Tenho um conhecido de quem compro muitos livros, na maioria usados, por meio de sua loja virtual. Vez ou outra estendemos nossos contatos pela Internet para além da mera compra e venda de um determinado livro, e conversamos sobre outros assuntos, principalmente... livros, é claro. Assim ele me conta das dificuldades do mercado, da quase impossibilidade de se encontrar alguma raridade à venda por um preço baixo — coisa que já foi possível, há não muito tempo atrás — e outros temas afins. E eis que, dia desses, convidou-me para participar de um grupo virtual voltado para a busca de livros e trocas de informações. De pronto, aceitei, porque morando longe dos grandes centros e de seus sebos e alfarrábios, quase não há alternativa que não procurar o que me interessa pela rede. E são tantos os endereços e lojas eletrônicas que surgem e desaparecem, que buscar um a um acaba por ser tarefa demoradíssima. Fazendo parte de um grupo que está sempre em contato e sempre pesquisando, acreditei, reduziria tempo e cansaço. Assim, cadastrei-me, e como as comunicações de uns para outros acabam sendo de conhecimento de todos, acabei por conhecer os interesses dos demais participantes.
Já fazia idéia, é claro, que não encontraria gente procurando eruditíssimos tratados do século XVII, nas edições originais. Ou primeiras edições, ou autografadas, de Machado, Alencar, Guimarães Rosa, etc. Nem, muito menos, ardentes admiradores de qualquer autor de best-sellers, atuais ou não, que tal tipo de livros podem ser comprados praticamente aos quilos em qualquer sebo, mesmo nos menores. O que eu não contava era com os gostos predominantes daqueles novos “confrades”, por assim dizer. Pois a imensa maioria das comunicações era de gente procurando livros sobre alquimia, feitiçaria e coisas do gênero, quando não pedindo aos demais indicações de leituras “imprescindíveis” sobre aqueles temas. É de se pensar o que se passa na cabeça destes jovens — pela maneira como se apresentavam ao grupo e mesmo pelo que diziam de si próprios, eram, indiscutivelmente muito jovens.
É uma matéria digna de ser pensada também porque desmente, sob alguns aspectos, uma certa idéia fixa de que o jovem brasileiro não lê. Ao que tudo indica ele está lendo sim, talvez não o que o grosso do público costuma ler; nem, também, necessariamente, compre muitos livros novos. Mas tem se dedicado à leitura. E que leitura!
Não condenarei, aqui, qualquer tipo de conhecimento, por mais que tenha reservas quanto a alguns deles. As pessoas são livres para lerem o que lhes der na veneta, e isto é ótimo. Nem serei ingênuo o bastante para dizer que tal ou qual leitura possa alterar radicalmente o comportamento de uma pessoa, para o bem ou para o mal. Acontece, é verdade, mas bem menos que se imagina. Do contrário, os jornais estampariam inúmeros casos de leitores de romances policiais cometendo os mais variados crimes. Ou hordas de revolucionários marchando por nossas ruas só porque leram um fragmento aqui, outro ali, de Marx, Bakhunin, etc. A Bíblia continua sendo um dos livros mais lidos de todos os tempos e, nem por isso, vemos hoje as pessoas largando tudo pela Fé ou querendo impor algumas daquelas práticas bizarras que vemos no Antigo Testamento, como escravizar ou matar quem pensasse e agisse diferentemente dos “escolhidos”. Mas um pouco de critério não mataria ninguém.
Há quem veja nestas leituras reflexos de fatos mais pontuais, ou seja, um puro modismo iniciado pelo livro “O Código da Vinci” e suas réplicas, tréplicas, continuações e cópias. Todavia esse gosto pelo obscuro, pelo macabro, por grupelhos iniciáticos, pela necromancia e demais práticas mágicas não é tão recente, quanto parece à maioria das pessoas. É raro encontrar algum adolescente, hoje em dia, que não desfie várias histórias de vampiros, feiticeiras e ordens místicas, e as mais disparatadas, como se tratassem de grandes e graves verdades. Uma busca na Internet por temas como “bruxaria” — e sua variante moderna de nem um século, a chamada “wicca” — ou sobre “satanismo”, “paganismo”, e que tais, surpreenderia a qualquer incauto, pelo imenso número de ocorrências. É um fenômeno que, pelo menos no Brasil, já data de uma década.
E o que se pode fazer? Queimar os livros? Os leitores? Impedir a leitura? Claro que não. Ainda que boa parte desses jovens sonhem com uma Idade Média muito mais mítica do que real, jamais aplicaríamos a eles um “remédio” daqueles tempos. Ainda que se deixem levar por informações sem qualquer rigor quanto aos verdadeiros fatos, quanto às origens históricas de tal ou qual prática, ainda que na sua pretensa fuga aos dogmas acabem por aceitar novos e exóticos dogmas, a coisa há de mudar. Novos e bons livros vêm surgindo, pondo os pingos nos is, revelando o que são lendas insensatas, o que é má-fé, e afirmando o que é verdade histórica, crítica. No final, veremos que tudo não passou de uma febre momentânea, mas que talvez deixe um estranho legado para a posteridade: é bem possível que, no futuro, julguem a juventude de nossos dias como a mais crédula, simplória e supersticiosa do milênio.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2005].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário