As relações entre a França e o Brasil são muito mais antigas do que alega o cerco patrioteiro. Muitos historiadores, aliás, acreditam que, se a tomada de posse da Ilha de Vera Cruz deve-se, de fato, a Pedro Álvares Cabral, naquele 22 de abril de 1500, o conhecimento da mesma porção do continente pelos franceses já era anterior, bem como o nome a ela dado, Brasil. Ou seja, Cabral veio e se foi, a carta de Pero Vaz de Caminha permaneceu um segredo de Estado até o século XIX — em suma, “a certidão de nascimento do Brasil” não foi conhecida por quem quer que fosse durante vários séculos — mas os franceses continuaram a navegar por nossas águas, a extrair o pau-brasil e a bem relacionar-se com nossos índios. O que explica, em boa parte, os dissabores que muitos de nossos avós portugueses sofreram na colonização desta terra.
Tal fase, primária, diga-se, estendeu-se ainda por muito tempo. Nos primórdios, quando esta colônia lusa mal tinha tomado forma, não passando de uma série de entrepostos comercias e vilas isoladas umas das outras no litoral, com centenas, quando não milhares, de quilômetros de distância entre elas, os franceses passearam, a seu bel prazer, por aqui. A ponto mesmo de iniciarem projetos de ocupação desta terra — daí a criação das colônias conhecidas como França Equinocial (norte do país) e França Antártica (do Rio de Janeiro para baixo) —, que incluíam até mesmo a criação de cidades, cujo máximo exemplo é São Luís do Maranhão. Mas tal presença não se verifica só naquelas plagas. Meu pai, que viveu alguns anos, entre as décadas de 1930-1940, na região de Ubatuba, referia-se a índios e caiçaras alourados, que traziam no pescoço, qual medalhas de santos ou colares tribais, antigas moedas francesas, furadas, e trespassadas por um barbante, algumas de ouro, e várias delas dos séculos XVI ao XVIII.
Que a França foi a grande referência cultural para o mundo durante séculos, é um fato incontornável. De São Petersburgo, na Rússia, a Washington, nos EUA, do Convento de Mafra, à reconstrução de Lisboa depois do terremoto de 1755, chegando às noções urbanísticas aplicadas no Rio de Janeiro poucos anos depois, todas estas obras reportam-se, diretamente, à construção do Palácio de Versalhes, síntese do poder e do fausto, regra para a construção de cidades-capitais desde então. Belo Horizonte, Aracajú, Boa Vista, Goiânia e Brasília, além de muitas cidades, jamais seriam cogitadas não fosse a concepção francesa de refundação do poder absoluto, bem como dos símbolos capazes de o provarem como legítimo, que são expressos da melhor forma por meio da arquitetura e de um desenho urbano que enfatizem suas motivações.
Quanto à influência da França na literatura e nas artes do mundo, a mesma mereceria todo o espaço de uma crônica, ou melhor, de um longo ensaio. Do trovar dos provençais como referência na poesia de Petrarca e Camões; passando por Rabelais, que legou aos ibéricos o picaresco e o jocoso; seguindo por Montaigne, que instituiu a moral, guiada pela razão, no Ocidente; continuando com Racine e sua valorização do mundo clássico; e, finalmente, seguindo os passos dos românticos, do realistas, dos simbolistas, etc., é de se perguntar qual literatura do mundo não foi direta e fortemente guiada pelas experiências francesas? Não é possível pensar em romances como O Primo Basílio (1878), de Eça de Queiroz, Ana Karenina (1877), de Tolstoi, e, até mesmo, o Dom Casmurro (1900), de Machado de Assis, senão como reinterpretações da mesma trama e dos mesmo problema lançados por Gustave Flaubert em seu clássico Madame Bovary (1857), só que aplicados às realidades locais, e culturais de Portugal, da Rússia e do Brasil no período em que foram escritas.
Nosso vínculo com a França vai, todavia, mais além. Por mais que se divulgue que copiamos o presidencialismo americano, nossos olhos sempre foram voltados para a França. É nela que reconhecemos, primeiramente, a idéia de República, e não nos EUA, cuja disputa política não se resolve no voto dos cidadãos e, sim, graças a “colégios eleitorais” que votam em dois partidos (uma espécie de Arena E MDB deles). E tanto éa França nossa referência republicana que, antes de adotarmos o “Virundu” como Hino Nacional, cantamos, por muito tempo, A Marselhesa.
Assim, visto que a França é a Pátria Espiritual de todo aquele que defende a cidadania moderna e a defesa dos direitos mais primordiais, que vêm sido negados por outras Repúblicas, é de assustar o fato do Sr. Nicolas Sarkozy ser eleito Presidente. E que nome, meu Deus! Lembra-nos, imediatamente, sarcoma de kaposi, o triste estigma que marca tantos portadores de HIV/AIDS qual uma chaga bíblica, qual um veredicto de condenação moral e física. Mas, afinal, quem é este senhor? Um advogado e político francês, descendente de húngaros, que propôs duras leis contra os imigrantes. Descendente de húngaros na política francesa? De acordo com a história, isto só traz problemas. Nada tenho contra a Hungria. Mas os últimos húngaros que influenciaram a política francesa o fizeram de forma catastrófica: lembremo-nos de Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, major do exército francês, notório traidor francês, cujos atos infames foram atribuídos ao capitão Dreyfus, num episódio que cindiu a França.
Acredito que o leitor esteja confuso principalmente quanto a um ponto: como um filho de imigrantes, caso do Presidente Sarkozy, se posiciona em prol de um endurecimento nas leis de imigração? À primeira vista, a idéia que temos é que está cuspindo no prato em que comeram seus pais. Uma infâmia, portanto. Seria o equivalente ao nosso Excelentíssimo Sr. Governador José Serra de Chirico — descendente de imigrantes “até a escuma do bofe”, como diria Guimarães Rosa — manifestar-se contra a imigração e a migração interna. Todavia, é uma prática política comum àqueles que não possuem um programa de governo efetivo, e que vêem no outro — conquanto este outro seja muito mais próximo deles do que dos nativos do país — uma ameaça.
Pranteemos a França, por sua péssima escolha. Pois chorar pelo Brasil, e pelas suas péssimas decisões, o fazemos dia à dia...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de junho de 2007].
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