sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma verdadeira auto-ajuda

Tratamos neste espaço, recentemente, daqueles livros que costumam ser intitulados de “auto-ajuda”, e que se de fato tornam-se meio de alguma ajuda, esta deve ser principalmente para seus autores.
E como é minha política (no sentido lato da palavra), e de toda a gente de bem, apresentar uma sugestão a um problema que se tenha levantado — um hábito ora raro em nosso país, pois veja-se a eterna “oposição” que ora ocupa o topo do poder nacional, que tanto criticou e nada propôs, efetivamente — eis que o que se segue é uma continuação e um estímulo, modesto, reconhecemos, a certas considerações por parte dos leitores.
Acredito que as pessoas que cultivam o hábito da boa leitura são em boa parte mais imunes às crises de desespero, depressões, cansaço da vida, falta de motivação ou coisas do gênero, do que as demais pessoas. Creio mesmo que estão muito mais a salvo de alquebramentos espirituais, prostrações morais e abatimentos psicológicos do que aquelas outras que lêem somente porcarias, ou das que não lêem absolutamente nada.
Quem é religioso e segue sua fé conforme os preceitos sabe exatamente disto. É o caso da Bíblia, socorro para todos os cristãos, e que, independentemente de sua versão, sempre serve de referência. Bem como todas as leituras próximas, ou complementares, quer seja a Legenda Áurea, de Tiago de Varaze, quer seja O Livro dos Mártires, de John Fox, quer as obras de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Martinho Lutero ou John Wesley, dentre tantos outros. O mesmo se aplica aos muçulmanos e suas leituras do Corão e do Hadith — este que serve de complemento ao livro sagrado do Islã —, e aos judeus, com a Tora, o Talmude e demais compilações rabínicas. E paro por aqui em razão de que católicos ortodoxos ou orientais, hinduístas, confucionistas, budistas, xintoístas e tantos outros fiéis das mais variadas religiões do mundo são uma minoria minúscula no Brasil e, portanto, fora do convívio quotidiano dos leitores. Mas, sem sombra de dúvida, todos eles têm seus livros sagrados, que lhes servem de guia de conduta e consolo diante das tribulações do mundo, desde que devotos.
Mas também há inúmeros outros campos do conhecimento e do saber que são grandes estímulos às pessoas, quer na vida como um todo, quer naqueles momentos de privação, dor ou desespero. Pois que outra coisa não tem sido a Filosofia, ao longo dos séculos, do que uma ajuda, uma baliza para o homem frente aos dissabores, e mesmo os prazeres, da vida? Vá lá que Aristóteles esteja defasado na sua análise da Física, Química, Medicina, Zoologia e noutros vários aspectos do conhecimento humano. Mas sua análise do indivíduo, com seus poderes e limitações, bem como seus pressupostos morais, são consistentes até hoje. E o mesmo podemos dizer a respeito de muitos dos pensamentos, e ensinamentos, por assim dizer, de Platão, Cícero, Sêneca, Plutarco, Marco Aurélio e Plotino. Sem falar em tantos outros pensadores do Oriente, mesmo do Oriente, mais remoto, do qual Sun Tzu seria apenas o mais conhecido.
Que guias ótimos para o viver e justo proceder do homem nesta terra não foram aqueles sábios — não porque diretamente inspirados por uma vontade para além da humana, mas porque conheciam também a vida e pesavam as várias paixões e desencantos que nos conduzem neste orbe, e suas maiores e suas mais ínfimas relações com o todo — qual Montaigne, Cervantes, Shakespeare e o nosso Camões! E já que adentramos no campo da Literatura, quantos tesouros, quantas florestas de exemplos para a vida não podemos retirar deste magnífico campo do saber humano, desta fonte inesgotável de arte, beleza e prazer.Pois de cada bom livro, podem-se tirar inúmeros exemplos, edificantes ou mesmo reconfortantes. Mesmo que sejam livros com histórias terríveis. Mesmo que os autores tenham idéias condenáveis perante aquilo que acreditamos, pois a boa dúvida, a dúvida fruto da investigação de uma mente curiosa será sempre bem-vinda se por meio dela queremos mudar o mundo e a nós mesmos. E, por isso, perguntamos: a “boa dúvida”, por assim dizer, pode ser instigada por autores de poucos recursos?
Mas há quem diga que o problema seja outro. “Ora”, dizem alguns, “para se ler tanto é preciso tempo e dinheiro. E quem tem isto hoje em dia?”, arrematam. De fato, precisa-se de tempo. Mas este pode muito bem se subtraído de atividades infrutíferas como assistir às maçantes telenovelas, os previsíveis jogos e partidas em geral e aquelas insuportáveis mesas redondas esportivas nas quais são discutidas as profundezas de assuntos sabidamente rasos. Deixemos as Hebes, Faustões, Galistéias e Kajurássicos para lá, no mesmo limbo que os folhetins com peões, imigrantes ilegais e quejandos. Quanto ao dinheiro, ao custo para a leitura, trata-se de outra falácia, pelo menos em nossa região: pois não há uma biblioteca pública das redondezas que não possua em seu acervo vários exemplares dos autores citados.
A questão, no fundo, quanto à escolha do que ler, poderia ser resolvida por uma quase parábola, de sabor ancestral: “Separemos, portanto, o joio do trigo. Pois se o primeiro só dá lucro para quem de má-fé o junta ao cereal, na pesagem, será o grão que, verdadeiramente, dará alimento e geração”.
Ou não?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de novembro de 2005].

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