Acredito que os leitores já tenham ouvido falar do The Venetian Resort Hotel Casino, um imenso hotel de Las Vegas, EUA, cuja decoração é toda inspirada na cidade de Veneza, Itália – mas é claro que em proporções exageradas. Ali chegaram ao requinte – no sentido de perseverança e trabalho, não de bom gosto -- de reproduzirem não só o grande Campanário da cidade italiana, em escala 1:1, como também um pouco da Praça de São Marcos e, o mais grandioso, a imitação de um trecho do Gran Canale e outros canais venezianos – resultando numa piscina, singrada por gôndolas, cujas dimensões desconheço, mas, por alto avaliaria como do tamanho de umas duas ou três piscinas olímpicas. E, o mais curioso, debaixo daquela grande massa de água é que se encontram os salões do cassino. A obra, dos arquitetos The Stubbins Associates, é de 1999 e, até onde sei, não houve qualquer infiltração ou vazamento dos canais para o centro de jogatina abaixo dele.
Saltemos para o Brasil. Primeira escala: Niterói, RJ.
Em 2 de setembro de 1996, foi inaugurado o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, obra idealizada por Oscar Niemayer, “o maior arquiteto brasileiro vivo”, como se costuma dizer. Sabem a que prédio me refiro. É aquele que alguns chamam de disco voador, outros de cálice, outros ainda comparam-no a uma planta, cujo caule emergiria de um espelho d’água, de 800 m2, e, creio, não mais do que um metro de profundidade. Pois bem, já em 2006 – fui testemunha ocular – o espelho precisou ser refeito, por conta de vazamentos, infiltrações, etc. E, segundo me informaram à época, aquelas não foram as primeiras intervenções na construção.
De Niterói, pulemos para São Paulo. Em notícia recente, foi divulgado que o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, cujo prédio na avenida Paulista foi inaugurado em 1968, terá um de seus espelhos d’água reformado para “conter infiltração e vazamentos”. Seu volume é calculado em 50 mil litros, o que corresponde a uma piscina de aproximadamente 50 m2, ou 10m x 5m, com um metro de profundidade – na verdade, tem um pouco mais do que isto. Custo da obra: R$ 2 milhões. Isto mesmo dois milhões de reais. Êta piscininha cara! Alegam que a obra é necessária porque o tanque sofre com as variações de temperatura decorrentes da incidência do sol – como se qualquer piscina também não sofresse, já que não conheço uma que tenha sido construída à sombra.... Mas pode-se alegar que no caso do espelho d’água, a situação é diferente. Ele não está enterrado no chão, mas ergue-se do terreno, como, de fato, um tanque. Daí ser possível inferir que a pressão da água tenha, também, alterado sua estrutura. Conversa! Muito antes da dengue, aqueles tanques viviam esgotados – sou, novamente, testemunha ocular, desde pelo menos meados dos anos 1980.
Em vista do exposto, é realmente assustador pensar que o Brasil irá abrigar uma Copa do Mundo de Futebol e que anseia por ser a sede de Jogos Olímpicos. Tais eventos implicam imensas construções que, aos preços que custam as obras públicas, se tornarão verdadeiras fortunas desperdiçadas. Para legar-nos, talvez, belos, mas inúteis prédios fadados à ruína. As pirâmides do Egito justificavam-se. Eram a expressão de um Estado autocrático e teocrático. Numa democracia leiga, todavia, tais coisas deveriam ser deixadas de lado. Ainda mais quando duvidamos dos nossos técnicos responsáveis por erguê-las e dos responsáveis que irão gerir o dinheiro.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de maio de 2009].
A vaca estradeira
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