Como é do conhecimento de todos, a história do Brasil se confunde com uma sucessão de ciclos econômicos baseados no extrativismo e na produção agrícola — o que, aliás, é de se esperar de um país nascido de uma colônia. Assim, iniciamos com a extração do pau-brasil, passamos para o cultivo da cana-de-açúcar, extraímos ouro das entranhas da terra, tivemos culturas regionais, e específicas, de gado, tabaco, algodão, café e cacau, além da erva mate e das “drogas do sertão”. Sem falar da borracha. Depois veio um tempo em que se acreditou que o “destino” do país era ser “um celeiro” para o mundo. A partir de então pudemos verificar não mais grandes ciclos, mas, digamos assim, “épocas” de grande plantio ou cultivo de determinados produtos: quer seja, novamente, porém noutras regiões, o algodão, quer seja a laranja, a soja, etc. E agora, eis que o país vai se tornando, outra vez, um imenso canavial. É verdade que exportamos vários produtos manufaturados, entretanto, o equilíbrio de nossa balança comercial se deve, ainda, ao que plantamos, colhemos, coletamos ou abatemos.
Portanto, se somos tão dependentes do que a terra nos dá e se é uma regra — lógica, aliás — da economia, obter o máximo possível do que está disponível, natural seria, portanto, incentivar aquelas iniciativas que se revelaram as mais eficientes na produção. Até aí toda pessoa de bem há de concordar. E, a princípio, até saudar o agro-negócio como o cumprimento destas expectativas. O problema é que as coisas não são tão simples assim. Pois o agro-negócio tem se revelado brutal, excludente e eivado de vícios desde que longe do controle público, como se verifica em muitos rincões do Brasil.
Exagero? Nem um pouco. Basta que cruzemos certas informações.
Há toda hora é comemorada a abertura de uma “nova fronteira econômica”. Comemora-se a expectativa da produção em tais áreas, e a ocupação do território por atividades lucrativas e permanentes — como se vivêssemos ainda o receio de sermos invadidos por nossos vizinhos ou por nações poderosas e predatórias. Entretanto, o quê se vê nestas ditas “novas fronteiras”?
O que se vê é que, em primeiro lugar, vem a grilagem. Em segundo, a expulsão dos parcos moradores da região de suas terra, sejam intrépidos desbravadores, sejam índios, com seu justo e sagrado direito de viver e morrer no chão que foi de seus pais. Em terceiro, o desmatamento desenfreado e a perversão dos recursos hídricos. Em quarto, a sujeição de muitos trabalhadores a condições semelhantes a de escravos. Em quinto, os assassinatos de todos que se opõe a esta condição. Em sexto, os achaques às autoridades responsáveis pela fiscalização de todas as áreas e esferas violadas, graves ameaças ao poder legalmente constituído. Em sétimo, a corrupção de pessoas, meios, interesses e fins, como registram, a todo momento, os jornais.
Para que fiquemos somente no que diz respeito ao desmatamento e aos casos de escravidão, vejamos alguns dados.
Nos últimos quatro meses, a Amazônia perdeu mais de 6 mil quilômetros quadrados de floresta, sendo que nos 12 meses anteriores a julho de 2007, calcula-se a perda de mais de 9.600 quilômetros quadrados — e ainda assim, este é considerado o menor nível de desmatamento desde a década de 1970, período em que teve início a ocupação da região pelo agro-negócio.
No outro prato desta balança da injustiça, estão os números da escravidão. No último ano, foram 5.877 pessoas libertadas pelos fiscais do Ministério do Trabalho e, desde 1995, 27.645 os casos de pessoas recebendo tratamento semelhante àquele impingido aos escravos do passado — do passado? E as áreas com os mais altos índices desta infame exploração da mão-de-obra são os estados do Mato Grosso do Sul, Pará, Maranhão e Tocantins, notórias “fronteiras”, algumas delas nem tão novas, do agro-negócio.
Tais casos ninguém nunca soube, ninguém nunca viu? Alguns senadores não podem dizer isso, já que chegaram até a condenar os trabalhos dos fiscais, que consideram “exagerados”. Francamente...
Em vista do exposto, não resta dúvida de que é necessário questionar uma atividade, um ramo de negócios, que age à sua própria revelia na busca de cifras astronômicas em detrimento de todo um povo, de suas leis, de sua dignidade.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de janeiro de 2008].
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