quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Onde há fumaça, há fogo...

Os gregos – sempre eles! – tinham um expressão formidável: καλόν καχόν (lê-se kalón kakón), que significava algo que era bom ou belo e, ao mesmo tempo, mau ou feio. O exemplo máximo era Helena de Tróia: belíssima como mulher e que provocou o mal, a Guerra de Tróia.
Quem fuma, ou já fumou, sabe que ao cigarro (ao charuto, ao cachimbo, etc.) cabe a mesma definição. Ele é péssimo para a saúde, é fedido, suja de cinzas a mobília e não raro queima um sofá, a roupa, os dedos e, até mesmo, os olhos: quem nunca se chamuscou com um brasa, fumando ao vento? Por outro lado, que delícia é um cigarro! Que prazer sentimos enquanto fumamos! Há, aliás, toda uma mitologia a respeito desta agradável sensação. Lembremos daquele grande tango Fumando Espero (de J. Viladomat Masanas e F. Garzó) e sua primeira estrofe: Fumar es un placer, genial, sensual…/ Fumando espero a la que tanto quiero [...]/ y mientras fumo mi vida no consumo,/ porque flotando el humo me suelo adormecer. E daquela ótima passagem de uma bela música de Caetano Veloso, Livros: Os livros são objetos transcendentes/ Mas podemos amá-los do amor táctil/ Que votamos aos maços de cigarro... Formidável!
Mas, ao que tudo indica, os prazeres fumígenos (esta é do arco-da-velha!) nos espaços públicos estão com os dias contados. Adeus, ótimos momentos de conversa, regados à boa bebida, comida e cigarros, enquanto observávamos o movimento das pessoas! Quantos debates não foram aprofundados entre uma baforada e outra! Quantas discussões não foram evitadas porque alguém, num momento crucial, ao invés de uma resposta apressada e ríspida, decidiu acender um cigarro, refletindo melhor, apaziguando-se! O banimento dos fumantes do espaço público poderá ser o fim de uma forma de civilidade tão próprias dos séculos XIX e XX. Uma sociabilidade que se esvairá com a fumaça...
Assim, depois de segregados, os fumantes no Estado de São Paulo agora serão cassados. E caçados! Por iniciativa do excelentíssimo senhor governador, o simpaticíssimo Chirico, em breve não se poderá mais fumar em nenhum local público fechado, ou coberto. Salvo, é claro, em exclusivíssimas tabacarias da capital paulista, onde os amigos banqueiros de sua excelência degustam caríssimos charutos. Caberia ao povo, agora, em represália, e valendo-se do princípio da igualdade, abrir botequins, bares e restaurantes com uma imensa placa dizendo, por exemplo: “Tabacaria do Chope – também servimos pratos e porções”. Ou “O Frango Defumado: tabacaria e petiscaria”. Isto sim seria isonomia! Neles só entraria quem fuma e quem não se importa com cigarros. Os não fumantes teriam todos os outros inúmeros locais do mundo inteiro para freqüentarem.
Por outro lado, tenho minhas dúvidas de que esta lei seja cumprida. Muita coisa ainda está incerta e algumas perguntas se impõem. Por exemplo, se alguém acender um cigarro num parque, debaixo de um quiosque coberto de sapé, ele será multado ou impelido a se afastar da cobertura? Na praia, alguém fumando debaixo de um guardassol será autuado ou expulso da sombra protetora? Se o guardassol for de um condomínio, ou de uma colônia de férias do Estado, eu até entendo. Mas se for de um hotel? Prevalecerá a ideia de “espaço comum”, ou a de extensão dos aposentos – que, por sua vez, tem foros legais de extensão do próprio domicílio? Será então criada uma legislação própria para tais casos? Se for, é possível, talvez, deliberar-se que se pode fazer tudo o que se quer à sombra dos guardassóis e à vista de todos... E um outro imbróglio jurídico desnecessário seria criado.
Outra pergunta: quais serão os responsáveis pela vigilância? Serão os mesmos que fiscalizam o consumo de bebidas e cigarros por menores de idade nos postos de gasolina? Ou será instaurada a delação dos iguais? Um cidadão fiscalizando o outro, como num regime de exceção?
Cigarros, charutos e cachimbos podem não cheirar muito bem. Mas esta lei, por tantos motivos, cheira pior ainda...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de abril de 2009].

Nenhum comentário:

Postar um comentário