Se há uma frase que é citada a todo momento, seja em artigos sérios de jornal, seja até em programas que tratam de esportes na televisão (esportes é jeito de falar: pois o que se vê é noventa e nove por cento futebol, e um por cento para o resto), não é outra senão a velha afirmação de Karl Marx, de que a história se repete apenas como farsa, e que está em sua tão conhecida obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. Neste livro, clássico, aliás, um tipo raro de produção que ao mesmo tempo em que afirma os principais conceitos de um autor, foge, por outro lado, de qualquer visão sectária, o pensador alemão compara, irônica, e brevemente, as trajetórias políticas de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e de seu sobrinho, Luís Napoleão Bonaparte (1808-1873). O primeiro, conhecido como “o Grande”, com uma mobilização de tropas e um plebiscito foi aclamado Imperador (1804-1814). Já o segundo, alcunhado de “o Pequeno”, precisou das tropas, do apoio da imprensa e de dois plebiscitos para chegar até onde o tio chegara — e chegar em termos: o título era o mesmo, mas à glória do primeiro, ele nunca atingiu. Um, protagonista de uma ópera; outro, de uma opereta — gênero, aliás, que progrediu muito sobre o Segundo Império. Daí Marx dizer o que disse.
Voltando à frase, já me utilizei dela, ao menos uma vez, neste espaço. Entretanto, ela é mais do que um caso com o qual se concorda, discordando. Quando reflito sobre ela, o é à luz daquele velho provérbio espanhol, que diz, Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay (“Eu não creio nas bruxas, mas que elas existem, existem”): ou seja, eu não acredito muito naquela frase, mas que freqüentemente ela parece se cumprir, ah, isto ela parece! Veja-se, por exemplo, o seguinte caso.
Pesquisando, meio que por prazer, meio por dever, alguns aspectos sobre a vida literária brasileira do princípio do século XX — acerca do qual o livro A Vida Literária no Brasil — 1900, de Brito Broca (editora José Olympio, recentemente publicado depois de décadas fora do prelo), é fonte indispensável — eis que encontro, nesta obra citada, um comentário sobre o esgarçamento das relações entre Joaquim Nabuco (1949-1910) e Oliveira Lima (1867-1928), ali por volta de 1906, há cem anos, portanto. Naquele momento, dois dos maiores intelectuais vivos do Brasil discordavam quanto aos rumos tomados por um país nosso vizinho, a Venezuela.
Nabuco, que de monarquista passara a pan-americanista, defendendo um presidencialismo à norte-americana e a Doutrina Monroe, opôs à Oliveira Lima, que permaneceu a vida toda monarquista mas, durante o tempo em que ocupou um cargo diplomático naquele país nosso fronteiriço, tomou o partido do então presidente Cipriano Castro (1859-1924). E aqui cabe um aparte acerca deste personagem.
Cipriano Castro foi um peão que se meteu na política, teve de fugir para a Colômbia, lá enriqueceu e voltou ao país à testa de um exército de venezuelanos refugiados e descontentes, que lhe conquistou a patente de general, e o governo da Venezuela (1899-1908). Iniciou seu governo, marcado pelo nacionalismo, e também pela arbitrariedade, propagando slogans que dariam gosto à qualquer marqueteiro atual. Em 1901, o Congresso aclamou-o “presidente constitucional”, e no mesmo ano enfrentou uma sedição interna liderada por um banqueiro, Manuel Antonio Matos, que proclamava ser seu movimento uma “Revolução Libertadora”, enquanto defendia, na verdade, os interesses do capitalismo monopolista estrangeiro, e que mergulhou o país numa guerra civil (1901-1902), na qual até algumas potências européias de então (Inglaterra, Alemanha e Itália) chegaram a intervir, defendendo seus próprios interesses, fazendo um bloqueio comercial ao país e ameaçando invadi-lo. Ao mesmo tempo, era atacado pela imprensa com apelidos como “o pequeno cabo” e “o macaco trágico”. Mas Cipriano Costa triunfou sobre tudo isto, até que, numa viagem para tratar de sua saúde, na Europa, foi deposto por seu vice-presidência in absentia. E tudo isto se deu num tempo em que nem o petróleo fora descoberto ainda naquele país.
Destaquemos, pois, algumas palavras do texto: “Castro”, “nacionalismo”, “Venezuela”, “anti-americanismo”. Parece que estamos lidando não com informações de 1902, ou 1906, e sim com as de um jornal de nossos dias, ainda que os personagens sejam outros, e os enredos em que foram envolvidos. Mas que há um ar de “já vi este filme”, sem dúvida que há. Só que no Brasil de hoje, não temos dois intelectuais do peso dos já citados Joaquim Nabuco e Oliveira Lima defendendo cada qual seu lado da questão. Primeiro, porque a intelectualidade pátria tem se fechado a todo tipo de discussão política. Segundo, porque, nesta lacuna, foram os próprios políticos que parecem ter assumido o debate intelectual — pobres de nós! O máximo que se vê, frente à Venezuela, por exemplo, é a voz contrária a ela de FHC, versão brasílica do Doutor Fausto da lenda, que trocou a vida do saber pelo poder ilimitado, e o Presidente Lula, que a defende, ao mesmo tempo em que diz para quem quer ouvir que nem jornal ele próprio lê.
Que Venezuela! Que Brasil! Que debate! Que homens públicos! Dá ou não para se pensar na teoria da repetição e da farsa?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de dezembro de 2006].
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