quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pode o Carnaval mudar de data?

A respeito do último Carnaval, um dos fatos mais curiosos que notei dizia respeito à sugestão de uma sua possível mudança de data, pleiteada por meio de cartas de diversos leitores em alguns grandes jornais. A idéia, à primeira vista exótica, tem lá o seu fundamento histórico e alguma boa parte de razão. Ou seja, ela é possível do ponto de vista legal, já foi empregada no Brasil, ainda que, na verdade, não tenha dado certo, mas, por outro lado, fundamenta-se em alguns motivos bastante sólidos. Vejamos quais são eles. E, para tal, precisamos retornar à História.
Como todos sabemos, depois do estabelecimento da República em nosso país, foi decretada a separação entre o Estado e a Igreja: o Brasil tornou-se, institucionalmente, uma terra laica, que respeitaria a liberdade de culto e as práticas religiosas de qualquer natureza — salvo quanto às religiões afro-brasileiras, mas isto é outra história que será tratada noutra ocasião. Assim, nosso Estado proclamou-se soberano e livre de quaisquer influências, por assim dizer, metafísicas — está certo, havia o Positivismo e a Maçonaria inviabilizando tal “neutralidade”, e é esta uma outra história a qual voltaremos numa ocasião futura. Mas, em suma, o que ocorreu, é que nossos governantes sentiram-se livres a tal ponto que chegaram mesmo a alterar o calendário da festa, outrora, mais popular do Brasil. De modo que, em 1892, o Carnaval foi transferido para os dias 26, 27 e 28 de Junho.
O quê? Carnaval em junho? Pois é. Alegava-se, então, que era por razões de salubridade pública. E tinham lá seus motivos, em sua época, pelo fato de Fevereiro, Março e princípios de Abril, períodos em que costumam cair o Carnaval, serem muito quentes e favoráveis à proliferação de mosquitos e outros males “miasmáticos” — lembremos que a existência dos micróbios ainda era questionada, bem como a eficiência das vacinas, naquele tempo.Em suma, a Ciência daqueles anos e o Estado, andavam lado a lado, por mais inconstantes que ambos possam ser, em seus discursos, como vemos.
Entretanto, havia ainda um outro motivo para a alteração das datas: o conforto dos foliões ricos. Afinal, o Rio de Janeiro, capital da República, ditava as regras e as modas para o resto do país. E as damas e cavalheiros daquela época queixavam-se do clima da cidade, naqueles dias, que impedia ou dificultava o uso de fantasias elegantes, suntuosas, como as utilizadas em Paris, exemplo de conduta, exemplo de civilização: lembremos que, naqueles tempos, todas as cidades espelhavam-se na capital francesa e o Rio, principalmente. O que também rende outra crônica...
Mas a verdade é que, como dissemos, a alteração da data não deu certo. Feria as tradições. E festa popular, tem que ser tradicional, estribada num calendário secular, pelo menos. Em razão disto, acredito que um dos principais problemas do Carnaval reside num aspecto aparentemente dúbio quanto à sua origem. Pois, afinal, ele é, de certa maneira, uma festa religiosa. E, ao mesmo tempo, não é nada disso. Ele é regido pelo calendário litúrgico, entretanto não entra na liturgia. Justifica-se, historicamente, por sua tradição, como um legado medieval, como uma permissão da Igreja, para certas liberdades, entre o fim do longo e triste inverno europeu e as privações da Quaresma. Mas, no nosso caso, estamos livres dos rigores hibernais da Europa, e a abstinência ou, antes, a moderação, durante a Quadragésima, é algo que vemos recuar ano após ano.
Daí até ser possível desvincular Carnaval da época em que ele ocorre, deslocá-lo para uma data fixa do calendário, a ser marcada. Segundo os argumentos de muitos dos defensores da mudança, baseados no que ocorreu neste ano, o fato da folia de Momo ter caído tão próximo do fim das férias e do reinício das aulas, prejudicou o pleno gozo desta celebração. Afinal, alegaram, “quem é que tem dinheiro sobrando para bancar, num período tão curto, viagens de família, compra de material escolar e, ainda, os gastos carnavalescos, ao mesmo tempo em que se está pagando, ainda, as compras do Natal?” Sem falar na pressão da Páscoa: desde o último domingo os ovos de chocolate já estão sendo oferecidos nos supermercados.
Restam, portanto, algumas perguntas. Se deslocarmos o Carnaval para uma época que não comprometa, em muito, as rendas dos foliões — épocas em que a pressão do comércio é mais branda, nas quais sobra mais dinheiro — qual o sentido da Quarta-Feira de Cinzas? Será criada uma folia especial na terça-feira que a antecede, para justificá-la? E, ao mesmo tempo, será deslocado o tríduo momesco — que, nalguns lugares, passam de uma semana — para outra data mais oportuna? E oportuna em relação a quê? Ao desejo de consumo e à submissão dos consumidores aos apelos do mercado? Há que se ponderar, com calma, com moderação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de fevereiro de 2008].

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