sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Desastre de Congonhas

O assunto de hoje é, obviamente, o desastre aéreo ocorrido em São Paulo, cidade que parece coberta por uma nuvem negra de azar a algum tempo: quem não se lembra da cratera do metrô? E eis que, mais uma vez, algo terrível, e inédito, dá-se justamente lá.
Antes de tudo o mais, gostaria de deixar aqui registrado meus sinceros e lastimosos sentimentos em relação às vítimas e seus familiares. Se é um fato que a morte é a única certeza da vida, nem por isso ela precisa se dar em circunstâncias como aquela.
Retornemos aos fatos.
Assisti, durante boa parte do dia e da noite da quarta-feira, às notícias, reportagens, entrevistas, análises, esclarecimentos, etc., transmitidos por várias emissoras de televisão. Já na quinta-feira, li o caderno especial que um grande jornal paulista publicou. E, minha primeira impressão, ou melhor, a primeira lembrança que me assaltou, não foi tanto daquele acidente ocorrido no ano passado, mas a velha idéia espalhada pelo mundo há bastante tempo: o quanto a grande imprensa se parece com um bando de urubus, famintos por cadáveres — e quanto maior o número deles, melhor... Claro que o público em boa parte alimenta este péssimo hábito dos meios de comunicação. O gosto mórbido da maioria das pessoas é evidente, como se nota diante de qualquer simples colisão entre automóveis num cruzamento. Quando a coisa é mais séria, então nem se fala. Quem já não se viu, numa estrada, retido por algum congestionamento, formado por pessoas que desfilam lentamente de automóvel para observar algum acidente? Um desastre do tamanho do que se viu em São Paulo, então, nem se fala.
Mas, desta vez, as redes de televisão e os grandes jornais se superaram. Acredito que tal se deva ao fiasco de público, de Ibope, dos Jogos Pan-americanos. Devem ter pensado: bem, como este convescote atlético não tem dado a audiência que queríamos, vamos capitalizar na cobertura do acidente. Daí tantos técnicos e analistas entrevistados, tantas cenas com remotos parentes ou vizinhos de vítimas, gente que estava passando pelo aeroporto, e por aí vai. Sabem que, se o gol é ótimo para atrair o público, mas estes não os empolgam, as lágrimas também vendem muito bem. E dito e feito: o ibope aumentou e o tal caderno especial veio repleto de anúncios de pesar, esclarecimento, etc, todos eles imensos e caríssimos — ou será que, em tais ocasiões, compungidos com a dor dos anunciantes, os jornais concedem a eles um desconto? Duvido.
Outra aspecto absurdo, na minha opinião, foram as “causas” que se procurou encontrar para o acidente. Falou-se muito em reflexos do “apagão aéreo”, falta de ranhuras na pista, excesso de velocidade do avião, possíveis defeitos no aparelho, falha do piloto, etc. O mais evidente, entretanto, pouca gente comentou: o aeroporto de Congonhas é inviável. Tem uma pista curta, está cravado no meio de prédios — que requer, para uma aterrissagem, as habilidades de um piloto de caça-bombardeiro que mergulhasse numa cidade — e não tem nenhuma área de manobra, qualquer lugar para desviar a aeronave. E, pior, a pista termina num barranco. É ou não é inconcebível? Cedo ou tarde isto aconteceria. E se fosse um urubu que colidisse com o avião? Então, a culpa não seria de ninguém, certo? Só que de nada adiantaria. Bateria-se numa construção, do mesmo jeito.
Aeroportos tem de ser construídos no meio do nada, sim. Para que ele tenha, além da pista, canteiros e canteiros, e depois deles, pasto, lagoa, brejo, o que for. Não prédios e mais prédios. E não podem ter suas pistas terminando num barranco.
Que fechem Congonhas, que seja transformado num parque com shopping center, coisa que paulistano adora... Que se ergam um novo aeroporto em Sorocaba, por exemplo, ou que ampliem Viracopos e dotem-no de um trem expresso até São Paulo. Não há dinheiro? Duvido. Pois, afinal, para o Pan não houve dinheiro mais do que de sobra? Ninguém pensou que é mais importante? Resolver a crise do setor aéreo, evitar mortes de quem está no ar e quem está na terra, não vale muito mais do que, por exemplo, incentivar o vôlei-de-praia e o “florescimento” do beisebol no país? Quais são as prioridades neste pais?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de julho de 2007].

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