Acredito que todos já tenham visto uma conhecida fotografia de Getúlio Vargas na qual ele — vestindo um impecável terno risca-de-giz e levando à cabeça um chapéu gelot — empunha uma pistola Luger, se não me falha a memória, e mira um alvo, quem sabe inexistente. O episódio se deu, pelo que me lembro de ter lido, numa feira de armas realizada no Sul do país, na década de 1930. Trata-se de uma fotografia que causa impacto, e percebe-se que este foi sua intenção. Pois o que se vê ali é o homem forte do regime em toda a acepção que a palavra força possa ter. Seu olhar frio — e que nada mais é, no fundo, do que o olhar do atirador quando faz a mira — nos intimida ainda hoje, como deve ter intimidado seus opositores. E, ainda assim, gosto desta fotografia. Acho, por suas qualidades técnicas, uma das melhores de nossa história, ainda que não faça justiça a Getúlio e que tenha servido, posteriormente, a realçar sua figura de ditador e diminuir sua figura de estadista. Entretanto, ela é verídica: Getúlio de fato fez aquilo, era o poderoso de plantão, e tinha uma grande familiaridade com armas de fogo — seu trágico fim, aliás, não se deu por meio de uma delas?
Da mesma maneira que acredito que todos conheçam a fotografia antes citada, presumo, também, que já tenham visto uma outra, dos tempos da Segunda Guerra Mundial, que retrata o primeiro-ministro britânico Winston Churchill — também num terno risca-de- giz e com um chapéu que, por falta de termo melhor, chamaria de uma cartola curta — trazendo, segura entre as mãos, como tivesse acabado de utilizá-la, uma metralhadora. A foto é muito curiosa e causou uma grande repercussão. Churchill nela sorri, meio que de esguelha, pois seu indefectível charuto está entre seus lábios. E a idéia que temos, à primeira vista, não é a de vermos um estadista britânico mas, sim, um gangster vulgar de filme americano — semelhança, aliás, que foi fartamente utilizada pela propaganda nazista. Entretanto, o que se via nada mais era do que um chefe de Estado mostrando ao mundo o quanto lutaria pela defesa de seus ideais e de seu país. Depois, Churchill podia, legitimamente, posar para uma fotografia daquelas. Era um experiente soldado, lutou em várias campanhas e tinha sobeja experiência no uso de armas de fogo: sua reflexão sobre a eficiência da pistola Mauser num combate homem-a-homem é uma das melhores passagens de suas Memórias.
E já que tratamos de homens de Estado e suas armas, como não lembrar de Saddam Hussein — de terno e gravata, com um cachecol estranhíssimo e um chapéu pior ainda — erguendo uma espingarda e atirando para o alto ao fim de um discurso? Quem não se lembra da fotografia, certamente recorda-se das imagens televisionadas daqueles últimos dias de seu governo, antes da invasão americana, antes do colapso de seu regime. Era flagrante, ali seu esforço desesperado em mostrar-se o defensor primeiro de seu país, e, ao mesmo tempo, interpretava-se facilmente, sua tentativa de apropria-se dos mesmos significados que a já mencionada fotografia de Churchill passara em circunstâncias, se não semelhantes, bastante próximas. E ainda que o resultado visual revele um tom de paródia, de vulgaridade, não podemos, por outro lado, negar sua verossimilhança. Saddam Hussein foi um militar de carreira e, portanto, relacionava-se com armas havia décadas. Contraditório seria mostrar-lhe empunhando uma caneta...
Estas ponderações vieram a mim depois que vi a patética imagem do Governador do Estado de São Paulo, Sua Excelência José Serra de Chirico, manuseando, para a alegria dos repórteres fotográficos, um fuzil, um FAL, calibre 7.62 mm, das mais variadas formas: fez mira contra um fotógrafo, apontou-o na direção de um oficial altamente graduado da briosa PM, e brincou qual criança com um brinquedo novo, caro, quando não impossível.
Pergunto-me qual foi a intenção do Excelentíssimo Senhor Governador ao se exibir daquela maneira. Imitar Getúlio Vargas? Mas ele, e seu partido, não propalam, aos quatro ventos, seus desejos de implodir a herança getulista? Parodiar Winston Churchill? E que isto quer dizer? Que o Estado de São Paulo encontra-se refém de uma guerra? Mas como poderia ser ele defendido por alguém cuja ignorância no manuseio de armas e notória? Mero jogo de cena? É possível. O tecnocrata, que nunca deve ter usado, sequer, um canivete suíço, destes de vários usos, para consertos gerais, posa aos fotógrafos com um fuzil nas mãos para sugerir um poder que de fato não possui, ainda que o almeja à custa de sua alma e à custa de todos nós. Acho preferível esta interpretação àquela de que copiaria Saddam Hussein e seu gestual, pois grandes diferenças existem entre um e outro. Pois se não resta dúvida de que Saddam era ávido por manter seu poder sobre todo um país, também é conhecido, por outro lado, que a avidez de José Serra de Chirico pelo poder reside ainda em como conquistá-lo: uma grande diferença, de fato...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de maio de 2007].
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