Várias vezes, lendo certas notícias, lembro-me daquela frase célebre do polêmico e magistral escritor irlandês Oscar Wilde, que dizia que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Há quem considere tal assertiva exagerada, mais um dito espirituoso do que uma análise da vida real, quotidiana. Pois tenho plena convicção de que Wilde acertou na mosca. Vejamos, portanto, um exemplo recentíssimo.
No último domingo, 11 de dezembro, em Sidney, Austrália, cinco mil pessoas atacaram jovens de origem árabe dizendo que estavam “defendendo seu pedaço da praia”. Segundo a agência internacional de notícias Reuters, com gritos de guerra racistas, milhares de surfistas e freqüentadores se reuniram na praia de Cronulla uma semana depois que dois salva-vidas teriam sido atacados por um grupo de jovens do subúrbio. E como retaliação ao ataque, foi iniciada uma campanha, por meio de mensagens de celular, que convocava os residentes de Cronulla a se reunirem no Domingo, 11 de dezembro, para protegerem sua praia. “Bêbados, muitos deles perseguiram e atacaram australianos com traços árabes na praia do sul de Sidney”, diz a matéria, que prossegue afirmando que “na noite de domingo, a violência tinha se estendido a outra praia, Maroubra, onde homens armados com tacos de beisebol arrebentavam carros. A polícia afirmou que um homem foi esfaqueado pelas costas no sul de Sydney, em um incidente ao qual a mídia local se referiu como violência racial”. Retornando ao ataque da multidão, a Reuters afirma que “no momento em que os manifestantes andavam pela praia, um homem atrás de um caminhão gritava contra os libaneses. Outros carregavam bandeiras da Austrália”.
O primeiro aspecto curioso de toda esta novela — absolutamente real — vem à luz quando se consultam as informações relativas justamente ao primeiro ataque, aquele contra os salva-vidas. Pois segundo a AAP, a agência de notícias australiana, e o The Sidney Morning Herald, um dos principais diários daquele país, a polícia já havia sido chamada para interromper uma briga no clube de surfe de Cronulla iniciada por um homem que já teria atacado alguns jornalistas que para lá foram em busca dos detalhes do episódio inicial: segundo a AAP, os salva-vidas foram agredidos, alegadamente, por jovens do Oriente Médio. O termo “alegadamente” é o que parece ser a principal distinção no caso, como veremos.
Esta notícia fez-me recordar, imediatamente, e acredito que a muitos dos leitores também, daquele belo romance do escritor francês, nascido na Argélia, Albert Camus (1913 - 1960), a tão conhecida obra O Estrangeiro (1942), cujo título vem do fato de o protagonista, e narrador, Mersault, que procurava uma justificação de sua existência, e não a encontrando, sentir-se convertido num estranho, um estrangeiro para si mesmo. Consciente desta situação, o personagem dedica-se apenas a viver o presente, e a este tão somente. Para ele não há passado, nem futuro. Só o concreto, o imediato, existe. Portanto, que se lixem as emoções, a esperança e tudo mais: por serem abstratos e por não possibilitarem a pronta satisfação de seus desejos mais imediatos, não têm lugar em sua vida o amor, a compreensão, o respeito ao outro. A prova disto é que mata inexplicavelmente um homem — árabe, frise-se — “porque fazia calor”, alega no tribunal, mas sabemos, pelas próprias palavras do narrador/personagem, que sua reação se deu porque a vítima fizera um gracejo bobo, que irritara Mersault, estragando sua bela tarde de sol.
É claro que depois das centenas de atentados atribuídos a grupos extremistas islâmicos — e, mais especificamente, depois daquelas ações verdadeiramente espetaculares, midiáticas, em Nova Iorque, Madri e Londres — criou-se um consenso, quase mundial, que identifica toda e qualquer pessoa de origem médio-oriental como um possível terrorista. Mas, convenhamos: a Austrália lá seria alvo de um atentado de verdade? Sua absoluta irrelevância política no contexto mundial e sua notória insipidez cultural — pois é sabido que qualquer atividade relevante neste campo é obra ainda dos aborígines, que, todavia, são postos quase que totalmente à margem da sociedade, sociedade esta descendente do pior rebotalho das Ilhas Britânicas — fariam da Austrália um alvo real?
O que aconteceu por lá é uma situação que vemos quase todo dia. Uma classe de gente que busca viver à sombra de certezas debilmente construídas, sem dia seguinte, sem aspirações que não a satisfação de desejos pontuais. Suprimir o diferente, portanto, é uma obrigação para eles. E, assim, queima-se um índio, migrantes nordestinos são chamados de “sub-raça”, moradores de rua são enxotados da via pública para um lugar tão remoto que nunca saberemos sequer se existe, toques de recolher encontram guarida junto a autoridades civis e ninguém diz mais nada: pois em certas praias, como disseram para o mundo os surfistas australianos, ninguém deve pôr os pés.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2005].
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