sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O retorno de Zeus

Como objetos esquecidos no fundo de um armário, adormecidos no escuro de um poeirento sótão ou porão, que se vêem retirados por um novo ditame do gosto, ou por saudade ou curiosidade, eis que uma antiga categoria de personagens começa a ensaiar novos passos rumo à luz. E não se trata de telefones de baquelite, mobiliário pé-de-palito, sapatos de saltos plataforma, calças boca-de-sino, presilhas de cabelo ou cartazes e camisetas com o rosto de Che Guevara. Não. Tratamos de personagens, e não de quinquilharias sujeitas a um gosto duvidoso ou à completa ausência deste. São personagens, não de carne e osso, que estes nada duram, mas de pano, papel, tinta, mármore, sonhos, anseios, desejos e terrores, pois tudo isto é o que, ao final, permanece. Falo, pois, dos antigos deuses e heróis da mitologia clássica, que depois de décadas de esquecimento fazem sua reestréia nas atenções do público brasileiro.
Uma rápida pesquisa nas livrarias mostra uma infinidade de títulos. Desde a Teogonia, de Hesíodo, o mais antigo do gênero e em edição bilíngüe, até as mais variadas adaptações para jovens ou adultos preguiçosos. Na última Bienal do Livro, por exemplo, O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro), uma seleção de meados do século XIX, tornou-se um grande sucesso de vendas e continua em tal patamar, desde a edição mais barata à mais cara, ilustrada em cores e de capa dura. Tamanho sucesso, aliado ao (bom) modismo dos 100 melhores contos disto ou daquilo, motivou a publicação, pela mesma casa editorial, dos 13 dos melhores contos da mitologia da literatura universal, em que grandes autores utilizam-se dos antigos temas. Há até uma editora que quase se pode dizer que é especializada no assunto, apropriadamente chamada Odysseus, e que publicou uma bem cuidada versão de alguns dos principais mitos. Sem falar em toda a vasta literatura lançada que tenta analisar os mitos e os deuses dos gregos e romanos.
Não sei se o fato de este ser um ano de Olimpíadas e delas justamente ocorrerem em Atenas contribuiu um pouco pela volta do interesse sobre o assunto. E, pelo menos no caso do Brasil, se toda a divulgação do filme Tróia não influenciou ainda o seu tanto. Mas se este for o caso, se tais forem os últimos motivos, ainda assim sejam louvados! Reintroduzir, pelo menos por estas plagas, um dos principais fundamentos da cultura ocidental no convívio da juventude, geralmente tão preguiçozinha e ignorantezinha, é uma obra e tanto.
Sob o pretexto que os antigos heróis e deuses não existiram, de que eram culto de uma gente morta e acabada, ninguém mais se ocupava do assunto. Vá lá, a religião dos gregos e romanos está morta, mas não suas influências. Qualquer estudo não muito superficial centrado nas representações de Heracles (o Hércules dos romanos, grande herói e semideus, filho de Zeus e de uma mortal) e Dioniso, qualquer estudo, dizia, revelará o quanto dos atributos destes personagens foram utilizados na construção histórica da imagem de Cristo, ao longo dos séculos. Se, lingüisticamente, e a língua é uma maneira das mais fortes de se urdir conceitos e mentalidades, a palavra “Deus” está muito mais próxima de “Zeus” (em grego, numa transliteração Diaus), do que o hebraico “Javé” ou “Jeová”, é de se perguntar o quanto daquele antigo deus clássico não migrou para a imagem da divindade cristã pelas mãos e idéias dos gregos e romanos — nunca é demais lembrar que Santo Agostinho, pilar do Cristianismo, foi um cultíssimo adorador de Júpiter e todo seu panteão.
Influências que atravessaram toda a Idade Média, a despeito do que geralmente se diz. E aqui fiquemos num só exemplo, e máximo: a Divina Comédia, de Dante, tem tantos personagens retirados da mitologia greco-romana quantos da tradição judaico-cristã, pouco mais ou pouco menos. A partir do Renascimento, então, abrem-se totalmente as comportas do vasto rio da tradição clássica. Os cupidos se tornam anjinhos (putti), Miguel Ângelo pinta a Criação do Homem, no teto da Capela Sistina, figurando um Deus que é mais Zeus que qualquer outro. Para cada grande de Espanha ou Nossa Senhora que saem dos pincéis de um Ticiano, sai um Apolo, uma Afrodite. E a lista é infindável, sucessiva, ininterrupta e abrangendo todos os ramos da arte e todos os períodos. Até a modernidade dela se impregnou: pois Jean Cocteau não fez sua releitura de Orfeu? Picasso não fez sua versão do minotauro?
Fechar os olhos ante a mitologia clássica é fechar os olhos a quase tudo o que de melhor as artes do Ocidente produziram. Tornam-se incompreensíveis, um código sem a senha. São prazeres, imensos, que deixam de ser desfrutados, coisa que a maior parte das pessoas não percebem. Perde-se a oportunidade de enriquecer a vida com modelos, idéias, saberes. Perde-se mesmo uma vaga na universidade, porque dos Lusíadas só se compreende, muitas vezes, que “havia um tal de Gama, não sei por que chamado Lusitano, e um monte de deuses que não existiram, fazendo não sei o quê”, como já ouvi de alguém.
Que voltem os velhos deuses, não como objeto de culto, mas de cultura. Que a juventude herde este tesouro tão vilipendiado e compreenda-o, dele descubra novos usos. Que Zeus e sua assembléia retornem, e que sejam bem-vindos. Evoé!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

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