sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os quarenta anos do golpe

Uma das primeiras coisas que se aprende acerca da história, ainda que pareça contraditório a muita gente, é que a proximidade no tempo entre um dado episódio e um historiador que deseja estudá-lo acaba mais por atrapalhar do que ajudar. Se ele, historiador, participou do episódio, ou viveu o momento, então é pior ainda. Dificilmente teremos um relato desinteressado sobre o assunto, qualquer assunto.
De modo que, apesar dos quarenta anos do golpe militar de 1964, considero muito cedo ainda a possibilidade de uma avaliação isenta de todas as suas causas, aspectos e conseqüências. Algumas certezas, evidentemente, existem, pois durante os vinte e um anos em que durou a infeliz aventura militar à testa do país, observou-se toda a sorte de desmandos e brutalidades possíveis, e outras tantas somente imagináveis pelas mentes mais doentias. A tortura, o assassinato sistemático e o “desaparecimento” de pessoas são os aspectos mais pungentes, que ferem o homem em toda a sua integridade. Mas o confisco de bens de dissidentes, a cassação dos direitos políticos e a mixórdia que a classe fardada fez com as leis nacionais, por muitos considerados aspectos de menor importância, clamam aos céus da pátria por justiça.
Outros aspectos da quartelada de abril de 64 saltam-nos igualmente aos olhos como indecifráveis. Se a “Marcha com Deus, pela Família e a Liberdade”, o estopim da intervenção, era representativa da maior parcela da população brasileira, os “comunistas” deveriam ser tão ínfimos que para debelá-los sequer seria necessário um golpe: bastaria uma maior aplicação dos órgãos de “inteligência” (sic) militar ou civil. Da mesma maneira, se o levante anticonstitucional de 1964 foi movido para impedir o “evidente avanço vermelho sobre o Brasil”, porque estes temíveis e tão organizados opositores foram incapazes de deter a movimentação das tropas golpistas? Alegou-se também que o movimento procurava substituir os principais nomes “torpes” da política nacional. Então por que depuseram Carlos Lacerda, adepto de véspera ao golpe e queridinho da Aeronáutica? Ou Adhemar de Barros, aderente de primeira hora? Pôr para fora os corruptos? Pensemos antes duas vezes quanto aos seus seguidores colocados à frente dos governos municipais e estaduais a partir de então: seriam assim tão honrados? Pensemos rapidamente nas criaturas que foram alçadas à cena pública naquele período e que até hoje aí estão. Grande exemplo moral!
Também não resta dúvida do legado econômico deixado pelo clã de patente. Lado a lado ao crescimento de uma bolha de aparente fartura, inchava-se a nossa dívida externa, acomodava-se nossa indústria a produzir o menos por mais, criava-se uma irrealidade fiscal, aliada a uma irresponsabilidade financeira, cujos frutos pagamos até hoje, e investia-se bom e são dinheiro em obras “imprescindíveis”, como a Transamazônica, as usinas nucleares de Angra... (vá lá: Itaipu é obra do período e é indispensável até hoje, tanto que quem quer que estivesse no governo à época teria de fazê-la, mais cedo ou mais tarde).
Já quanto ao legado cultural do infausto movimento, renderia toda uma série de crônicas, ao invés dos poucos parágrafos que aqui nos restam. Pois alguém, em sã consciência pode concordar com a reforma da Educação levada a cabo durante aqueles anos? A Universidade foi engessada, o rádio tornou-se esta mixórdia que hoje vemos, a televisão tronou-se o oráculo nacional, a imprensa amesquinhou-se e a literatura foi calada. Pregavam tanto o patriotismo e aleijaram-no em seu primeiro sustentáculo: a discussão política. Não, patriotismo para eles era o fundamentalismo ao hino, o fanatismo à bandeira, a idolatria à seleção de futebol. Bela herança.
Por outro lado, a tão temível “esquerda” do período não foi nem tão heróica nem mártir. Alguns poucos, muito poucos, talvez. E que descansem em paz. Mas se acreditavam-se capazes de uma revolução, o mínimo que se pode dizer é que eram uns alienados. O que não lhes tira a culpa de mandarem tantos jovens tresloucados à morte, em estúpidas e ineficazes guerrilhas urbanas e rurais com meia dúzia de gatos-pingados. E, curiosamente, para dizer o mínimo, a maior parte dos graúdos sobreviveu.
Na verdade, o problema de se tratar com a história recente, é que reconhecemos com muita facilidade os cafajestes: o mau cheiro deles ainda nos impregna as narinas. E qualquer e eventual ato de menor sordidez, ou até mesmo, por mais implausível que nos pareça, de grandeza, acaba por passar despercebido no meio de toda a sujeira. De modo que adeus à imparcialidade, adeus à correção.
É muito cedo, como dizíamos, para tratar deste assunto. Por ora, vamos deixar que os mortos descansem e que muitos ainda vivos se apressem em fazer-lhes companhia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

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