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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falatório das listas de livros do vestibular

Aproxima-se uma nova lista de livros cuja leitura será exigida dos vestibulandos de USP e Unicamp. Tal mudança implica uma série de consequências, mais ou menos curiosas. Em primeiro lugar, os títulos descartados irão inundar as prateleiras dos sebos e alfarrábios, vendidos por uma ninharia. Em segundo lugar, os novos sairão a peso de ouro, e pequenas editoras publicarão exemplares de obras cujos direitos já caíram em domínio público, com as costumeiras deficiências de sempre: edições mal cuidadas, notas pueris, análises claudicantes, etc. Em terceiro lugar, as comissões avaliadoras dos vestibulares, responsáveis pela mudança, receberão uma chuva de impropérios e anátemas dos professores preguiçosos de cursinho e ensino médio, visto que estes terão de reler (quando não ler pela primeira vez) o tal “clássico” que ora adentra na relação. Mas, em terceiro lugar, as supraditas comissões serão envolvidas por uma nuvem de bons votos, emanados de todos aqueles profissionais que não aguentam mais repetir as mesmas análises, os mesmos discursos, sobre as mesmas obras, já lá se vão três anos.
Minha cunhada, que é professora de Literatura, e eu, que gosto da área e mais ainda quanto à me manifestar sobre este assunto, trocamos algumas ideias sobre o que viria na futura lista. Apostamos, por alto, que virá algum livro do Drummond e da Clarice Lispector (está na moda); São Bernardo, do Graciliano Ramos; nos retornos d’A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado, e d’O Primo Basílio, ou d’O Crime do Padre Amaro, do Eça, sem falar em Marília de Dirceu, do Tomás Antônio Gonzaga. Arriscamos ainda algo do Castro Alves e do Guimarães Rosa. Mas são meras suposições, evidentemente.
O que nos inquieta é a eterna recorrência dos mesmos títulos e autores, como se a literatura brasileira não tivesse outros nomes e obras. E assim retorno a um tema caro, que já tratei numa crônica de 15 de novembro de 2008. Trata-se do resgate de certos clássicos, relegados pelas autoridades a um papel menor e da necessidade de salvá-los do esquecimento. E uma das melhores maneiras para tal seria sua leitura e debate.
Por que, só para ficarmos na antiga literatura portuguesa, não entram na lista Francisco Sá de Miranda, ou O Lima (1594), de Diogo Bernardes? Ou ainda a poesia, ou o teatro, ou os apólogos dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, cujo Hospital das Letras, de 1657, é tido como a primeira obra de crítica literária consistente escrita em português? Sem falar na Fênix Renascida e no Postilhão de Apolo, compilações dos melhores poemas barrocos portugueses. Ou, mais para frente no tempo, em excertos da Nova Floresta (1710-1728), do Pe. Manuel Bernardes?
Por que não, quanto ao período colonial, uma peça do Padre Anchieta ou uma do Antônio José da Silva, o judeu? Ou as Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), do paulista Matias Aires, considerado por muitos o maior nome da filosofia de língua portuguesa no século XVIII? Ou o romance Aventuras de Diófanes (1777), da também paulista (irmã de Matias Aires) Teresa Margarida da Silva e Orta, reputada como a primeira mulher a escrever ficção em nosso idioma? O orgulho pátrio não seria exaltado com a escolha de tais obras? A preeminência e pioneirismo das mesmas não valeria a sua divulgação?
Bocage é ótimo. Mas por que todo o resto do arcadismo português é repelido?
Lembremos d’O Retrato de Vênus (1821), de Almeida Garrett. Um curto poema que se confunde com uma análise estética da pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), e que causa uma verdadeira e extensa polêmica artística no Portugal de seu tempo. Diz-se que é com Camões (1825), que Garrett instaura o romantismo em terras lusas. Sou mais favorável ao Retrato para este papel. E como ambos são ignorados?
Ainda dentre os portugueses, não compreendo por que rejeitam A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro. Para além das suas qualidades literárias foi, certamente, a fonte de onde beberam – e ainda bebem, mas tais águas, nos últimos tempos, foram engarrafadas por outrem – nove entre dez ateus ou projetos de ateus falantes do português. É, portanto, literatura cara e de fácil compreensão para a juventude universitária, naturalmente questionadora.
No que se refere à literatura brasileira (posterior à Independência), as lacunas permanecem de dimensões oceânicas. Aceita-se o chatíssimo Macedo d’A Moreninha (1844), e rejeita-se o ótimo Memórias da Rua do Ouvidor (1878), em essência tão romântico como aquele, só que retardatário no tempo, qual o Aleijadinho esculpindo anjos barrocos já no Classicismo. Foge-se, qual o diabo da cruz, d’O Guesa (1884), de Sousândrade. Abrenunciam-se a todos os romances simbolistas, dentre eles o ótimo Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque. Afonso Arinos, o velho, e João do Rio, são escolhidos quase com a mesma periodicidade da passagem do Cometa Halley. E já que falamos em alegorias estelares, é de se perguntar o caso de Monteiro Lobato: seria sua obra uma anã branca, uma supernova ou um buraco negro? Porque ele está sempre presente e, no entanto, quase invisível. E, por fim, se somos eternamente obrigados a louvar a glória de José de Alencar, por que não passarmos às ótimas crônicas de Ao Correr da pena (1874), ao invés dos purgantes indigenistas de sempre? E por que não se estudar certas traduções ou transcriações? O que Odorico Mendes fez, nas suas versões da Eneida (1864), da Ilíada e da Odisséia (publicadas após sua morte, em 1874 e 1928, respectivamente), diz muito mais sobre as potencialidades do lavor poético de então do que a obra das vacas sagradas pela crítica, de ontem e de hoje.
Mas só se escolhem os mesmos e velhos nomes, que são ótimos, mas não são os únicos. Às vezes dá vontade de bradar, como o protagonista do Falatório do Ruzante de volta da Guerra (c.1529), de Angelo Beolco: Cancaro ai campi e à la guera e ai soldè, e ai soldè e à la guera! (“Raios partam os campos [de batalha], a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!”). Ou, ante a presente questão, “que se danem as comissões avaliadoras, as listas, os livros escolhidos e os livros escolhidos e as listas”. E se me permitem uma paráfrase do Ruzante, em complemento, “a mim é que não me apanham mais: vou mais é ler o que não li, e me fartar destes livros até rebentar”!
Pois não é o que todos temos vontade de fazer? Portanto, vestibulando, leia o que lhe impingirem para a prova. Mas leia, também, muito e muito mais. A bagagem que se leva para os exames é leve, e limitada no tempo. Já a que se adquire por conta própria, às vezes é pesada, mas é de valia, e prazer, para a vida inteira.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de agosto de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Livros, outra vez...

Os leitores sabem que minha área de estudos é a História. Mas, por gosto, por escolhas particulares, por pessoas próximas a mim, transito um pouquinho pela história da Literatura. O que, aliás, facilita muito a compreensão do Passado como um todo. Saber o que as pessoas liam, numa determinada época, é meio caminho andado para se entender aquele mesmo período: da escolha dos nomes de batismo dos filhos às determinações políticas, práticas sociais, etc.
Estas ligações, num passado não muito remoto, eram mais rápidas de serem feitas. Quando se encontrava, por exemplo, alguém chamado Hernani, ou Ernani, sabia-se que algum de seus pais ou era leitor da obra teatral (1830) de Vitor Hugo (1802-1885) ou admirador do compositor Giuseppe Verdi (1813-1901), que adaptou aquela peça em formato de ópera em 1844. Hoje, tem-se um nome desses, geralmente, em homenagem a um avô de mesmo prenome, cuja origem, — da escolha, no passado — sequer é suspeitada. O mesmo se aplica a um nome que, dia após dia, cai no esquecimento: Djalma. Assim era chamado um príncipe hindu num longínquo, contanto famoso, romance de Eugène Sue (1804-1857), publicado como folhetim entre 1844-45: “O Judeu Errante”. No campo social, é mais do que conhecida a influência de algumas obras do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escritas como romances, influência, reitero, na independência de muitos países, nas mudanças dos sistemas educacionais, na emancipação das mulheres, nas relações de trabalho, e, pode-se dizer, na própria construção do mundo atual. Há mesmo quem diga que Rousseau, com seus “livrinhos”, fez mais mudanças do que muitos generais com centenas de canhões. Como também há quem diga que “A Cabana do Pai Tomás” (1852), da norte-americana Harriet Beecher Stowe (1811-1896), fez mais pela abolição da escravatura nos EUA, do que dezenas de leis aprovadas pelo Congresso daquele país. O próprio presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865) teria dito à autora que fora ela quem teria dado causa, por conta de seu livro, à Guerra Civil Americana (1861-1865).
Mas voltando à crua realidade, e ao tema de hoje, gostaria de dizer, sem falsa modéstia, que desde alguns anos tenho estudado as listas de livros indicadas para os principais exames vestibulares do país. Este meu acompanhamento começou, na verdade, em 1988, quando a FUVEST escolheu um livro de autoria do escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934) para ser avaliado (um tema que, salvo engano meu, rendeu vinte questões, de um total de vinte e quatro, para a área de Literatura). Coelho Neto! Naquela época, além de morto e sepultado, sua obra parecia ter recebido o mesmo destino que seu corpo. Ninguém mais lia uma só linha de Coelho Neto! Para muitos, pareceu que a escolha remetia a uma espécie de invocação dos mortos, meio baldada: na falta de um espírito de prol, que venha o primeiro que se apresentar! Foi o Coelho Neto que se apresentou na nossa mesa branca? Pois que seja! Que seja dada a ele a palavra. E, assim, fez-se a prova.
Da maneira como falo, pode parecer que o autor não era lá essas coisas. Ledo engano. Ele era bom, respeitado em seu tempo, quando então o chamavam de “o último dos helenos” — i.é., tão bom quanto um grego dos velhos tempos. Mas se o seu vocabulário se tornou “grego” para nós, no sentido da anedota, a culpa não é sua. Os muitos anos que passamos cevando-nos de Modernismos e outros ismos, nos tolheu, um tanto, os sentidos, o bom-gosto. E quando lembramos que foram estes senhores, e seus discípulos, que determinaram o que era o bom, e o que era ruim, o que deveríamos ler, e o que não ler, quais inquisidores a comporem seu index librorum prohibitorum, então vemos que é possível discordar destes que escolhem por nós. Pois, com que direito se arvoram a tal prática? O direito da tradição? Mas não são eles os primeiros a criticarem a tradição?
Daí que digo há muito tempo que alguma coisa precisa mudar. Machado de Assis (1839-1908) é ótimo, para dizer o mínimo. Assim como José de Alencar (1829-1877), Martins Pena (1814-1848), Raul Pompéia (1863-1895), Lima Barreto (1881-1922), Graciliano Ramos (1892-1953), Drummond (1902-1987), Bandeira (1886-1968), Mário (1893-1945) e Oswald de Andrade (1809-1954) e Guimarães Rosa (1908-1967). Todos gênios, por assim dizer. Mas a literatura nacional não é só feitas de luminares escolhidos por alguns poucos. Há muita coisa boa, curiosa, instigante, que vem sido negligenciada nos últimos anos. As universidades mineiras, gaúchas, catarinenses e pernambucanas, dentre outras, têm despertado quanto a isto, incluindo em seus vestibulares autores locais, de merecido talento, junto aos “ídolos” acima citados. Os próprios leitores tem reagido nesta questão, a ponto de um autor como João do Rio (1881-1921) — do qual ninguém falava até uns dez anos atrás —, estar sendo reeditado; como, da mesma maneira, muitas análises de sua obra têm vindo à luz.
Reitero, para concluir, que muitos bons livros, e autores, podem ainda ser retirados das trevas nas quais, sem terem culpa, foram lançados. É mais do que passada a hora de reler Araújo Porto-Alegre (1806-1879), França Júnior (1838-1890), Carlos de Laet (1847-1927), Arthur de Azevedo (1855-1908), Virgílio Várzea (1863-1941), Gonzaga-Duque (1863-1911), Afonso Arinos (1868-1916), Afrânio Peixoto (1876-1947), Valdomiro Silveira (1873-1941), Cornélio Pena (1896-1958), dentre tantos outros. Pois nenhuma literatura nacional é composta apenas de jóias deslumbrantes e faustosas. Dela fazem parte, também, os delicados ouropéis, discretos e elegantes camafeus, pingentes de bom feitio, brincos mimosos e até bijuterias que, no entanto, nos são caros aos olhos, e que nos provocam cálidas lembranças, além de despertarem, para o nosso gosto, outras formas de beleza.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de novembro de 2008].

Quando a vida imita a arte

Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos, li um conto alemão cuja narrativa impressionou-me vivamente. Ainda hoje, tenho-o como um dos melhores já lidos em toda a minha vida. Trata-se de “Deuses no exílio”, de Heinrich Heine (1797-1856), em que o autor conta o que teria acontecido com os habitantes do Olimpo depois que foram banidos do panteão das divindades depois do triunfo do Cristianismo. Desterrados numa ilha, Zeus, Ares, Hermes e Afrodite vivem pouco melhor, se isto é possível, do que náufragos miseráveis. Todos eles tristíssimos e sem esperança alguma de qualquer melhora.
O jornalista norte-americano H. L. Mencken, de língua ferina e pena ainda mais aguda, escreveu um pequeno artigo, lá pelos anos 1920, em que retornava ao tema de Heine – o “sábio de Baltimore”, como ficou conhecido, era descendente de alemães e um germanófilo de primeira linha, de modo que, certamente, conhecia o conto. Em seu artigo, ele desdenhava um tanto das certezas da vida, da proeminência de certas divindades sobre outras, lembrando que antes da aceitação plena de Buda, Javé e Alá, inúmeros outros deuses foram tão poderosos quanto aqueles, se não mais, cultuados por muito mais tempo e em territórios muito mais vastos. E que, ainda assim, haviam caído em desgraça.
Em 1943, o escritor belga Jean Ray (1887-1964) publicou um romance intitulado Malpertuis, cuja trama se passava numa gigantesca mansão flamenga um velho mago agonizante convivia com antigos personagens da mitologia grega, resgatados por ele de seus desterros em ilhas desertas. Vestindo trajes modernos, portando-se como pessoas do tempo presente, mas sem trair seus antigos temperamentos, ali viviam Hermes e Apolo, as Erínias, ou Fúrias, e mesmo Prometeu. Em 1971, a história ganhou uma adaptação cinematográfica, pelas mãos de Harry Kümel (1940), tendo como protagonista, Malpertuis, o legendário ator e diretor norte-americano Orson Welles (1915-1985). Por uma dessas coincidências que raramente são, de fato, coincidências, pude assistir ao filme em 1985, ou seja, um ou dois anos depois da minha leitura do conto mencionado, quando pude constatar, sem sombra de dúvida, que tanto o cineasta quando o romancista conheciam o enredo da história contada por Heine. E que filme! É um a pena que ele não possa ser encontrado em parte alguma, e olhem que, há anos, procuro por uma cópia...
Passados quase vinte e três anos daquela sessão de cinema, e já meio esquecido do conto, do romance e do filme, eis que, a pedido de minha noiva, ajudo a procurar alguns nomes na lista de aprovados para a segunda fase do vestibular da Fuvest. O que uma coisa tem a ver com a outra? Verão, em breve. Pois bem, estava eu decifrando as letras miúdas em que tais listas são publicadas nos jornais. Ao meu lado, uma relação com os nomes dos alunos que, esperávamos, contassem da listagem publicada. Alguns acertos aqui, amplas lacunas ali, e minha atenção acaba por se voltar aos estranhos, ou curiosos, nomes de vários candidatos. Foi-se o tempo das bizarrias, notórias, de algum Um Dois Três de Oliveira Quatro, Pia de Fórmica Branca, Dulce Salgado ou Jacinto Pimenta Aquino Rego. Não, as excentricidades de hoje se notam menos nas combinações do que nas grafias exageradas de certos nomes, como Chrysthianny, em lugar de uma Cristiane, Vynycyus em lugar de um Vinícius, e coisas do gênero. E, por falar em Vinícius, como eles abundam na lista. Eles e os Yuris. As Marias e os Josés ainda são maioria, mas a variedade dos nomes valeriam todo um estudo sociológico. Eis que, por fim, deparei-me com um nome que chamou minha atenção e que se amarra completamente ao início desta crônica. Na página final da listagem, na letra Z, surge, impávido, um Zeus Tristão dos Santos.
Zeus Tristão dos Santos! Que o portador deste nome não se incomode com minhas considerações. Não o conheço, nada tenho contra ou a favor dele, nem minha intenção é ridicularizá-lo, longe disso. Mas que soberba coincidência! Vá lá que Tristão, referência a um cavaleiro lendário do medievo, personagem de romances e de uma ópera de Wagner (1813-1883), tenha sua própria autonomia. Mas, nesta combinação entre prenome e sobrenome, parece que se converte num sinônimo de “tristonho”. Logo, um Zeus “tristonho” dos Santos, lembra o conto de Heine, o romance de Jean Ray e o filme de Harry Kümel: um deus velho entristecido pelo triunfo de novos santos e por sua queda.
Que o jovem Zeus triunfe em seu exame vestibular. E que me perdoe torná-lo conhecido por uma particularidade da qual não tem culpa ou autoria. Registro-o pela enorme coincidência, involuntária, decerto, entre seu nome e toda uma trama histórica e literária. Poucas vezes se vê a vida imitando a arte com tanta precisão, senão de temas, pelo menos de nomes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de dezembro de 2008].

A Volta dos Capitães

A lista de livros para os candidatos aos vestibulares da USP e da Unicamp inclui, neste ano, um livro bastante curioso. Trata-se de Capitães de Areia (1937), de Jorge Amado (1912-2001), um escritor cuja trajetória, sobre muitos aspectos, é até mais interessante que o conjunto de sua obra.
Jorge Amado foi, durante décadas, para muitos, o maior nome da literatura brasileira do século XX. Para outros tantos, a suprema esperança de projeção das letras nacionais para o mundo todo. E, para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o grande sonho de emplacar uma voz que ecoasse sua ideologia por todo o globo.
Seus méritos como criador de tipos são inegáveis. Sua galeria de coronéis do cacau, senhores de terras, de costumes, de vícios, de valentias e despotismos compõe boa parte do melhor que já se escreveu neste país no campo das belas-letras. Suas denúncias quanto às ásperas condições da Bahia de seu tempo – seria apenas a de seu tempo? – valem por dúzias de trabalhos sociológicos, antropológicos e, de certa forma, históricos. Ele era, sem sombra de dúvida, um grande criador, capaz de aliar uma viva imaginação a uma precisa memorialística e, ambas, à arguta observação de uma época, de uma região, de uma série de práticas e costumes que, se hoje parecem meio distantes no tempo, não os são, todavia. E delas foi capaz de esboçar um retrato bastante vívido. Esboçar, bem entendido. Nunca se aprofundou, como deveria, quanto ao assunto, por motivos bem conhecidos: por sua opção política que, se em grande medida prejudicou sua “obra”, por outro lado granjeou-lhe toda uma sólida reputação, para o bem ou para o mal, em bem determinados e bem específicos meios.
Como porta-voz de uma certa “estética” comunista, o escritor baiano colheu vários frutos. Ganhou, por conta desta sua opção política, o Prêmio Stalin da Paz – mais tarde renomeado Lênin da Paz – (Moscou, 1951), o Prêmio Dimitrov de Literatura (Sófia, Bulgária, 1986) e o Prêmio Pablo Neruda, concedido pela Associação de Escritores Soviéticos (Moscou, 1989) – sendo, este último, considerado uma espécie de “prêmio de consolação”, já que o poeta chileno Neruda (1904-1973), mais comunista que o nosso escriba, abiscoitara o Nobel de Literatura em 1971.
A fase — digamos — “panfletária” de Jorge Amado foi o pior desvio de sua carreira. Toda sua espontaneidade e vigor acabaram tolhidos, mutilados, vítimas de um discurso que, evidentemente, vinha de fora para dentro, e não o contrário. Não falo apenas daquela trôpega, empolada e artificial “biografia” que tinha o líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) como herói, incensado de tal maneira que um leitor desavisado pensaria se tratar não da vida de um homem, mas de um santo, de um novo Messias. Nem tampouco me refiro, por conta disto, àquele péssimo livro que foi A Albânia é uma festa (1951) – que, mais tarde renegou, mas o estrago já havia sido feito: chamar de festa aquela sórdida ditadura permanecerá, para sempre, como uma indelével marca em sua trajetória como homem e como escritor. Penso, sobretudo, na obra ora em questão, nos Capitães de Areia, um ótimo livro com um péssimo capítulo final: toda vez que o releio – é ótimo o seu início, espetacular o seu entrecho e decepcionante o final – tenho vontade, sincera, de arrancar o último capítulo, editar o romance por minha própria conta, para o meu bem e dos leitores: os personagens de Jorge Amado, neste romance, não merecem o fim que seu criador a eles destinou, nem do ponto de vista moral, nem estilístico, nem factível. Os meninos de carne e osso, tema do livro, transformam-se em personagens de papel-cartão. E mais não falo, porque sei que alguns de meus leitores não conhecem a obra, ainda que devam.
Leiam e releiam o romance. É ele uma prova cabal de que meter política no meio de uma narrativa, como diria Stendhal (1783-1842), é o mesmo que disparar um tiro durante um concerto: uma violência dissonante, e sem o menor sentido.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de janeiro de 2009].