Uma notícia recente de jornal deu conta de que uma nova geração de atletas “geneticamente modificados” poderá estar competindo nas Olimpíadas de Atenas. Tais atletas teriam acrescentado à sua composição genética outras combinações de DNA e, com isso, melhorado seus desempenhos esportivos. A informação consta de um livro recém-publicado na Inglaterra, "Genetically Modified Athletes" (“Atletas geneticamente modificados”, do Dr. Andy Miah, um cientista britânico, que alega que o “doping genético”, como já está sendo chamada este tipo de trapaça, não se trata mais de pura teoria, mas, sim, de uma realidade viável. Segundo ele, alguns atletas chegaram a fazer contato com cientistas na vanguarda das pesquisas em engenharia genética.
A possibilidade da criação desse golpe contra a ética no esporte, aliás, era tão presente na mente dos envolvidos no meio, que a própria Associação Mundial Anti-Doping (WADA, em inglês) antecipou-se ao desenvolvimento da ciência naquela área e proibiu esse tipo de alteração física, considerando-a, justamente, doping, tanto na forma de substância, quanto de método, desde o ano passado. De maneira que a transferência de genes extras para o corpo de um atleta, genes estes que possam vir a superdesenvolver áreas chaves da fisiologia como músculos, tecidos ou hemácias, passou a ser proibida antes mesmo de ser considerada possível pela ciência.
Por outro lado, o acima citado cientista britânico, que descobriu tais possibilidades de fraude, vê com bons olhos esse tipo de coisa. Acredita que o futuro do esporte passa por esse caminho e que a idéia de um atleta naturalmente perfeito é um contra-senso romântico. De acordo com ele, como os esportistas já se utilizam dos mais variados meios tecnológicos para melhorar seus desempenhos, o emprego desses novos métodos seria uma etapa normal na própria evolução dos esportes, garantindo performances surpreendentes, recordes extraordinários e outras “maravilhas”. Mas não disse uma palavra quanto aos possíveis efeitos colaterais na saúde de quem cometeria tal coisa. Tampouco dos eventuais efeitos na opinião pública.
Dentre os muitos aspectos relacionados ao sucesso de público dos eventos esportivos, creio que um dos principais, senão o principal, é resultado de uma certa identificação possível entre espectador e atleta. Pois o que é o atleta, em muitos casos, se não uma pessoa absolutamente igual a nós todos e que soube desenvolver além de nós certas habilidades físicas específicas? Qualquer pessoa que já apostou uma corrida com um amigo na infância reconhece-se num corredor dos 100 metros rasos. Pode até invejá-lo, achar que aquele teve oportunidades privilegiadas, e que ele, pacato espectador, poderia até estar no lugar do celebrado atleta se as mesmas oportunidades lhes fossem concedidas. E o mesmo se dá, sabidamente, em todos os demais esportes: quem assiste a um jogo de futebol sem se lembrar das peladas da infância ou da semana passada, sobretudo quando vê um gol perdido, e garante, em alto e bom som que, se fosse ele no lugar do craque, o gol seria feito?
Assim que graça poderia ser vista numa competição em que, digamos, e a grosso modo, veríamos um atleta que acrescentasse traços de DNA de cavalo para disputar uma corrida, outro com DNA de peixe lançando-se numa prova de natação e outro ainda com DNA de pulga competindo no salto em altura? Vá lá que estejamos simplificando muito a coisa, mas que graça todos nós, que não nos submetemos a tais procedimentos, poderíamos ver numa exibição em que seres híbridos, fingindo-se humanos, desempenham tarefas que nunca, jamais, sequer em sonhos, poderíamos desempenhar?
Não, isto não seria esporte, não seria algo com que possamos nos identificar nem mesmo tangencialmente. Para mim, parece-se mais com lutas entre feras, brigas de galo ou corridas de cavalo sem o jóquei, se tal é possível. Seria o caso, também, de se mudar a invocação olímpica dos esportes: os novos e grandes jogos quadrienais deveriam passar a homenagear Circe, aquela deusa da Odisséia que transformava os homens em animais.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário