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sábado, 21 de outubro de 2023

Reflexão num dia de chuva

[TEXTO PUBLICADO EM 15 DE JANEIRO DE 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers, EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da caça contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado magistralmente por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, eis que saca de seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte I: A História do Mundo em três horas à beira-mar

A praia do pontal, em Paraty, não é a menina dos olhos dos fanáticos por mar, sol e areia. A água não parece muito limpa, e o mesmo, diria, das areias, freqüentadas por um número de cães muito maior do que o desejável. Os quiosques também não são lá grande coisa, à primeira vista – mas garanto que a segunda melhor caipirinha da cidade é servida ali. A paisagem também não é empolgante para os obsedados por praias oceânicas. Ela não passa de umas poucas centenas de metros, contida por um molhe de pedras, ao Sul, e por um morro, ao Norte, onde se encontra, oculto pela vegetação, o Forte Defensor Perpétuo. Mas nas fraldas deste morro, imersas no mar, encontram-se grandes e belas pedras, cobertas de cipós que parecem aparados com precisão por um hábil jardineiro e, no entanto, todo este efeito se dá pela água salgada, que àqueles dá tal feição e que não erode os rochedos locais, mas, antes, parece acariciá-los com brandura. Para o Oeste, há umas casas meio feias, pousadas não muito elegantes, e até mesmo um camping. Porém, olhando mais para o interior, um espesso arvoredo se eleva, ocupa o espaço, sobe por um desses morretes praianos meio raros em São Paulo ou no Rio de Janeiro – mais à feição dos Guararapes, em Recife, ou do outeiro do Carmo, em Olinda – em cujo topo assentam-se, imaculados sob a luz do sol, a capela e o cruzeiro do cemitério local, como numa paisagem de Guignard: um tanto brejeira, muito agradável e pitoresca, mas um tanto quanto insólita. Já para o Leste, lá estão as ilhas, os barcos e o mar absoluto.
Pois bem, este é o cenário. Vejamos alguns de seus personagens.
Numa tarde de quarta-feira, assim como noutras, anteriores e posteriores, minha mulher e eu estávamos ali, movidos pela necessidade de uma saudável mudança de ares. A poucos metros de nós, havia um jovem casal de canadenses: ele muito esguio; dela, se dissesse que era obesa, tal seria uma gentileza, pois sua enormidade era verdadeiramente colossal. Pouco adiante, um sujeito com ares de velho lobo do mar relegado à terra e a contragosto, tendo por companhia seu bem cuidado cão, um english springer spaniel, adestrado não para a caça de tiro, mas para arrancar mariscos dos fundo das areias, as quais escavava até quase nelas desaparecer: dele avistava-se apenas a cauda castanha, oscilante, tão logo intuía sua presa. Noutra direção, um casal da modernidade, ou da pós-modernidade, composto por dois rapazes: um chinês, ao sol, acompanhando-se sabe-se lá o que em seu tablet; e um belga, refugiando-se na sombra, entretido com um bom, velho, prosaico e insubstituível livro.
Minha mulher e eu, ao contrário de muitos compatriotas, temos verdadeiro horror à bajulação de estrangeiros em solo pátrio, esta perversão do conceito de hospitalidade em que se comprazem muitos, tratando por meio de verdadeiras micagens, quando não rebaixamento de conduta, qualquer estrangeiro que por aqui aporte. De modo que não demos muita atenção àqueles personagens. Preferimos nos voltar à divertida tarefa de recolher conchas da areia, para a futura montagem de um arranjo decorativo. Para matar o tempo antes que ele nos mate. Nesta divertida faina, em que nos revezávamos, uma menina, moreninha, e seu irmão, com ares de maranhenses ou caiçaras, se aproximam de minha mulher e lhe dizem algumas palavras incompreensíveis, mas nem tanto, a ponto de percebermos se tratarem de pequenos hindus. E num inglês meio estranho – do pensar em português para a versão inglesa, da parte de dois adultos, e do hindi, ou sabe-se lá que língua, para o inglês, por duas crianças – acabamos por nos entender e juntos colhemos conchas à beira do mar.
As horas se passaram, voltamo-nos a outros interesses, como as crianças, às suas brincadeiras. Quando delas nos despedimos, estavam, o menino e a menina, cobrindo de areia, tapando mesmo o buraco que aquele cachorro de linhas atrás cavara horas antes.
Diante do que vimos não houve como deixar de pensar se a História, esta mesma, a História, com “H” maiúsculo, não o seu registro, mas a sucessão dos fatos, também não se daria como nesta série de inocentes eventos praianos: numa terra distante, ocupada por um povo, outros vêm, das mais variadas origens, e tomam seu lugar; ainda outros passam apenas por ali; e as obras e trabalhos de uns sucumbem, sob uma simples diversão alheia, e de tudo, nada restando, sequer o testemunho. Refreio meu impulso de afirmar que a História poderia ser traduzida como “um buraco na areia feito por um cão inglês numa praia brasileira, e depois fechado por duas crianças hindus, algo feito à vista de todos e por todos esquecido”. Não divirjo completamente desta teoria, mas não a afirmo na íntegra. Acho que, sempre, existe algo mais a ser visto, em toda parte. Quer nos anais históricos, quer numa simples tarde de praia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro

Em crônica de 19 de março passado, intitulada Pausa para reflexão, pouco depois do tsunami que atingiu o Japão e no início da chamada Primavera Árabe (que vai a cada dia mais se tornando uma espécie de Outono Persa), tratei um pouco do ditador líbio Muammar Kadafi. A grande imprensa, então, acreditava, num frenesi de oba-oba, que ele seria o próximo tirano a cair, depois de Mubarak. Mas aquele permanecia no posto, ainda que de joelhos, e que estava lá, estava. E, portanto, disse, então, que era melhor esperar para ver ou comentar alguma coisa. Vejo, sem falsa modéstia, quão acertada foi minha opinião, uma quase futurologia às avessas. Pois o homem só caiu, morto, sete meses e um dia depois da publicação de minha crônica – mas não graças a ela, evidentemente. Sábios conselhos de Roger Chartier! Que bom que os ouvi, e justamente aquele de que “o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro”!
Naquela mesma ocasião, tratei da querela quanto à grafia de seu nome, ora Gaddafi, ora Khadafi e outros tantos. Bem como seu pendor para a extravagância no vestir e no pentear. Permitam-me citar-me:

“Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano, passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo”.

Mas, vendo por outro lado, é curiosa a comparação entre ditadores, se pensarmos em seus momentos finais, ou logo depois deles. Pinochet, Mao, Stálin, Idi Amim, Bokassa, vários dos ditadores argentinos, e todos os nossos, morreram velhos, serenamente em casa, ou num luxuoso exílio. Hitler se matou e, por suas ordens expressas, queimaram seu corpo. Getúlio idem, mas seus restos foram venerados. Podem até dizer que, então, ele havia sido eleito democraticamente, o que é um fato, mas quem o pranteou, na verdade, era por saudades de sua ditadura. Saddam Hussein, capturado num aspecto que lembrava um mendigo ou um lobisomem, foi enforcado qual um cão na coleira, e dele não tivemos mais imagens. Um fim muito diferente do sofrido por Mussolini, fuzilado e depois exposto à execração pública durante vários dias, pendurado pelos pés, na Piazza Loreto em Milão.
A morte de Kadafi, e o que fizeram com seu corpo, tem algo do que se fez com Mussolini. Mas olhando bem as imagens, o que de fato me vinha a lembrança era o fim de Lampião, o rei dos cangaceiros. Os closes sobre o rosto do líbio remeteram-me diretamente aquela tétrica fotografia das cabeças de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando expostas na escadaria da igeja de Piranhas, AL, uma imagem que se encontra em todos os livros escolares e que chocam por seu horror. Pensei em expor as duas fotografias lado a lado, mas não quero chocar o leitor. Depois, mesmo facínoras merecem um pouco de respeito depois de mortos.
Que coisa, ao fim. Kadafi viveu como um ditador, poderoso lá em sua terra, que não é lá essas coisas, mas, ali, ele era o Supremo. E no entanto, no final das contas, morreu emboscado como um cangaceiro e, como tal, também vilipendiaram seu corpo. Curiosa é a roda da fortuna...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de outubro de 2011].

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dez anos do “11 de setembro”: e nós com isto?

Por conta da celebração de uma década dos atentados que abalaram os EUA, estamos vendo, a todo momento, na televisão, nas revistas, nos jornais, e na internet, pequenos flashes sob o título “onde você estava no 11 de setembro?” ou que tais.
Acho isto uma bobagem sem tamanho, uma tentativa um tanto canhestra de animar as nossas vidas, em geral sem consciência histórica, sem noção do tempo vivido e passado, com a finalidade de nos fazer acreditar que fomos testemunhas de um evento sem par na história. De fato, ele foi mesmo praticamente sem igual. Mas nosso grau, dos brasileiros, enquanto testemunhas, deu-se de uma maneira um tanto quanto marginal, periférico mesmo, salvo por um ou outro patrício que estivesse por lá. Pois assistimos ao episódio confortavelmente à distância, como aos terremotos do México, Califórnia e Chile, aos tsunamis do Oceano Índico e Pacífico, ao acidente nuclear de Chernobyl, à queda do Muro de Berlim, à eleição de Barack Obama, a este ou aquele nome ganhador do Prêmio Nobel, ou do Oscar, ou àqueles incontáveis ataques terroristas menores que ocorrem quase mensalmente. Tais fatos nos dizem respeito somente porque ocorreram em nosso tempo, mas nada nos liga diretamente a eles. Pulgas que somos a saltar pelo corpo do gigante “deitado eternamente em berço esplêndido”, o que de fato nos afeta são as agressões ao nosso estômago (o bolso): se o sangue (a Economia) do gigante (a Botocúndia onde vivemos) enfraquece-se quanto aos seus nutrientes (estabilidade) ou se contamina (inflação, flutuação cambial, etc.), só aí sentimos o golpe. No mais, o resto do mundo é, para nós, em geral, uma série de locais de compra, uma vaga referência cultural para alguns, a terra dos ancestrais ou o próximo destino nas férias. De modo que há até mesmo um certo traço de esnobismo, fumos de parvenus, para não dizer cabotinismo completo, em certas lágrimas de jacaré deitadas por nossos conterrâneos pelas vítimas do atentado. Certas manifestações parecem dizer: “Nós, [brancos(?)], no Brasil [de classe média, ou média alta], choramos os mortos de Nova Iorque [porque são brancos e a eles seguimos como modelo – de consumo, mas não no mais] e, claro, somos solidários também a todos os outros males do mundo [estes que agridem gente “escura”, que vive onde Judas perdeu as botas], mas, neste momento temos por primazia celebrar os mortos [gente branca, rosada, bonita e rica, como a gente gostaria de sermos (sic)]”.
Em vista disto, e já que está na moda falar do “11 de setembro”, pois bem, darei meu depoimento. Eu estava dormindo quando a coisa começou. Logo que acordei, abri a janela de meu quarto e deparei-me com um jardineiro – não me lembro de seu nome – que realizava alguns serviços no quintal. Mal ele me cumprimentou, perguntou-me se eu achava que o que estava acontecendo nos Estados Unidos poderia ocorrer também no Brasil. Não tinha ideia do que ele estava falando, mas arrisquei uma negativa: “não, isto é lá um problema deles”, disse, então. E, em grande parte, foi mesmo. Mas decidi que era melhor ligar a televisão e ver do que se tratava. E a surpresa e o susto me assaltaram: nem bem me interava do ocorrido e pude assistir ao segundo avião projetando-se contra a torre que ainda não sofrera ataques. Passada menos de meia hora, um confrade, emérito gozador, me telefonou e disse: “Osama bin Laden é o maior jogador de xadrez de todos os tempos – tombou duas torres com apenas dois lances!”.
Este é o meu testemunho do que vi e ouvi na ocasião. E, risos à parte, é claro que nos apiedamos de todas aquelas vítimas, e dos heróis que perderam suas vidas no episódio. Mas o seu “efeito profundo”, como muitos hoje apregoam, não se vislumbrara, então.
Ora, o que afetou, de fato, a vida dos brasileiros depois do fatídico ataque? Praticamente nada. Com exceção de certas mudanças quanto aos objetos com que podemos embarcar num vôo doméstico ou internacional, tudo permanece como antes.
É verdade que tais diretrizes de segurança aérea provocam certos desconfortos. Houve o caso de um nosso Ministro das Relações Exteriores que foi obrigado a tirar os sapatos para entrar nos EUA (pois se “o grande pai branco” manda, o “pele-vermelha” obedece, porque tem juízo). E, de minha parte, tive que descartar, numa lixeira, no Aeroporto de Viracopos, um alicate de unhas que levava em minha bagagem pessoal, e, por pouco, quase que me vai também uma régua metálica – esta causadora de duas vistorias (uma radiográfica e outra física) em minha pasta.
Ah, que momento, fugidio de glória maléfica e poder de destruição senti naquele momento! Era como se eu fosse um demônio terrorista prestes a tomar o avião, munido de armas da mais alta precisão – porque um alicate de unhas e uma régua metálica têm um infinito poder letal, como sabemos, sobretudo manuseadas por um exímio praticante das artes marciais como eu (faixa azul em Judô, em 1981, pelo menos dez quilos acima do peso, hoje, com 2,5 graus de miopia e vítima em potencial da “síndrome da classe econômica”). Com tais credenciais, não tinha eu motivos para sentir-me um perfeito sabotador? Por instantes imaginei-me tomando a aeronave, com aquele meu eficiente aparato bélico, talvez lá pelas alturas de Oliveira ou Carmo da Mata, e desviando o vôo, que rumava para Belo Horizonte, e cujo combustível, provavelmente, só daria até lá, em direção à estátua do Jeromão, em Barretos, ou contra o Borba Gato, da Avenida Santo Amaro, em São Paulo. Seria o meu próprio 11 de setembro em junho. Mas, felizmente, não tenho propensões homicidas ou suicidas. E assim não tomei de assalto – com minha perícia e audácia já demonstradas, além de meu poderoso arsenal – nenhuma aeronave em trânsito para Minas. Nem destruí aquelas aberrações estatuárias gigantescas: que o peso de sua estrutura e feiúra recaiam nos ombros de quem as encomendou e pagou por elas!
Em suma, devemos, acredito, e defendo, prantear as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001. Morrer de morte morrida (seja natural, seja por meio de calamidades, desastres, epidemias, etc.), é uma coisa. Morrer de morte matada é outra bem diferente. E injustificável, salvo em caso de real legítima defesa. Não a hipotética “defesa do Islã” frente aos ataques da Cristandade capitalista, nem a “defesa das Escrituras” frente à “licenciosidade do mundo”: pois saibam os leitores que muitas igrejas evangélicas norte-americanas, de uma certa maneira, ratificaram os atentados terroristas, em termos quase idênticos aos fanáticos muçulmanos que perpetraram tal ato. Disseram aquelas congregações neopentecostais que tal horror se deu, naquela cidade, porque ela estava imersa em crimes e pecados. Porque ela teria merecido.
Homens de bem, dentre os quais eu procuro me incluir a cada dia de minha vida – algo natural pelo meu temperamento e formação, e que, todavia, parece mais difícil, frente aos “exemplos de sucesso do momento”, que ignoram tais valores – devemos repudiar tais atos e, na mesma medida, os discursos que proclamam uma certa legitimidade dos mesmos, sobretudo se provindos de orientação religiosa. Pois, lembremos, “religião” é “acesso”: “re-ligare”, nunca exclusão. Assim como o pensamento laico honesto: o “outro” nunca é um “estranho”.
Deixo minhas lágrimas pelas vítimas do “11 de setembro” de 2011, e minha censura àqueles que se promovem por conta disto, àqueles que ordenaram tais atos e àqueles que desta horror ainda colhem frutos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de setembro de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma nova face do terror ou mais um maluco rancoroso?

Os atentados terroristas, tal como os conhecemos, foram criados no Ocidente no século XIX. Perpetrados por anarquistas, nacionalistas e nihilistas – radicais russos que, frente a um estado tirânico, preconizavam uma redução ao “nada” (nihil, em latim) de tudo aquilo que eram contra, para, enfim, partindo do zero, poderem construir o que achavam justo – os ataques se caracterizavam por alguns tipos clássicos de ações: o assassínio puro e simples de uma autoridade, de forma pessoal (tiro ou facada) ou de maneira pública (bomba); havia também alguns casos, raros, de ataques a certos símbolos do poder. Assim foi a tentativa de explosão do Observatório de Greenwich, cuja destruição, alegoricamente, seria também a do horário internacional (e do trabalho) relacionado ao local. Um episódio maravilhosamente aproveitado, e adaptado, num romance (O Agente secreto) do sempre excelente escritor Joseph Conrad (1857-1924).
É claro que o assassinato de tal ou qual líder, como tentativa de se impedir esta ou aquela política, é tão velho quanto o mundo. Marco Bruto (85-42 a.C.) – o assassino de Júlio César (100-44 a.C.) e de sua intenção de se tornar Imperador – gostava de ser relacionado a Tarquínio (535-509 a.C.), um seu antepassado, responsável ele próprio pela morte de um rei, Sérvio Túlio (séc. VI a.C.). O profeta Maomé (c.570-632) também escapou de umas tantas ameaças contra a sua vida. Houve também a Ordem de Assassinos, uma seita fundada por Hassan ibn Sabbah (1034-1124), mais conhecido como O Velho da montanha, que eliminava as autoridades contrárias aos seus objetivos, através de uma rede de fanáticos suicidas. No Renascimento, é impossível compreender a política (civil e papal) da Itália, sem ignorar o homicídio de pessoas ilustres como prática de poder. No século XVII, houve um católico, Guy (ou Guido) Fawkes (1570-1606), membro da chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot) que pretendia assassinar o rei protestante Jaime I (1566-1625) da Inglaterra, juntamente com todos os membros do parlamento, durante uma sessão em 1606, através da explosão do prédio onde aqueles senhores se encontravam, visando, com tal ato, a iniciar um levante católico. Um episódio tão terrível para os ingleses que geraria toda uma série de cantigas populares, e até curiosos poemas escritos em latim por John Milton (1608-1674) – o autor do magistral Paraíso Perdido – iniciados por In Proditionem Bombardicam. Guy, ou Guido, Fawkes, ainda é tão execrado na Inglaterra que, no dia 5 de dezembro de todos os anos, desde a sua execução em 1606, um boneco parecido com ele é malhado e queimado, qual um Judas em sábado de Aleluia. E, por fim, poderíamos, tratar ainda da eliminação física de líderes políticos mencionando os casos de Marat (1743-1793), Robespierre (1758-1794), os atentados, infrutíferos, contra Napoleão Bonaparte (1769-1821), etc.
Mas voltando ao modelo de terrorismo moderno, tal como o conhecemos no século XX, sempre pudemos dizer, até recentemente, que ele era perpetrado ou por fanatismo, ou por pragmatismo/oportunismo, ou ainda por uma espécie de idealismo torto. Isto, sem falar nos atos de um ou outro tresloucado, que por sua natureza errática escapam de qualquer classificação possível. Um exemplo de fanatismo temos no caso, fortemente simbólico, do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. De pragmatismo/oportunismo, no incêndio do Reichstag, de Berlim, em 1933: os nazistas pondo fogo no Parlamanto burguês e transferindo a culpa do atentado aos comunistas, para consolidarem seu poder e terem mais um espantalho (vermelho) para assombrar o povo e as classes dirigentes. E no que se refere ao idealismo torto, servem de lição as mortes do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), estopim da Primeira Guerra Mundial, e do Mahatma Gandhi (1869-1948), início de uma corrupção sem par na Índia até pouco tempo atrás. Triunfaram as causas por trás de tais atos? Não. Daí falarmos, justamente, em idealismo torto. E, acrescente-se, mal sucedido, dos pontos de vista teóricos e práticos.
Já no que se refere ao massacre e ao atentado à bomba na Noruega, estes surpreendem por sua absoluta falta de paixão (fanatismo, idealismo torto) e de razão (pragmatismo/oportunismo). Pois não há uma religião ou ideologia consistente por trás de tais atos. Nem, por outro lado, um grupo político, minimamente coeso, ao qual se vincule o agressor. Na aparência, tudo o que parecemos ter à nossa frente é um sujeito tresloucado que se fundamenta em supostos valores rasos e reacionários – esoterismo e xenofobia de internet – mas que, ainda assim, foi capaz de um êxito surpreendente em sua ação infame. Fica a pergunta: um doidivanas seria capaz de tudo aquilo? Um maluco seria suficientemente hábil para lograr tais resultados? É sábido que todo lunático é metódico e que, frequentemente, há método na loucura. Seria este o caso do norueguês? Não acredito.
Uma das coisas que mais me espantaram frente ao episódio foi a face serena do agressor depois de capturado. Não havia ódio em seu semblante, nem laivos de heroísmo, ou ares de mártir de uma causa. Sua expressão era a mesma de quem acaba de realizar a faxina da casa, ou arrumação de um armário. Fria, seca e, ao mesmo tempo, plácida. Quase indiferente.
Será este o novo perfil dos terroristas? Ou uma nova modalidade de terrorismo, banal, aleatório, pueril, e, portanto, indecifrável, até que se manifeste em sua violência? Devemos começar a identificar, rastrear, traçar perfis de cada maluquinho da rede que se proclama seguidor, ou continuador, dos Templários, ou de qualquer outro grupo conspiratório, real ou imaginário, como o fez o terrorista da Noruega? Confesso que não sei. O que sei, ou antes, creio, é que gente de bem evita grupelhos: é pluralista, ampla, não sectária e, portanto, longe de um discurso político ou religioso que exclua e hostilize todos aqueles que não comunguem, ou supostamente não possam comungar da mesma fé ou princípios.
Se há alguma coisa útil que possa ser dita, em todos os tempos, é que o respeito (platônico) ou o amor (cristão, e decorrente daquele conceito platônico) ao próximo, apesar das diferenças entre uns e outros, deva ser, acredito, a suprema ordem a governar o mundo. E não falsas teorias de superioridade raciais, patrióticas, religiosas, etc. Tudo isto se dissolve no nada, ou no todo. Mas se dissolve, mesmo assim, ao fim das coisas. O problema é o meio disto, no qual pode vicejar toda sorte de criminosos da humanidade pretensamente fundamentados em supostos valores que valem menos do que nada.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2011].

Um impostor dos quadrinhos: o Capitão América... do Norte

A história dos quadrinhos, ou ainda a história das histórias em quadrinhos, traz curiosidades maiores do que se pensa à primeira vista.
Este gênero de produção (cultural? De entretenimento? Alguém arrisca um classificação convincente?), que é sem dúvida de massa e para elas destinada, teve um início bastante pueril na virada do século XIX para o XX. E com esse cariz permaneceu pelos anos 1910 a, mais ou menos, 1940, comportando temáticas bem variadas. Tinha-se histórias declaradamente voltadas para o público infantil (Buster Brown, rebatizado como Chiquinho, na revista brasileira O Tico-tico, lançada em 1905; ou ainda Os Sobrinhos do Capitão, e as primeiras histórias de Mickey Mouse e sua turma), infanto-juvenil (pensemos em todos os super-heróis), e mesmo adulto, porém, inicialmente, satírico (Pafúncio e Marocas, Mutt e Jeff, etc.).
A partir dos anos 1930, 1940, vão surgindo histórias mais calcadas na aventura, lançando mão de certa violência e erotismo, muitas vezes combinados com o terror sobrenatural. Neste mesmo período, também, alguns personagens saltam das páginas de jornais e revistas e ganham as telas do cinema, em produções baratas que faziam a alegria dos jovens de então e eram solenemente desconsiderados pelos adultos e pela crítica, incapaz de perceber qualquer valor no Super-Homem, Buck Rogers, Flash Gordon e outros confrades. Mas aquele era o período da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas precisavam esvaziar suas cabeças dos temores de então.
Nos anos 1950 e 1970, especialistas de toda natureza e do mundo inteiro se levantarão contra as histórias em quadrinhos, considerando-as perniciosas à juventude (um dano para a educação e péssima influência sobre a psicologia dos seus leitores), relacionando-as as delinqüência juvenil, estupros, gravidez adolescente, e coisas do gênero. Mas em fins dos anos 1970 e 1980, com o conceito norte-americano das graphic novels, a crítica se interessou pelos quadrinhos, julgando-a quase uma arte. Nos anos 1990 sobreveio uma crise no meio – o público leitor migrou para outras mídias – e desde então se os quadrinhos já não vendem tão bem, produzem lucrativas franquias cinematográficas, de brinquedos, games e toda sorte de mercadorias para crianças e adultos. É o que explica, por exemplo, o lançamento de mais uma adaptação do Capitão América para os cinemas.
Desconheço o grau de sucesso de tal personagem nas versões para o cinema e televisão em décadas anteriores. Lembro de uma adaptação de 1990 que foi um retumbante fracasso. E não sei o que esperar da nova, a ser lançada por estes dias. Mas se há algo a dizer sobre o Capitão América é que ele me parece um dos mais antipáticos e chauvinistas personagens de quadrinhos que já vi. É verdade que é ótimo torcer por ele. Afinal, ele enfrenta os terríveis nazistas, pelos quais não se pode ter nenhuma simpatia e contra os quais se pode devotar todo o ódio e desejo de vingança possíveis (como o fez aquele Tarantino em seu Bastardos Inglórios – talvez mais pai do novo filme que os quadrinhos que lhe deram origem). Depois, é meio inócuo, hoje em dia, bater em nazistas. Os originais, salvo um outro nonagenário que não mete medo em ninguém, estão todos mortos. Queria ver se os produtores teriam coragem de mandar o Capitão América enfrentar os japoneses... Aí seria bem diferente. Porque eles foram quase tão cruéis quanto os primeiros, a dinastia reinante de seu país é a mesma daqueles dias, mas são um dos povos que mais consumem a tralha produzida nos Estados Unidos. Teriam os produtores peito para afrontar tal mercado consumidor? Duvido.
Outra coisa que me faz desgostar do Capitão América é seu aspecto ultrapatrioteiro. Ele é sempre norte-americano demais, certinho demais, caipira demais, “Cinturão da Bíblia” demais. Só pelos americanos ele se bate, e por mais ninguém? Lutou na França? Ah, mas era porque seus compatriotas estavam lá. É de se presumir que sequer conseguisse apontar num mapa onde fica a França.
E, por fim, o que acho o pior no que diz respeito a esse herói: metê-lo em situações reais, num contexto histórico. Porque nenhum super-herói lutou na Segunda Guerra e, sim, homens comuns, heróicos sem dúvida, gente de carne e osso que se arriscou e morreu por lá sem contar com a ajuda de qualquer impostor vestido em uniforme de cores berrantes. E transportar para aquele tempo e lugar a ação providencial de alguém que nunca existiu, é, em minha opinião, uma grave ofensa à memória de todos aqueles que de fato lá estiveram, dando o seu sangue contra o inimigo.
Stendhal e Tolstoi criaram homens comuns que, em seus livros, participaram de batalhas nas guerras napoleônicas. Sem qualquer impacto real sobre elas. Algo amplamente válido num gênero maior que é o romance. Que gêneros menores, como os quadrinhos, ou o cinema de entretenimento, queiram reescrever a história, colocando marmanjos mascarados, que vestem a cueca por cima das calças, batendo-se contra o nazismo, aí já não se trata de uma licença artística: é uma pouca vergonha mesmo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Barbas de molho!

Por volta de meados do século XVII, um partidário do rei da Inglaterra, e dos católicos, era identificado, naquele país, pelos seus longos cabelos, barba e bigodes. Já os anglicanos mais extremados, opositores daqueles, por seus cabelos raspados e faces peladas (o que lhes valeu o apelido de “cabeças redondas” roundeads).
O Czar Pedro, o Grande, Imperador de todas as Rússias, decidiu, em 1698, que, para modernizar o seu país, era necessário mudar a imagem de sua corte, da aristocracia e dos funcionários públicos. Sua intenção era aproximar-se o mais possível dos reinos ocidentais europeus, tidos como mais avançados. E, assim, ordenou que todos os membros daquelas classes ou funções raspassem suas barbas, sob pena de multa. E os bigodes somente seriam permitidos aos oficiais de cavalaria ou dos corpos de dragões.
No século XVIII, aliás, as caras raspadas eram comuns, mas se envergava copiosas perucas e, não raro, longos cabelos, penteados à maneira daquelas: o General George Washington, pai fundador dos Estados Unidos da América, inscrevia-se neste último caso. E se na França do final daquela centúria, e início do XIX, os revolucionários e patriotas cortaram seus cabelos à Brutus (uma evocação ao assassino de Júlio César) – pensemos na imagem clássica de Napoleão Bonaparte –, permitia-se aos hussardos (um corpo de cavalaria leve), não só o uso de barbas e bigodes como até mesmo de finas tranças de cabelo pendendo sobre a farda.
No Brasil, até os primeiros anos da República, não havia objeção ao uso da barba entre os membros do Exército ou da Marinha (Deodoro, Tamandaré, Benjamim Constant, etc., etc., eram barbados). E até hoje os ornamentos capilares faciais são permitidos, ainda que com algumas ressalvas, de acordo com o Decreto nº 95.480, de 13 de dezembro de 1987: “É vedado aos militares o uso de barba, cavanhaque, costeletas e do corte e cabelo que não sejam os definidos pelas normas em vigor.// § 1º - O uso de bigode é permitido aos Oficiais, Suboficiais e Sargentos.//§ 2º - O militar que necessitar encobrir lesão fisionômica poderá usar barba, bigode, cavanhaque ou cabelo fora das normas em vigor, desde que esteja autorizado pelo seu respectivo Comandante”. E graças a esta brecha, e outras anteriores, pôde o falecido (em 2008) General Manoel Theophilo Gaspar de Oliveira Neto, ex-chefe do Estado-Maior do Comando Militar do Nordeste, envergar, honradamente, sua barba: uma tradição de sua família, toda ela composta de militares, que geração a geração (foram cinco), transmitia ao filho o mesmíssimo nome do pai e a obrigação de manter o mesmo adereço piloso.
Pois bem, se até os exércitos, que se pautam pela uniformização, seja pelo uso das fardas, seja pela estética do rosto, permitem algumas liberdades neste campo – o Exército Brasileiro, inclusive, que nos últimos anos tem se pautado por uma mera observação passiva e um pouco alheia (para o bem e para o mal) do que se entende por liberdade – é de pasmar, portanto, que a Quarta Turma do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 5ª Região (Bahia) tenha acatado recurso do Bradesco que inocenta o banco da acusação de discriminação de funcionários por uso de barba. E nem era uma barba à Marechal Deodoro ou General Theophilo: o empregado demitido tinha a pele sensível à lâmina de barbear, o que impossibilitava o uso diário do aparelho. Segundo a sua defesa, aquela sua barba por fazer era motivo de constrangimento, causado por seus superiores. E, de acordo com o banco, seu repúdio ao pelos do queixo do funcionário fundamentava-se numa pesquisa que teria revelado que o uso da barba “piora a aparência dos trabalhadores”, e como a aparência é associada à competência, com base no truísmo de que a primeira é uma lei para o sucesso profissional, acharam por bem (mal) demitir o empregado.
O juiz de primeira instância, favorável ao bancário, alegou que a conduta do banco “viola inequivocamente o direito fundamental à liberdade de dispor e de construir a sua própria imagem em sua vida privada”. Mas a desembargadora que cassou sua sentença proclamou que “não se pode negar ao empregador, em razão do seu poder diretivo, o direito de impor determinados padrões, de exigir dos seus empregados certa forma de se apresentar para o público externo do banco, inclusive no que diz respeito ao asseio e à aparência geral”. Para ela, este mesmo princípio poderia ser aplicado às roupas dos funcionários e ao uso ou não de “barba, bigode, cavanhaque e costeletas”.
O melhor desta história toda veio por conta dos comentários do ex-ministro do STF, Eros Grau, barbudo desde 1968 – por conta de uma cicatriz no queixo causada por um acidente de automóvel – e que vê claros indícios de preconceito na medida. “Se for só por essa razão, fico muito preocupado. Se fosse assim, eu poderia ter sido impedido de ser ministro do Supremo. [...] Fico pensando... Então, por causa do acidente e da barba, eu ficaria impedido de trabalhar? Parece estranho”, alegou, com propriedade.
De modo que nos preparemos, leitores, para um mundo novo exarado a partir de decisões semelhantes àquela do TRT da Bahia. Talvez retornemos aos uniformes de corte militar nas escolas públicas, ao uso da sobrecasaca e gravata nos bancos e de aventais entre os comerciários. Ou, ainda, radicalizar as expectativas ainda mais, como o fez a Polícia Militar paulista, que agora reprova candidatos “queixudos” baseada na visão de que “problemas bucais podem causar dor e agravar outras doenças, como cardíacas e gastrointestinais, aumentando a possibilidade de afastamento do policial”.
Para que belo mundo nós caminhamos! Em breve, no andar desta carruagem destrambelhada, serão exigidos exames de DNA dos funcionários públicos e empregados privados para se saber se não têm doenças congênitas a serem manifestadas posteriormente. E, daí, para onde seguirão as exigências? Pela eugenia? Pela eutanásia? E depois dizem que o nazifascismo higienista é algo morto.
Último comentário. Amador Aguiar, fundador e dono do Bradesco, um dos homens mais ricos do país, enquanto vivo foi, criou em Osasco a sua Cidade de Deus, um misto de empresa e moradia de funcionários que, pelas liberdades ali admitidas, foi considerada por vários observadores como sujeita a regras muito mais duras do que as que se goza num quartel. E, detalhe: talvez, baseado no critério de “asseio e aparência geral”, Amador Aguiar nunca passaria pelo critério da desembargadora que defendeu seu banco: pois o banqueiro nunca usou meias, aqueles higiênicos dispositivos do vestuário entre o pé e o sapato que impedem a propagação do chulé...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2011].

Quinta-Feira Santa ou Quarta-Feira Santa?

Nesta semana, tão venerável aos católicos, uma notícia publicada pela agência internacional de notícias Reuters – e pavorosamente mal-traduzida por sites confiáveis em nosso país – causou um certo alarde em diversos meios. Trata-se daquela referente à hipótese de que a derradeira Ceia de Cristo, na qual Ele instituiu a Eucaristia, teria ocorrido numa quarta-feira, ao invés da tradicional Quinta-Feira Santa.
Tal é o que sustenta o professor Colin Humphreys, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um declarado cristão e físico aclamado (além de Cavaleiro do Império Britânico – um Sir, portanto – ) que estuda o assunto desde 1983. Segundo ele, que se dedica a resolver algumas das várias contradições da Bíblia, a discrepância em relação à data do acontecimento seria resultante do emprego de diferentes referências por parte dos Evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas dataram a última Ceia com base no calendário mosaico, lunar, e João, situou o acontecimento a partir do calendário oficial então em curso na Palestina (o texto não fala, mas, indagamos: por acaso não seria o Calendário Juliano?), o que permitiria tal variação para o estabelecimento do dia correto. E, de acordo com o mesmo Sir Colin, para reconstruir o calendário referente ao ano de 33 d.C, e para chegar às conclusões que chegou, teria o mesmo se valido da ajuda de um astrônomo e de seus cálculos precisos. Finalmente, comenta o referido professor:

“[...] Eu estava intrigado com as histórias bíblicas sobre a última semana de Jesus, nas quais ninguém consegue encontrar nenhuma menção de quarta-feira. É chamado de um dia perdido [...] Mas isso parecia ser tão improvável: afinal de contas Jesus era um homem muito ocupado.”

De fato, sempre me pareceu que a conta não fechava muito bem naqueles movimentadíssimos dias que vão do Domingo de Ramos até a Ressurreição. E, sobretudo, no que dizia respeito ao desenlace final. Situar a Ceia, o sono dos apóstolos, a traição de Judas, a prisão de Cristo, o processo movido contra Ele, os suplícios que Lhe foram impostos, Seu julgamento, a Via Crucis, a Crucificação, a Agonia no Calvário e a Sua Morte, além de todos aqueles outros eventos intermediários dos quais tanto se falou ao longo dos séculos, e tudo isto em menos de vinte e quatro horas, é um tanto inconcebível. A justiça romana tinha lá a sua práxis. E por mais que fosse aquele um caso de exceção, urgente, a burocracia, com seus eternos entraves, retardaria todo o episódio. Sem falar que tal vertiginosa, variada e terrível sucessão de acontecimentos não poderia ter se iniciado na madrugada de uma sexta-feira e ser concluída às seis horas da tarde do mesmo dia. E é de se espantar como os jesuítas, por exemplo, que meditaram tão profundamente, emotiva e vivamente, sobre o assunto, nunca pareceram ter pensado nisto... Pois, convenhamos, nunca tanto poderia ter acontecido em tão pouco tempo. Nem mesmo para um Deus, sobretudo, como no caso, um Deus sujeito às vagarosas e imperfeitas ações humanas.
A teoria de Sir Collins, portanto, em minha opinião, é bastante válida em muitos pontos. Só me intriga porque acolheu, para sua base de cálculo, o ano de 33 – tradicional, evidentemente, mas do ponto de vista histórico, cada vez mais questionado, da mesma maneira que o ano 1, como os limites da vida de Jesus. Não, não pretendo supor que Ele sobreviveu à cruz e foi pregar no Tibete, como querem alguns. Pelo contrário. Mas não é de hoje que se levantam convincentes dúvidas quanto ao ano de Seu Nascimento e de Sua Morte, um intervalo que poderia ser situado entre os anos de 7 e 2 a.C, e 30 e 36 d.C., pela cronologia romana, pela do cronista judeu Flávio Josefo (37-100 d.C), e em relação à vida de Herodes, o Grande (sic). De modo que, neste campo, parece que o sábio inglês parece ter seguido mais a tradição, oriunda da escolástica, e a convenção, relacionada à sua crença manifesta, do que o método científico, ou a investigação, o que é uma pena, e uma surpresa, de algum da Física...
Pois bem, como historiador, e pesando bem a situação, gostaria de dizer que a precisão quanto às datas são extremamente importantes, nalguns casos, e absolutamente irrelevantes, noutros. Desde que não se confunda uma década com outra, que não se situe uma conseqüência como anterior ao fato que a produziu, não se erra muito em história. Datas são, na maioria dos casos, balizas, para que não se perca a visão de conjunto. Ninguém pode dizer, por exemplo, que Cabral avistou o Monte Pascoal em 1499 ou 1501. Sabemos que tal se deu em 1500. Mas qual foi o dia exato? Segundo o Calendário Juliano, vigente à época do avistamento, era o dia 22 de abril. Mas quando passou a vigorar o Calendário Juliano, em 1582, pelo qual foram descontados 10 dias, a celebração de tal episódio deveria passar a ser comemorada em 2 de maio.
Em suma, o que eu queria dizer é que pouco deve importar, a todos que creem Nele, se Jesus, o Cristo, nasceu antes ou depois da data convencional do ano 1, ou se morreu antes ou depois do ano 33. Por mais que Sua presença histórica tenha de ser continuamente declarada – vide o Credo, com aquele Pilatos muito fragilmente citado na historiografia romana, mas largamente mencionado em diversos Apócrifos que, certamente, ajudaram a constituir o cânone, ainda que fossem mais tarde rejeitados – qualquer pessoa de bom senso há de concordar que a importância de Jesus, o Cristo, se dá por Sua Pessoa, ensinamentos, palavras, e não por uma suposta exatidão cronológica a ser encontrada nos Evangelhos, esta obra coletiva, coligida sabe-se lá por quantas mãos, traduzida sabemos muito bem como, e que tantas edições conheceu, ampliadas e reduzidas, não só quanto ao tamanho, mas quanto à essência, também.
Concluindo, reitero minha simpatia à nova cronologia da Semana-Santa proposta por Sir Colin Humphreys. Tal justifica e santifica a quarta-feira e permite compreender o desenrolar dos fatos posteriores numa sequência possível: permite mais tempo a todos aqueles terríveis acontecimentos que envolveram Jesus e seu martírio. Penso até em retornar a este assunto noutra ocasião. Mas, para que não digam que sou um desmancha-prazeres, um impenitente ou demasiado ácido, o que não sou, quero desejar, do fundo de meu coração, isento de maus humores eventuais, uma Feliz Páscoa a todos os colaboradores, funcionários e leitores d’A Notícia e seus familiares, e mesmo para aqueles que não têm a oportunidade de ler este bravo jornal (o quê é uma pena). Uma Feliz Páscoa, com menos ovos de chocolate e mais espírito ecumênico, fraterno, humano.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – VI – O Ódio emburrece

As pessoas, em geral, têm o hábito de considerarem as palavras equívoco, engano e erro como mais do que sinônimos, as consideram, praticamente, como termos de idêntico significado, o que, é claro, não são. Há toda uma gradação entre elas, para dizer o mínimo. Por exemplo, podemos dizer que uma mulher se equivoca ao escolher um mau sujeito como marido. Que ela se engana ao pensar que ele pode melhorar, e que ela erra ao continuar vivendo com ele. Ou melhor, pensemos em Cristóvão Colombo. Quando chegou ao Novo Mundo, ele equivocou-se ao julgá-lo ser a Índia. Mais tarde ele enganou-se ao considerá-lo pouco distante da Ásia, e errou, renitentemente, ao não considerá-lo um novo continente. Último corolário: metade do mundo se equivocou com a ascensão do nazifascismo nos anos 1920-1930, julgando-o uma alternativa aceitável à inepta democracia liberal (francesa, alemã e norte-americana), ao odioso imperialismo (britânico) e ao temível comunismo (russo). Metade daquela metade se enganou ao não perceber os horrendos ataques movidos por aqueles regimes contra a liberdade e contra os direitos humanos em geral. E uns tantos ainda erram ao julgarem tais formas de poder como viáveis e justas – sim, é de pasmar, mas há ainda quem pense assim.
Fazendo-nos valer do último exemplo, ele traz à memória o Integralismo, a nossa versão tapuia do Fascismo, encarnado na figura de Plínio Salgado (1895-1975), um bom escritor que se tornou um mau político. Todo mundo associa, prontamente, os galinhas verdes (como eram chacoteados, pelo uso das camisas daquela cor, e por seu comportamento de bando, cacarejando as verdades ditas pelo galo,) ao seu líder máximo, mas muita gente tida como boa foi integralista ou flertou com aquele movimento. Tais foram os casos, dentre outros, dos escritores Augusto Frederico Schmidt, Gerardo Mello Mourão, Ribeiro Couto, José Lins do Rego, Adonias Filho e Madeira de Freitas (o Mendes Fradique, autor da História do Brasil pelo método confuso), dos historiadores Hélio Viana e Américo Jacobina Lacombe, do jurista Miguel Reale (ideólogo máximo do Integralismo, além de conterrâneo de Plínio Salgado) e de quatro insuspeitáveis senhores: o político San Tiago Dantas, o mais tarde cardeal Dom Hélder Câmara e o poeta Vinícius de Morais. Desta claque fazem ainda parte o folclorista Câmara Cascudo e o escritor e historiador Gustavo Barroso.
Câmara Cascudo, como escritor e pesquisador, assemelhava-se a um caçador que encontra um coelho minúsculo, onde ninguém avistou nada, desentoca-o e o abate com um tiro de fuzil! Foi um caso raro de alguém que se equivocou, se enganou e errou politicamente até o fim da vida, apoiando, até seu último sopro como vivente, a Ditadura Militar de 1964. Mas Gustavo Barroso foi ainda mais além. Se não viveu para assistir ao golpe, morreu como um empedernido defensor das ditaduras (a última foi a de Salazar) e um declarado antissemita. Seu caso é muito mais de um erro, permanente e reiterado, do que de equívoco ou engano. Duvidam? Pois vejam. Dizem que o Diabo é o pai do erro. Prefiro a máxima que afirma que “errar é humano, perdoar [ou corrigir-se] é [dom] divino, e persistir no erro é diabólico”. Porque o ódio por uma etnia, cultura, religião é tão certamente um erro quanto igualmente diabólico. E, o que é quase tão grave quanto, o ódio emburrece. E o antissemitismo, ou antijudaísmo de Gustavo Barroso, certamente o emburreceu.
Li, recentemente, o primeiro volume de sua obra História Secreta do Brasil, no qual ele atribui todas as mazelas sofridas por nosso país, do descobrimento às vésperas da Independência, a uma conspiração judaica para a dominação do mundo e exploração dos povos. Os mesmos argumentos defendidos pela imbecil e criminosa falsificação literária (já largamente demonstrada enquanto tal) que são Os Protocolos dos Sábios do Sião (nem um pouco coincidentemente editados e publicados por Gustavo Barroso, em 1936, um pouco antes de livros de sua autoria com escancarados títulos tais como A Sinagoga Paulista (1937), A Maçonaria: Seita Judaica (1937) e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo (1937).
Pois bem, a burrice odiosa, ou o ódio burro de Gustavo Barroso, subverte o que de mais importante ele pretendia na sua História Secreta: o convencimento do leitor. Porque, de fato, ele, em grande parte, nos convence da presença judaica nas terras do Brasil muito antes mesmo que este recebesse o seu nome. Tal seria o caso, por exemplo, de João Ramalho, genro do cacique Tibiriçá (demonstrado, anteriormente, por Teodoro Sampaio, Orville Derby e Horácio de Carvalho, dentre outros, na Revista do IHGSP, v. VII, 1902, pp. 255-368 – meu exemplar da mesma edição pertenceu ao ex-governador/presidente estadual de São Paulo Bernardino de Campos, mineiro de Pouso Alegre). Barroso também afirma (baseado quase que exclusivamente em Solidônio Leite, que ele considera um defensor entusiástico dos judeus – e, no entanto, o cita...) que o capital empregado na exploração do pau-brasil e, posteriormente, na produção da cana-de-açúcar, bem como seu comércio e distribuição pela Europa, além do utilizado no tráfico de escravos era proveniente dos cristãos-novos (judeus batizados à força e que, não necessária ou suficientemente, abraçaram a fé cristã). Aos judeus também atribui, de um lado, os planos da invasão holandesa no Nordeste, e, por outro, a facilitação para tal fim promovida pelos cristãos-novos da mesma região, que atuavam como espiões. E mais ou menos conclui o primeiro volume, alegando que os judeus, controladores do comércio de diamantes no mundo – que, se não é um fato completo, é 99% dele) – desvalorizavam os brilhantes brasileiros, pagando por eles uma mixaria aos portugueses e faturando alto nos mercados europeus.
Não há como discordar de muitos dos argumentos apresentados por Barroso. Salvo que, em primeiro lugar, onde ele vê cobiça, podemos entender como pioneirismo. Onde enxerga exploração, talento empreendedor. Conspiração? Por que não uma eficiente organização comercial? Depois, tanto o tráfico negreiro, quanto a baixa avaliação das gemas e brilhantes, que não provindas das possessões orientais inglesas – como até hoje tal se verifica, no caso das pedras – se deram por responsabilidade absoluta dos ingleses (e, note-se, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, retornando somente por volta de 1656 – o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, portanto, foi construído estritamente na base de um estereótipo, não da observação factual do autor).
Por fim, o que mata a intenção – maléfica – de Gustavo Barroso são os seus recorrentes comentários à perfídia dos judeus, à sua covardia, usura, despotismos, crueldades, canalhices várias, seus complôs demoníacos, suas degenerações morais supostamente plasmadas em seus corpos e feições. Em suma, não dá para engolir. Quando estamos quase convencidos de sua tese, ele nos afronta com as generalizações mais grosseiras e vulgares, avessas figadalmente à ética científica e moral, à lógica, à História enquanto disciplina, enquanto registro dos fatos e gênero literário, em suma, a toda e qualquer retórica plausível. Seu ódio o emburreceu.
É lamentável o esquecimento a que foram relegadas as obras de Barroso relativas à colonização portuguesa na Ásia, ricas de informações e análises. Por outro lado, se um homem pode ser medido por sua obra, ele recebeu aquilo que merecia. Um tácito esquecimento. E que assim seja!


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 26 de março de 2011].

Pausa para reflexão


Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda de Kanagawa, c.1829-32.
Xilogravura colorida, 25.7 cm x 37.8 cm.. Museu Britânico, Londres.

Em crônica publicada em 5 de fevereiro passado, abrindo a série Viagem sentimental à roda de meus livros, prometi “contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições [...] Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis”.
Pois é, bem que tentei contornar a crise política do Norte da África e de parte da Península Arábica. Visto que ouvi da própria boca do insigne historiador francês Roger Chartier, já lá se vão quase cinco anos, que o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro, ando declinando dos exercícios de futurologia, pelo menos em público. E preferi esperar. Caiu Mubarak, do Egito, e um outro desconhecido na Tunísia? Bom, agora é só aguardar a queda de Kadafi, pensei comigo. Mas ele permanece no posto, não sei se de joelhos, mas está lá.
A primeira reflexão neste campo é bem prosaica. O ex-presidente do Egito, que governou por trinta anos aquele país graças a eleições fraudulentas, nunca havia sido chamado de Ditador (o que, de fato era), não digo pela imprensa mundial, mas, certamente, pela nacional. Era sempre o “Presidente Mubarak aqui”, “o Presidente Mubarak ali”, e pronto. Somente quando os protestos eram irreversíveis, assim como suas conseqüências, é que passaram a chamar o homem de ditador. Vícios da nossa Grande Imprensa, que é mais realista que o rei (ou melhor, mais americanizada que a norte-americana). A sua falta de independência, em muitos casos, ou mera bajulação, na maioria deles, talvez enxergasse no defuncto presidente o último dos Abencerrajes, o derradeiro paladino muçulmano, ilustrado, contra as hordas fundamentalistas. E fazia-lhe vistas grossas.
A segunda tem a ver com o plenipotenciário da Líbia, que até anteontem era Muammar Kadafi (ou Khadafi), e agora passa a ser anunciado pela Grande Imprensa como Gaddafi. Imagino que enquanto vivia ele na periferia do Mediterrâneo, sem motivar praticamente qualquer notícia que não uns descalabrozinhos de ordem interna, por lá, ou umas truices berradas no campo da política externa, acolá, ninguém se preocupou como deveria der grafado seu nome. Reproduzia-se, automaticamente, a manchete de alguma agência de notícias, principalmente norte-americana, e pronto. Mas, agora, não mais. Acho que os editores, ou chefes de redação andam cobrando mais serviço dos seus meninos. Fico até imaginando a cena: um redator sênior grita para a patuléia de plantão: “Ô Fulano, liga para o consulado da Líbia e vê como é que se escreve o nome do presidente deles!”, e corre o rapaz a cumprir a ordem. Dada a situação geral, volta o jovem e diz ao chefe: “Ninguém atende!”, e o intrépido jornalista veterano estertora: “Veja então como está escrito no New York Times!”; mas, responde o aprendiz: “Eles escrevem Qaddafi”. Então, num arroubo de justiça salomônica, proclama o sumo-chefe: “Nem Kadafi nem Qaddafi: ponha aí Gaddafi e não se fala mais nisso!” – e, assim, vai sendo feito o jornalismo pátrio...
A terceira reflexão é quase fútil, beirando o banal. Mas tem uma certa razão de ser. Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano,passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo.
A quarta reflexão é ainda mais inútil: o resultado do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em que Roberto Carlos, mais uma vez, saiu triunfante, do que ninguém tinha dúvidas. Desfilasse a escola toda só coberta por uma folha de parreira, com a bateria desfalcada, passistas mancos e só um carro alegórico – o que traria “o Rei” – e ganharia do mesmo jeito. O tema era superior a qualquer quesito mensurável pelos juízes, que o digam os patrocinadores e transmissores da celebração...
Voltando aos temas sérios, quero concluir com o desastre ocorrido no Japão. Desastre, vígula, verdadeira catástrofe. Lamento, condoído, as vítimas do terremoto, da onda gigante que veio em seguida, e dos incêncios, de proporções lisboetas. Mas, com todo respeito, eles estão acostumados com isto. Terremoto no Japão é como eleição fraudada na África, sêca no Nordeste e chuva no Sul: todo ano tem. Tsunami, menos, mas há que se recordar que a obra de arte mais conhecida daquele país, e que ilustra esta crônica, retrata justamente, uma onda gigante, dentre as várias que o acometeram.
E, neste caso, os pontos de reflexão seriam pelo menos três. Vamos ao primeiro: se os pagodes, castelos, e sítios arqueológicos seculares não vieram abaixo, mas os prédios modernos, sim, não seria de se especular que estes últimos foram construídos seguindo o código de ética haitiano, ou bem parecido? Segundo: se o solo de lá é notória e milenarmente conhecido como sujeito a terremotos, como é que o Japão teve a coragem de instalar usinas nucleares em seu território? Economia? Ou, seguiu o padrão haitiano de qualidade e responsabilidade? Terceiro e último ponto: a Terra do Sol Nascente é uma das nações mais ricas do nosso planeta. Rica e perdulária. Como é que ela não tem alimentos de reserva para o seu povo, ou serviços de apoio que funcionem a contento, ou cidadãos dispostos a ajudarem seus irmãos? Querem, agora, que o mundo inteiro se condoa de suas imprevisões e políticas equivocadas?!
Respeito e admiro a cultura (artística) japonesa, mas o comportamento de seus praticantes frente à catástrofe tem deixado em muito a desejar. Que os ricos de lá (Aiwa, Honda, Kumon, Toyota, Sony, Fuji, Mitsubishi, Pentax, Pentel, dentre tantos outros), cuidem de seus desvalidos. Nós temos é de tratar dos nossos, como os de Alagoas, sem casas há mais de dois anos. Ou, mais recentemente, dos paranaenses do litoral.
Reconheço e louvo, entusiasticamente, o esforço de muitos brasileiros, de lá, que têm confortado e socorrido as vítimas de tal efeméride, dada a aparente inépcia ou falta de comoção dos naturais daquele país. Mas, convenhamos: organizarmos levas de doações para uma das nações mais ricos da Terra? Soa à piada de mau-gosto. Pois que eles se reorganizem, e aos seus modelos de gestão, e aprendam com tal calamidade. Temos ainda muita gente de quem cuidar, em nossas esquinas, grotões, etc.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 20 de março de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – II



O estudo da história conduz muitas vezes a áreas bastante curiosas. Uma destas é a que trata da crença em valores, práticas, tradições, as quais a ciência, em seu curso, acaba pondo por terra – em mais uma prova de que as próprias ciências são históricas...
Um caso exemplar é o da fisiognomonia, ou fisiognomônica, que seria a arte, ou ciência, de conhecer o caráter de uma pessoa a partir de seu rosto, de seus traços faciais. Em linhas gerais, muita gente acredita nela até hoje. Basta pensar na pronta associação que a maioria das pessoas faz entre à visão de alguém de testa alta, atribuindo-lhe uma grande inteligência. Ou uma tendência aos instintos baixo frente a olhos miúdos, à semelhança dos porcos. E alguns tipos excêntricos chegam a afirmar que, enquanto prática científica, tais constatações ainda são válidas. Poucas mentes de juízo, entretanto, levam-nos a sério.
Desacreditada hoje, esta interpretação do caráter pelas feições de seu dono, sobretudo associando-se eventuais semelhanças entre homens e determinados animais, notórios por tal ou qual comportamento, vem de longo tempo. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) acreditava nela (como pode ser visto na História dos Animais – 491b8-9;492a10 – e em Analíticos anteriores – 2.27), e um tratado (Physiognomonica) versando sobre o tema foi durante muito tempo atribuído a ele. Os romanos lhe deram crédito e a Idade Média os seguiu. Mas seu amplo florescer se deu a partir do Renascimento, graças a Giambattista della Porta (1535–1615) e suas comparações entre humanos e animais (como no caso da primeira ilustração, em que a crueldade da águia, expressa em seu bico voraz, seria também visível na face do imperador romano Sérvio Galba, graças ao seu nariz adunco). E muitos outros os seguiram ao longo dos séculos. O pintor Charles Le Brun (1619-1690), deixou alguns impressionantes desenhos e uma conferência apresentada na Academia Real de Pintura e Escultura tratando do assunto.




Já no século XVIII e princípios do XIX, graças ao espírito do tempo, tais teorias foram proclamadas ciências graças a obra de três homens: Johann Kaspar Lavater (1741-1801), Franz Joseph Gall (1758-1828) e Johann Kaspar Spurzheim (1776-1832). O primeiro, em sua L’Art de connaître les hommes par la physionomie (escrita entre os anos de 1775-1778, mas somente publicada integralmente em 1820), fez um apanhado das idéias já conhecidas e sofisticou-as à luz de suas próprias observações. Mas os dois seguintes criaram a Frenologia, uma ciência capaz de conhecer o caráter dos homens (e seu grau de criminalidade) pelo formato da cabeça, analisando caroços ou protuberâncias localizados em determinadas partes do crânio (veja-se o mapeamento das áreas na ilustração acima).
A popularidade de tal teoria foi imensa, no tempo e no espaço. O mundo letrado inteiro a conheceu e por todo globo cientistas passaram a medir crânios dos mais diversos indivíduos, da Patagônia à China, do Congo ao Alasca. Algumas vozes, entretanto, já naquela época, levantaram-se contra tais idéias – curiosamente um dos primeiros críticos foi o Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), que, segundo a Duquesa de Abrantes, Laure Junot, considerava o sistema de Gall “uma loucura”, “destruidora de toda a ordem e de toda lei” (Memoirs of Napoleon, his court and his family. Londres, 1836, vol.2, p. 256).
Uma prova de sua influência no mundo moderno, é que as próprias teorias de Cesare Lombroso (1835-1909), o “pai da criminologia”, derivam da Frenologia. E esta, sobretudo em certos países, vicejou por muito tempo.
Como estudo este tipo de interpretações, dentre outros temas, adquiri recentemente um livro, A System of phrenology (c.1820), de George Combe (1788-1858), um advogado escocês que acreditava piamente nas idéias de Gall e Spurzhein. E chama a atenção que a edição de que disponho tenha sido publicada em Nova Iorque ainda em 1886, época em que médicos como Jean-Martin Charcot (1825-1893) já revolucionavam o estudo dos comportamentos (criminosos, inclusive) e das doenças mentais em termos muito mais científicos: menos em termos de predestinações anatômicas e mais em estudos caso a caso de disposições particulares e dos efeitos do meio. E é realmente curiosíssimo o sucesso que a Frenologia conheceu nos Estados Unidos da América, e do qual parece ainda desfrutar. Creio que tal se deva à forte origem calvinista das mentalidades locais: é mais fácil atribuir o desvio a uma predestinação, a uma marca divina distintiva, do que como resultado da pressão de homens bons tementes a Deus sobre um pobre coitado... Porém, curiosamente, Gall era católico, e provavelmente Spurzheim também. Mas Lavater foi pastor na Suíça e Combe, natural de Edimburgo, com quase toda certeza era calvinista.
Uma nota divertida do livro de Combe, na edição que adquiri, ficou por conta de um de seus antigos donos. Na última folha do volume, em caligrafia bastante clara, encontra-se a seguinte anotação:

property of that
good for nada.
MR Livingston
August 6 1887.

Não imagino quem seja este MR Livingston, que não encontrou propriedade alguma na obra, considerando-a “boa para nada”, mesclando o inglês ao português em seu comentário. O que vale, além da impressão do referido senhor, é a data em que foi registrada. É mais uma prova de que os espíritos críticos existem, nadando contra a corrente das modas e loucuras de seu tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de fevereiro de 2011].

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Repúdio aos homens de um livro só

O Antigo Testamento refere-se a alguns causos curiosíssimos. Não falo dos sete dias da Criação, de Adão ser feito de barro e Eva de sua costela, porque, afinal, um Deus supremo é capaz de tudo. A curiosidade começa a partir de Gn 4:14, quando lemos o que Caim diz ao Criador temer que o primeiro que o encontre acabe por matá-lo. Como assim? Havia mais gente no mundo, que não os filhos do casal primordial? E foram criadas pelo mesmo Deus? Ou por outro? Interessantíssimo...E a confusão só aumenta quando vemos que, logo em seguida, nos versículos 17-19, “Caim conheceu sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Enoque. E construiu uma cidade, à qual pôs o nome de seu filho Enoque. /Enoque gerou Irade, Irade gerou Maviael; Maviael gerou Matusael, Matusael gerou Lameque./ Lameque tomou duas mulheres, uma chamada Ada e outra Sela”. E tudo se agrava ainda mais quando sabemos, no mesmo capítulo, versículo 26, da descendência do caçula da família adâmica: “Sete teve também um filho, que chamou Enos”. Filho, não filha, logo a mulher de Caim não poderia sequer ser sua sobrinha. E o que dizer da mulher de Sete? E com quem casaram-se Enoque, Irade, Maviael e Matusael? E filhas de quem eram Ada e Sela? Mistério... Quem baseia-se no princípio da Sola Scriptura deve se sentir num mato sem cachorro. Daí a importância da tradição, andando lado a lado com a Bíblia, ao menos no que diz respeito a dirimir certas dúvidas, se não de natureza místicas, ao menos, vá lá, históricas. Pois, segundo Genebrardo (Chronographiae libri quatuor...,1580, l.1), Caim teria uma irmã gêmea, Calmaná, e Abel, outra, de nome Delbora, de acordo com a tradição rabínica, conforme Frei Bernardo de Brito em sua Monarchia Lusitana, 1597, l.1. Mas boa parte das perguntas feitas acima ainda não foram esclarecidas.
A coleção de causos é incomparável. Como aquela infinidade de personagens gerando filhos aos noventa nos de idade e morrendo com mais de trezentos. Ou a arca prodigiosa que abrigou sabe-se lá quantos milhões de indivíduos em 64.745 m3, ou aproximadamente 26 piscinas olímpicas. E lá estavam, protegidos do dilúvio, e alimentados por oito pessoas, incontáveis indivíduos, macho e fêmea de cada espécie, do tamanduá ao ornitorrinco. Como estes últimos desceram do monte Ararat, na atual Turquia, e vieram parar, um na América do Sul, outro na Austrália, infelizmente a Bíblia não revela. Nem o que ocorreu com os peixes de água salgada ou de água doce, já que todas, em princípio, se misturaram.
A série não tem fim. Basta pensarmos em Sansão dizimando um exército inteiro, Elias levado aos céus num carro de fogo, Josué parando o sol nas alturas, e na burra falante de Balaão.
Todavia o que parecia ser um tremendo causo dos bons, parece que de fato foi verdade. Este seria o caso da travessia dos hebreus através do Mar Vermelho, liderados por Moisés. A passagem é a seguinte: “Moisés estendeu a mão sobre o mar. O Senhor fê-lo recuar com um vento impetuoso vindo do oriente, que soprou toda a noite. E pôs o mar a seco. As águas dividiram-se/ e os israelitas desceram a pé enxuto no meio do mar, enquanto as águas formavam uma muralha à direita e à esquerda” (Ex 14: 21-22).Pois segundo dois pesquisadores norte-americanos, de acordo com simulações por computador, um vento cuja velocidade fosse próxima a 100 km/h, soprando sobre a desembocadura do rio Nilo durante 12 horas, seria capaz de fazer regredir as águas e abrir uma passagem com alguns quilômetros de largura. Quer dizer, não teria sido o Mar Vermelho a ser aberto, mas sim o chamado “mar de Caniços”, uma área pantanosa onde o Nilo encontra o mar Mediterrâneo. Um evento que, documentadamente, teria ocorrido também em 1882, na região, segundo o depoimento de oficiais britânicos ali sediados. Mas não consta que, nesta época mais recente, nenhum “povo escolhido” estivesse fugindo do cativeiro egípcio.
Pois bem, ainda que causas climáticas, que podem ter se repetido várias vezes, mesmo que sem registro, no exato local, possam ter sido as que permitiram a travessia de Moisés, tais, ao contrário do que muitos possam pensar, em nada depõem quanto à veracidade do relato tradicional. Santo Agostinho muito bem esclareceu, em várias ocasiões, que Deus pode ter se utilizado de meios naturais diversos para o cumprimento de Sua vontade. Soa meio como um Deus ex machina mas é melhor que uma ação divina ex nihilo: um milagre hollywoodiano em cinemascope, como a maioria das pessoas parecem enxergar a maneira como o Criador costumaria agir.
Mas resta um problema sério quanto ao episódio – diga-se, antes de tudo o que se segue, que os pesquisadores não alegaram, em momento algum, terem provado a veracidade do relato tal como consta do Êxodo. E tal se daria, segundo diversos historiadores e arqueólogos, por diversos fatores. O primeiro decorre do fato de que não há uma menção sequer à fuga dos hebreus nos registros egípcios. Tudo bem, pode-se dizer que os dominadores não quiseram deixar rastros de tal acachapante derrota. Mas, em segundo lugar, jamais se encontrou qualquer artefato relacionado à errância de quarenta anos do povo de Moisés pelo Deserto – um tempo, aliás, que deve ter se baseado na mesma cronologia insólita que fazia as pessoas morrerem com trezentos anos de idade, pois quatro décadas, perdidos, é demais, só se andassem em círculo, o que logo perceberiam: e se assim não o fosse, ou teriam chegado à Europa ou à Índia, senão à China. E, em terceiro lugar, tanto a língua, quanto os objetos pertencentes aos povos que formariam mais tarde o reino de Israel, são quase idênticos àqueles dos povos que já habitavam a antiga terra de Canaã. Ou seja, não haveria êxodo algum: se tanto, uma migração.
No fundo, quer a travessia das águas tenha se dado em razão de uma causa natural, ou pela vontade de Deus, ou por esta agindo sobre aquela, ou ainda que todas elas jamais tenham ocorrido, isto é o que menos importa, ou menos deveria importar, para quem toma as Escrituras como um guia espiritual. E nem digo moral, porque a conduta de alguns patriarcas e profetas do Antigo Testamento é de eriçar os cabelos, de tão cabeludas que foram. Sem falar do comportamento do velho Javé veterotestamentário, cuja cólera faz mais lembrar um impaciente Júpiter, do que a justíssima primeira pessoa da Trindade. Disse que tais questões acima expostas não importam, porque o Antigo Testamento não pode, nem deve, ser tomado como o único e absoluto vade mecum da Cristandade, nem, muito menos, enciclopédia da vida na Terra, da qual retiramos placidamente nossos conceitos quanto às ciências biológicas, quanto à física, à história, economia, tributação, política, etc.
É um livro de um “reino que não é deste mundo”. E tão só. O que, de maneira nenhuma, diminui sua importância e valor, pelo contrário. Pois seu objetivo é completamente outro, e que, no entanto, só é conhecido individualmente, quando o é, e caso, de fato, o possa vir a ser. Mas, reiteramos, ele nunca será o único livro. E é bom desconfiar de quem afirma isto e diz-se pautar apenas por ele. Pois como bem dizia São Tomás de Aquino, odie hommo liber unicum: “repudio o homem de um livro só”. O que certas pessoas fazem a partir do Corão, aliás, é um ótimo exemplo disto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de setembro de 2010].

Coronéis de meia pataca e o novo curralismo eleitoral

O eleitor de bom senso geralmente torce o nariz quando sente o cheiro de um candidato tresandando a curral eleitoral. É por este motivo, de um modo geral, que poucos coronéis são eleitos por um estado como São Paulo, por exemplo. O que não quer dizer que estejamos livres deles.
Alguns analistas políticos e historiadores, entretanto, vêm analisando a reformulação do coronelismo eleitoreiro nos últimos anos e têm chegado a interessantes constatações. A velha figura do senhor de terras, de terno branco e botas, já desapareceu da agenda política. Mas muitos de seus herdeiros – alguns de sangue, outros de ideário político – ainda estão aí, tratando a política na base de favores pessoais: o seu voto por uma “quebrada de galho” minha, parecem dizer. Neste rol entrariam os candidatos médicos – esta proliferação de Doutores Fulanos e Doutores Beltranos que vemos por aí, com direito ao Dr. antes do nome até no santinho e na, verbi gratia, cédula eleitoral: no nome de guerra, que aparece na urna eletrônica. Outros seriam os donos de rádios, que, por um dia terem cobrado das autoridades a pavimentação da rua dos Lírios na Vila Oncinha, ou mais iluminação na avenida dos Cravos, no Jardim Jabuti, até hoje contam com os votos daquelas comunidades. Mas é claro que há os grandalhões da turma, os proprietários de retransmissoras de televisão, que coíbem toda a crítica, sufocam a oposição, e repetem, em escala maior a defesa da Vila Oncinha e do Jabuti, a meia dúzia de municípios ou microrregiões. Um exemplo perfeito que abarca todos estes níveis de coronelismo moderno é o do defunto Antônio Carlos Magalhães (ex-Demo, porque morto: se vivo fosse, continuaria naquela agremiação). Outro que mistura o assistencialismo à política paroquial, e é herdeiro de sangue de uma das mais antigas oligarquias do país, é o deputado Bonifácio de Andrada, de Minas Gerais, do PSDB. Outro ainda, segundo o historiador cearense André Heráclio do Rego (Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº. 60, setembro de 2010), seria o seu conterrâneo, o senador Tasso Jereissati, também do PSDB. Coronelzinho agrário, do tipo dos velhos tempos, seriam poucos hoje em dia, e o mais evidente – que também é médico – é Ronaldo Caiado, outro Demo.
Porém as análises mais modernas consideram um coronel de uma forma mais ampla. De modo que os eternos detentores de cargos eletivos, gente que está no seu quarto ou quinto mandato, no mesmo posto, entraria para a lista dos mandões da política, dos mantenedores de currais. São eles os eternos defensores da microrregião tal, da cidade qual, desta ou daquela categoria de profissionais, empresários, funcionários públicos, militares, etc. Coroneizinhos de fancaria. Porque uma andorinha não faz verão. Que o digam todos os eleitores iludidos que votam nos “defensores” dos aposentados, do funcionalismo civil e militar, e por aí vai, mantendo eternamente certos nomes em trocas de migalhas, quando não em troca de coisa alguma, porque suas situações só deterioraram ao longo do tempo. Ex-delegados da Polícia Civil e ex-oficiais da Polícia Militar são verdadeiros modelos da inoperância frente às suas representações: que o digam os seus “representados”. É verdade que a turma do agro negócio (leia-se: “latifúndio monopolista”) consegue emplacar seus defensores, e estes são muito ativos em agradar seus amos. Mas fazem alguma coisa pelo grosso dos eleitores? Nada!
Aprendi com meu pai – homem honradíssimo, filho de um deputado federal mineiro e constituinte de 1934, e este também um homem de olímpica honradez – que acima dos interesses do curral e da paróquia está o bem publico universal. De modo que não se vota no Dr. Manuel dos Anzóis porque ele trará um quartel para Esperantópolis, em detrimento da Dra. Maria das Couves, que levaria o dito quartel para a vizinha Bonitolândia. Antes, é de se perguntar: necessitam, quaisquer uma delas, do tal quartel? E se, de fato, precisam, não está de bom tamanho que o mesmo venha para a microrregião onde elas se encontram?
Esta história de querer eleger um candidato desta ou daquela região, deste ou daquele segmento, é coisa ultrapassada e atenta contra a amplitude dos direitos de cada cidadão. E é de estarrecer verificar que o curralismo eleitoral parece que só aumenta. Vejam-se os candidatos de torcidas organizadas de times de futebol. O que era para ser uma pura diversão, ou entretenimento, se converteu numa espécie de ideologia, de razão ética, de modo de vida, para além da sociedade como um todo. Deplorável. Ou a proliferação de pastores candidatos, alguns ameaçando com o fogo do Inferno quem neles não votar, outros proclamando que o voto neles seria a própria manifestação do Espírito Santo! Ora, o Estado é laico e plural: não pode, nem deve, ser aparelhado por esta ou aquela religião ou doutrina. Pois tal não passaria de um golpe branco contra a impessoalidade do Estado e contra os direitos dos católicos, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, evangélicos tradicionais, umbandistas, maçons, rosacruzes, e o que mais se quiser – inclusive ateus – que têm todo o direito de se proclamarem enquanto tal e contam com a salvaguarda da lei para tanto: graças a Deus! Ou será que pretendem, no fundo, uma guerra religiosa: não mais as Cruzadas, mas a antecipação do Armagedom?
Aliás, é realmente preocupante quando vemos certas pessoas que pertencem a seitas apocalípticas ou flagrantemente fanáticas – “a Verdade está comigo e com meus irmãos, e que o resto arda no fogo do Inferno” – tentando formar blocos no Legislativo. A sociedade laica e ordeira não precisa de talebãs neopentecostais. A visão do Paraíso alheio não tem que ser, necessariamente, a minha. Nem, muito menos, o mundo tem de ser moldado – este mundo com o qual convivemos dia a dia – pelo filtro estreito de caçadores de danados. Devemos aceitar o direito dos outros dizerem o que bem entendem. Se é que entendem: mas desde que os mesmos não queiram cassar nossa palavra.
Trato deste assunto enquanto cidadão de uma República laica, e também membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), por meio da qual conheço e me relaciono com inúmeras pessoas das mais variadas vocações religiosas – neopentecostais, inclusive, ainda que poucos – que temem, de forma absoluta, a tomada do Estado pelo fanatismo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de setembro de 2010].

domingo, 29 de agosto de 2010

Vinhos raros salvados de adegas velhas

Durante uma campanha eleitoral, com a magnitude desta que ocorre, é muito difícil tratar de outro tema que não este: quem pode ganhar, quem pode perder, e seus satélites erráticos gravitando ao redor dos astros, são temas que não nos saem da cabeça.
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:

Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.

Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:

Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.

E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].

Heróis lendários e farsantes de ocasião

Quando alguém quer ridicularizar a organização dos esportes no Brasil, costuma contar um causo de um nadador brasileiro sem braço que teria participado da Olimpíada de 1920, em Antuérpia. Trata-se de um exagero, é verdade, mas parece aquele tipo de piada pronta, e irresistível, diante da qual ninguém verifica os fatos. Aceita-se, porque o chiste é ótimo, mesmo que inexato.
Mas, na verdade, não era bem assim. O atleta que hoje se tornou alvo involuntário e imerecido de galhofas foi, no passado, um dos maiores nomes da natação brasileira. Chamava-se Abraão Saliture, foi o primeiro campeão brasileiro dos 1.500 m, nado livre, no mar, em 1898, e venceu diversos campeonatos, vários deles internacionais, entre os anos de 1901 a 1906 e 1909 a 1920, o ano da Olimpíada. A qual, aliás, não seria a sua última: participou ainda da Olimpíada de Los Angeles, de 1932, com 49 anos de idade. Quanto ao seu problema físico, ele era, na verdade, um defeito no braço, adquirido na infância, resultado de uma doença não diagnosticada então. O que não o impediu de competir, naqueles jogos de 1920, para além da natação, e também no remo e no pólo aquático. Infelizmente, pouco mais se conhece deste intrépido herói: não encontramos registros de seu nascimento (presumivelmente 1883), origem, vida após os Jogos Olímpicos, ou de sua morte. Seus dados pessoais que chegaram até nós em pouco diferem do que sabemos dos antigos atletas gregos: um nome, uma participação olímpica, e pouco mais.
O leitor, ao cabo das linhas acima, deve ter ficado absurdado com a longevidade profissional, atlética, do bravo Abraão Saliture. “Competindo, ainda, aos 49 anos? E com um defeito no braço?”, deve ter pensado. Pois é. E, ao que tudo indica, cumpriu muito bem o que se esperava dele. Assim como o remador Amir Klink, com um defeito na mão, e 29 anos nas costas (em termos esportivos já não poderia ser considerado um jovem) cruzou sozinho o Atlântico, sem contar outras façanhas que fez depois. Sem falarmos nos intrépidos atletas paraolímpicos brasileiros, muitos deles já meio passados da idade, em comparação aos seus êmulos ditos normais, e que triunfam sobre suas desvantagens de forma briosa, quase mágica, e trazem muito mais medalhas das competições que a média dos ditos perfeitos.
Mais uma questão a ser colocada. O primeiro ouro olímpico brasileiro, a primeira prata e o primeiro bronze, couberam, respectivamente, a Guilherme Paraense, Afrânio da Costa e à equipe brasileira de tiro, à qual os dois primeiros pertenciam. Um pormenor curioso da trajetória deles pode ser verificado nos percalços que sofreram até chegarem a Antuérpia. Viajando às suas próprias expensas, tiveram de desembarcar, do navio que os levaria até a Bélgica, ainda em Lisboa, informados que foram de que o mesmo não chegaria a tempo para as provas. Seguindo de trem, tiveram parte das armas e da munição roubadas. Chegando a Antuérpia, com fome e quase sem o material esportivo – suas ferramentas de trabalho – foram salvos pela equipe norte-americana, que, deles condoída, emprestou-lhes armas e munições que os brasileiros não conheciam. E, ainda assim, nosso representantes triunfaram.
Pois bem, todos estes fatos vêm à mente quando pensamos no pífio resultado nesta Copa de nossa Seleção Canarinha (ou Canalhinha, como querem alguns), também conhecida como Legião Estrangeira (como querem outros, pelo fato da maioria dos jogadores atuar noutros países que não o nosso). Um grupo nababescamente pago, regiamente hospedado, divinamente incensado por público, imprensa e marketing, e que nada mostrou, nada fez. Ou melhor, fez e mostrou (para além de um gol de braço, ocorrido antes), apenas no primeiro tempo do jogo em que acabaria por ser desclassificado, e de virada.
Os motivos para a derrota apresentados – não pelos jogadores, estes deuses de chuteiras Nike incapazes de uma séria autocrítica: deuses, afinal, não se contradizem – mais uma vez repousam, alegadamente, nos problemas físicos de um único jogador. O que, à primeira vista, pode parecer perseguição a ele, o que, todavia, não é. Se o dito ataque brasileiro tinha como base três jogadores, e um deles não estava em plena condição de jogo – já de saída, dizem, graças a problemas nas partes pudendas – nada, evidentemente, poderia dar certo. Pensemos num banco de três pés. Afrouxemos um. No que resulta? Tombo na certa. E o que mais irrita é que noutras copas, com outros envolvidos, também ocorreu o mesmo: escalaram-se elementos sem fôlego, ou avariados, ou um pouco passados da idade, e sobre tais ruínas resolveram erigir fortalezas. Naquela ocasião, como agora, deu-se o que era de se esperar.
Entretanto, busquemos informações sobre estas nulidades efêmeras, cometas radiantes e passageiros, astros em ocaso: encontraremos legiões de fãs, páginas e mais páginas de amenidades tratadas como registro histórico, discursos laudatórios, e apaixonados, defendendo seus gostos pessoais, desejos, vontades. Sua fama, transitória na essência, parece imorredoura, na aparência que alguns a ela querem dar. Mas serão, no futuro, evidentemente, palavras ao vento.
Os velhos Abraão Saliture e Guilherme Paraense têm, de fato, o estofo e a fama dos atletas gregos: legendária, heróica e concisa. Os novos – o nome deles será irrelevante daqui a alguns anos – gozam, por enquanto, da mesma parcela da Fama que, no Passado, usufruíram os semi-aleijados, e mercenários, gladiadores romanos: um certo grau de onipresença na atenção popular, inscrita em paredes e objetos de adorno de gosto discutível. E o completo esquecimento por parte das gerações vindouras.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].