quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Volta dos Capitães

A lista de livros para os candidatos aos vestibulares da USP e da Unicamp inclui, neste ano, um livro bastante curioso. Trata-se de Capitães de Areia (1937), de Jorge Amado (1912-2001), um escritor cuja trajetória, sobre muitos aspectos, é até mais interessante que o conjunto de sua obra.
Jorge Amado foi, durante décadas, para muitos, o maior nome da literatura brasileira do século XX. Para outros tantos, a suprema esperança de projeção das letras nacionais para o mundo todo. E, para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o grande sonho de emplacar uma voz que ecoasse sua ideologia por todo o globo.
Seus méritos como criador de tipos são inegáveis. Sua galeria de coronéis do cacau, senhores de terras, de costumes, de vícios, de valentias e despotismos compõe boa parte do melhor que já se escreveu neste país no campo das belas-letras. Suas denúncias quanto às ásperas condições da Bahia de seu tempo – seria apenas a de seu tempo? – valem por dúzias de trabalhos sociológicos, antropológicos e, de certa forma, históricos. Ele era, sem sombra de dúvida, um grande criador, capaz de aliar uma viva imaginação a uma precisa memorialística e, ambas, à arguta observação de uma época, de uma região, de uma série de práticas e costumes que, se hoje parecem meio distantes no tempo, não os são, todavia. E delas foi capaz de esboçar um retrato bastante vívido. Esboçar, bem entendido. Nunca se aprofundou, como deveria, quanto ao assunto, por motivos bem conhecidos: por sua opção política que, se em grande medida prejudicou sua “obra”, por outro lado granjeou-lhe toda uma sólida reputação, para o bem ou para o mal, em bem determinados e bem específicos meios.
Como porta-voz de uma certa “estética” comunista, o escritor baiano colheu vários frutos. Ganhou, por conta desta sua opção política, o Prêmio Stalin da Paz – mais tarde renomeado Lênin da Paz – (Moscou, 1951), o Prêmio Dimitrov de Literatura (Sófia, Bulgária, 1986) e o Prêmio Pablo Neruda, concedido pela Associação de Escritores Soviéticos (Moscou, 1989) – sendo, este último, considerado uma espécie de “prêmio de consolação”, já que o poeta chileno Neruda (1904-1973), mais comunista que o nosso escriba, abiscoitara o Nobel de Literatura em 1971.
A fase — digamos — “panfletária” de Jorge Amado foi o pior desvio de sua carreira. Toda sua espontaneidade e vigor acabaram tolhidos, mutilados, vítimas de um discurso que, evidentemente, vinha de fora para dentro, e não o contrário. Não falo apenas daquela trôpega, empolada e artificial “biografia” que tinha o líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) como herói, incensado de tal maneira que um leitor desavisado pensaria se tratar não da vida de um homem, mas de um santo, de um novo Messias. Nem tampouco me refiro, por conta disto, àquele péssimo livro que foi A Albânia é uma festa (1951) – que, mais tarde renegou, mas o estrago já havia sido feito: chamar de festa aquela sórdida ditadura permanecerá, para sempre, como uma indelével marca em sua trajetória como homem e como escritor. Penso, sobretudo, na obra ora em questão, nos Capitães de Areia, um ótimo livro com um péssimo capítulo final: toda vez que o releio – é ótimo o seu início, espetacular o seu entrecho e decepcionante o final – tenho vontade, sincera, de arrancar o último capítulo, editar o romance por minha própria conta, para o meu bem e dos leitores: os personagens de Jorge Amado, neste romance, não merecem o fim que seu criador a eles destinou, nem do ponto de vista moral, nem estilístico, nem factível. Os meninos de carne e osso, tema do livro, transformam-se em personagens de papel-cartão. E mais não falo, porque sei que alguns de meus leitores não conhecem a obra, ainda que devam.
Leiam e releiam o romance. É ele uma prova cabal de que meter política no meio de uma narrativa, como diria Stendhal (1783-1842), é o mesmo que disparar um tiro durante um concerto: uma violência dissonante, e sem o menor sentido.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de janeiro de 2009].

Nenhum comentário:

Postar um comentário