Errar, como é sabido, todo mundo erra. Seja por ignorância — ou, por outro lado, por arrogância ou excesso de confiança, em nós ou nos outros —, seja por teimosia, seja por descuido, por cansaço, por preguiça ou, simplesmente, porque, afinal, como dizem os provérbios, errar é humano. É da nossa natureza, portanto. Quem nunca se equivocou quanto à cor da tinta para pintar a casa, quanto ao tecido para cobrir o sofá, quanto ao modelo de carro novo, quanto a um investimento ou um gasto, quanto à colocação de uma crase ou ainda quanto ao resultado de uma divisão? Não conheço ninguém que já não tenha considerado o prato do vizinho de mesa, num restaurante, mais saboroso que o seu. Ou a roupa de alguém mais bonita, o destino turístico da última viagem de férias mais divertido. E não se trata de inveja, mas, sim, da consciência real de nosso erro. Erramos caminhos, no sentido real e figurado, erramos quanto a idéias, crenças, desejos, vontades; por ter votado em fulano, por ter acreditado em beltrano, por considerar sicrano como um amigo.
Felizes da maioria de nós, cujos erros são de limitada extensão. Dizer que um vestido não cai bem à pessoa amada, ainda que ela o considere lindo, causa muito desconforto num determinado momento, mas o dano é pequeno, e o tempo faz com que todos nós o esqueçamos. E com milhares, com milhões de erros desta natureza se dá o mesmo. Mas os equívocos dos poderosos, dos “famosos”, etc., dificilmente são esquecidos e, o que é pior, pela natureza do poder que detêm, ou da influência que possuem, se mostram muito mais evidentes. E, ao mesmo tempo, aparentemente incompreensíveis. Pois, afinal, como é que uma sumidade em determinado assunto pode se enganar de tais maneiras tão óbvias, tão compreensíveis até mesmo para um leigo?
Não falo daqueles erros medonhos, colossais, catastróficos, cometidos por estadistas do presente e do passado. Dos que causaram batalhas terríveis e inúteis, com milhares de mortos; dos que criaram políticas econômicas e sociais desastrosas; dos que formaram alianças infelizes e subjugaram seus países e povos não só à miséria, mas, também, a uma ilusão de progresso que nunca se cumpriu. Daqueles que atacaram o inimigo “errado”, segundo alguns, que procuraram exterminar etnias ou minorias religiosas, que instauraram ditaduras ou que, graças a elas, cevaram-se vorazmente quais feras selvagens, nem dos que desviaram, desviam e eternamente desviarão, ao que tudo indica, fortunas do dinheiro público. Não falo desses que sobrevivem à sombra de todos os governos, quaisquer sejam eles, roubando a todos, roubando o futuro de uma nação, seja ela qual for. Não. Eles não erraram quanto aos seus intentos, que eram claros em suas mentes, fruto de uma deliberada e pérfida vontade, do desejo de enriquecer às custas de um patrimônio que seria de todos e de se sentirem melhores do que a maioria pelo simples exercício de um poder que eleva alguns como “iguais” e rebaixa outros como “diferentes”. Pois o erro de muitos deles não foi de natureza ética ou moral, mas, sim, prática: foram apanhados “com a mão na massa”, metida em assuntos que revelaram suas pérfidas intenções e os crimes delas decorrentes.
Pelo jeito como as coisas funcionam, tanto neste mundo, como em nosso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, muitos “erros” jamais serão sanados, ou seus responsáveis levados às barras dos tribunais, seus feitos trazidos à luz do conhecimento público e da pública execração. Acredito, todavia, que alguma razão deve existir nesta nossa Terra miserável, não na essência, mas no seu desenvolvimento, que colocará certos atos, episódios e pessoas no seu devido lugar. Pois certamente deve haver no Céu — seja ele um só, ou vários — tribunais especiais para tantos e tão variados assuntos, prontos a exarar a Justiça conforme seja ela aplicável, perfeita, reta, em cada caso.
Assim, que os leitores não interpretem que estou “cansado” quanto a algo em específico. Estou, na verdade, exausto perante uma série de coisas, as quais foram causadas, na sua maior parte, por algumas criaturas que se indignam na hora errada, mas ao que tudo indica, parecem, faturar muito dinheiro, prestígio e poder nas horas certas.
E é de se perguntar: certas para quem, cara-pálida?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de setembro de 2007].
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