sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Diário Carioca: Parte I - Entre garotinhos, serras e alquimistas

O escritor inglês L.P. Hartley (1895-1972) merece um lugar na história não só pelo conjunto de sua produção, da qual faz parte o ótimo romance “O Mensageiro” — The Go-Between, de 1954, que gerou uma boa adaptação cinematográfica em 1971 — mas, também, em minha opinião, por ter cunhado uma frase lapidar, a qual, aliás, inicia a referida obra. Ela é citada a torto e a direito, na maioria das vezes, sem mencionar seu criador, porque é de tal maneira concisa, e precisa, que faz com que se assemelhe a um provérbio antiqüíssimo. Em língua inglesa, ela se tornou uma expressão muito usada, quase um lugar comum. O célebre historiador Eric Hobsbawm, aliás, dela fez uma paráfrase em sua autobiografia “Tempos Interessantes”, e muitos no Brasil tomaram-no por seu autor. A frase de Hartley, perfeita, é “the past is a foreign country; they do things differently there”, e poderia ser traduzida em nosso idioma como “o passado é um outro país; nele, as coisas são feitas de um modo diferente”.
Foi esta idéia a primeira coisa que veio à minha mente tão longo desembarquei no Rio de Janeiro, depois de vinte anos, se não mais, sem visitá-lo. Pois, de fato, a cidade continua linda. Lá está a Baía da Guanabara, talvez a mais bela paisagem do país, e que se manteve quase sem alteração desde minha última passagem. O mar não mudou de posição, nem as praias, de maneira geral, alteraram seu aspecto. Lá estão o Pão-de-Açúcar e o Corcovado, sem arredarem um centímetro sequer de seus eternos sítios, desde que os vi pela derradeira vez. E os bairros, os monumentos, os belos prédios da orla, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes, a Confeitaria Colombo, o Amarelinho e a Floresta da Tijuca. Porém, ao mesmo tempo, como a cidade mudou! Se o grosso da paisagem está onde sempre esteve, quanto ao resto, que não é pouco, nem muito menos resto, parece vítima de um colossal acidente, da prova definitiva do que recai sobre uma cidade quando vítima do desgoverno.
As ruas do centro do Rio de Janeiro, bem como as de muitos bairros, jazem inquietas sobre um leito esburacado, cobertas por camadas de lixo de toda espécie, como só me recordo, enquanto exemplo, nos anos da administração do então prefeito Mário Covas, à testa da capital dos paulistas. As pichações de prédios públicos e particulares, que antes pareciam uma quase que exclusividade paulistana — visto que a cidade padeceu por muitos anos do descaso das autoridades municipais e estaduais pelo seu espaço coletivo — grassam pela capital fluminense, não poupando sequer seus sítios históricos: a Igreja da Santa Cruz dos Militares, jóia da arquitetura barroca, apresenta parte de suas venerandas obras de cantaria coberta pelos mais vulgares grafitos; o Paço Imperial, que foi moradia dos Vice-Reis, da Família Real Portuguesa, e domicílio de D. Pedro I e D. Pedro II, não foi poupado da tinta infame lançada por alguns covardes. E quanto às intervenções urbanas de caráter “revolucionário”, e que desfiguram a cidade de forma irreversível, o Rio de Janeiro conta também com as suas: lá estão a Linha Vermelha e a Linha Amarela, monstrengos da mesma família do Minhocão, e que comprometeram a paisagem e a vida das pessoas que vivem ao seu redor para sempre, em troca de benefícios questionáveis: vê-se que, nesta categoria, São Paulo faz escola...
Mas, por outro lado, algumas coisas permaneceram iguais ao que eram na “cidade maravilhosa” que conheci no passado. As quais, aliás, deram muitos frutos na terra paulista. Assim, o eterno mal-cheiro que se sentia na entrada do Rio de Janeiro, e que permanece, não ofenderá os narizes acostumados ao Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. As favelas, que lá estão, e que não param de crescer, alastram-se também por aqui, com indiscutível vigor, sobretudo nos últimos doze anos, convivendo lado a lado com exclusivíssimos condomínios, os quais tem tanto apreço pelo espaço público quanto os políticos que permitem as favelas e os seletíssimos condomínios. Outra prática tradicional que se verificava no estado vizinho, e que ora também se manifesta aqui — mas não como cópia, não, leitores: como somos inovadores e pujantes, como nossa terra é o motor da nação, a nossa versão é maior, mais poderosa e mais rica — é a ousadia do crime organizado. Pois se lá, uma terra que os paulistas julgam ser de falhados, o crime se afigura infalível, em São Paulo, pátria de vencedores, o crime parece invencível. O que é uma grande distinção: agradeçamos a nossos últimos, e quiçá futuros, governantes estaduais.
Voltando à citação inicial — “o passado é um outro país; nele, as coisas são feitas de um modo diferente” — e à impressão geral que tive do Rio de Janeiro, sou forçado a concluir que, inevitavelmente, ambas combinam entre si. O carioca que conheci, vinte e tantos anos atrás, não é o mesmo de hoje, nem procede da mesma maneira. Conserva ainda uma certa fé no futuro, meio que desprovida de sentido, como se vê entre garotinhos e garotinhas. Mas no produto final, ele mudou muito. Na verdade, não há nada debaixo e acima da Lua que não tenha mudado muito nos últimos anos, desde nós mesmos, as cidades, o país, o mundo e para além dele. O que dizer então da política e da gestão do bem público...
Pensando nisso quando deixei aquela terra de garotinhos e garotinhas cheios de uma implausível esperança, cruzando ásperas, frias e sombrias serras que se estendem pelo território paulista, eis que ouvi notícias de que um bando de alquimistas, decerto absorvidos por insondáveis e cabalísticas questões, ou silenciavam sobre o caos que vem assolando o estado, ou imputavam sua causa ao limbo, lembro, ou a uma “esfera” superior, e pensei nos tempos em que os seguidores da alquimia se dedicavam à busca da pedra filosofal, em lugar do também hermético e quase incompreensível “choque de gestão”, este prodígio, dos dias de hoje, que ninguém viu, só ouviu falar. Assim, inclinei-me a concluir que, na verdade, o presente é, de fato, um mesmo país, e nele se faz tudo da mesmíssima maneira, quer se tratem de sanguessugas nos brejos, quer de lacrimejantes crocodilos nas furnas. E não há segredo da alquimia que os possa encobrir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de agostode 2006].

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