sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

João Paulo II no Céu. E a nós, a Terra...

Depois de quase quatro meses em que a grande imprensa brasileira pareceu de férias, tal a exiguidade até mesmo física das edições dos jornais e a pouca relevância das reportagens, eis que os últimos quinze dias irromperam com um exagero de fatos, a ponto — é de se pensar — de desesperar muitos editores, redatores, chefes, dos mais variados meios de informação. Não é muito difícil mesmo imaginar o seguinte raciocínio, formulado por um deles, ou pela maioria deles: “Morte e agonia do Papa; massacre no Rio de Janeiro; eutanásia nos EUA; escândalo envolvendo um novo ministro; casamento do Príncipe de Gales e morte do Príncipe de Mônaco... Por que tudo numa só quinzena? Quanto não venderíamos se tudo isso fosse distribuído ao longo dos últimos meses?”.
Para nós mesmos, convenhamos, foi uma sucessão vertiginosa de fatos, sendo alguns, evidentemente, cruciais, e outros nem tanto, mas ainda assim capazes de um certo interesse. Então, comecemos por contar os centavos para depois contarmos os milhões.
Se um escândalo envolvendo um ministro, no Brasil, é quase que de ocorrência semestral nas últimas décadas, este afigura-se mais grave, depois deste verdadeiro “parto da montanha” que foi a mais recente reforma ministerial, dando à luz tão esquálidos frutos, mas que de tão anunciados esperava-se que fossem sublimes — e, pois, fiel como nunca à antiga locução que ora empregamos. Mas se ainda que modestas as mudanças, diz o governo que foram feitas a dedo. É de se perguntar quem apontou este dedo, então, e com que objetivo e significado.
Outros assuntos, agora envolvendo a nobreza européia, também figuraram com destaque: o casamento de Carlos, Príncipe de Gales, e herdeiro do trono britânico e a morte de Raniero de Mônaco, titular da coroa deste principado.
Quanto ao primeiro, estimo que seja feliz e aconchegado nos próximos invernos que a vida lhe reserva. Eclipsado pelo sol real de sua mãe, a Rainha, e por aquele fulgurante cometa — porque disto não mais passou — que foi sua primeira mulher, que este herdeiro, que à sombra há tanto tempo tem vivido, contente-se com seu quarto-minguante, já infelizmente refletindo sobre o seu caçula, já alcunhado de o “Bobo da Aldeia”.
Já no que diz respeito ao recém-falecido titular do Principado de Mônaco, ainda que seu Estado seja muitíssimo menos influente do que o do precedente, algumas considerações são bem cabíveis. Houvesse sua morte ocorrido em dias menos abarrotados de notícias, e o mundo inteiro veria seu coruscante reinado, a graciosa rainha que também era estrela cinematográfica, sua trágica morte, a esquisitice de seus filhos e a manifestação do grande desejo do monarca, que era tornar a imagem de seu país algo diferente do que era quando herdou a coroa: uma monarquia de opereta, um paraíso fiscal e um bom cenário para o carnaval. De fato, parece que ele conseguiu: hoje o mundo todo conhece Mônaco não só pelas já mencionadas circunstâncias, mas como Meca dos mais famosos cassinos e o palco das corridas de automóveis. Grandes mudanças, sem dúvida.
Crescendo em densidade e importância, vem a eutanásia na Flórida. É de se pensar as circunstâncias em que tal grave acontecimento ocorreu. O mundo inteiro já teve notícias de centenas de casos semelhantes ocorridos nos EUA e, mais recentemente, no próprio Brasil, que seria induzida, dizem, por muitos seguros de saúde, na medida em que não cobririam um tempo maior de internação em UTI ou CTI do que aquele coberto pelo plano do paciente, e que foi cogitada pelo próprio governo de Lula, como vimos nesta mesma semana. Mas a pergunta que paira no ar é se tal assunto não teria recebido um ainda maior relevo depois do filme ganhador do Oscar que tratava desta questão? Ou pela agonia do Papa, extrapolada, afirmamos, através de fotografias que só expuseram seus momentos de dor, desconforto e quase inconsciência, em detrimento, reconhecemos, das imagens televisionadas, que quase até o final de sua longa vida revelaram ao mundo sua lucidez, sua razão, seu comprometimento junto aos fiéis? Pois poucas vezes, na história recente, a fotografia, para alguns considerada ainda como a verdade dos fatos, mostrou-se tão cabalmente um instrumento de vontades e interesses determinados, quanto na agonia do Papa.
Não bastasse tudo isso, houve a horrenda chacina no Rio de Janeiro, cidade que a cada dia que passa vai merecendo mais e mais o título de “terra sem lei”. Pois não importa se muitos dos envolvidos tinham longa folha corrida de delitos ou crimes. Não existe lei que autorize ninguém neste país a tirar a vida de quem quer que seja. Legítima defesa? Sim, nos casos específicos. O que lá se viu foi barbárie. Crimes mais hediondos do que aqueles que, em tese, seriam capazes as possíveis vítimas mais “culpadas”.
João Paulo II, talvez o Papa que tenha mais lutado pelo direito e o respeito à vida de toda a história da Igreja, entregou sua alma ao Senhor, e gloriosamente deve ter sido acolhido nos céus. A nós, por enquanto, restou-nos esta Terra, esta miserabilíssima Terra, tão leviana e fugaz, mas que ele, no entanto, ajudou a modificar, para melhor. E que está ainda muito distante de qualquer ideal desejado por qualquer pessoa de bom senso, caridade, honradez e que respeite a vida.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2005].

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