sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um negócio das Arábias?

A reunião de cúpula envolvendo representantes dos países árabes e chefes de Estado sul-americanos, realizada em Brasília nesta semana, foi um evento em que se misturou a inutilidade ao cômico, culminando no patético, e motivado pelas mais interesseiras preocupações. Tudo porque o nosso Exmo. Sr. Presidente quer porque quer o tal do assento brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, quer também dar algumas alfinetadas nos Estados Unidos da América e fazer uns chamegos à Venezuela. Estes são os interesses diplomáticos do Sr. Presidente, no presente momento. Custe o que custar, principalmente os conceitos de democracia e liberdade. Vejamos o porquê.
Em primeiro lugar, por maior respeito que as nações árabes possam despertar — e despertam, a nós todos — por suas trajetórias de luta, pela antigüidade de suas culturas e artes, a maioria delas não passa de ditaduras que oprimem todas e quaisquer minorias étnicas ou religiosas em seus territórios, quer por meio de mil malabarismos eleitorais — aos quais chamaríamos de fraudes — quer pela pura e simples violência militar ou policial, travestida de “cumprimento à lei e à ordem”. Este é o argumento dos poucos governos que se intitulam laicos na região, como o Egito, o Iraque, o Líbano, a Argélia e o novo Iraque, para ficarmos somente entre aqueles de algum relevo político mundial. Argumentos que, acreditam, fazem com que se difiram dos demais países, monarquias ou repúblicas assumidamente teocráticas, em que toda diferença de fé culmina na morte ou na mais abjeta privação de direitos. Ninguém fala das privações pelas quais passam os cristãos no Egito, ou os xiitas no Líbano, como os xiitas no Iraque, ao lado dos curdos, que por sua vez também são massacrados na Turquia — ainda que esta não esteja aqui representada, mas que é o fiel da balança da política local.
Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kwuait são monarquias teocráticas, a primeira, aliás, se auto-intitula “monarquia absoluta”. Imaginem, portanto, o grau de liberdade política de que usufruem seus cidadãos...
E Líbia, Síria e Sudão são mundialmente reconhecidas como ditaduras de fato, sendo a última, inclusive, uma das mais violentas da história da África. Para não falarmos do caso da Somália, cuja situação política é extremamente confusa: o poder político encontra-se dividido por vários senhores da guerra, que dominam várias zonas do país — é de se pensar qual a legitimidade de seu representante.
São estes estados que desejamos como “parceiros”? Queremos inundar seus mercados com nossos produtos em troca de quê? De artesanato? Será que nosso Presidente quer que todos os brasileiros possam comprar “bem baratinho” tapetes persas para suas casas? Ou lanternas e artefatos de couro do Marrocos para iluminar nossos serões e descansarmos nossos pés tropicais? Ou será ainda que tudo isto é feito para comprarmos, a preço de banana, tâmaras, figos e damascos secos no final do ano? Pois que outra coisa os países árabes produzem se não isso?
Petróleo, dirão alguns. Mas não nos dizem que o Brasil já é praticamente auto-suficiente neste combustível, e que chegamos mesmo a exportá-lo? Não dizem que todos os nossos esforços agora são em busca de energias “limpas”? Porque insistir no malcheiroso e ultrapassado petróleo?
Resta somente o dinheiro. Dinheiro os países árabes têm de sobra, circulando entre seus governantes e os amigos do poder. Mas será que queremos este dinheiro sujo do sangue de todos os opositores daquelas sangrentas ditaduras?
Dinheiro sujo de sangue e uma vaga no Conselho de Segurança da ONU — estes são os objetivos dos impolutos defensores e organizadores do convescote em Brasília, onde se fez vista grossa a toda e qualquer arbitrariedade política. Houve mesmo um embaixador brasileiro que disse, com todas as letras: “A questão da democracia é relativa. Há entre os países árabes estreita união entre Estado e religião. Para eles, a visão de democracia é uma” — talvez querendo dizer, “uma outra completamente oposta a de todas as civilizações ocidentais”, mas se omitindo porque a conclusão era feia demais para ser proferida em público.
Em suma, é de se pensar o que é pior, se o governo ou seus parceiros neste pretenso negócio das Arábias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de maio de 2005].

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