sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

De volta à colônia

Eis que o Brasil ocupa, novamente, as principais manchetes e artigos de fundo dos grandes jornais pelo mundo afora. E qual é o motivo?
Em primeiro lugar, pensaríamos, sobretudo nos dias atuais, que tal atenção dever-se-ia ao aumento da violência na pátria amada, idolatrada, salve, salve. Mas não é nada disto, pois o resto do globo parece já ter se acostumado com os nossos morticínios. Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais.
Voltando ao tema, é um fato, portanto, que fomos matéria de muitos artigos na imprensa mundial, e é preciso saber a causa. Assim, em segundo lugar, poderíamos pensar que a razão de sermos alçados à ribalta dos noticiários deva-se à realização, em breve, dos jogos pan-americanos no Rio de Janeiro. Pois em razão do atraso das obras, das somas colossais destinadas às mesmas — e constante e regiamente renovadas, coisa que não costuma ocorrer em nenhuma política pública nacional —, é de se supor que daríamos material mais do que suficiente para uma série de reportagens. Mas, por outro lado, porque então não tratar da miopia que norteou as novas intervenções urbanas naquela cidade? Enquanto as principais sedes de jogos similares investem na revalorização de zonas urbanas degradadas, eis que a capital carioca, abundante de bairros decadentes, constrói um a cidade olímpica em plena terra virgem — embora vizinha de áreas altamente valorizadas pela especulação imobiliária...É ou não é motivo para dezenas de reportagens? Todavia tal não se deu. Pois os eventos relacionados aos esportes são tratados pela grande imprensa mundial como irrelevantes — como de fato o são para o andamento do mundo — a menos que permitam um grande número de apostas, que envolvam somas milionárias na contratação deste ou daquele atleta, ou que tratem dos lucros de um grande clube, associação desportiva, ou seja lá o nome que muitas sociedades anônimas adotam, na tentativa de travestir seus fins por um mal-disfarçado meio e motivo. Em suma, o mundo, o mundo real, do empresário de Nova Iorque, ao campesino de Bogotá, está pouco se lixando para o pan-americano do Rio de Janeiro.
Mas fomos notícia nos grandes jornais do mundo. Isto é incontestável. Evidentemente não foi pelo fato do Presidente da República ter nomeado uma sexóloga para o cargo de Ministro do Turismo — o que, segundo a sátira do colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, indicaria a cabal aceitação pelas mais altas esferas nacionais de que a principal modalidade turística aqui praticada é a sexual. É uma boa pilhéria, mas, sabemos, não passa disto: Dª. Marta, apesar de antipática, foi uma boa administradora da capital paulista e, acredito, seria também uma boa governadora de nosso Estado, sem falar que sua objeção ao turismo sexual e seus esforços na coibição do mesmo são notórios. Quanto à sua antipatia, notória, há que se perguntar: e o Chirico, soi-disant Serra, aquele que abandonou a prefeitura de São Paulo por um poleiro mais alto — e que confunde a ciência: seria o tucano uma ave trepadeira ou de rapina? — ele também não é antipático, com aquele seu ar de sabichão que, na melhor das hipóteses, copiou de FHC, ou, na pior, veio com ele de seu berço esplêndido?
Voltando ao tema: afinal, por que a terra brasílica ocupou a cena principal dos grandes jornais? Cometemos alguma nova e grave ameaça contra a Amazônia? Mas, afinal, não é isto que fazemos sempre? Toda vez que abrimos novas “fronteiras agrícolas”, campos para o plantio da soja ou para criação do gado, o resultado não é uma devastação ambiental sem precedentes, em troca de um montante na balança comercial e de alguns números para a estatística? Não somos educados, diante deste assunto, para que se fulminem as comunidades indígenas e os biomas da pátria amada, idolatrada, etc, etc, em prol do lucro e da recolocação da mão-de-obra dos capitais do Sul? E que outra coisa não fazem certas revistas semanais, de grande tiragem, que não exaltar tais ganhos “patrióticos”, de uma maneira que nem os piores administradores do Brasil Colonial o fariam?
Concluindo, o motivo de nossa terra voltar às manchetes internacionais é porque temos a primazia da produção da cana-de-açúcar empregada para fabricação de combustíveis. Por isto somos notícia. Que se subtraia o resto. Que se danem as pesquisas científicas realizadas aqui. Que se lasquem os avanços culturais adquiridos no Brasil nas últimas décadas. Pois tudo indica que voltaremos à velha e imbecil monocultura, eternos escravos da produção de matéria-prima. Então, para quê Independência? Para quê República? Balela! O escravinho daqui , que somos todos nós, segue o sinhô sem perguntar para onde vai, se para o eito, para a festa ou para morte. E vai continuar seguindo.
Ai, que saudades da Colônia! Mil vezes sofrer as penas de um governo distante, que usufruir as falsas liberdades de um governo tão próximo, tão surdo e tão cego, e que só é melhor do que sua oposição contumaz... Atenção, pares e povo: esta terra voltou a ser uma reles produtora de cana, como se nada tivesse acontecido nos últimos séculos. Não é de se duvidar que, num futuro próximo, tenhamos até que nos manifestarmos, mais uma vez, contra a carestia, a fome, o desabastecimento, porque toda terra desta nossa terra virou um canavial sem fim...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de maio de 2007].

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