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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma móvel feira de móveis, e certas ideias imutáveis

Um amigo convidou-me para visitar, recentemente, uma feira internacional de móveis ocorrida em São Paulo. Tratava-se de um evento fechado, destes dos quais só participam profissionais do setor, como era o caso de meu anfitrião. Curioso que sou, e mais ainda afeito a uma peta, fui até lá, passando-me por alguém do ramo, no que meu confrade ajudou. É muito fácil, aliás, conseguir tal coisa: basta alguém de dentro colaborar e despeja-se um ônibus inteiro de penetras (uma categoria a qual, pela primeira vez em minha vida, posso dizer que pertenci, momentaneamente). E, assim, por aqueles corredores – vazios – passeei qual um comprador atacadista, empresário moveleiro, decorador ou arquiteto, mal ocultando minha diversão por saber-me um intruso ali.
Como nada do que era exposto naquele recinto era passível de ser comprado individualmente, flanei por lá e cá na busca de alguma coisa que pudesse me interessar, menos como objeto de compra e mais por sua beleza de acabamento, ou proposta de decoração, ou, em suma, para saber o que as fábricas de móveis fazem que pudesse interessar a uma pessoa afeita a certos valores estéticos. Mas, para a minha surpresa (tratava-se de um evento internacional, com dúzias de expositores!), a curiosidade foi cedendo espaço, metro a metro caminhado ali, à mais completa decepção. E vejamos por que.
Logo à entrada, havia um mostruário com os móveis que ganharam um prêmio interno (criado pelos organizadores) para avaliar o melhor design de uma cadeira, mesa, etc., nos últimos anos. Desconsiderei os premiados de dois ou três anos passados e me concentrei no vencedor de 2010. Pensei: “se este móvel ganhou um prêmio tão importante concedido por profissionais da área, o mínimo a se supor é que boa parte do que adiante estará exposto faça alguma referência à obra premiada”. Qual o quê! Mais uma vez deparei-me com um daqueles casos já mencionados de um “discurso loquaz” lançado a uma “plateia surda”. O “gênio de ontem” não deixou descendência hoje. E, portanto, restou-me vagar por uma sucessão, quase infinita, de cópias de cópias, que seguem tendências, e passam longe de ideias ou conceitos.
Entendo que alguns setores da indústria e do comércio sejam conservadores. Quem haveria de investir num novo e radical produto se o tradicional (ainda que este seja só uma voga) venda bem? Que se faça más de lo mismo. Porque sai, tem compradores. E agrada a todos. Mas não a mim.
Invejo algumas gerações anteriores à minha, que iam a uma loja de móveis e compravam, por exemplo, uma sala de jantar. Naqueles tempos, uma compra desta não se resumia à mesa e às cadeiras, mas incluía um aparador, um armário, não raro um bufê, uma cristaleira, além de um carrinho de serviço. De forma que se montava um ambiente da melhor maneira que se podia, numa tacada só, e no mesmo estilo. Por outro lado, de uns tempos para cá, valoriza-se a escolha aleatória de tais objetos, da qual não discordo totalmente.
Mas, convenhamos, nos dias de hoje, dá um trabalho miserável, e cansativo, ir de seca a meca, tentando descobrir um armário, console, ou o que for, que combine com a mesa de jantar. Ou que nem sequer combine, e que seja, por sua vez, diferente. O trabalho é o mesmo... E nisto perdem dinheiro os fabricantes de móveis. Pela concorrência do antigo ou do aleatório que suprem as carências de ocupação de espaço? Exatamente. Se o objetivo é vender o máximo para as massas, que se passe um projeto completo. Cabal. Que não se abram tais brechas à concorrência. Mas a visão dos empresários de certos setores é muito obtusa. E não esperemos deles tais reflexões. Às voltas, que vivem, com acrobacias contábeis e malandrices fiscais, têm eles pouco tempo para pensarem na produção. Melhor é lesar o fisco, “meter o pau” no governo (seja ele qual for), arrochar os empregados e seguir fazendo o mesmo que sempre foi feito. Seguir a tendência: fabricar cópias de cópias, por que assim o mercado quer...
Mas qual mercado, cara-pálida? Amanhã estaremos comprando noutro fornecedor, noutros meios, noutras fontes do belo, contra a mesmice de praxe que nos empurram goela abaixo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de agosto de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

terça-feira, 30 de março de 2010

Toda ponte paira sobre o vazio

Em crônica intitulada “Um novo cartão-postal paulistano”, de 15 de dezembro de 2007, tratei, neste espaço, de uma certa ponte estaiada que se ergueu sobre o rio Pinheiros – aquele que separa o Palácio dos Bandeirantes da verdadeira São Paulo.
À época comentei a falta de necessidade de um tal projeto e método construtivo, e mencionei outras pontes muito maiores às quais tentaram comparar aquela pretensiosa pinguela pênsil sobre o rio. Dentre elas, citei a Ponte do Brooklyn, de Nova Iorque, e a Golden Gate, de São Francisco, Califórnia. E meio que conclui dizendo:

É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!”.

Pois é, a macaquice campeia. Agora se quer construir um arremedo nanico de uma Golden Gate ligando Santos ao Guarujá. E, por conta disto, até o nosso Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o sempre solícito e disponível Chirico, desceu a serra para inaugurar...uma maquete!
Os defensores do projeto alegam que aquele monstrengo – a ponte, não o Excelentíssimo Senhor Governador – é uma demanda das duas cidades, visto que as ligaria mais rapidamente. Ora, quem as conhece sabe que já existe serviços de balsas e barcas cumprindo tal fim, e para quem quer ir de automóvel, uma ponte que as une mais para o interior, aliviando o fluxo dos centros daquelas cidades. Com o novo projeto, pretende-se justamente intensificar o tráfego nos centros dos dois municípios, uma idéia condenada por dez entre dez urbanistas de qualquer parte do mundo. E por quem pensa um pouco que seja e conhece Santos e Guarujá. Pois imaginemos os fins-de-semana prolongados e as temporadas, quando milhares de automóveis despencam serra abaixo rumo ao local. Pensemos como ficariam aquelas cidades frente a uma nova e intensa circulação de automóveis, acima dos números absurdos ao quais já se sujeitam. Um caos, um verdadeiro caos. Ou melhor, dois: um para cada uma.
E não falamos ainda do impacto paisagístico. Pois, convenhamos, Santos está longe de ter um dos melhores cenários em seu entorno. Salvam-lhe da completa feiúra o mar – este ninguém consegue impedir de ser o que é – e o estuário com a Serra do Mar ao fundo. Pois é justamente neste último que querem meter o raio da ponte, arruinando de vez aquela bela vista.
E tudo isto para quê? Para brincarmos que somos norte-americanos, copiando-lhes os prédios, as pontes, imitando-lhes o número de automóveis e o consumo desenfreado, fingindo que somos o que não somos, ou o que meia dúzia de brocoiós gostaríamos que fôssemos.
Em suma, tudo que disse da outra ponte, reitero e acrescento para a nova, que sequer saiu do papel e será completada e paga não pelo Chirico, o Breve, mas por quem quer que lhe herde a cadeira. E tomara que ela não vingue, que não passe da reles maquete que é. Basta de macaquices caras e de construir pontes sobre um vazio de idéias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de março de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Maritacas na gaiola

Muitos arquitetos e urbanistas concordam que a praça, a boa e velha praça com árvores, coreto, igreja ou prédios públicos de importância, cedeu seu lugar de convívio social, a partir de meados do século XX (no caso dos EUA), aos shopping centers. Nosso país — sempre em atraso em relação aos grandes centros de decisão e, nesse caso, felizmente — só passou por este fenômeno a partir da década de 70 do mesmo século. Nos anos 80, explodiram os shoppings por toda parte, qual cogumelos depois da chuva. Mas foi na década de 90 que se tornaram, efetivamente, o lugar de convívio, por excelência, de milhões de pessoas no Brasil. Sabem disso não só o público que os freqüenta, como também os donos de lojas, cinemas, bares e restaurantes do lado de fora das paredes dos shoppings, acossados pela perda de consumidores que a todo custo evitam o caos que se instalou nas ruas de nosso país.
Se esta modalidade de espaço particular, privado, acabou por tomar ares de espaço público, e se, de fato, para inúmeras pessoas ele se tornou imprescindível, sua receita de local único de convívio, todavia, passou a sofrer graves abalos com a ampliação de acesso à Internet. Sim, é um fato que as pessoas freqüentam tanto quanto antes, se não mais ainda, os shopping centers. Vão ao cinema, comem bebem, olham muito, mais do que compram — dados os tempos bicudos dos quais parecemos ser eternamente vítimas — e andam, andam, andam... Mas não conversam. Não se fazem novos conhecimentos ou relações. Não se trocam impressões. Porque o lugar praticamente não permite, não há ambiente para isto. Quem vai se lembrar do último filme que assistiu, música que particularmente lhe tocou ou assunto interessante que gostaria de discutir, em meio à feérica e frenética sucessão de anúncios, cartazes, luminosos, vitrines de bolsas, sapatos, vestidos, camisas, etc? Impossível.
Assim, o que aconteceu, foi que toda uma geração que teve por babá a televisão, por parquinho infantil o playground do prédio, por praça da matriz os shoppings centers, geração que aprendeu que era “sensível” — as que a precederam eram o quê? inanimadas? — e que queria “expressar suas idéias”, sem todavia consegui-las naqueles espaços impessoais, eis que lançou-se ao bate-papo via internet. E como se bate-papo! E quão rasas são as idéias!
É um fato de todas as maneiras inegável que a Internet representou uma revolução nos meios de comunicação. Por outro lado, a quantidade de bobagens que circulam pela rede também é inacreditável, como é sabido. Mas o pior é justamente quando este lixo chega até nossas caixas de mensagens. Não falo das piadas, mais ou menos — geralmente menos — engraçadas, que nos enviam. Há todo um entulho que, francamente, não sei como pode existir público para tal.
Como é possível que gente que se diz séria, que presume ter idéias, as quais pretende exprimir em público, ocupe seu tempo a pesquisar imagens bizarras de acidentes vários e enviá-las aos amigos? Ou teorias conspiratórias, montagens fotográficas que são verdadeiras aberrações, senão de técnica, pelo menos de tema? Como é possível que se gaste uma inteligência — rala, talvez, mas bastante artificiosa — formulando frases banais, pieguices no campo da auto-ajuda, versos mancos, mutilados mesmo, e atribuir tal chusma de sandices a algum autor conhecido? O quê uma pessoa ganha em fazer seus pensamentos — ou melhor os balbucios de uma cabeça minimamente organizada, pouco superior a dos chimpanzés — passarem como se de autoria de algum grande nome? Nada, ora. O frasista desconhecido continuará anônimo e só lançará a uma boa reputação meia dúzia de patetadas que alguma especialista ou admirador logo irá desmascarar. Mesmo assim, como há bobagens circulando por aí como se fossem de pena de um Fernando Pessoa, de um Jorge Luís Borges...
E o que dizer, então, desta nova praga chamada Orkut? Que mixórdia! O footing dos acanhados. Os classificados pessoais dos imodestos inseguros. O pregão de inibidos exagerados. Mero congraçamento de tímidos metidos a gabolas cujas personalidades viriam a pique se expostas à luz franca das relações diretas, pessoais, olhos nos olhos.
O que é de lastimar é que tanto engenho, tanto esforço tecnológico seja empregado por um bando que mais faz pensar em maritacas do que em qualquer outro tipo de criatura. Pois maritacas não cantam, não reproduzem voz humana, só emitem um barulho sem sentido e desencontrado. Na natureza, pode ser até bonito. Elas voam, passam, vão embora. Numa gaiola — porque a Internet, para muitos, não passa de uma gaiola da qual não enxergam as grades — só o que fazem é palrar, gritar, sem motivo, para sempre e sem razão.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de março de 2005].

Quando a leveza parece densa, e a solidez, leviana

A escritora italiana Maria Savi Lopez (1846-1940), criou um bela fábula em seu livro Leggende del Mare (Turim, Loescher, 1894), a qual, no entanto, parece ter sido escrita para os tempos atuais — aliás, como toda boa fábula. Segundo ela, teria existido em Alexandria, Egito, uma espécie de parque de esculturas, monumentais e horrendas, na orla do mar, e que há muito caiu em ruínas. Sua origem se deveu aos seguintes fatos. Quando Alexandre, o Grande, construía a cidade, um grupo de monstros marinhos saía das águas todas as noites e destruía as obras ali realizadas durante o dia. O rei, então, estabeleceu o seguinte plano: ordenou a construção de uma gaiola de vidro, mandou que colocassem um artista dentro dela, e que esta fosse submergida no mar: dali, o homem poderia observar os monstros e desenhá-los. Trazido o artista de volta, Alexandre mandou que se erguessem estátuas daquelas medonhas criaturas, tomando por base os desenhos tomados do natural, e que as mesmas fossem colocadas na praia. Quando os monstros saíram do mar e viram suas exatas cópias, fugiram aterrorizados. E nunca mais voltaram. Acredito que, em boa parte é esta mesma sensação que muita gente tem quando entra em São Paulo, pela Marginal do Tietê.
Falar da feiúra da capital paulistana já se tornou, praticamente, um lugar-comum. Há poucas semanas, inclusive, o jornal Folha de S. Paulo consultou dezessete arquitetos paulistanos, o que resultou numa lista dos prédios mais feios da cidade. Não houve propriamente uma unanimidade quanto ao vencedor (o “campeoníssimo”, que abriga a Sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus É Amor, no Glicério, recebeu três votos, e os demais, no máximo dois), mas, dentre eles, contavam-se não só os “suspeitos de sempre”, como também novíssimas feiúras. E também, na minha opinião, alguns que foram injustamente avaliados. De modo que lá estavam, pela “velha guarda do horror”, o eterno alvo de críticas, o Edifício São Vito, o famoso treme-treme em frente ao Mercado da Cantareira; o Memorial da América Latina, feio, inútil, e quente como um deserto; o Palácio dos Bandeirantes, que recende à arquitetura fascista em cada centímetro de fachada e, que, como resumia magistralmente uma amiga minha, “mais parece um caixote com uma coroa carnavalesca em cima dele”; e o Edifício Martinelli, que, na minha opinião, não deveria ser arrolado entre os mais feios, nem entre os mais “equivocados”: na época em que foi erguido, influências neoclássicas, como as que ele apresenta, ainda estavam na ordem do dia. Da mesma maneira, discordo da inclusão do Edifício Dacon, ali na esquina da Faria Lima com a 9 de Julho. Ele podia ser mais “encorpado”, possuir um térreo mais alto, e, afinal, parece mesmo um grande prédio, só que em escala menor do que a necessária para aquilo que ele se propõe a ser. Mas ele sempre fez uma bela figura no horizonte daqueles lados da cidade.
Quanto à “jovem guarda da feiúra”, dela fazem parte os dois vice-campeões (dois votos cada). Foram eles o Edifício Villa Europa — um monstrengo que se avista da Marginal Pinheiros, famoso tanto por exceder o limite de altura permitido, quanto por seu neoclassicismo de butique, e cujas formas, à distância, lembram um grande pente banguela —; e o prédio da Daslu, que, indiscutivelmente, é um dos prédios mais feios que há em São Paulo, quer do ponto de vista estético, quer, principalmente, do ponto de vista ético, moral, político, econômico, fiscal, etc. Logo abaixo deles, seguem-se a Plaza Iguatemi e o Edifício Renata. Quanto a este último, não há muito o que falar. É feio, convencional, metido à besta, mas há outros piores na cidade. Quando ao primeiro, sempre horrorizou-me que fosse sequer concebido. Pois nunca me esqueço de quando aquele que foi o pioneiro dos shoppings centers de São Paulo, leve, arejado, e quase “democrático”, converteu-se numa espécie de catedral do consumo. Sempre pareceu-me um prenúncio de um futuro muito pior por vir. E que veio: está aí a Daslu, a Sé de uma nova e exótica religião revelada outrora pela Plaza Iguatemi.
Mas nem só de prédios trataram os arquitetos consultados pela Folha de S. Paulo. Criticaram, muito apropriadamente, aquele horror que é o Minhocão e a ausência de qualquer “personalidade” nas pontes e viadutos da cidade. E, convenhamos, com exceção da Ponte das Bandeiras, dos viadutos do Chá e Santa Efigênia, o que resta em São Paulo que seja digno de nota, no gênero?
É claro que a degradação dos espaços públicos produz um efeito muito mais nefasto na cidade do que uma meia dúzia de prédios “feios”. As praças abandonadas, as construções pichadas e decadentes, a própria sinalização desordenada da cidade, as marginais degradadas e as favelas superam em feiúra qualquer das obras acima relacionadas. Mas essas, convenhamos, são resultado do descaso do poder público e da marginalização da população decorrente deste mesmo descaso. E quanto ao resto, que se dá por obra de uma iniciativa privada bruta e insensível? Não tem ela uma parcela de culpa muito maior?
Os efeitos do brutalismo, por assim dizer, na arquitetura paulistana, deitam suas influências em outros campos até então pouco sondados. E, a partir daqui, retornamos ao início desta crônica, à fábula do parque monstruoso em ruínas de Alexandria. Pois que outra sensação um visitante tem que não a de horror quando entra em São Paulo pela Marginal Tietê e se depara com aquela sucessão de terrenos baldios e galpões improvisados que guardam toda a sorte de restos dos desfiles carnavalescos do passado recente e distante? O que pensar daqueles esqueletos disformes, daquelas ruínas sem glória ou história?
Assistindo, pela televisão, os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, somos lembrados, a todo momento, de um truísmo corrente que diz que ambos os eventos não podem ser comparados, visto que as agremiações cariocas estariam acima de qualquer comparação. Seriam hors-concours — ou seja, tão excelentes por suas qualidades que a simples emulação com algo vagamente parecido mostrar-se-ia impossível por natureza. Este é um fato que se demonstra com tranqüilidade diante do que foi dito e do que diremos.
Os carros alegóricos do carnaval carioca são, sem sombra de dúvida, monumentais. Já os de São Paulo, são, por assim dizer, “monumentosos”. Se um se dá ao direito de representar obras do Aleijadinho, de erguer uma réplica da igreja de Nossa Senhora de Paris (Notre Dame) e do Coliseu romano, com uma leveza exemplar, autenticamente belos na sua inequívoca aparência efêmera, passageira, os de cá parecem afundar em seu peso, atravancar o Sambódromo, buscar uma permanência no tempo que, para tal tipo de obra, torna-se exorbitante. Desmedida. Presunçosa. Como a arquitetura da capital dos paulistas. Tudo muito grande, tudo muito robusto, muito caro... e muito sem graça. E com pretensões à eternidade. Veja-se a longeva sobrevida que o que restou dos carros alegóricos têm nos galpões e terrenos improvisados. Veja-se o seu excessivo volume, sua ausência de graça, sua longa decomposição sem ao menos a aura de um certo fascínio de outrora.
É de se pensar se o mal-estar que sentimos à vista destes restos de festas passadas se deve à natural feiúra resultante de seu abandono. Creio, entretanto, que o sentimento se deve á sua própria composição. Não seríamos, todos nós, paulistanos e paulistas, pouco diferentes dos monstros da fábula? Será que aquilo que nos horroriza de tal maneira, assim o age menos por sua aparência, e mais por ser um retrato, se não de nós mesmos, daquilo que permitimos que fosse feito em São Paulo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de fevereiro de 2007].

Forma e conteúdo

Assisti, de Maringá, onde participava de um simpósio, à chegada do Papa Bento XVI a São Paulo. Durante a transmissão televisa do episódio – extremamente aborrecida, aliás, repleta de toda uma série de comentários e pormenores irrelevantes, pois, afinal, o que importa é o que o Sumo Pontífice diz, e não coisas como o instante em que ele saiu do avião, o momento em que desceu a escada de desembarque e outras do gênero – eis que um amigo perguntou-me porque Sua Santidade iniciou sua visita ao Brasil pela capital paulista e, não, por Brasília. Minha primeira vontade foi dizer que o líder dos católicos é de tal maneira independente que principia sua visita a um país por onde ele bem entende. Mas, como Bento XVI é também um chefe de Estado, admito como presumível a pergunta: por que não, em primeiro lugar, Brasília? É verdade que o presidente norte-americano, que cá recentemente esteve não cumpriu, digamos, tal “protocolo”, só que a arrogância e a presunção dos líderes daquele país são bem conhecidas... Portanto, o que podemos concluir é que o Papa decidiu-se por São Paulo como a primeira parada por outros e mais claros motivos: a cidade é antiga, foi fundada por religiosos e concentra uma proporção de fiéis sem par na América Latina, ou seja, por razões que vem ao encontro de sua visão política e teológica.
Mas a pergunta – por que não Brasília? – continuou a ocupar meus pensamentos, ainda que por outras questões. E a principal delas é que não consigo enxergar qualquer relação entre a capital federal e a religião. Não quero dizer com isso que vejo aquela cidade apenas e tão somente como a sede do governo e ponto final. Há todo um caráter simbólico nela impregnado, para o melhor e para o pior. E as referências religiosas ali são muitas e marcantes. Pensemos na Catedral de Brasília, uma construção verdadeiramente impressionante e inserida no coração da cidade. Pensemos na profecia de D. Bosco, segundo a qual o planalto central brasileiro seria o berço de uma nova civilização. Pensemos ainda na quantidade de mosteiros, conventos, seminários e até mesmo seitas exóticas que por lá abundam. E não podemos nos esquecer que se a planta do plano piloto lembra, para muita gente, um avião, para muitos ela e um xis e, por extensão, uma cruz.
O curioso é que, mesmo diante de tantos motivos, a associação entre Brasília e a religião, para mim, e para muita gente, é extremamente complicada de ser feita, se não impossível. Porque por mais monumental que seja sua Catedral, por exemplo, ela não possui nada de familiar, ela não se parece com nada daquilo em que costumamos pensar quando ouvimos a palavra “catedral”. Mas é verdade, também, que a própria Brasília não se parece com cidade nenhuma conhecida no mundo.
Daí é de se pensar se as religiões, ou melhor, as nossas relações com elas, não dependem muito mais de outros símbolos, que não os necessariamente místicos, do que supomos ou gostaríamos de acreditar. Em suma, temos de fato idéias pré-concebidas, por exemplo, do que seja uma igreja: o aspecto que deve ter o prédio, sua decoração, etc., que pode variar bastante, é verdade, mas que, em geral, permanecem ligados a alguns poucos conceitos que nos sejam familiares. Ou seja, não basta construir um prédio com aspecto de, digamos, supermercado, espetar no alto dele uma cruz e chamá-lo de “igreja”: dificilmente o veremos como tal. A familiaridade com certas formas, portanto, pode influir drasticamente até mesmo em instâncias que julgamos superiores: forma e conteúdo dependem, sim, e muito, um do outro.
Creio que o fato de estar em Maringá, quando cheguei a esta conclusão, tenha exercido certa influência. Pois a cidade é muito bonita e, ao mesmo tempo, muito estranha. É um exemplo quanto à arborização, quanto ao planejamento urbano, quanto à valorização do espaço público, etc. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que parece ter prescindido completamente de seu passado. É verdade que ela é novíssima – 60 anos completados dia 10 de maio – mas mesmo este pouco parece que lhe foi subtraído. E o resultado é muito confuso. Andamos por uma rua, por exemplo, e topamos com uma bela fileira de árvores de cinqüenta anos de idade. Assim, era de se esperar que as construções próximas a ela datassem da mesma época, pouco mais ou pouco menos. Mas não. Tudo é novo. Tudo é novíssimo em toda a cidade. Logo, nada é familiar. Trata-se de uma cidade grande que na verdade se parece mesmo é com um imenso bairro. E a todo momento me via procurando o seu centro histórico sem encontrá-lo.
Concluindo, assim como não vejo ligação entre Brasília e religião, acho que falta o sentido de cidade em Maringá. Pois, em ambos os casos, suas formas não comungam com o sentido, com o conteúdo que pretendem ter.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de maio de 2007].

As Novas Sete Maravilhas...

Tratamos, na semana passada, daquelas listas e votações inúteis — salvo para uma minoria — feitas sob medida para um público pouco exigente que imagina que, com seu voto, participará de alguma coisa grande, de algo importante, que sua opinião é a coisa maior que existe — quando, na verdade, não é: se o fosse, os nomes para as listas surgiriam de forma espontânea, e não provocada pelo marketing, revistas, sites, etc. E a mais nova bobagem do gênero é esta eleição das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Substituindo as sete maravilhas da Antigüidade (as Pirâmides de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o templo de Ártemis, em Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes, a estátua de Zeus, em Olímpia, e o Farol de Alexandria), querem exaltar outras sete, de uma lista de vinte e uma. São elas: a Acrópole de Atenas, na Grécia; o misto de cidade e palácio do Alhambra, em Granada, Espanha; a cidade-templo de Angkor Vat, no Camboja; a basílica de Santa Sofia, em Istambul, Turquia; o castelo de Neuschwanstein, em Füssen, Alemanha; as ruínas de Chichén Itzá, no México; o Coliseu de Roma, Itália; o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro; a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, Estados Unidos; as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile; a Grande Muralha da China; o Kremlin de Moscou, Rússia; as ruínas de Machu Picchu, no Peru; o teatro de ópera de Sydney, na Austrália; as ruínas de Petra, na Jordânia; as Pirâmides de Gizé, no Egito; o círculo de pedras de Stonehenge, na Inglaterra, o palácio-túmulo do Taj Mahal, em Agra, Índia; o templo Kiyomizu-dera, em Quioto, Japão; a cidade de Tombuctu, no Mali; e a Torre Eiffel em Paris, França.
Os motivos alegados para tal empreita são os mais variados e, todavia, pouco convincentes. Vá lá que os organizadores afirmem que o dinheiro arrecadado pela campanha seja revertido para sítios arquitetônicos ameaçados pela degradação do tempo, pelo descaso das autoridades ou pelo vandalismo. Mas quais seriam eles? Até agora, não ouvi uma só palavra. A coisa toda parece, mesmo, um grande golpe de propaganda, cuja finalidade é valorizar certos destinos turísticos, e render alguns cobres aos organizadores. É uma coisa a se pensar, aliás, como a Unesco — aquele braço da ONU que trata do patrimônio histórico e cultural — foi seduzida pelo projeto...
A própria concepção que o norteia, diga-se, é muito boba. Tal tipo de lista tinha sentido na Antigüidade, quando o conhecimento era, muitas vezes, submetido a rígidos esquemas de memorização, que incentivavam a reunião de informações em grupos fechados e excludentes, enfeixados por números “mágicos” — as três graças, os quatro elementos e os quatro temperamentos, as sete artes, as nove musas, os doze signos do zodíaco e por aí afora, tudo forçado a se relacionar entre si e explicar um ao outro. Que se fizesse tal coisa nos tempos de Antípatro de Sídon e Fílon de Bizâncio, autores das primeiras listas, compreende-se. Que se repita o mesmo procedimento, hoje, quando nada parece se relacionar com nada — porque, desde o Iluminismo do século XVIII, ninguém mais necessita de uma síntese suprema, completa, sobre tudo e todos —, creio que não passa de pura tolice. Ou má-fé dessa gente de propaganda, que cria necessidades que não existem, e tenta passar por reportagem o que é simples anúncio.
Quanto à sucessão de equívocos nesta história toda, ela é impressionante. Os leitores duvidam? Pois vejamos. A locução Sete Maravilhas do Mundo Moderno pressupõe, na opinião de qualquer pessoa mais atenta, que se refere a novas maravilhas a serem louvadas. Ou seja, monumentos erigidos posteriormente àqueles da Antigüidade clássica, posteriores aos que faziam parte das primeiras “listas”. Então, pergunta-se, por que incluir entre os “novos” as pirâmides de Gizé, que, aliás, já faziam parte das “velhas” maravilhas? Por que o círculo de Stonehenge, na Inglaterra, tão antigo, se não mais, que as próprias pirâmides? E a acrópole de Atenas? Que é belíssima, não resta dúvida. Mas ela já existia quando da primeira seleção e, curiosamente, não foi inclusa nela. É mais velha que o Mausoléu de Halicarnasso, que o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria, tão antiga quanto a estátua de Zeus, em Olímpia, e só um pouco mais nova que o templo de Ártemis, em Éfeso; em suma, contemporânea de cinco das sete maravilhas “antigas”.
Poderíamos gastar muita tinta sobre outras impropriedades quanto à escolha, discutindo as razões que levaram à inclusão deste ou daquele monumento e à exclusão de outros. Pensei mesmo em fazer minha lista pessoal das novas maravilhas, que incluiria construções que admiro e que não foram contempladas (como o santuário de Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal), ao lado de algumas retificações (o Fórum romano como um todo, e não só o Coliseu) e até outras de que particularmente não gosto, mas que são muito mais grandiosas do que algumas das relacionadas (o Plano-piloto de Brasília, o estádio do Maracanã, a hidrelétrica de Itaipu — com a vantagem, ainda, de serem brasileiras).
A questão, no fundo, é que tudo isto não passa de uma grande bobagem. E, o que é pior, nem um certo cuidado com as referências históricas está sendo tomado. Veja-se o caso do Cristo Redentor, o “representante brasileiro”. Inúmeros sites, inclusive um da Câmara dos Deputados, dão como autores do monumento o brasileiro Heitor da Silva Costa (1873-1945) e o escultor francês Paul Landowski (1875-1961), omitindo quem verdadeiramente desenhou o projeto da estátua, o artista brasileiro Carlos Oswald (1882-1971), um dos maiores nomes da gravura nacional. Este é nosso candidato, esses são seus cabos-eleitorais, e a quanto à qualidade da disputa... não digo mais nada...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de junho de 2007].

Modernizar a marretadas

O grande escritor paulista Monteiro Lobato cunhou, em fins do século XIX, a expressão “cidades mortas” para uma série de localidades vizinhas à sua Taubaté, que viviam da cultura do café havia quase uma centena de anos, e pelo fato do solo se esgotar, enfrentaram uma profunda, uma absoluta decadência. Em Minas Gerais, cidades como Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, mereceriam, durante muito tempo, a mesma designação: sem ouro nem diamantes, foi a pobreza que conservou seus aspectos tão característicos, que inibiu transformações radicais em sua paisagem urbana. O mesmo pode ser dito de Paraty e de Vassouras, no Rio de Janeiro; de Goiás, ou “Goiás velho”, como chamam os turistas, para horror de seus moradores; de boa parte de Olinda, em Pernambuco; de São Cristóvão, em Sergipe; de Alcântara, no Maranhão; de Penedo e Marechal Deodoro, em Alagoas; e de muitos outros lugares. Cidades vítimas da estagnação econômica e que se conservaram quase tal como eram, porque não puderam crescer.
Algumas delas, todavia, descobriram novas vocações, sequer sonhadas em anos remotos, naqueles dias em que foram dadas como “mortas”. O Vale do Paraíba é um pólo tecnológico e industrial de destaque; Olinda, ainda que incorporada ao “Grande Recife”, é um importante núcleo prestador de serviços; Ouro Preto e Diamantina abrigam grandes mineradoras; Alcântara abriga uma base de lançamento de foguetes espaciais. Todavia, uma, às vezes duas, semelhanças, todas estas cidades compartilham: muitas comportam célebres centros universitários: mas todas, absolutamente todas, inscrevem-se entre os principais destinos turísticos do país. E por quê? Porque conservaram muito, mas muito mesmo, de sua arquitetura.
O turismo, sob muitos aspectos, é uma indústria, como as tradicionais. Emprega muita gente, direta e indiretamente, cria uma malha de relações econômicas que envolve outras tantas, instiga a produção de bens de consumo que a ele se vinculam, ao mesmo tempo em que oferece um produto, que se não é único, tem o seu diferencial, a sua especificidade. Mas para que uma cidade seja um destino turístico, e, portanto, faça receita, promova empregos, faça o dinheiro circular, ela, necessariamente, deve ter alguma coisa para mostrar. E, portanto, é preciso preservar. Ou criar um novo que seja radicalmente diferente, não um pastiche. Como isto é difícil, preservar é sempre a melhor opção. No mínimo, porque “já está lá”. Pois é sobejamente conhecido que onde a indústria, o comércio, a lavoura, ou todos eles, entram em decadência, muito do que era considerado “velho”, “ultrapassado”, por um lado, ou “mato à toa”, “morro imprestável”, “rio fedido”, por outro, revelaram-se, em muitos casos, a salvação econômica de várias cidades.
É por isso que assistimos, com tristeza, o que está sendo feito em duas cidades nossas vizinhas: Araras e Pirassununga, ambas de longa história e história de proeminência na região, e que contam com alguns belos prédios que poderíamos mesmo chamar de monumentos. Mas não falo deles, que lá permanecem e permanecerão. Falo de todo um conjunto arquitetônico construído entre meados do século XIX e a primeira metade do XX, composto de casas mais ou menos suntuosos — isto não importa — e que revelam muito do modo de vida de todo aquele período. Além de serem belas, evidentemente. Vê-se com freqüência, nos últimos anos, muitas delas serem impiedosamente postas abaixo, ou, o quê dá quase no mesmo, reformadas de uma tal maneira que perdem todas as suas características. Algumas conservam uma coluna aqui, uma porta acolá, mas os janelões são substituídas por janelas de ferro, as varandas são fechadas, os jardins são arrasados para a construção de estacionamentos. Tudo muito triste. È verdade que não possuem a “solenidade” de um casarão do século XVII ou XVIII, como os de Salvador, por exemplo. Mas tão somente porque são ainda “jovens”. Vamos deixar com que elas envelheçam, com seus leões nos portões e suas mangueiras nos quintais.
Modernizar a golpes de marreta teve lá seu sentido nos tempos do Barão Haussmann, que remodelou Paris lá pelos anos 1860. E até para o Rio de Janeiro do começo do século, com o prefeito Pereira Passos e o seu “bota abaixo”. Mas, de lá para cá, a consciência mudou. Pena que as práticas não. Precisamos abrir os olhos. Salvar o que ainda se tem, já que ninguém sabe o que o amanhã nos revela. E lembrar que, afinal, quem não tem passado, dificilmente terá futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de setembro de 2007].

Um novo cartão-postal paulistano

Vem sendo comentado na grande imprensa o futuro impacto — falam que para o bem — arquitetônico e urbanístico que será causado pela construção da Ponte Estaiada sobre as águas — fétidas — do Rio Pinheiros. Antes, porém, é necessário um esclarecimento. Pontes estaiadas são pontes suspensas que não precisam de duas torres e quatro ancoradouros como as pontes pênseis mais tradicionais. No seu caso, os cabos (estais) vão da plataforma a uma única torre, ou mastro, em que são presos.
Como dizíamos, clama-se, aqui e ali, a originalidade de suas formas, a audácia do seu desenho, e a magnitude da obra. Alega-se que há décadas nada de tal vulto é construído na capital paulista.
Em parte, até que se tem um pouco de razão. Com exceção da Ponte das Bandeiras, de 1942, todas as outras só não são de um horror fenomenal, porque conseguem ser absolutamente anódinas: ninguém pensa nelas do ponto de vista arquitetônico, mas pura e tão somente utilitário. Grandes maciços sem vida ligando uma margem à outra. Depois não sabem porque S.Paulo se tornou uma das cidades mais feias do mundo...
Dizia que há uma certa razão, mas só esta acima citada. O resto é uma seqüência de equívocos. Vejamos alguns.
No afã de defendê-la, a Prefeitura de S.Paulo chega até a dizer que o único mastro da ponte, com 138 metros de altura, “será o segundo ponto mais alto da Cidade, apenas dez metros mais baixo que o prédio do Banespa”. Mais uma prova que a atual administração “democrata” nada conhece da cidade: o edifício-sede do Banespa possui 161,22 metros de altura, e não 148 metros, conforme o cálculo da municipalidade; e, o que é pior ainda, como é sabido, há construções ainda mais altas, como o Edifício Itália, com 163 metros (150 a partir do nível da rua), e o Mirante do Vale, com 170 metros, ainda o edifício mais alto do país. Ah, o que não se faz para se inflarem números... Até desconhecê-los.
E, ao mesmo tempo, gaba-se a extensão de seu vão principal: 122 metros. O que eles não informam é o porquê de escolherem tal sistema, já que tal tipo de pontes são empregadas em locais onde a circulação de barcos e navios é muito intensa, como no caso da Ponte da Normandia, situada na foz do rio Sena entre Honfleur e Le Havre, com 856 metros de vão central, e da Ponte Skarnsundet, na Noruega, cujo vão mede 326 metros. Na verdade, tal sistema só tem sentido em lugares onde o tráfego marítimo ou fluvial realmente existe, como nos casos da Ponte do Brooklyn, em Nova Iorque, da Ponte Golden Gate, em S. Francisco, Califórnia, da Ponte 25 de Abril, em Lisboa, da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, e até mesmo da ponte pênsil sobre o Rio Piracicaba, visto que ali havia um ativo tráfego de pequenos barcos a vapor, à época de sua construção. Agora, convenhamos, que movimento fluvial existe no Rio Pinheiros, para além das dragas que removem de seu leito a sujeira de toda uma cidade?
É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!
Fica no ar a pergunta: será que o tráfego fluvial do Rio Pinheiros irá aumentar? Será que veremos empresários, políticos, empreiteiros, apresentadores de televisão, socialites, navegando em lanchas e iates pelas águas cremosas e mal-cheirosas daquele rio? Seria um espetáculo e tanto...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de dezembro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Uma proposta modesta

Passando, recentemente, por Sorocaba, notei alguns aspectos curiosos ali revelados no que diz respeito ao paisagismo e ao respeito à natureza. Para quem não conhece a cidade, digo que ela é atravessada por um rio – o Sorocaba – que não é muito largo, mas é bem caudaloso. Uma de suas margens encontra-se plenamente urbanizada, com uma ciclovia, uma avenida e construções sem grande interesse. A outra teve sua flora nativa preservada e, por conta disso, muitos animais são para ali atraídos. E não só garças – que estas vivem até mesmo no esgoto. Avistei também mergulhões e, mais raros, paturis e jabutis. Tudo isto em pleno centro da cidade. E o mais interessante: vêem-se, às suas margens, inúmeros pescadores, dedicando-se a uma boa forma de lazer e, repito, isto em pleno centro da cidade. Além do mais, pelo que tudo indica, a pesca deve ser boa naquele rio, tal a quantidade dos amantes do esporte ali encontrada.
Em Londrina, graças ao complexo de lagos do Igapó, cujas margens têm boa parte da vegetação preservada, bem como, percebe-se, um belo paisagismo em seu entorno, observa-se algo parecido. Se, por um lado, a fauna não é tão rica quanto à de Sorocaba, ela está longe de ser medíocre. Se a arborização, em certos trechos, parece mais planejada do que conservada, a mesma é, ainda assim, abundante e agradável à vista. Da mesma maneira, percebe-se um certo empenho por parte da prefeitura – ou melhor, de muitas administrações, ao longo do tempo – em não permitir a instalação, nas suas margens, de fábricas, depósitos, comércio de atacado e demais atividades notórias por sua feia arquitetura. Em suma, criou-se um ambiente belo aos olhos, sombreado, saudável, que atrai pescadores, casais enamorados, praticantes de caminhadas e outras atividades esportivas.
Americana, por outro lado, tem as condições ideais de criar algo do gênero, mas não cria. Cortada pelo rio Quilombo, bem sombreado, diga-se, poderia em suas margens criar um belo parque, um complexo de lazer, mas insiste em manter aquele curso d’água como uma fossa a céu aberto, fedorenta, imunda, em cujas margens só encontram guarida gente marginalizada e capivaras infestadas de carrapatos. E em pleno coração da cidade.
Ouro Preto tem o córrego dos Contos. Estreito, tranqüilo, com trechos esquecidos no meio de um mato que ali se encontra somente porque o terreno era íngreme demais para a construção do que quer que fosse. Quando seu entorno mostra-se mais plano, é cercado, de ambos os lados, por construções. Entrou para a história pelo ouro encontrado em suas margens. No início do século XIX, foi planejado, sem todavia sair do papel, o primeiro Horto Botânico do Estado do Brasil, que ali seria estabelecido – antes mesmo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – este é de 1808, o ouropretano, de 1801. E, mais tarde, tiveram aquelas margens certo renome porque ali se plantou chá, em larga escala. Até que ele se tornou num simples esgoto ao ar livre, e pior, o esgoto não só de muitas moradias, como também da Santa Casa de Misericórdia. Ou seja, mais um foco de doenças do que um riacho. Mas até mesmo em Ouro Preto, onde para se mudar alguma coisa são necessárias décadas, quando não séculos, inverteu-se a situação, salvando-se o córrego dos Contos. Hoje, suas margens tornaram-se um parque, com alamedas, quadras de esporte, quiosques, bancos, iluminação. O esgoto foi, em sua maioria, banido. Tornou-se, enfim, um lugar aprazível para moradores e turistas.
Quero dizer, com tudo isto, que é uma vergonha o que muitas cidades fizeram, e ainda fazem, com o seu patrimônio ambiental. Não sou nenhum ecologista radical, pelo contrário, mas convenhamos, um ambiente limpo, saudável e bonito não é somente bom para a Natureza: é bom para os cidadãos, para o turismo, para o comércio, para os esportes, para a auto-estima da cidade. Um amigo de Presidente Prudente contou do que aconteceu por lá depois que se limpou um rio que cruza a cidade e se urbanizaram suas margens. O local virou um ponto de atração para gente de toda parte, de lazer para seus moradores, e de orgulho para seus habitantes. Disse-me ele que atualmente, quando chega alguém de fora, o primeiro local apresentado, com satisfação, pelos moradores, é justamente as margens daquele rio, arborizadas, onde se abriga o Parque do Trabalhador, há praças, aparelhos de ginástica, pistas de corrida, brinquedos infantis e águas limpas. É, portanto, uma vergonha que cidades grandes como São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, para ficar entre algumas que conheço bem, não façam a mesma coisa. Uma vergonha não ouvir as mudanças ocorridas em tantas cidades médias e pequenas. Como também é vergonhoso que tantas, dentre estas, não sigam os modelos apresentados por suas irmãs.
No caso de Leme, acho que algo de bom poderia ser feito neste sentido. Não falo do Serelepe, paralelo à Avenida Carlo Bonfanti. Creio que o melhor que se possa fazer por ele é canalizá-lo, limpá-lo (para que não vire um imenso criadouro de ratos e outras pragas) e, sobre ele, alargar-se a avenida, dotá-la de um canteiro central arborizado. Já no que diz respeito ao córrego Constantino, algo mais pode ser feito. Por que não, depois de impedir a emissão de poluentes em suas águas, encher suas margens de árvores – irrigadas, não deixadas ao deus-dará, valendo-se dos recursos despendidos para aquela bizarra decoração natalina de outros tempos? Por que não construir espaços de lazer, belos, agradáveis, um motivo de orgulho para toda a cidade e região? É uma proposta modesta. Mas, acredito, muito boa. Algo a se pensar. Não acham?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de outubro de 2008].

Nem sempre o tempo é um bom conselheiro


A imagem acima é do Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer no final dos anos 1930, e erguido no princípio dos 1940. Conta-se que na planta original todas as janelas seriam como a que se vê no canto esquerdo, octogonais, e a cobertura seria uma laje com um espécie de jardim-suspenso – só quem conhece muito pouco a cidade pensaria em algo assim, com pouca ventilação e com risco certo de infiltração (chove uma barbaridade, o ano todo). Coube ao arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998), um modernista que entendia muito de patrimônio histórico, demover seu confrade daqueles planos, sugerindo o emprego das varandas de madeira e da cobertura de telhas, como se vê em toda a cidade. E, felizmente, logrou seu intento. Se, para muitos, ainda hoje, é um susto vê-lo em meio ao casario colonial, com o tempo acostuma-se com ele. Percebe-se que não é tão discrepante assim: o original seria muito pior. Mas Niemeyer nunca ficou satisfeito com isto. Tanto que bastou seu companheiro de ofício morrer, e ele voltou à carga, conseguindo que pelo menos uma das varandas fosse alterada, convertendo-a na janela mencionada. E teria prosseguido, não fosse o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ter embargado a continuação da obra.
Em São Paulo, recentemente, quiseram reformar o prédio do Detran, em frente ao Parque do Ibirapuera, para transformá-lo num museu. Como a construção também é um projeto de Niemeyer, chamaram-no para que propusesse as alterações. E, de imediato, o que ele planejou: que se fechassem todas as vidraças, substituindo-as por uma imensa superfície branca, sem janelas. Até o governador José Serra de Chirico viu que não tinha cabimento ter-se uma construção em frente a um parque fechada para este. E tiraram o velho “guia genial da arquitetura dos povos” da frente dos trabalhos.
A última do grande arquiteto – não confundam com “o Grande Arquiteto” – deu-se em Brasília, na qual a lei determina que Oscar Niemeyer, e só ele, pode mexer na arquitetura pública da capital, “do toldo do Itamaraty à churrasqueira do Alvorada”, como se brinca. Ali intentou construir uma Praça da Soberania em plena Esplanada dos Ministérios. E na tal praça, ergueria um prédio, chamado de Memorial dos Presidentes, com um obelisco de cento e cinquenta metros de altura, e um estacionamento para três mil automóveis. Com exceção das empreiteiras e dos fabricantes de cimento, ninguém gostou da idéia. A geringonça, disseram, acabaria servindo como uma espécie de tapume, obstruindo a visão do prédio do Congresso Nacional. Houve até quem arriscasse que muitos congressistas apreciaram a idéia: nada como um tapume na frente para que ninguém veja o que se faz atrás...Outro aspecto levantado seria uma certa impropriedade na homenagem aos presidentes, como um todo. Houve gente de bem, primeiro no Palácio do Catete e até no Alvorada, como, também, um povinho que passou por lá que melhor seria se não tivéssemos de recordá-lo, e que não merece, certamente, um monumento. Mas a pá de cal na coisa toda foi dar o nome de Praça da Soberania a um estacionamento para milhares de automóveis. Começa-se assim. Depois, abole-se a palavra “cidadãos” e institui-se, em seu lugar “motoristas”. Termina-se por se chamar o Presidente da República em “Excelentíssimo Senhor Guardador de Carros”...
Niemeyer tem um legado arquitetônico tão vasto quanto os seus anos de vida. Não deveria maculá-lo com arroubos juvenis estando já mais do que centenário. Que desenhe. Que projete. Mas que não queira que aceitemos tudo que vem de seu lápis como a verdade transposta em linhas. Há mais gente na área que produz muita coisa boa e com mais sentido. É necessário que as velhas e imensas árvores tombem para que as mais jovens, à sua sombra, possam crescer.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de fevereiro de 2009].

Entre a salvação e a ruína

Atendendo ao pedido de alguns amigos e leitores que não puderam ler um artigo que publiquei no jornal Folha de S. Paulo, na coluna Tendências/Debates de 27 de março passado [2009], transcrevo-o abaixo:

“NOS MEUS dias de estudante em Mariana, MG, um amigo me dizia, em tom de brincadeira e crítica, que aquela era a única cidade que ele conhecera onde o patrimônio histórico não só era "tombado, como também escorado". O objeto de seu comentário era um antigo sobrado que agonizava em plena praça Cláudio Manoel, defronte à Sé de Mariana, durante anos mal sustentado por escoras de madeira, numa eterna iminência de queda.
Hoje, o prédio encontra-se restaurado, mas vários outros não tiveram a mesma sorte: foram ao chão, por descuido de seus proprietários e dos poderes públicos. E tal se deu na rua Direita, um dos "cartões-postais" da cidade.
Se isso foi possível na turística primeira capital de Minas Gerais, com suas imponentes igrejas, da Sé, de São Francisco, de São Pedro dos Clérigos e de Nossa Senhora do Carmo – cujo interior, riquíssimo, foi praticamente todo devorado pelo fogo, em 1999-, imagine o que poderia ocorrer em distritos afastados da sede do município.
Pois não é preciso mais imaginar: já está acontecendo, em Santa Rita Durão, distante pouco mais de 20 km de Mariana. Berço do poeta árcade – autor do épico "Caramuru" – cujo nome, em 1895, substituiria o de Inficionado, denominação primeira do lugar, esse distrito marianense possui dois preciosos templos do século dezoito que estão se desfazendo ante os olhos da população. A matriz de Nossa Senhora de Nazaré, cuja construção teve início em 1729 e que foi tombada em 1945, passa por uma restauração que já completou o décimo aniversário sem que melhora alguma possa ser vista.
As infiltrações de água danificam suas paredes, o entablamento, o piso e, principalmente, a pintura do forro, de João Batista de Figueiredo, datada de 1778 e que se encontra quase completamente destruída. Além disso, a falta de vigilância permitiu que parte de sua decoração de talha fosse arrancada dali. E dizem que nem sequer o foi na calada da noite... Já a capela de Nossa Senhora do Rosário, uma joia do rococó, igualmente tombada em 1945 e que tem excelentes pinturas nos forros da capela-mor e da nave – estas, pelo menos, restauradas em 2000 –, apresenta um avançado estágio de deterioração estrutural. Suas paredes de taipa pendem para o lado e nelas se observam grandes e profundas rachaduras. Tal inclinação permitiu que o reboco, em muitas partes externas, ruísse de seus suportes e provocou o deslocamento dos retábulos colaterais.
A situação ainda é mais grave quando se recorda que num deles, o colateral esquerdo, existe uma obra atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está seriamente ameaçada. Ou seja, nem o Aleijadinho está a salvo em Santa Rita Durão, Mariana. Ao descaso dos órgãos públicos, que não investigam tais fatos ou não tomam as medidas cabíveis para saná-los, soma-se o pouco caso dos interesses privados. Em visita recente (janeiro de 2009), fomos informados pelos moradores que, em razão da queda de uma ponte em março de 2008, os caminhões das mineradoras que exploram a região têm desviado seus trajetos costumeiros e acabam por passar perto da capela, comprometendo ainda mais suas fundações.
Como se vê, trata-se menos de um caso de esquecimento e mais de verdadeira omissão. Que se compreende, mas não se justifica, pelo fato de o distrito não se situar nas rotas turísticas principais, por ser distante da sede e pelo número pouco elevado de habitantes – ou por serem eles pouco influentes do ponto de vista político. Por outro lado, são várias e bem conhecidas as autoridades que poderiam dar um basta a essa vexaminosa situação: a Arquidiocese de Mariana, proprietária dos prédios, o governo municipal, o estadual e o federal, quer diretamente, quer por meio de seus institutos de preservação do patrimônio ou de incentivo ao turismo.
A iniciativa privada também deveria fazer algo por eles, seja pelo seu potencial de atração de visitantes, seja como marketing social – moeda tão apreciada hoje em dia por entidades que, muitas vezes, parecem sofrer de uma consciência um pouco pesada. Em tempos de tão cantada e decantada crise econômica, pedir recursos para a proteção do patrimônio deve soar a alguns ouvidos como um verdadeiro absurdo. Mas relíquias do nosso passado, diferentemente de lucros e investimentos, não podem ser refeitas a cada novo ano fiscal. São obras únicas e insubstituíveis.
Registramos aqui a denúncia e cobramos céleres providências por parte dos responsáveis. É salvarmos os templos ou incluí-los numa outra modalidade turística ou arqueológica: a visitação e o estudo das ruínas do século XVIII mineiro.”

Foi este o texto que naquele jornal publiquei. Espero que achem interessante.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de abril de 2009].

Pirâmides no deserto

Acredito que os leitores já tenham ouvido falar do The Venetian Resort Hotel Casino, um imenso hotel de Las Vegas, EUA, cuja decoração é toda inspirada na cidade de Veneza, Itália – mas é claro que em proporções exageradas. Ali chegaram ao requinte – no sentido de perseverança e trabalho, não de bom gosto -- de reproduzirem não só o grande Campanário da cidade italiana, em escala 1:1, como também um pouco da Praça de São Marcos e, o mais grandioso, a imitação de um trecho do Gran Canale e outros canais venezianos – resultando numa piscina, singrada por gôndolas, cujas dimensões desconheço, mas, por alto avaliaria como do tamanho de umas duas ou três piscinas olímpicas. E, o mais curioso, debaixo daquela grande massa de água é que se encontram os salões do cassino. A obra, dos arquitetos The Stubbins Associates, é de 1999 e, até onde sei, não houve qualquer infiltração ou vazamento dos canais para o centro de jogatina abaixo dele.
Saltemos para o Brasil. Primeira escala: Niterói, RJ.
Em 2 de setembro de 1996, foi inaugurado o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, obra idealizada por Oscar Niemayer, “o maior arquiteto brasileiro vivo”, como se costuma dizer. Sabem a que prédio me refiro. É aquele que alguns chamam de disco voador, outros de cálice, outros ainda comparam-no a uma planta, cujo caule emergiria de um espelho d’água, de 800 m2, e, creio, não mais do que um metro de profundidade. Pois bem, já em 2006 – fui testemunha ocular – o espelho precisou ser refeito, por conta de vazamentos, infiltrações, etc. E, segundo me informaram à época, aquelas não foram as primeiras intervenções na construção.
De Niterói, pulemos para São Paulo. Em notícia recente, foi divulgado que o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, cujo prédio na avenida Paulista foi inaugurado em 1968, terá um de seus espelhos d’água reformado para “conter infiltração e vazamentos”. Seu volume é calculado em 50 mil litros, o que corresponde a uma piscina de aproximadamente 50 m2, ou 10m x 5m, com um metro de profundidade – na verdade, tem um pouco mais do que isto. Custo da obra: R$ 2 milhões. Isto mesmo dois milhões de reais. Êta piscininha cara! Alegam que a obra é necessária porque o tanque sofre com as variações de temperatura decorrentes da incidência do sol – como se qualquer piscina também não sofresse, já que não conheço uma que tenha sido construída à sombra.... Mas pode-se alegar que no caso do espelho d’água, a situação é diferente. Ele não está enterrado no chão, mas ergue-se do terreno, como, de fato, um tanque. Daí ser possível inferir que a pressão da água tenha, também, alterado sua estrutura. Conversa! Muito antes da dengue, aqueles tanques viviam esgotados – sou, novamente, testemunha ocular, desde pelo menos meados dos anos 1980.
Em vista do exposto, é realmente assustador pensar que o Brasil irá abrigar uma Copa do Mundo de Futebol e que anseia por ser a sede de Jogos Olímpicos. Tais eventos implicam imensas construções que, aos preços que custam as obras públicas, se tornarão verdadeiras fortunas desperdiçadas. Para legar-nos, talvez, belos, mas inúteis prédios fadados à ruína. As pirâmides do Egito justificavam-se. Eram a expressão de um Estado autocrático e teocrático. Numa democracia leiga, todavia, tais coisas deveriam ser deixadas de lado. Ainda mais quando duvidamos dos nossos técnicos responsáveis por erguê-las e dos responsáveis que irão gerir o dinheiro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de maio de 2009].

sábado, 30 de maio de 2009

Retratos por uma câmera fora de foco

Por conta do tal Ano da França no Brasil, o governo daquele país e o nosso bancaram um anúncio, veiculado nas tevês abertas e por assinatura, que pretende mostrar que a terra dos franceses não é só feita de tradições, mas de modernidade também. Desta maneira, alternam-se, naquela peça publicitária, imagens dos eternos cartões postais (Torre Eiffel, Arco do Triunfo, etc.) com novas criações arquitetônicas (a pirâmide de vidro em frente ao Louvre, do arquiteto chinês I. M. Pei, e o Grande Arco de la Défense, de seu confrade dinamarquês Otto von Spreckelsen).
Seguindo a seara de tentar mostrar que aquele país se abre aos ventos da mundialização, eis que se vê um tradicional café parisiense com pessoas sentadas às mesas na calçada e, ao invés dos tipos tradicionais que se espera ver em tais cenas (os estereótipos variavam dos tipos intelectuais aos galãs e às modelos), vemos, brevemente, um grupo multirracial ou multicultural: há até uma moça muçulmana, de véu, entre os convivas.
O aspecto musical também é brevemente apresentado, num instantâneo em que se percebe um grupinho de rap e, creio, alguns roqueiros. Pronto! Esta seria a mescla atual da cultura francesa, o seu novo legado para o mundo.
Não tenho nada contra, previamente, a imagem que um país quer passar a seu respeito para que o mundo o compreenda melhor. Não falo, evidentemente, dos casos das ditaduras asiáticas da China, Coréia do Norte, Mianmar (antiga Birmânia) e outras menores, mas não menos cruéis (menos, tão somente, por uma questão de escala, frente às maiores). Nem de tantas pequenas nações islâmicas, falsos oásis de prosperidades, onde a riqueza de fato se concentra nas mãos dos emires, reis e seus parentes: à raia miúda, o silêncio e as leis medievais. Nestes casos, a falsidade é gritante, os discursos não passam de propaganda e os horrores nunca vêm a público. Quando da Olimpíada de Pequim, em que mostravam a todo momento os ginásios, estádios e quejandos, os novos prodígios da arquitetura local, o que me vinha à lembrança eram aquelas cafonices megalômanas dos arquitetos nazistas, fascistas e stalinistas (somente os materiais e os sinais eram novos: a ideia de fundo era a mesma).
Mas, como dizia, que triste imagem a França quer passar de si mesma para o Brasil.
Alguém, por acaso, já ouviu o roque francês? Eu já. É tão discernível e relevante quanto o roque, digamos, finlandês, colombiano, paquistanês ou canadense. Em suma, mais do mesmo. Quanto ao rap, então...Que tipo de nação, aliás, gostaria de ser associada, oficialmente, por suas relevantes criações artísticas no campo do rap? É de chorar de rir...
Curiosamente, não há uma única menção ao cinema. Deve ser porque já entregaram os pontos. Independente de toda a belíssima tradição cinematográfica francesa, é como se dissessem que cinema, de fato, é para norte-americanos.
Da pintura e escultura, nem uma imagem. Pudera. Desde Matisse (1869-1954), a França não dá mais as cartas nesse assunto. Salvo por Picasso (1881-1973) que, aliás, era espanhol. E Niki de Saint Phalle (1930-2002) tem algumas coisas graciosas, mas tão relevante na história da arte quanto, digamos, Fernando Botero e seus gordinhos serão daqui a algumas décadas: um curiosidade engraçadinha, se tanto.
A França, que verdadeiramente importa, é a das catedrais e castelos do medievo; do Renascimento e dos Luíses; de Napoleão I e Napoleão III; da República até os tempos de Gaulle. Ali, então, se construiu, se compôs, se escreveu, se dançou, se pintou e se esculpiu o Belo. Estes, sim, foram seus grandes legados. Suas proporções clássicas, claras, elegantes e humanas – daí toda a crítica em torno da Torre Eiffel, à época de sua construção e que, com os tempos, foi assimilada.
Portanto é incompreensível que a terra que tem a Cidade Luz como sua capital queira ser vista pelo mundo por uma música ruim que qualquer um é capaz de fazer, e por novos e gigantescos prédios que qualquer milionário grosseiro e inculto de Miami, Xangai ou Dubai pode fazer ainda melhor.
Não, definitivamente, não! Não é este o verdadeiro legado francês.