Por meio da Paleontologia podemos conhecer a aparência física e a anatomia de nossos antepassados mais remotos, e dos animais com os quais conviviam, há milhões de anos. Através da Arqueologia, sabemos como viviam nossos ascendentes, distantes há milhares ou centenas de anos: o que comiam, o que vestiam, o que possuíam, onde e como moravam, suas práticas, crenças, hábitos. Novas correntes de outras ciências tradicionais (Geologia, Botânica, Agronomia, Química e Física, dentre outras), têm nos revelado, também, informações muito preciosas quanto ao clima, às plantas cultivadas e como assim o eram, às doenças que afligiam o passado, e um sem fim de coisas, que incluem domesticação de animais, aclimatação de vegetais, extração de minerais, migração de homens e bichos, inundações, terremotos, secas, etc.
Cabe à História peneirar todas estas informações, fundamentada em textos remanescentes de tais épocas ou naqueles que trazem referências a fatos muito, muito anteriores. Assim, como é sabido, graças aos estudos históricos, temos razoáveis — mas nunca “totais” — informações sobre vários e diversos períodos da longa aventura humana sobre a Terra. Vejamos alguns exemplos por meios do quais podemos perceber os “claros” e os “escuros” da história. Conquanto conheçamos minúcias do aparato político do Império Romano, já no que se refere à sua imensa atividade comercial, temos pouquíssimos registros. Por outro lado, da Mesopotâmia, berço de grandes impérios, temos um imenso conjunto de informações quanto ao preço das coisas, quanto às transações comerciais, volumes de cargas, etc., e muito pouco se conhece, todavia, da natureza de seu sistema político-administrativo e de seu funcionamento. E, da mesma maneira, sabemos como gregos, romanos e também os povos mesopotâmicos escreviam, e identificamos muitas de suas palavras, mas o modo preciso como as pronunciavam, para nós ainda hoje é desconhecido: ninguém sabe ainda em que casos o “v” latino era pronunciado com aquele som ou como “u”; e dos etruscos, povo que habitou a península itálica antes dos romanos, e que influenciaram sobremaneira o latim, com exceção de algumas palavras que puderam ser decifradas, desconhece-se até hoje as regras mais básicas daquele seu idioma.
Tais lacunas, impenetráveis, verificam-se também no Brasil. O tupi-guarani registrado pelos jesuítas, nos primórdios de nossa colonização, pouco tem a ver com a fala tupi e guarani dos dias atuais. E se sabemos, pelo Padre Vieira e outros, que a maioria dos paulistas não falava o português em fins do século XVII, também não podemos saber, com detalhes, como falavam os baianos e pernambucanos daquela época. Tampouco, minuciosamente, como era o falar dos povos das demais capitanias, durante a Colônia, das províncias, sob o Império, e dos Estados, na alvorada da República. Devemos a algumas poucas e raras gravações fonográficas o breve conhecimento que temos do assunto, e também à analise de breves passagens em documentos os mais variados.
Sabemos que o sotaque “carioca” é herança dos tempos da Corte portuguesa no Brasil e dos bacharéis que retornavam de Coimbra. O grande contingente de atores e atrizes portugueses também contribui muito para isto. Por uma gravação sonora do início do século XX, ouvimos o Barão do Rio Branco (1845-1912), então Ministro das Relações Exteriores, discursar com um inequívoco acento lusitano. Como o ator fluminense Jayme Costa (1897-1967), lenda do teatro e do cinema brasileiros. Ou seja, é de se presumir que entre a gente culta e os atores tal inflexão predominava do final do séc. XIX até meados do XX.
Avançando no tempo, temos os muitos discursos gravados do gaúcho Getúlio Vargas (1882-1954), nos quais nota-se um possível sotaque apenas por uma feição muito própria dos “ll” finais. No resto, na maneira como pronunciava marcadamente as consoantes e escandia as vogais, sua fala era idêntica àquela de uma pessoa educada de qualquer parte do país. Lembro-me de ouvir muitos paulistas, mineiros, baianos e pernambucanos da mesma idade ou pouco mais novos, que falavam da mesmíssima maneira. E acredito que tal se dava por dois simples motivos: cultuava-se ainda a oratória e os centros de estudo superior, responsáveis em boa parte pela irradiação da norma culta, eram poucos, o que disciplinava, homogeneizava a fala — o “falar igual Doutor” não se referia tanto aos termos herméticos, mas também a própria prosódia do falante.
Nos anos 1930, porém, houve uma certa tendência em nivelar os sotaques da gente humilde por meio de uma forma rígida, através do rádio. É bem conhecida, aliás, a história do magnata da imprensa Assis Chateaubriand (1892-1968) que escolheu como padrão de fala para suas emissoras de rádio aquela “dos bacharéis de S. Paulo”. E, a partir dos anos 1970, com a televisão, outra tentativa de uniformização foi bastante notada, mas então de forma mais perversa: daí a dispersão das gírias mais estranhas e sem sentido noutros locais.
Mas então por que ainda persistem os sotaques? Não, esta não é a pergunta certa, mas, sim, por que eles nos parecem mais evidentes? Porque a migração interna vem crescendo há décadas, porque novos atores políticos têm acesso à fala, porque as universidades e escolas são um tanto lenientes, hoje em dia, com a norma culta e porque é moderno, descolado, “cultuar as origens”, não se “envergonhar” do modo como se fala em certos meios, porque o certo seria “assimilar-se”. Resumindo: por preguiça, descuido, ignorância e xenofobia travestida de “afirmação social”. Não que eles devam ser erradicados, pelo contrário. Que horror seria se o Brasil inteiro falasse como um baiano de Salvador, um carioca “da gema” ou um paulistano da Mooca! Mas que não louvemos em demasia certos falares, sob pena de insuflarmos separatismos, exclusões e preconceitos. Diversidade, sim. Babel, jamais!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de agosto de 2007].
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