quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Uma palavra e uma prática

Há pouco tempo atrás eu fazia umas pesquisas em revistas dos anos 1960, 1970 e 1980. O objetivo era bem definido – algumas questões relativas à conservação de antigos monumentos. Mas é muito difícil, depois de algumas horas de leitura, manter a totalidade da concentração. Chega um momento em que começamos a reparar em outros assuntos que não o principal, a perceber certas curiosidades que nada tem a ver com o trabalho. Naquela ocasião, chamou-me a atenção o constante emprego de uma palavra que quase ninguém usa mais. Sua prática, por outro lado, disseminou-se largamente, mas o termo caducou. Trata-se de hobby, ou em bom português, passatempo.
Ainda assim, passatempo não traduz bem a palavra inglesa. Assistir à televisão, a um jogo num estádio, a um filme, a uma peça teatral, a um espetáculo musical, são, na maioria dos casos, passatempos. O mesmo cabe, também, às palavras cruzadas, ao jogo de paciência e, sob alguns aspectos, a prática esporádica de algum esporte ou até mesmo os jogos de computador. Mas o conceito original era outro. Ele previa um grande envolvimento entre o praticante e a coisa praticada, com o grau mesmo de quase profissionalismo ou razoável conhecimento do assunto.
As revistas daquele período enfatizavam a necessidade das pessoas adultas em cultivarem algum hobby. O modelo para tal prática era o norte-americano, cuja sociedade, desde uma década antes (1950), pelo menos, incentivava uma atividade paralela ao trabalho quotidiano. Da minha parte, acredito que tal insistência numa segunda prática derivasse de dois fatores. Em primeiro lugar, seria uma decorrência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Graças a grande mobilização humana naquele conflito, uma gama muito variada de homens foi convocada, para além dos militares de carreira. E em virtude das múltiplas experiências de cada um, foi possível utilizar uma certa improvisação em momentos de necessidade, quando os manuais militares mostravam-se falhos. Daí é um passo pequeno para que se incentive no homem comum a busca por vários conhecimentos e por outras atividades: o “desabrochar de outros talentos”. O segundo motivo seria a própria Guerra Fria (1945-1989), cujo ápice se deu, efetivamente, entre os anos 1950-60. Mesmo o mais empedernido falcão anticomunista norte-americano sabia já dos perigos da alienação do trabalho e o risco dos trabalhadores, extenuados pela rotina, cederem a válvulas de escapes perniciosas: jogos de azar, drogas, comportamentos tidos como antissociais ou subversivos. Então, devem ter pensado, passatempo neles! Um terceiro fator, talvez, pudesse ser arrolado: seria uma tentativa de se diminuir o sedentarismo e os males decorrentes dele. Assim como um quarto: o descanso mental por meio de hobbies poderia dinamizar a economia, aumentando o consumo de bens para a prática dos mesmos, e a produtividade, pelo relaxamento saudável das tensões. Todavia, estes fatores me parecem decorrentes de um raciocínio mais atual, do que o da época. O que não quer dizer que nos EUA não se pensava nisto naqueles tempos.
Para o Brasil daquelas décadas – e para grande parte do mundo, também – aquele era um conceito novo. Só os muito endinheirados e/ou ociosos poderiam se dar ao luxo de fazer alguma coisa que não somente trabalhar. Não que, por aqui, tais práticas não existissem. Pianistas amadores – e, mais tarde, violonistas – sempre foram comuns entre nós, ou, ao menos, desde o início do século XX. Assim como jogadores de cartas. E até mesmo a criação de rosas. O mesmo se aplica ao carteado, a alguns jogos de salão e a algum tipo de prática esportiva. Mas eram raros. Raríssimos.
Hoje em dia, rara é a pessoa que não tem o seu hobby, ainda que não se refira a ele nestes termos, de tal maneira eles foram incorporados à vida. Não conheço ninguém de minha geração – ou da imediatamente anterior, ou da posterior, incluindo-se as intermediárias a elas (ou seja, a faixa que vai dos vinte aos sessenta anos) – que não se dedique a uma atividade esportiva, colecione alguma coisa, cultive plantas, desenvolva toda sorte de trabalhos manuais ou mesmo gaste um precioso tempo com jogos virtuais ou de tabuleiro.
O que considero mais curioso nesta história toda é verificar como uma palavra instituiu uma prática e como esta faz desaparecer a primeira, que lhe nomeava. Coisas do mundo moderno...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de abril de 2009].

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