quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O que passa e o que fica, goste-se ou não

O ano de 2008 foi pontuado por uma série de comemorações no Brasil, relacionadas a algumas importantes efemérides. Celebraram-se, no ano passado, como, acredito, todos se lembram, o bicentenário da chegada da família real portuguesa às terras brasileiras e o centenário de morte de Machado de Assis. Muita tinta correu para rememorar estas datas. Vários livros foram publicados a respeito de tais temas e, melhor ainda, vendidos e lidos. Todavia, os fatos mais lembrados no ano talvez sejam a morte infame de uma menina em São Paulo, as Olimpíadas de Pequim, as cheias históricas de Santa Catarina e o início da “crise mundial”.
Não acho que tais ou quais eventos sejam superiores ou inferiores uns aos outros. A chegada da Corte assinalou uma grande mudança em nossa história e sociedade, mas não foi a volta dos “tempos de Saturno”, uma “idade de ouro” do Brasil. E o prestígio de nosso maior escritor não depende de datas cruciais, celebrações, etc. Aliás, todos estes festejos “oficiais”, por mais meritórios que sejam, no fundo não passam de fogo de palha: não incendeiam, não fazem arder as massas nacionais. Estas preferem os episódios mais espetaculares, ainda que efêmeros: um crime brutal que, dia menos dia, será superado por outro ainda pior; uma nova olimpíada que varrerá para o esquecimento a precedente, e que será varrida para o mesmo destino pela que lhe suceder. Assim, como a enchente que, ao que tudo indica, se repetirá, graças às mudanças climáticas aparentemente irreversíveis a que estamos sujeitos: sairão provavelmente, de nosso calendário nacional, as constantes secas do Nordeste, entrando, em seu lugar, as cheias do Sul — embora, lembremos: tais flagelos devem-se menos ao tempo que à preguiça e má-vontade dos governos... Quanto a tal crise, esta talvez permaneça um pouco mais na memória. Mas os brasileiros já passamos por tantas delas que as misturamos num mesmo balaio, até que, uma dia, ou a elas nos acostumamos ou simplesmente as esquecemos.
Outras datas também foram lembradas nesse ano, mas por pouca gente. Foram os sessenta anos da promulgação da heróica Declaração Universal dos Direitos Humanos e os quarenta anos da implantação do infame AI-5. A primeira passou meio em branco. Tragicamente, para muitas pessoas, os direitos humanos parecem ser um “luxo”, que o digam os que deles são privados, que o ladrem os que os renegam. Já quanto à segunda, mal foi mencionada: os quarenta anos da Bossa-Nova, pelos menos por parte da grande imprensa, parecem ter sido mais importantes...
As efemérides deste ano parecem ser mais modestas. O mundo comemorará, é fato, o bicentenário do nascimento de Charles Darwin (m. 1882) e o sesquicentenário da publicação de sua obra crucial, “A Origem das Espécies”. E a América, certamente, se lembrará dos cento e cinquenta anos da morte do genial cientista e humanista Alexander von Humboldt (n. 1769). Por aqui, certamente, pouca gente terá noção disto, principalmente nestes últimos tempos em que o tal Criacionismo tem grassado mais que mato em jardim abandonado — um mato que, por sua mediocridade, jamais chamaria a atenção do célebre naturalista germânico. A celebração maior será, sem dúvida, a do centenário de nascimento da ótima, inigualável, Carmem Miranda (m. 1955).
Fico pensando, por outro lado, o quê, neste ano que mal se inicia, poderia ficar na memória das gentes. É cedo para dizer, mas arrisco um palpite. Para muitos, no mundo todo, será, sem dúvida, a crueza dos ataques israelenses à Faixa de Gaza. Já para milhares de brasileiros, 2009 provavelmente entrará para a história por ser o ano em que morreu o touro Bandido, enterrado com toda a pompa no Memorial do Peão, em Barretos, com direito à estátua e orações por sua alma, genuflexões e persignações de cavaleiros diante de seu túmulo.
É triste, mas cada um escolhe as memórias que prefere reter. Que cada um, portanto, arque com isto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de janeiro de 2009].

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