sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

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