O cartunista Caco Galhardo, que publica diariamente suas tiras humorísticas na Folha de S. Paulo, criou um hábito bastante simpático. No dia 25 de dezembro de cada ano, apresenta ao público “a tradicional tira de Natal”, onde todos seus personagens parecem saudar os leitores. Muitos cronistas e articulistas, dos mais variados meios de comunicação, também não conseguem se furtar a fazer alguma menção à efeméride: nem o próprio Machado de Assis, que, além de seus insuperáveis romances e contos, escreveu diversas crônicas de primeiríssima qualidade, conseguiu fugir desta regra. Portanto, ainda que possa parecer repetitivo, ano após ano, escrever sobre um mesmo tema, a verdade é que os leitores gostam, a data é propícia para reflexões e, repetição por repetição de assuntos, todos nós as cometemos noutras ocasiões: afinal, a toda hora não tratamos dos descalabros da saúde, da educação, de tantas questões que parecem revezarem-se entre si, graças ao seu eterno imobilismo? Segue aqui, então, mais uma crônica de Natal. Como também seguirá, na primeira semana de 2008, uma revisão do ano que está encerrando. Outra mesmice? O quê é que se há de fazer? É o que se espera em tais ocasiões. Por essa razão o gênero se chama “crônica”, apontando fatos inéditos, mas, igualmente, registrando práticas consagradas e suas variações, ou constâncias, ano a ano.
Este Natal, sob alguns aspectos, parece ser muito feliz para uma multidão de brasileiros, se o parâmetro para tal felicidade for a capacidade de consumo. Os jornais dão a notícia que o poder de compra aumentou espetacularmente, na medida em que mais pessoas das classes D e E ascenderam economicamente. Ou seja, vão comprar mais, e o comércio e a indústria também viverão dias felizes. Como também os sacoleiros e camelôs. Além da China, é claro. Coisa curiosa é a tal globalização: um país oficialmente ateu e que se auto-intitula comunista, é um dos que mais lucra com uma festa religiosa, a qual, por princípio, deveria rejeitar.
Mas será mesmo que o Natal ainda é uma festa religiosa? A julgar pela decoração natalina, que a cada ano que passa concentra-se mais e mais na figura do Papai Noel, nas paisagens e na fauna polares — alguns imbecis metem até os pingüins da Antártida ao lado de ursos e renas do Pólo Norte —, torna-se bastante questionável um fundo religioso na coisa toda. É certo que alguém pode argumentar que o “bom velhinho” remete a São Nicolau de Mira (?-342). Mas a verdade é que o Natal não é o dia de culto daquele santo (a data deste é 6 de dezembro), e, sim o da celebração do nascimento de Cristo. Nem o santo tem aquele aspecto que acostumamos a ver: sua fisionomia e roupas foram criadas pela Coca-Cola Company, na primeira metade do século XX, com o auxílio do pintor norte-americano Norman Rockwell (1894-1978). Além do mais, para alguns estudiosos, Papai Noel seria um resquício de uma antiga crença pagã do norte da Europa, quanto a um mítico habitante das florestas que presenteava as pessoas com produtos silvestres e rudimentares obras de artesanato. Vê-se, portanto, que quando Getúlio Vargas tentou “nacionalizar” a crença, criando o “Pai Índio”, a idéia não era tirada do nada. Mas, voltando ao tema, são tais símbolos religiosos? Prendem-se a uma crença estabelecida? Pinheiros cobertos de algodão, bonecos de neve, anões trabalhando ininterruptamente na fabricação de brinquedos podem possuir alguma relação com uma experiência mística e familiar?
Tão contraditório quanto isto, só a decoração oficial, pública, em relação ao Natal. Diz-se que o Estado é leigo no Brasil. Mas não há prefeitura nem órgão público que não exiba uma decoração natalina. Talvez para se livrarem do rótulo de abraçarem o Catolicismo, repudiam o presépio, mas para não “fazerem feio”, nos empurram, goela abaixo, renas, trenós, neve e Papais Noéis às carradas. Misturando o tosco à hipocrisia, vemos os poderes públicos celebrando uma data e negando, ao mesmo tempo, a sua natureza, a sua essência. Êta paísinho brabo! Só falta algum candidato à Presidência — destes que passam o inverno em Campos do Jordão, em palácios ou casas suntuosas — prometer neve no “ano que vêm”, depois de eleito. Absurdo? Não duvidem, não duvidem...
Por outro lado, enquanto pensamos em nossas ceias natalinas, planejamos “cardápios”, compramos perus e leitoas, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, jejua por uma causa honrada — a verdadeira abertura das discussões quanto à transposição do Rio São Francisco. No momento em que escrevo esta crônica, soube que ele já foi hospitalizado. Meus votos são para que ele se salve, assim como a sua causa. Assim como meus votos, para todos os leitores, são de um ótimo Natal, livre da tristeza e das cobranças que, muitas vezes, ocorrem nesta data. Pois o verdadeiro Ano-Novo do cristão é o Natal. Ainda assim, desejamos um feliz e próspero Ano-Novo a todos, com saúde, paz, felicidade, democracia, governo atuante e oposição programática, não fisiológica ou “do contra”. E que sejamos mais felizes, no ano que se inicia. Até breve!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de dezembro de 2007].
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