quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entre lições e livros

Considero-me um leitor razoável quanto à freqüência de minhas leituras. Alguns amigos, certamente considerarão tal assertiva uma prova de falsa-modéstia de minha parte. Mas não se trata disso. O fato é que das muitas coisas que aprendi com meu pai, talvez a que eu mais me recorde, ou mais freqüentemente me recorde, é que elogio em boca própria e vitupério: ou seja, não vale nada e só depõe contra quem o profere. Digo isso com tranqüilidade porque nunca o vi se referir, de maneira vaidosa, a qualquer ato, idéia, ou comportamento seu. E apesar de vivermos, hoje, num mundo no qual a auto-propaganda é quase que uma lei, aprendi que evitá-la é a melhor atitude a se seguir. Ou, pelo menos, a mais decente. E fim do preâmbulo. Vamos ao que interessa, ao tema da crônica.
Pois bem, como dizia, dedico-me, com prazer e assiduidade, à leitura. Dentre os variados gêneros literários, nunca tive grande interesse pelos chamados best-sellers. Sidney Sheldon me dá sono, Harold Robbins é de chorar de rir, por seus defeitos, Dan Brown é menos inspirado que os roteiristas de Scooby Doo, e Paulo Coelho foi um letrista razoável quando trabalhava em parceria com Raul Seixas – uma demonstração cabal de que a velha máxima latina, meliora probant, deteriora sequuntur, é verdadeira: traduzida, à grosso modo, seria “depois do melhor, segue-se o pior”. Quanto às tramas de espionagem, acho que só funcionam no cinema. Como as de tribunais. Seus excessos na descrição de termos técnicos – do funcionamento de um submarino nuclear às especificidades da justiça norte-americana – são de doer. É verdade que eles ganham fortunas. E isto é prova de mérito? Comercial, certamente.
Ainda assim, gosto de romances policiais, sobretudo dos clássicos. Sherlock Holmes continua imbatível, e, talvez seja, senão um dos maiores, certamente um dos mais vívidos personagens da literatura universal. Hercule Poirot é formidável, o Comissário Maigret é perfeito, Sam Spade e Philip Marlowe não têm culpa dos vários pastiches que sofreram, e Arsène Lupin e o Padre Brown são bem divertidos. Sem falar nos ótimos precursores do gênero, criados por Edgar Allan Poe e Gaboriau. Já quanto à ficção-científica, Júlio Verne ainda é o mestre, insuperável.
Entretanto, de uns tempos para cá comecei a ler alguns romances, best-sellers, confesso, que pertencem ao gênero da ucronia. O termo utopia é bem conhecido, graças ao livro de São Tomás Morus, no qual ele descreve uma sociedade perfeita – ao menos para ele – situada numa ilha ideal e inexistente (em grego, ou = “não”, topos = “lugar”: “nenhum lugar”, portanto). Ucronia seria, assim, “um tempo inexistente”, mas não de todo impossível. Trata-se de uma categoria de livros que chamaria de “parque de diversões dos historiadores”: nada, ali, é real, mas é interessante como uma análise de determinados fatos, de suas causas e as possíveis conseqüências caso se cumprissem.
O último livro que li, no gênero, foi “Pátria Amada” (Fatherland, no original), de Robert Harris. Não é um livro novo: foi publicado, no Brasil, em 1992, e levado às telas do cinema em 1994, com Rutger Hauer e Miranda Richardson como protagonistas. Situa-se numa Alemanha que teria vencido a Segunda Grande Guerra, desbaratando os russos e disputando a Guerra Fria com os EUA: a trama se passa em 1964, às vésperas do septuagésimo-quinto aniversário de Hitler, data marcada para seu encontro com o presidente norte-americano Joseph Kennedy, quando, então, poriam fim às divergências entre ambas as nações. Em tempo: como todos sabem, Hitler morreu em 1945 e o senador Joseph Kennedy nunca foi eleito presidente: tal honraria coube ao seu filho, Johh F. Kennedy, abatido a tiros em Dallas, Texas, EUA, em 1963. Mas isto é outra história...
Voltando ao livro, ele é bem fraco, e sua trama baseia-se, por assim dizer, num Segredo de Polichinelo, assim chamado em referência àquele personagem do teatro de máscaras italiano (Commedia dell Arte) que ignorava os fatos que eram de conhecimento de todos. No caso da obra em questão, tratava-se da deportação e extermínio dos judeus, como se fosse um fato possível de ser conhecido pelos alemães e pelo resto do mundo.
Bobagens à parte, e respeitando-se a tragédia, tão implausivelmente tratada, a leitura do livro estimulou-me a pesquisar, por mera curiosidade, a vida de alguns personagens ali retratados, todos eles figuras reais. Destes, dirigi minha pesquisa para outros, mais proeminentes. E o juízo possível, quanto a uns e outros, foi o mesmo: que gentinha ordinária aquela a comandar a Alemanha! O alto comando nazista era composto por arruaceiros, iletrados, filhos de casamentos tumultuosos, quando não incertos, e vários deles sequer perfilhados (uma grande mácula, à época). Um bando de pessoas flagrantemente feia e que se proclamava defensora de uma raça pura e bela – aliás, o supremo exemplo deste paradoxo foi o ministro da Propaganda, Joseph Goebells, mas não o único, veja-se a fisionomia de “próceres”como Jodl, Heydrich, von Papen, Borman, Himmler, o hipopótamo Goering, etc. E, além de tudo, uma gentalha inepta: O “Ministro das Relações Exteriores”, por assim dizer, Joachim Ribbentrop, mal conhecia a gramática de sua língua natal: falava e escrevia mal o Alemão.
Mas esta confraria de párias, ávida por traços nobiliárquicos e por inscreverem seus nomes na sociedade local, não economizaram despesas – roubadas de toda a Europa – nem imaginação: cunharam os mais exóticos títulos par suas funções, e todos eles, ainda que pomposos, de uma vulgaridade gritante.
Se há um motivo para ser celebrado na História – na verdade, há muitos – é a queda daquela imensa corja. É bom saber que tal caterva pertence somente ao passado. Foram-se, certamente para um lugar muito mais que desagradável, com seus horrendos crimes, perversões, arrivismo e cafonice pesando-lhes nas costas.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de março de 2008].

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