quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Proteção ambiental e Lucro cabem numa mesma equação?

Há muito tempo se critica o insensato turismo de massas de que a cidade de Veneza é vítima todos os anos. Fragílima em sua estrutura, os amantes daquele belo cenário acabam, paradoxalmente, por contribuir na sua degradação e no afundamento da cidade nas águas de sua laguna. E o mesmo pode ser dito, no caso do Brasil, quanto aos carnavais de multidões pelas sinuosas ruas de Ouro Preto e Diamantina, em Minas Gerais, e Olinda, em Pernambuco, que atentam contra o secular patrimônio arquitetônico daquelas cidades. Aliás, neste caso é ainda muito pior. Em Veneza, uma multidão caminha. Nas velhas urbes brasileiras, hordas marcham, pulam, trepidando-as, sacudindo-as. E ano após ano a situação é a mesma. Ainda veremos, anotem, algum antigo casarão ou igreja desabar sobre as cabeças dos foliões, perdendo eles as vidas e, nós, um legado artístico de gerações.
Já no que diz respeito ao turismo ecológico, alguns avanços tem sido feitos na preservação daquilo que é, justamente, o seu atrativo, a sua razão de existir. Assisti, por exemplo, recentemente, a um programa de televisão no qual eram mostradas as medidas adotadas na manutenção de dois frágeis ambientes: o arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, e alguns sítios hídricos de Bonito, Mato Grosso do Sul. Ambos os lugares, como é sabido, são alvo de um turismo intenso, mas de alguns poucos anos para cá, muitos cuidados vêm sido tomados, e das mais diferentes formas. Dentre elas, à primeira vista, muitas parecem arbitrárias, e aparentemente opostas ao interesse dos turistas e dos empresários que deles dependem. É o caso da interdição de certas áreas aos visitantes ou da limitação do número deles a tais locais: neste último caso, é permitido a centenas de pessoas visitá-los diariamente, mas não todas elas ao mesmo tempo. Mas o curioso quanto a estas políticas, indicadas pelo IBAMA, é que elas são rigidamente seguidas por muitos empresários que descobriram que tais práticas não matam suas “galinhas dos ovos de ouro”, antes preservam e estendem suas vidas. Há, claro, aqueles que não dão a mínima para isto, erguendo hotéis e pousadas onde bem lhes dá na veneta, devastando florestas para a construção de campos de golfe, drenando mangues para a construção de piscinas, além de outras aberrações. Mas o Estado tem se mostrado bem vigilante nesta e noutras áreas: veja-se o caso, por exemplo, das duras medidas que o Governo Federal impôs quanto a certos “empreendedores” que devastavam a natureza em algumas “fronteiras agrícolas” — tema, aliás, de uma recentíssima crônica neste espaço.
Assim, se o que vemos, por um lado, é o zelo de muitas autoridades, aliado ao próprio esforço de muitos empresários na preservação ambiental, por outro lado podem ser notadas atitudes completamente “surreais”, para não dizer loucas, não fossem as mesmas revestidas de um potencial imenso de lucros, para uns, e de uma certa “anestesia” das consciências culpadas de outros tantos. Trata-se, no caso, dos novos condomínios de alto luxo de São Paulo e de outras cidades, que alardeiam possuírem, em suas áreas, “bosques”, “remanescentes de matas”, “trechos de florestas nativas”, etc.
Tal fenômeno não é novo no mundo. Em princípios do século XIX já se construíam vivendas nos limites das cidades, em detrimento da flora original, da qual só mantinham pálidos resquícios: isto se deu tanto na Europa e América do Norte quanto no Brasil. A própria idéia da “cidade-jardim” com seus bosques artificiais, gerada na Inglaterra de meados do mesmo século, adotada pelos norte-americanos no fim daquela centúria, e por nós lá pelos anos 1910-1920, como se vê, não vem de hoje. Mas a marcha contra as reservas, e a criação de “florestas de faz-de-conta”, é fenômeno recente. Nos EUA, deu-se a partir dos anos 1950, e prossegue, sem tréguas, até hoje. Já por aqui, tem pouco mais de quarenta anos, radicalizou-se nos anos 1970, dobrou de tamanho nos anos 1980-1990, exacerbou-se na última década, e ninguém sabe até onde pode chegar. De uns dez anos para cá, virou moda, em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, anunciar condomínios, verticais ou horizontais, que contariam com verdadeiras pequenas disneylândias arbóreas.
É claro que ninguém pode ter nada a dizer contra aqueles que preferem viver “junto à natureza”. Mesmo quando ela é falsificada. A nostalgia de mato, como vivos, é coisa antiga: qualquer jardim é, em essência, uma tentativa de restauração do Jardim do Éden. Mas daí a avançar sobre os espaços naturais, ou fabricar simulacros deles, há uma grande distância. Passa a ser a privatização do espaço público, sem acesso ao público! Finge-se que a natureza é preservada, mas seu contato direto se dá apenas a alguns poucos. Sem falar no custo ambiental que é gerado pelo deslocamento dos habitantes desta “urbanidade difusa” — como já é chamado tal caso — das cidades às suas ilhas de bucolismo: pelo consumo de combustível, emissão de poluentes, urbanização forçada do entorno, gastos públicos na manutenção dos mesmos, e por aí vai.
Para os que tiverem maior interesse pelo tema, recomendo a leitura de um ótimo artigo intitulado Os Rururbanos e a natureza, publicado na edição deste mês da revista Le Monde Diplomatique Brasil — um periódico de leitura indispensável para qualquer um que se julgue pensante. Vale a pena dar uma olhada, também, no artigo Pensar a cidade para que os ricos vivam felizes, da mesma publicação, só que da edição de janeiro de 2007. São bons argumentos para uma resposta à equação que propõe a possível coexistência benéfica — ou seria maléfica? — entre a proteção ambiental e o lucro. È algo, portanto, a se verificar.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de fevereiro de 2008].

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