quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Carnaval, a Aids e a “pílula do dia seguinte”

Como todo mundo sabe, o Carnaval não é uma festa exclusivamente brasileira. Ele não nasceu da malemolência tropical, do cruzamento do índio, do branco e do negro, aqui, no lado de baixo do Equador, região supostamente sem pecado. O Carnaval é fruto de uma piscadela de olho, ou cochilo consentido, da Igreja Católica medieval, que permitia um certo abrandamento dos costumes, durante quatro dias da festa, entre o fim do inverno europeu e a Quaresma. Para alguns fundamentalistas ou restauracionistas, a aceitação de tal costume seria algo vexatório para a Igreja, uma prova de que ela merecia, desde aquela época, uma correição, por permitir a existência de “práticas pagãs” entremeadas ao calendário litúrgico. Mas os padres da Igreja daquele tempo sabiam que sua comunidade era composta de santos e pecadores, e compreendiam a necessidade de um certo alívio das regras, principalmente depois de meses e meses de frio, tristeza, escuridão, isolamento e privações. É verdade que, já naquele tempo, a quebra de certos comportamentos habituais descambava em graves excessos. Mas não é comum aceitar aquela época como um período rude e violento? Uma era de certa barbárie, ignorância e superstição? Sabemos que não era bem assim. O que não entendemos é como, em nossa época tão “racional”, os mesmos excessos impensados ainda se verifiquem. Ora, os tempos não mudaram? E a compreensão do mundo, também não? Portanto, a manutenção de certos hábitos deveria ser, se não revista, ao menos questionada.
Pensemos na polêmica do Carnaval deste ano, opondo Estado, Igreja e sociedade, que parece ter sido causada apenas e tão somente pela ampla distribuição de preservativos — prática que já dura mais de uma década — e das “pílulas do dia seguinte assuntos que suscitam não só comentários como, também,uma ampla discussão. Assim, em primeiro lugar, temos de pensar nos três envolvidos nesta questão e seus respectivos papéis: e que são, como foi dito, o Estado, a Igreja e a sociedade.
O Estado tem toda a razão em fazer o que faz. Porque ele é laico; porque ele tem que lidar com milhares de infectados por doenças sexualmente transmissíveis depois de cada Carnaval; porque ele arcará com o peso social e econômico de uma infinidade de gravidezes indesejáveis: pois tanto abortos quanto filhos imprevistos, consomem milhares de horas de profissionais das mais variadas áreas — Justiça, Assistência Social, Segurança Pública, Medicina, Educação, etc — e muitos milhões de reais que poderiam ser empregados noutras áreas.
Da mesma maneira, a Igreja está, em boa parte, repleta de razões. Seu repúdio a uma sexualidade desenfreada fundamenta-se numa doutrina ancestral, por ela reivindicada de forma documental, como tese de fé, e da qual ela seria o derradeiro baluarte; sua condenação aos métodos contraceptivos, data de milhares de anos e estriba-se em sua convicção na defesa da vida; sua compreensão de que os excessos são perniciosos à carne e à alma, é mais do que conhecida: os abusos são um entrave no caminho para a Salvação, que ela defende como meta absoluta na vida de seus fiéis; ao mesmo tempo, ela também é sensível aos graves problemas sociais e econômicos decorrentes das concepções impensadas, e sabe das terríveis conseqüências advindas das mesmas.
E quanto à sociedade? Qual seu papel nesta trama? Pois bem, cabe a ela o papel principal: assumir a sua responsabilidade, total e absoluta, do que faz não só ao longo do ano, mas durante os quatro dias de Carnaval. Porque ela é livre — por força de Lei, frente ao Estado, e em razão do Livre Arbítrio, diante de Deus e da Igreja — para fazer o que bem entenda: desde que arque com as conseqüências de tal disposição. Cabe, pois, à sociedade avaliar, pesar, repensar este furor de baixo ventre que domina tanta gente de forma absoluta durante quatro dias do ano, e seus resultados para o resto de suas vidas cívicas, sociais, econômicas, familiares e espirituais.
Trata-se, pois, de ponderar, ou arcar com as conseqüências. Porque os alertas, de todas as naturezas, já foram dados. Ou se tem consciência, ou que se esteja disposto a agüentar o fardo de uma consciência pesada, e todos os resultados de atos impensados: a culpa não decorre da imposição de uma regra, mas de sua transgressão. Portanto, um pouco de juízo, nestes dias, é mais do que bem-vindo, é fundamental.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de fevereiro de 2008].

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