sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Prendam os suspeitos de sempre!

Quem assistiu àquele ótimo filme que é Casablanca (EUA, Warner Bros., 1942), ao ler o título da presente crônica, entenderá o que quero dizer. Para aqueles que nunca o viram, explicarei o sentido. Numa das últimas cenas, depois que um assassinato é cometido (não contarei o porquê nem o como, para não estragar o final), o chefe de polícia, francês, da cidade marroquina, para ocultar o verdadeiro autor do crime, manda a seus soldados que “prendam os suspeitos de sempre”. A expressão fala por si mesma. Mas o que isto tem a ver com o tema de hoje? Qual sua relação com o Brasil atual? Tudo. Ela é completa, e não é de hoje. Do medo, ainda em princípios do século XIX, de que houvesse uma grande rebelião de escravos em nosso país, tal como se dera no Haiti, à repressão aos movimentos regionais, pelo temor de que o Brasil se fragmentasse como os domínios espanhóis na América. Da saúva, como inimigo maior da economia brasileira, ao “Plano Cohen”, a falsa conspiração comunista que serviu de fundamento para a instalação do Estado Novo. Da Guerra Fria, durante a qual nossas autoridades ora agiram como sabujos — ávidos por acharem rastros de tudo e de nada, ora como fraldiqueiros — servis cãezinhos a abanar, sem descanso, a cauda — à caça ao boi-gordo, aos inimigos do “Plano Cruzado”. Dos “marajás”, da “ética na política”, por quem não tinha ética, nem fazia Política com “P” maiúsculo, aos dias atuais. E, agora, aos professores como alvo das mazelas na educação. Em suma, prendam os suspeitos de sempre, para que o verdadeiro criminoso permaneça impune.
Nesta última segunda-feira, pelo menos um grande jornal de São Paulo estampava uma bombástica manchete em sua primeira página, revelando dados estarrecedores. Tratava-se do resultado do último exame do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), o qual revelou que quase a metade dos estudantes do Estado de São Paulo termina o ensino médio (antigo colegial) com conhecimentos em escrita e leitura correspondentes aos que se espera dos alunos da oitava série (o último ano do antigo ginásio). O exame apontou que 43,1% dos alunos do terceiro ano tiveram notas inferiores a 250, que, de acordo com a escala fixada pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, corresponderia ao mínimo esperado na conclusão da oitava série. Já outros 15,2% dos alunos tiveram desempenho considerado ainda pior, equivalente ao que se almeja de crianças da quarta série do ensino fundamental (antigo primário). E quanto à situação dos alunos da rede privada, ela não é muito melhor: só 21,2% superior à media dos estudantes de escolas públicas.
Um das causas pra tal catástrofe, apontam os especialistas, seria resultado das péssimas condições de trabalhos dos educadores, submetidos a jornadas duplas, às vezes triplas, de trabalho: 70% dos professores têm emprego em mais de uma escola. Ou seja, professores exaustos não podem dar uma boa aula. Com o que concordamos, evidentemente. Mas por que eles têm jornadas duplas, triplas? Por que são gananciosos, e precisam de tantos empregos para o custeio de uma vida de luxos e excessos? Por que são viciados em trabalho, como os atletas o são em analgésicos, ou os políticos, em poder? É claro que não. Porque são historicamente mal pagos, porque não recebem estímulos em sua carreira — não importa a formação, as pós-graduações que tenham, o ganho salarial que recebem sobre isso é mínimo. Mas esta é só uma face, não digo da moeda, mas sim do dado, porque tal problema não se resume a apenas dois lados, pelo contrário, ele é poliédrico. Pois há outros fatores que agem sobre esta equação pérfida.
É um fato, incontestável, que há menos professores do que a demanda exige. Ou seja, menos gente está disposta a abraçar o magistério. E por quê? Ora, por motivos óbvios. Quem quer se submeter a jornadas extenuantes e mal-pagas, a ser degradado pelo Estado, pelos donos de escolas, e por boa parte da sociedade, e ainda expor-se a uma turba cheia de direitos e rarefeita de deveres? Exagero? Não. Qual a autoridade delegada a um professor frente a um aluno que goza das benesses da “progressão continuada”? Qual a expectativa quanto ao trabalho esperada de um profissional do ensino público diante de uma política educacional mantida por um único partido, o PSDB, durante quinze anos, no Estado de São Paulo, e que, a cada secretário novo, mudava de enfoque, de nome, mudava seus objetivos?
E o que dizer do papel das famílias? Quantas não entregam seus rebentos à escola — mal-educados desde o berço, expostos que foram a uma série de vícios de origem, a comportamentos, palavras e gestos infames — pretendendo que a mesma dê conta de formá-los de acordo com um ideal que os próprios pais não praticam? Pai que não lê, não pode esperar que o filho leia. Mãe que não acompanha os estudos de sua prole, não pode esperar que a mesma estude. E vice-versa.
Chega, portanto, de se querer prender os suspeitos de sempre. Larguem do pé dos professores. Os culpados são o Estado, alguns ávidos donos de escola que vêem a educação como simples mercadoria, e muitos, muitíssimos, pais e mães. Não quero dizer, entretanto, que os professores sejam as vítimas maiores. Não só porque há, sabemos, entre eles, alguns malandros, pois existem malandros em toda e qualquer atividade, classe social, igreja, etc. São vítimas, sim, porque estão na linha de frente do desastre, do qual já vemos claros indícios, e que se cumprirá num horizonte bem próximo. Pois a vítima maior, é o próprio futuro da sociedade, do país. Pena que o Estado, e, principalmente, o Estado de São Paulo, imerso numa estúpida política neoliberal travestida de social-democracia, não enxergue isto. Nem muitas famílias. Mas que fique aqui o lembrete. Pois se não mudarem suas práticas, o Tempo há de cobrá-los, e da pior maneira possível.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de outubro de 2007].

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