A grandeza da cidade de São Paulo fala por si só. Não bastasse suas próprias dimensões físicas e populacionais (11.434.252 habitantes disputando uma área de 1.523 km²), ela é a cidade mais rica da América do Sul e, sabemos todos, sua influência econômica determina os rumos do Brasil. Como centro de serviços e entretenimento, só é comparável a cidades como Paris ou Nova Iorque. E, dizem, quanto à oferta gastronômica, bate sua rival norte-americana. Como polo cultural, então nem se fala. Não bastasse a imensa gama de museus, galerias, bibliotecas, institutos culturais, etc., está aí a Universidade de São Paulo, ainda a melhor universidade do país e ponto final. Está a Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, e o “Paulista” aqui, em princípio só uma referência geográfica, tornou-se todo um modo de pensar e de fazer a Medicina, uma “Escola Paulista” na completa acepção do termo. Como grandes universidades particulares também, que investem mais em pesquisas do que em contadores para aferir o lucro mensal, como é prática disseminada em muitas partes de nosso país. E, ainda assim, com todo este arcabouço cultural, com largas parcelas da população não só alfabetizadas como detentoras de títulos universitários, eis que a cidade de São Paulo freqüentemente padece dos mais estúpidos desvarios imaginados por seus próprios administradores.
Não faremos um longa viagem no tempo, mas cabe recordar certas burrices idealizadas por alguns prefeitos de São Paulo. Pensemos em Paulo Maluf e em sua ênfase no transporte particular, que inundou a cidade de automóveis e de congestionamentos, além de depreciar toda uma região metropolitana com seu horrendo “Minhocão”. Não me ocorrem à lembrança eventuais maluquices de Olavo Setúbal, e quanto à passagem de Reynaldo de Barros, então, não foi das piores, pelo que me recordo. Mas lembremos de Mário Covas e seus corredores de ônibus criados às pressas e que, continuados por Jânio Quadros, porém seguindo os planos originais de seu antecessor, ganharam o curioso, para não dizer trágico, apelido de “atropelódromos”. Das invencionices de Jânio, então, nem falaremos: mereceriam o espaço de toda uma crônica. Depois veio Erundina, que fez mais bem do que mal — naqueles intervalos em que seu partido de então, o PT, permitia a ela fazer alguma coisa e não sabotava cada ato seu. Ainda assim, a transferência da prefeitura para o Palácio das Indústrias e a tentativa de tombamento da mansão Matarazzo para ser convertida num futuro “Museu do Trabalhador” são idéias, no mínimo, questionáveis. Quanto às estapafúrdias idéias de Maluf e Pitta, cujos interesses tornaram-se bem claros, é assunto que cabe à polícia e à Justiça. Marta Suplicy teve algumas boas idéias, veja-se o CEU. E outras bem ruins, também. Infelizmente, estas granjearam maior espaço na mídia.
Pois eis que, agora, veio Serra com sua contribuição pessoal ao anedotário, infeliz, das más idéias dos prefeitos de São Paulo: permitir propaganda em uniformes escolares dos alunos da rede pública. Propaganda dupla, aliás. Porque, em primeiro lugar, as cores empregadas nas roupas dos meninos e meninas serão as mesmas que identificam o PSDB do Oiapoque ao Chuí, o azul e o amarelo — só isso, para um Judiciário atento, já seria motivo para um tremendo processo. Mas, e que é grave também, será permitida a publicidade de empresas, das mais variadas naturezas, impressas ou bordadas nos uniformes estudantis, ou seja, vão transformar as crianças das escolas municipais paulistanas em mostruários de produtos, pequenos homens-sanduíches anunciando, quem sabe, de cremes para rugas a óleo diesel, de financeira caça-níquel a monopólios de cimento, e sabe-se lá o que mais.
Mas por que tal absurdo é considerado possível? Porque os uniformes são para filhos de pobres. Queria ver um colégio particular inventar a mesma coisa! Os pais honestos fariam a maior gritaria, e os desonestos cobrariam “cachê”: ou seja, tudo se inviabilizaria em dois tempos.
Por isso, fico pensando no Sr. Francisco Serra — pai do atual prefeito — , imigrante calabrês, dono de uma barraca de frutas no Mercado da Cantareira, e em sua mulher, Dona Serafina Chirico, filha de imigrantes conterrâneos do marido. Imagino o que ele diria se seu filho, José Serra Chirico, fosse obrigado a usar um uniforme, em sua escolinha da Moóca, em que estampasse, junto ao peito, a propaganda da barraca de frutas de um seu rival? E se, no bolso traseiro da calça, trouxesse o anúncio de um fabricante de fumos? Esses são os lugares para a propaganda previstos pelo projeto atual (quanto aos anunciantes, no caso, são fruto de uma liberdade poética a respeito dos possíveis patrocinadores daqueles tempos). Será que os humildes pais dele aceitariam tal coisa, ou irromperiam numa sonoro e pesado palavrão calabrês?
Quem diria que o excelso alcaide paulistano tivesse tal idéia, justo ele que a todo momento proclama ao universo todo e até mais além sua incontestável competência e sublimes conhecimentos, certamente únicos no território nacional, senão perante toda a humanidade... Pois é. Parece que o José Serra Chirico teve, isto sim, uma idéia de jerico.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2005].
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