sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Mais uma polêmica bocó

Abusando da paciência de seus leitores sérios, o jornal A Folha de S. Paulo vem dando destaque a uma polêmica inútil há mais de dez dias. Para quem não sabe do que se trata, farei aqui um breve resumo, intercalado por alguns comentários. No dia 1º deste mês, na seção Tendências/Debates — localizada na prestigiosa terceira página do primeiro caderno, geralmente ocupadas por renomados especialistas das mais diversas áreas — foi publicado um artigo (Carta? Manifesto? Pensabundice?) assinado pelo apresentador de televisão, ongueiro e empresário Luciano Huck. Naquele espaço, o já referido personagem registrou um desabafo legítimo, e justo, convenhamos, de uma vítima de um assalto. No caso, ele mesmo: posto na mira de um revólver .38, teve que entregar a dois ladrões o seu relógio Rolex, recentemente presenteado por sua bem-amada, a apresentadora Angélica, grávida do segundo filho do casal. E, naquelas linhas — se escritas de próprio punho ou por assessores, é algo que não vem ao caso — manifestou o temor que sentiu ante a possibilidade de sua própria morte, por um motivo tão vil (o “vil” é de minha autoria: o autor, ou os autores, não fazem qualquer juízo de valor quanto à natureza da ação).
Antes de prosseguir, gostaria de deixar bem claro o que penso sobre o assunto, ou melhor, o que penso até este ponto em que paramos. Nada tenho contra o Sr. Huck — não, não confundam com o Sr. Roarke, da Ilha da Fantasia; interpretado pelo ator Ricardo Montalbán naquela série de televisão norte-americana dos anos ‘80. Aqui falo de Luciano Huck, que vira e mexe está na Ilha de Caras, o próspero empresário do ramo hoteleiro da Ilha de Fernando de Noronha, por várias décadas inexpugnável a empreitadas do gênero, mas que parece não ter resistido ao seu charme pessoal... conquanto a referida estalagem tenha sido interditada pelo Ibama, por aparentes violações ambientais. Reitero minha opinião de que considero legítimos e verdadeiros os desabafos, temores, as sensações de impotência e de proximidade da morte experimentadas diante das armas e depois declarados pelo apresentador. Nem seria farisaico a ponto de dizer que ele “pagou” porque usava um Rolex. Pois seja um Baume & Mercier, um Rolex, um Technos, ou um relógio de R$1,99, desde que presenteados pela mulher amada, ou comprados com o suor do trabalho, são coisas que não têm preço: o roubo de qualquer um deles é uma violência. Poderíamos prosseguir, por outro lado, afirmando que é uma indecência, num país de tantos miseráveis, uma pessoa ostentar no pulso uma peça caríssima,etc., mas isto fica para uma próxima crônica.
O que incomodou no “desabafo” do referido senhor foi sua insensibilidade, sua arrogância, seu jeito de menino mimado pelo dinheiro. Não bastasse sua pretensão de ver-se elogiado, caso tivesse morrido, pelos cadernos culturais dos jornais, pesou contra ele o fato de só vir a público quanto a um assunto de tal gravidade quando pessoalmente lesado. E o que é pior, cobrando autoridades públicas — o governo federal, principalmente, em detrimento do responsável mais próximo, o governo do Estado de São Paulo, capitaneado por seu amigo pessoal o Sr. José Serra de Chirico — e a elas sugerindo procedimentos que atentam contra o Estado de Direito. Toma como exemplo de ação policial aquela praticada pelo protagonista do filme Tropa de Elite, alvo de sérios questionamentos. E o que é mais curioso, com tanta ênfase, que demonstra que o apresentador assistiu atentamente ao filme... antes de ter sido lançado oficialmente! É, o ético Sr. Huck assistiu à versão pirata! Tão cioso no pagamento de seus impostos, e ao mesmo tempo capaz de adquirir um fruto da pirataria que, sabidamente, não paga qualquer imposto. Seria interessante saber o que pensa quanto a isto o senhor seu pai, o Dr. Hermes Marcelo Huck, professor titular da Faculdade de Direito da USP.
Para piorar este prato mal-feito, cozido em péssimo caldeirão, meteram sua colher dezenas de leitores que enviaram suas cartas contra ou a favor da missiva, os articulistas Fernando de Barros e Silva (na prestigiosa segunda página), Nelson Ascher (na página “nobre” da Ilustrada) e Clóvis Rossi (em duas ocasiões), o homem mais poderoso daquele jornal (depois de seus donos, é claro). Por fim, para engrossar o caldo, entrou o Sr. Ferréz, dublê de rapper e escritor, com sua eterna cantilena — samba de uma nota só — quanto aos excluídos e seu direito de espoliar os incluídos, etc, etc, etc, de um esquerdismo tão grosseiro que faria o velho Marx e até Che Guevara se revirarem na cova. Só que dezenas e dezenas de leitores, por conta de tal interferência, voltaram a opinar quanto ao destino daquele ensopado mal-cheiroso.
A questão principal nisto tudo não é o fato primeiro. Se o apresentador abriu mão de seu carro blindado porque se achava “blindado” por sua imagem de bom-moço, de “rico bonzinho”, e viu que não era bem assim, se conheceu a dura realidade, da qual se queixou numa carta, o problema é dele. Que um jornal, diante de certa ausência de fatos relevantes, infle certos acontecimentos, também passa. O problema é que o país atravessa um momento terrível, no qual se questiona até a extinção do Senado Federal, e as pessoas, ao invés de se mostrarem indignadas com isto, perdem seu tempo com uma questiúncula daquela natureza. Mas problema tão grave quanto este, é vermos um dos maiores periódicos do país, gastar tinta, espaço e influência num assunto tão reles. É realmente de se perguntar: a que ponto chegamos, quando a principal polêmica debatida pelo público não passa de uma discussão bocó?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de outubro de 2007].

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