois as escolhas dos jogos, para cada capital, dependerá do prestígio político de cada governador. Mas, terminada a festa, o que faremos com estas monumentais construções? Vá lá que o estádio do Morumbi possa acolher um São Paulo e Corinthians. Mas Libermorro e Nacional encherão o Vivaldão? Ubiratan e Sene terão grande audiência no novo Morenão? Como seria o público de um Bahia e Atlético Salvador na Arena Bahia?
Ora, convenhamos, onde o básico ainda não foi feito, o supérfluo é revoltante! É criminoso! Em nosso país, o abastecimento de água ainda é precário. Tratada, então, nem se fala. Esgoto, então, nem pensar. E tratado, muito menos. Quanto às cidades que contam com ambos, são minoria. Coleta de lixo ainda é um problema. Muitas pontes, estradas, usinas elétricas, moradias populares, cujos recursos já foram captados — via impostos — e cujas verbas já foram dispensadas para sua execução, nunca saíram do papel. E agora querem gastar ainda mais dinheiro num evento desnecessário? O qual, aliás, ainda é caro? A grande imprensa, amiúde, tem revelado o superfaturamento de obras correlatas, propinas pagas, descalabros de todo o gênero. Vários articulistas de grandes jornais até já se referem às suspeitas quanto aos possíveis desmandos que serão feitos com o dinheiro público por conta desta Copa. Não só por parte do atual governo, mas também do que o sucederá. Por acreditarem, justamente, que pode-se mudar a pele, mas não o vício: não importa o governo, a rapina é sempre constante, parecem dizer.
Então, que vergonha! Não há oposição decente neste país, que barre tal desvario? Pois é, parece que não há. Parte dela embarcou no “oba-oba”. Outra, é cotada, e incensada pelo grupo que ora governa esta terra, como sucessora natural da atual administração. Mas no que isto importa? Afinal, poderemos assistir, num futuro próximo, o clássico Iêmen e Colômbia no Morumbi, com as presenças do Exmo. Sr. Presidente da República Aécio Cunha Neves e do governador (reeleito) José Serra de Chirico. Isto não é o bastante? Alguém haveria de querer mais? Francamente...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de novembro de 2007].

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