A escritora italiana Maria Savi Lopez (1846-1940), criou um bela fábula em seu livro Leggende del Mare (Turim, Loescher, 1894), a qual, no entanto, parece ter sido escrita para os tempos atuais — aliás, como toda boa fábula. Segundo ela, teria existido em Alexandria, Egito, uma espécie de parque de esculturas, monumentais e horrendas, na orla do mar, e que há muito caiu em ruínas. Sua origem se deveu aos seguintes fatos. Quando Alexandre, o Grande, construía a cidade, um grupo de monstros marinhos saía das águas todas as noites e destruía as obras ali realizadas durante o dia. O rei, então, estabeleceu o seguinte plano: ordenou a construção de uma gaiola de vidro, mandou que colocassem um artista dentro dela, e que esta fosse submergida no mar: dali, o homem poderia observar os monstros e desenhá-los. Trazido o artista de volta, Alexandre mandou que se erguessem estátuas daquelas medonhas criaturas, tomando por base os desenhos tomados do natural, e que as mesmas fossem colocadas na praia. Quando os monstros saíram do mar e viram suas exatas cópias, fugiram aterrorizados. E nunca mais voltaram. Acredito que, em boa parte é esta mesma sensação que muita gente tem quando entra em São Paulo, pela Marginal do Tietê.
Falar da feiúra da capital paulistana já se tornou, praticamente, um lugar-comum. Há poucas semanas, inclusive, o jornal Folha de S. Paulo consultou dezessete arquitetos paulistanos, o que resultou numa lista dos prédios mais feios da cidade. Não houve propriamente uma unanimidade quanto ao vencedor (o “campeoníssimo”, que abriga a Sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus É Amor, no Glicério, recebeu três votos, e os demais, no máximo dois), mas, dentre eles, contavam-se não só os “suspeitos de sempre”, como também novíssimas feiúras. E também, na minha opinião, alguns que foram injustamente avaliados. De modo que lá estavam, pela “velha guarda do horror”, o eterno alvo de críticas, o Edifício São Vito, o famoso treme-treme em frente ao Mercado da Cantareira; o Memorial da América Latina, feio, inútil, e quente como um deserto; o Palácio dos Bandeirantes, que recende à arquitetura fascista em cada centímetro de fachada e, que, como resumia magistralmente uma amiga minha, “mais parece um caixote com uma coroa carnavalesca em cima dele”; e o Edifício Martinelli, que, na minha opinião, não deveria ser arrolado entre os mais feios, nem entre os mais “equivocados”: na época em que foi erguido, influências neoclássicas, como as que ele apresenta, ainda estavam na ordem do dia. Da mesma maneira, discordo da inclusão do Edifício Dacon, ali na esquina da Faria Lima com a 9 de Julho. Ele podia ser mais “encorpado”, possuir um térreo mais alto, e, afinal, parece mesmo um grande prédio, só que em escala menor do que a necessária para aquilo que ele se propõe a ser. Mas ele sempre fez uma bela figura no horizonte daqueles lados da cidade.
Quanto à “jovem guarda da feiúra”, dela fazem parte os dois vice-campeões (dois votos cada). Foram eles o Edifício Villa Europa — um monstrengo que se avista da Marginal Pinheiros, famoso tanto por exceder o limite de altura permitido, quanto por seu neoclassicismo de butique, e cujas formas, à distância, lembram um grande pente banguela —; e o prédio da Daslu, que, indiscutivelmente, é um dos prédios mais feios que há em São Paulo, quer do ponto de vista estético, quer, principalmente, do ponto de vista ético, moral, político, econômico, fiscal, etc. Logo abaixo deles, seguem-se a Plaza Iguatemi e o Edifício Renata. Quanto a este último, não há muito o que falar. É feio, convencional, metido à besta, mas há outros piores na cidade. Quando ao primeiro, sempre horrorizou-me que fosse sequer concebido. Pois nunca me esqueço de quando aquele que foi o pioneiro dos shoppings centers de São Paulo, leve, arejado, e quase “democrático”, converteu-se numa espécie de catedral do consumo. Sempre pareceu-me um prenúncio de um futuro muito pior por vir. E que veio: está aí a Daslu, a Sé de uma nova e exótica religião revelada outrora pela Plaza Iguatemi.
Mas nem só de prédios trataram os arquitetos consultados pela Folha de S. Paulo. Criticaram, muito apropriadamente, aquele horror que é o Minhocão e a ausência de qualquer “personalidade” nas pontes e viadutos da cidade. E, convenhamos, com exceção da Ponte das Bandeiras, dos viadutos do Chá e Santa Efigênia, o que resta em São Paulo que seja digno de nota, no gênero?
É claro que a degradação dos espaços públicos produz um efeito muito mais nefasto na cidade do que uma meia dúzia de prédios “feios”. As praças abandonadas, as construções pichadas e decadentes, a própria sinalização desordenada da cidade, as marginais degradadas e as favelas superam em feiúra qualquer das obras acima relacionadas. Mas essas, convenhamos, são resultado do descaso do poder público e da marginalização da população decorrente deste mesmo descaso. E quanto ao resto, que se dá por obra de uma iniciativa privada bruta e insensível? Não tem ela uma parcela de culpa muito maior?
Os efeitos do brutalismo, por assim dizer, na arquitetura paulistana, deitam suas influências em outros campos até então pouco sondados. E, a partir daqui, retornamos ao início desta crônica, à fábula do parque monstruoso em ruínas de Alexandria. Pois que outra sensação um visitante tem que não a de horror quando entra em São Paulo pela Marginal Tietê e se depara com aquela sucessão de terrenos baldios e galpões improvisados que guardam toda a sorte de restos dos desfiles carnavalescos do passado recente e distante? O que pensar daqueles esqueletos disformes, daquelas ruínas sem glória ou história?
Assistindo, pela televisão, os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, somos lembrados, a todo momento, de um truísmo corrente que diz que ambos os eventos não podem ser comparados, visto que as agremiações cariocas estariam acima de qualquer comparação. Seriam hors-concours — ou seja, tão excelentes por suas qualidades que a simples emulação com algo vagamente parecido mostrar-se-ia impossível por natureza. Este é um fato que se demonstra com tranqüilidade diante do que foi dito e do que diremos.
Os carros alegóricos do carnaval carioca são, sem sombra de dúvida, monumentais. Já os de São Paulo, são, por assim dizer, “monumentosos”. Se um se dá ao direito de representar obras do Aleijadinho, de erguer uma réplica da igreja de Nossa Senhora de Paris (Notre Dame) e do Coliseu romano, com uma leveza exemplar, autenticamente belos na sua inequívoca aparência efêmera, passageira, os de cá parecem afundar em seu peso, atravancar o Sambódromo, buscar uma permanência no tempo que, para tal tipo de obra, torna-se exorbitante. Desmedida. Presunçosa. Como a arquitetura da capital dos paulistas. Tudo muito grande, tudo muito robusto, muito caro... e muito sem graça. E com pretensões à eternidade. Veja-se a longeva sobrevida que o que restou dos carros alegóricos têm nos galpões e terrenos improvisados. Veja-se o seu excessivo volume, sua ausência de graça, sua longa decomposição sem ao menos a aura de um certo fascínio de outrora.
É de se pensar se o mal-estar que sentimos à vista destes restos de festas passadas se deve à natural feiúra resultante de seu abandono. Creio, entretanto, que o sentimento se deve á sua própria composição. Não seríamos, todos nós, paulistanos e paulistas, pouco diferentes dos monstros da fábula? Será que aquilo que nos horroriza de tal maneira, assim o age menos por sua aparência, e mais por ser um retrato, se não de nós mesmos, daquilo que permitimos que fosse feito em São Paulo?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de fevereiro de 2007].
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