Acredito que todo católico veja cada novo pontificado como uma esperança de renovação e, ao mesmo tempo, como a continuação de uma obra que se pretende perene. Aparentemente, tais afirmações podem até assemelhar-se como contraditórias, mas não são. Pois não há duvida de que a substituição de um Papa por outro, seja ele quem for, trará naturalmente mudanças, correções de rumo e, para sermos mais precisos, uma atualização do proceder da Igreja frente às mudanças e clamores da sociedade. Neste ponto, sem dúvida, é uma renovação. Mas uma renovação é, também, a reafirmação das verdades ancestrais, dos votos tradicionais, a revalidação das responsabilidades assumidas, a reiteração daquela tão antiga e tão fresca boa nova: o Evangelho, a mensagem da salvação pelo amor, paz, tolerância, fé, fidelidade e compromisso.
Portanto, é de se lamentar como as revistas semanais de maior tiragem, neste que é o maior país católico do mundo, reagiram a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger ao trono de São Pedro. A revista Época, do conglomerado Globo, brada em sua capa, sob a imagem de Bento XVI, que a “Igreja se fecha”. Já a revista Veja, que semana a semana mais esguia se torna, ataca com a chamada “A Igreja congelada”. Nem mesmo a revista Carta Capital, voz dissonante das acima citadas, eximiu-se de uma infeliz, e tendenciosa, abordagem, sotopondo à imagem do Sumo Pontífice a legenda: “Miserere Nobis (Tende Piedade de Nós)”. E tudo isto sem falar no que, aqui e ali, foi disseminado por jornais e telejornais, sítios e blogs na Internet.
Pois o que se viu divulgado por estes meios de informação nada mais foi do que uma copiosa sucessão de vis preconceitos travestidos de objetividade supostamente jornalística. Vejamos alguns dos argumentos lançados por tais publicações, seu exageros e verdadeiros absurdos, e o que de fato se sabe sobre a pessoa e a trajetória de Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI.
Acusam-no pelo fato de que, quando jovem, tenha se filiado à juventude hitlerista, já na década de ‘40 do século vinte, ou seja, em plena Segunda Guerra Mundial. Ora, só aqueles absolutamente ignorantes quanto ao contexto vivido por um adolescente alemão daquele período poderiam repudiar tal fato. Pois, naquele momento agônico do regime nazista, não aderir a juventude hitlerista seria, para um jovem, uma condenação à morte — se não à sua própria, a de seus pais e familiares.
Depois, é lembrada sua participação como artilheiro do exército alemão nos últimos dias daquele conflito. Fato também que não seria de surpreender. Nos últimos meses da guerra, de anciãos a meninos de doze anos — mas há quem fale em dez também — eram alistados às pressas e designados para toda parte. Negar-se a servir acarretava em imediato fuzilamento, por traição à pátria.
Curiosamente, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a década de ‘70, os detratores do novo Papa — que talvez nem sejam mesmo opositores reais, mas sim um bando de gente que se deixa levar por fofocas e idéias alheias — não encontram um só fato que desabone sua figura. Mas com o início da década de ‘80, tudo muda, porque então era ele nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Não, isto, para seus detratores, é imperdoável. Houve até um que o chamou de Torquemada de João Paulo II, em alusão ao terrível inquisidor espanhol de fins do século XIV, início do XV. Vamos, portanto, novamente ao fatos.
O primeiro é que, de fato, a Congregação para a Doutrina da Fé nada mais é do que a herdeira das atribuições e funções do antigo Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Santa Inquisição. Mas é herdeira em termos: seu poder e seu alcance não é nem de longe o mesmo do passado, também, como é sabido, não anda por aí prendendo e condenando quem quer que seja à fogueira. Atacar, nesses termos, a Congregação para a Doutrina da Fé, pelo o que sua antecessora tenha feito remotamente, é o mesmo que condenar uma moça pelos erros de sua avó. Depois, não tem sentido comparar o papel de Torquemada com o do então Cardeal Ratzinger à testa da referida Congregação. A inquisição espanhola associava-se àquela promovida pelo Vaticano apenas no nome: era independente, sujeita apenas à coroa de Espanha. Para não falar na diferença de métodos, valores e princípios que nortearam uma, no passado, e outra, no presente.
Em suma, o que vemos, mais uma vez, é uma dessas polarizações sem sentido que boa parte da imprensa tenta nos impingir como algo crucial, um momento de debate, de considerações definitivas, como se houvesse mesmo como opinar. Não é nada disso. Eleição de Papa não é como eleição de presidente ou prefeito, síndico de prédio, música mais pedida ou Garota do Fantástico. Não cabe “eu acho isso”, “eu acho aquilo”, “eu quero esse”, “eu preferia aquele”. Não é momento para caóticas declarações de pessoas cujas idéias são ainda mais caóticas e pouco católicas.
Porque os eleitores, de fato, são poucos e os mais capacitados e quem define mesmo tudo, no fundo, é o Espírito Santo. E é possível se opor a tal qualidade de elementos?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2005].
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