Muitos arquitetos e urbanistas concordam que a praça, a boa e velha praça com árvores, coreto, igreja ou prédios públicos de importância, cedeu seu lugar de convívio social, a partir de meados do século XX (no caso dos EUA), aos shopping centers. Nosso país — sempre em atraso em relação aos grandes centros de decisão e, nesse caso, felizmente — só passou por este fenômeno a partir da década de 70 do mesmo século. Nos anos 80, explodiram os shoppings por toda parte, qual cogumelos depois da chuva. Mas foi na década de 90 que se tornaram, efetivamente, o lugar de convívio, por excelência, de milhões de pessoas no Brasil. Sabem disso não só o público que os freqüenta, como também os donos de lojas, cinemas, bares e restaurantes do lado de fora das paredes dos shoppings, acossados pela perda de consumidores que a todo custo evitam o caos que se instalou nas ruas de nosso país.
Se esta modalidade de espaço particular, privado, acabou por tomar ares de espaço público, e se, de fato, para inúmeras pessoas ele se tornou imprescindível, sua receita de local único de convívio, todavia, passou a sofrer graves abalos com a ampliação de acesso à Internet. Sim, é um fato que as pessoas freqüentam tanto quanto antes, se não mais ainda, os shopping centers. Vão ao cinema, comem bebem, olham muito, mais do que compram — dados os tempos bicudos dos quais parecemos ser eternamente vítimas — e andam, andam, andam... Mas não conversam. Não se fazem novos conhecimentos ou relações. Não se trocam impressões. Porque o lugar praticamente não permite, não há ambiente para isto. Quem vai se lembrar do último filme que assistiu, música que particularmente lhe tocou ou assunto interessante que gostaria de discutir, em meio à feérica e frenética sucessão de anúncios, cartazes, luminosos, vitrines de bolsas, sapatos, vestidos, camisas, etc? Impossível.
Assim, o que aconteceu, foi que toda uma geração que teve por babá a televisão, por parquinho infantil o playground do prédio, por praça da matriz os shoppings centers, geração que aprendeu que era “sensível” — as que a precederam eram o quê? inanimadas? — e que queria “expressar suas idéias”, sem todavia consegui-las naqueles espaços impessoais, eis que lançou-se ao bate-papo via internet. E como se bate-papo! E quão rasas são as idéias!
É um fato de todas as maneiras inegável que a Internet representou uma revolução nos meios de comunicação. Por outro lado, a quantidade de bobagens que circulam pela rede também é inacreditável, como é sabido. Mas o pior é justamente quando este lixo chega até nossas caixas de mensagens. Não falo das piadas, mais ou menos — geralmente menos — engraçadas, que nos enviam. Há todo um entulho que, francamente, não sei como pode existir público para tal.
Como é possível que gente que se diz séria, que presume ter idéias, as quais pretende exprimir em público, ocupe seu tempo a pesquisar imagens bizarras de acidentes vários e enviá-las aos amigos? Ou teorias conspiratórias, montagens fotográficas que são verdadeiras aberrações, senão de técnica, pelo menos de tema? Como é possível que se gaste uma inteligência — rala, talvez, mas bastante artificiosa — formulando frases banais, pieguices no campo da auto-ajuda, versos mancos, mutilados mesmo, e atribuir tal chusma de sandices a algum autor conhecido? O quê uma pessoa ganha em fazer seus pensamentos — ou melhor os balbucios de uma cabeça minimamente organizada, pouco superior a dos chimpanzés — passarem como se de autoria de algum grande nome? Nada, ora. O frasista desconhecido continuará anônimo e só lançará a uma boa reputação meia dúzia de patetadas que alguma especialista ou admirador logo irá desmascarar. Mesmo assim, como há bobagens circulando por aí como se fossem de pena de um Fernando Pessoa, de um Jorge Luís Borges...
E o que dizer, então, desta nova praga chamada Orkut? Que mixórdia! O footing dos acanhados. Os classificados pessoais dos imodestos inseguros. O pregão de inibidos exagerados. Mero congraçamento de tímidos metidos a gabolas cujas personalidades viriam a pique se expostas à luz franca das relações diretas, pessoais, olhos nos olhos.
O que é de lastimar é que tanto engenho, tanto esforço tecnológico seja empregado por um bando que mais faz pensar em maritacas do que em qualquer outro tipo de criatura. Pois maritacas não cantam, não reproduzem voz humana, só emitem um barulho sem sentido e desencontrado. Na natureza, pode ser até bonito. Elas voam, passam, vão embora. Numa gaiola — porque a Internet, para muitos, não passa de uma gaiola da qual não enxergam as grades — só o que fazem é palrar, gritar, sem motivo, para sempre e sem razão.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de março de 2005].
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